





O CDIGO DA VINCI
Dan Brown





      A Bertrand edita O Cdigo Da Vinci, um impressionante xito mundial em que Dan Brown se revela um gnio criativo no s a nvel do suspense mas tambm da prpria complexidade do enredo. O Cdigo Da Vinci  uma obra simultaneamente vertiginosa, inteligente e intricadamente recheada de elementos cientficos e de pormenores inesperados. Das primeiras pginas  imprevisvel e surpreendente concluso, Dan Brown, autor de outros best-sellers, prova ser um exmio contador de histrias.
      Harvard Robert Langdon, conceituado simbologista, est em Paris para fazer uma palestra quando recebe uma notcia inesperada: o velho curador do Louvre foi encontrado morto no museu, e um cdigo indecifrvel encontrado junto do cadver. Na tentativa de decifrar o estranho cdigo, Langdon e uma dotada criptologista francesa, Sophie Neveu, descobrem, estupefatos, uma srie de pistas inscritas nas obras de Leonardo Da Vinci, que o pintor engenhosamente disfarou.
      Tudo se complica quando Langdon descobre uma surpreendente ligao: o falecido curador estava envolvido com o Priorado de Sio, uma sociedade secreta a que tinham pertencido Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Da Vinci, entre outros.
      
      O CDIGO DA VINCI
      2.a Edio
      Traduo de MRIO DIAS CORREIA
      BERTRAND EDITORA Chiado 2004
      Ttulo Original: THE DA VINCI CODE (c) 2003 Dan Brown
      
      
      Para Blythe... outra vez. Mais do que nunca
      
      AGRADECIMENTOS
      
      Antes de mais e sobretudo, ao meu amigo e editor Jason Kaufman, por ter trabalhado tanto neste projeto e por ter verdadeiramente compreendido o significado deste livro. E  incomparvel Heide Lange - campe infatigvel de O Cdigo Da Vinci, agente extraordinria e amiga indefectvel.
      Nunca poderei exprimir plenamente a minha gratido para com a excepcional equipe da Doubleday, pela sua generosidade, f e soberba orientao. Agradeo em especial a Bill Thomas e Steve Rubin, que acreditaram neste livro desde o incio. E o meu reconhecimento vai tambm para o ncleo duro inicial de apoiantes internos, encabeado por Michael Palgon, Suzanne Herz, Janelle Moburg, Jackie Everly e Adrienne Sparks, para os talentosos membros da fora de vendas da Doubleday e para Michael Windsor, pela fabulosa sobrecapa.
      Pela generosa ajuda que me deram na investigao deste livro, estou em dvida para com Museu do Louvre, o Ministrio da Cultura Francs, o Projeto Gutenberg, a Bibliothque National, a Biblioteca da Sociedade Gnstica, o Departamento de Estudos de Pintura e o Servio de Documentao do Louvre, a Catholic World News, o Royal Observatory Greenwich, a London Record Society, a Muniment Collection da Abadia de Westminster, John Pike e a Federation of American Scientists, e os cinco membros da Opus Dei (trs ativos, dois afastados) que me contaram as suas histrias, positivas e negativas, sobre as respectivas experincias no seio da congregao.
      Estou igualmente grato  Water Street Bookstore por ter desencantado tantos dos livros que usei na minha pesquisa, ao meu pai, Richard Brown - professor de Matemtica e autor -, pela ajuda que me deu com a Proporo Divina e a Sequncia Fibonacci, a Stan Planton, Sylvie Baudeloque, Peter McGuigan, Francis Mclnerney, Margie Watchel, Andr Vernet, Ken Kelleher da Anchorball Web Media, Cara Sottak, Karyn Popham, Esther Sung, Mriam Abramowitz, William Tunstall-Pedoe e Griffin Wooden Brown. 
      E finalmente, em um romance to intimamente ligado ao sagrado feminino, seria imperdovel no referir as duas mulheres extraordinrias que tocaram a minha vida. A minha me, Connie Brown colega de escrita, educadora, msica e figura modelar -, e a minha mulher, Blythe - historiadora de arte, pintora, editora de primeira linha e, sem a mnima dvida, a mulher mais espantosamente talentosa que alguma vez conheci.
      
      
      FATO: O Priorado de Sio.
      
      Sociedade secreta europia fundada em 1099,  uma organizao real. Em 1975, a Bibliothque National de Paris descobriu um conjunto de pergaminhos, conhecidos como Les Dossiers Secrets, que identificam numerosos membros do Priorado de Sio, incluindo Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci.
      A prelatura do Vaticano conhecida como Opus Dei  uma seita catlica profundamente devota que tem sido objeto de controvrsias recentes devido a acusaes de lavagem cerebral, coero e prticas perigosas conhecidas como "mortificao corporal". A Opus Dei acaba de construir em Nova Iorque, no n 243 da Lexington Avenue, uma Sede Nacional que custou 47 milhes de dlares.
      Todas as descries de obras de arte, edifcios, documentos e rituais secretos que aparecem neste romance so exatas.
      
      
      
      
      PRLOGO
      
      
      Museu do Louvre, Paris
      22:46
      Jacques Saunire, o conceituado conservador, atravessou cambaleando o arco abobadado da Grande Galeria. Estendeu as mos para o quadro mais prximo, um Caravaggio. Agarrando a moldura de madeira dourada, puxou-a para si at arranc-la da parede, e ento caiu de Costas, enrodilhado debaixo da grande tela.
      Como sabia que aconteceria, uma pesada grade de ferro desceu com estrpido ali perto, selando a entrada da galeria. O soalho de madeira estremeceu. Muito ao longe, um alarme comeou a tocar.
      Saunire, um homem de setenta anos, deixou-se ficar estendido por um instante, tentando recuperar o flego e avaliando a situao. Ainda estou vivo, pensou. Saiu rastejando debaixo da tela e olhou em redor, procurando no cavernoso espao um lugar onde se esconder.
      - No se mexa - disse uma voz, arrepiantemente prxima.
      De gatas no cho, o conservador imobilizou-se, voltando lentamente a cabea. A pouco mais de quatro metros e meio de distncia, do outro lado da grade abaixada, a agigantada silhueta do seu atacante vigiava-o atravs das barras de ferro. Era alto e largo, com uma pele espectralmente plida e ralos cabelos brancos. As ris dos olhos eram rosadas, com pupilas de um vermelho-escuro. O albino tirou uma pistola do casaco e apontou-a diretamente ao conservador.
      - No devia ter fugido. - O sotaque no era fcil de identificar. - Agora diga-me onde  que est.
      - J lhe disse - tartamudeou Saunire, indefeso de joelhos no cho da galeria. - No fao idia do que est falando!
      - Mente. - O homem estava olhando para ele, e a nica coisa que se distinguia na grande sombra densa e imvel era o brilho dos olhos fantasmagricos. - Voc e os seus irmos possuem algo que no lhes pertence.
      O conservador sentiu uma vaga de adrenalina percorrer-lhe as veias. Como  possvel que ele o saiba
      - Esta noite, a custdia legtima ser restaurada. Diga-me onde est escondido, e viver. - O homem apontou a arma para a cabea do conservador. -  um segredo pelo qual esteja disposto a morrer?
      Saunire quase no conseguia respirar. O homem inclinou um pouco a cabea, fazendo pontaria ao longo do cano da arma. Saunire ergueu as mos, em um gesto de defesa.
      - Espere - disse, lentamente. - vou lhe dizer o que quer saber. - Pronunciou as palavras seguintes com muito cuidado. Tinha ensaiado aquela mentira vezes sem conta...sempre pedindo a Deus nunca se ver na necessidade de us-la. Quando o conservador acabou de falar, o homem sorriu, satisfeito.
      - Sim,  exatamente o que os outros me disseram. Saunire encolheu-se. Os outros?
      - Encontrei-os tambm - informou o homem, com um tom sarcstico. - Aos trs. Confirmaram o que acaba de dizer.
      No pode ser! A verdadeira identidade do conservador, bem como as dos trs senescais, era quase to sagrada como o antigo segredo que protegiam. Saunire compreendeu que os colegas tinham, de acordo com a regra estritamente ordenada, contado a mesma mentira antes de morrerem. Fazia parte do protocolo. O homem voltou a apontar a arma.
      - Depois de mat-lo, eu serei o nico a conhecer a verdade. A verdade. Numa fraco de segundo, Saunire percebeu o verdadeiro horror da situao. Se eu morrer, a verdade se perder para sempre. Instintivamente, tentou encontrar um refgio. A arma explodiu, e o conservador sentiu como se um ferro em brasa lhe trespassasse o ventre quando o projtil se alojou no estmago. Caiu para a frente... lutando contra a dor.
      Lentamente, rolou sobre si mesmo e olhou atravs das grades para o seu assassino.
      O homem estava apontando para a sua cabea. Saunire fechou os olhos, com os pensamentos rodopiando num turbilho de medo e tristeza. O clique do percutor batendo em uma cmara vazia ecoou no corredor.
      O conservador abriu rapidamente os olhos.
      O homem olhou para a arma, parecendo quase divertido. Procurou no bolso um segundo carregador, mas ento como que reconsiderou, sorrindo calmamente  figura ensanguentada de Saunire.
      - O meu trabalho aqui est feito.
      O conservador baixou os olhos e viu o orifcio da bala na camisa branca de linho.
      Era um ponto negro orlado por um pequeno crculo de sangue, poucos centmetros abaixo do esterno, estmago. Quase que por um capricho de crueldade, a bala falhara o corao. Como veterano da guerra da Arglia, o conservador fora j testemunha daquele tipo de morte horrivelmente lenta. Sobreviveria cerca de quinze minutos, enquanto os cidos do estmago se derramavam na cavidade torcica, envenenando-o por dentro.
      - Abenoada seja a dor - disse o homem. E desapareceu.
      Agora sozinho, Jacques Saunire voltou o olhar para a grade de ferro. Estava encurralado, e as portas s voltariam a se abrir dentro de no mnimo vinte minutos.
      Quando chegassem junto dele, estaria morto. Mesmo assim, o medo que o dominava agora era um medo muito maior que o da sua prpria morte.
      Tenho de transmitir o segredo.
      Ps-se de p, cambaleante, e imaginou os trs companheiros assassinados.
      Pensou nas geraes que os tinham precedido... na misso que a todos eles fora confiada. Uma cadeia ininterrupta de conhecimento.
      Agora, subitamente, a despeito de todas as precaues... a despeito de todas as medidas de segurana... Jacques Saunire era o nico elo que restava, o nico guardio dos mais formidveis segredos alguma vez guardados. Tremendo, olhou em volta. Tenho de encontrar uma maneira...
      Estava trancado dentro da Grande Galeria, e havia apenas uma pessoa a quem podia passar a tocha. Saunire estudou as paredes da sua opulenta priso. Uma coleo dos quadros mais famosos do mundo parecia lhe sorrir, como um grupo de velhos amigos.
      Com o rosto contrado pela dor, Saunire fez apelo a todas as suas faculdades e foras. A tarefa desesperada que tinha pela frente, bem o sabia, ia exigir cada segundo de vida que lhe restava.
      
      
      
      CAPTULO UM
      
      
      Robert Langdon acordou lentamente.
      Em algum lugar na escurido, tocava a campainha de um telefone - um som fraco, inusitado. Procurou s apalpadelas a luminria da mesa-de-cabeceira e acendeu-a.
      Examinando o ambiente que o rodeava, viu um luxuoso quarto estilo renascena, com mobilirio Lus XVI, frescos pintados  mo nas paredes e uma colossal cama de mogno de quatro colunas.
      - Onde diabo eu estou?
      O roupo de banho pendurado em uma das colunas da cama tinha bordadas no bolso do peito as palavras: HOTEL RITZ PARIS.
      Pouco a pouco, o nevoeiro comeou a dissipar-se. Langdon pegou no auscultador.
      - Sim?
      - Monsieur Langdon? - perguntou uma voz de homem. - Espero no o ter acordado?
      Confuso, Langdon olhou para o relgio da mesa-de-cabeceira: marcava meia-noite e trinta e dois. Tinha dormido apenas uma hora, mas sentia-se mais morto do que vivo.
      - Fala o concierge, monsieur. Peo desculpa pela intruso, mas tem uma visita. Diz que o assunto  urgente.
      Langdon no estava ainda bem acordado. Uma visita? Focou os olhos no pequeno panfleto que deixara amarrotado em cima da mesa-de-cabeceira.
      
A UNIVERSIDADE AMERICANA DE PARIS
orgulha-se de apresentar
UM SERO COM ROBERT LANGDON PROFESSOR DE SIMBOLOGIA
RELIGIOSA, UNIVERSIDADE DE HARVARD
      
      Langdon gemeu. A conferncia daquela noite - uma palestra, com projeo de diapositivos, sobre o simbolismo pago escondido nas pedras da Catedral de Chartres - tinha muito provavelmente eriado o plo de alguns dos membros mais conservadores do pblico. Certamente, um erudito religioso qualquer seguira-o at ao hotel disposto a dar-lhe combate.
      - Lamento - disse -, mas estou muito cansado, e...
      - Mas, monsieur - insistiu o recepcionista, baixando a voz at um murmrio carregado de urgncia. - Trata-se de um homem importante.
      Langdon no duvidava. Os seus livros sobre pintura religiosa e simbologia cultural tinham-no tornado uma celebridade relutante no mundo das artes, conferindo-lhe uma visibilidade que o envolvimento decisivo em um badaladssimo caso ocorrido no Vaticano, no ano anterior, viera, infelizmente, centuplicar. Desde ento, o rio de historiadores "importantes" e manacos da arte que lhe batiam  porta parecia no ter fim.
      - Por favor, faa a gentileza - disse Langdon, esforando-se ao mximo por manter os bons modos -, de tomar nota do nome e do nmero do telefone do senhor e diga-lhe que tentarei entrar em contato com ele antes de deixar Paris, na tera-feira. Muito obrigado.
      E desligou antes que o recepcionista pudesse protestar.
      Agora sentado na cama, Langdon lanou um olhar carrancudo ao Manual de Relacionamento com os Hspedes pousado na mesa-de-cabeceira e cuja capa proclamava: DURMA COMO UM BEB NA CIDADE DAS LUZES. REPOUSE NO RITZ DE PARIS. 	
      Voltou a cabea e olhou, cansado, para o espelho de corpo inteiro aparafusado na parede fronteira. O sujeito que lhe devolveu o olhar era um desconhecido - desgrenhado, exausto.
      - Est precisando de frias, Robert.
      Sabia que o ltimo ano lhe cobrara um pesado tributo, mas no achava graa em ver isso provado no espelho. Os olhos azuis, normalmente penetrantes, pareciam naquela noite enevoados e gastos. Uma incipincia de barba escurecia-lhe o maxilar forte e o queixo amenizado por uma inesperada "covinha".  volta das tmporas, as madeixas prateadas progrediam, infiltrando-se na densa mata de cabelos escuros. Por muito que as colegas na universidade afirmassem que aquelas pinceladas de cinzento s contribuam para lhe realar o encanto livresco, Langdon no tinha iluses.
      - Se a Boston Magazine me visse agora.
      No ms anterior, para seu grande embarao, a Boston Magazine inclura-o na lista das dez pessoas mais intrigantes da cidade - uma honra algo dbia que o tornara alvo de interminveis piadinhas por parte dos seus pares em Harvard. Naquela noite, a cinco mil quilmetros de casa, o elogio ressurgira para ensombrar-lhe a conferncia que tinha dado.
      - Senhoras e senhores - anunciara a anfitri diante de uma casa cheia no Pavillon
      Dauphine da Universidade Americana de Paris -, o nosso convidado desta noite dispensa apresentaes.  autor de numerosos livros: A Simbologia das Seitas Secretas, A Arte dos Illuminati, A Linguagem Perdida dos Ideogramas, e quando digo que  mestre em iconologia religiosa, digo-o num sentido muito literal. Muitos dos aqui presentes usam textos seus nas aulas. - Os estudantes includos na assistncia assentiram entusiasticamente. - Tinha planejado apresent-lo esta noite dando nota do seu impressionante curriculum vitae. No entanto... - olhou risonhamente para Langdon, que ocupava uma das cadeiras colocadas no palco - um dos membros do pblico acaba de facultar-me uma apresentao muito mais, digamos... intrigante.
      E mostrou um exemplar da Boston Magazine.
      Langdon encolheu-se na cadeira. Onde diabo foi ela arranjar aquilo?
      A anfitri comeou a ler excertos escolhidos do estpido artigo, e Langdon deu por si enfiando-se cada vez mais pela cadeira abaixo. Trinta segundos mais tarde, a assistncia estava sorrindo e a mulher no dava sinais de parar to cedo.
      - "E a recusa do senhor Langdon em falar publicamente sobre o seu invulgar papel no conclave do Vaticano do ano passado contribui sem dvida para aumentar-lhe a pontuao no nosso "intrigmetro." Querem ouvir mais? - perguntou aos assistentes.
      A multido aplaudiu.
      Faam-na parar, por favor, suplicou Langdon silenciosamente, enquanto ela voltava a mergulhar no artigo:
      - "Embora o Professor Langdon possa talvez no ser considerado do gnero "bonito", como alguns dos nossos nomeados mais jovens, a verdade  que no lhe falta, longe disso, o chamado encanto acadmico. Com quarenta e poucos anos, tem uma presena cativante, realada por uma voz de bartono invulgarmente baixa que as alunas descrevem como "chocolate para os ouvidos"."
      O anfiteatro inteiro explodiu numa gargalhada.
      Langdon forou um sorriso contrafeito. Sabia o que vinha a seguir - uma coisa ridicula qualquer a respeito de "Harrison Ford em um terno de tweed" - e como nessa noite julgara que seria finalmente seguro voltar a usar o seu Harris de tweed e a sua Burberry de gola alta, decidiu passar  ao.
      - Obrigado, Monique - disse, pondo-se prematuramente de p e avanando at ao pdio. - A Boston Magazine tem claramente um dom especial para a fico. - Voltou-se para a assistncia com um sorriso embaraado. - E se descubro qual de vocs desencantou este artigo, vou pedir ao consulado que mande deport-lo.
      A assistncia riu.
      - Bem, minha gente, como todos sabem, estou aqui esta noite para falar do poder dos smbolos...
      O retinir da campainha do telefone voltou a quebrar o silncio do quarto. Com um gemido de incredulidade, Langdon pegou no auscultador.
      - Sim?
      Como j esperava, era o recepcionista.
      - Senhor Langdon, mais uma vez as minhas desculpas. Telefono-lhe para inform-lo que o seu visitante vai neste momento a caminho do seu quarto. Achei que seria melhor avis-lo.
      Langdon ficou de repente muito acordado.
      - Mandou algum ao meu quarto?
      - Peo desculpas, monsieur, mas um homem como... No tenho autoridade para impedi-lo.
      - Quem  ele exatamente?
      O recepcionista, porm, j tinha desligado. Quase no mesmo instante, um punho pesado bateu  porta do quarto. Sem saber muito bem o que fazer, Langdon deslizou para fora da cama, sentiu os dedos dos ps afundarem no tapete espesso. Enfiou o roupo do hotel e aproximou-se da porta.
      - Quem ?
      - Senhor Langdon? Preciso lhe falar. - O homem falava ingls com um sotaque cerrado, numa voz seca, autoritria. - Sou o tenente Jrme Collet. Diretion Centrale Police Judiciaire.
      Langdon fez uma pausa. A Polcia Judiciria? A DCPJ era mais ou menos o equivalente francs do FBI americano. Sem tirar a corrente de segurana, entreabriu a porta alguns centmetros. O rosto que o encarou do outro lado era estreito como um cutelo e tinha um ar desgastado. O homem, invulgarmente magro, vestia um uniforme azul, de ar muito oficial.
      - Posso entrar? - perguntou.
      Langdon hesitou, sentindo-se inseguro enquanto os olhos mortios do desconhecido o estudavam.
      - Que est acontecendo?
      - O meu capitaine pede a sua colaborao em um assunto sigiloso.
      - A estas horas? - conseguiu Langdon dizer. - Passa da meia-noite.
      - Tinha encontro marcado com o conservador do Louvre esta noite, no  verdade?
      Langdon sentiu uma repentina vaga de inquietao. Ele e o respeitado conservador Jacques Saunire tinham combinado encontrarem-se para uma bebida depois da conferncia daquela noite, mas Saunire no chegara a aparecer.
      - Sim,  verdade. Como sabe?
      - Encontramos o seu nome na agenda dele.
      - Espero que esteja tudo bem.
      O policial deixou escapar um suspiro de cansao e enfiou uma foto Polaroid pela estreita abertura da porta. Quando Langdon viu a foto, o corpo se enrigeceu.
      - Essa fotografia foi feita h menos de uma hora. No interior do Louvre.
      Enquanto continuava olhando para a estranha imagem, Langdon sentiu a repulsa e o choque iniciais darem lugar a uma sbita exploso de ira.
      - Quem faria uma coisa destas?
      - Espervamos que pudesse nos ajudar a responder precisamente a essa pergunta, considerando os seus conhecimentos de simbologia e os seus planos para se encontrar com monsieur Saunire.
      Langdon olhava para a foto, com um horror a que comeava a misturar-se o medo.
      A imagem era horripilante e profundamente estranha, provocando uma perturbadora sensao de d j vu. Pouco mais de um ano antes, recebera a fotografia de um cadver e, como agora, um pedido de ajuda. Vinte e quatro horas mais tarde, quase tinha perdido a vida na Cidade do Vaticano. Aquela foto era completamente diferente, e no entanto, algo no cenrio tinha um toque desconcertantemente familiar.
      O policial consultou o relgio.
      - O meu capitaine est  espera, monsieur.
      Langdon mal o ouviu. Tinha os olhos presos  fotografia.
      - Este smbolo aqui, e o modo como o corpo est to estranhamente...
      - Posicionado? - sugeriu o policial.
      Langdon assentiu, sentindo um arrepio gelado ao erguer os olhos.
      - No consigo imaginar algum capaz de fazer isto a uma pessoa.
      O rosto do policial pareceu tornar-se ainda mais sombrio.
      - No est compreendendo, senhor Langdon. Aquilo que v nessa fotografia... -
      Fez uma pausa. - Foi monsieur Saunire que o fez a si mesmo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO DOIS
      
      
      A quilmetro e meio dali, Silas, o corpulento albino, atravessou coxeando o porto
      de uma luxuosa manso de arenito castanho-avermelhado situada na Rua La Bruyre. O cilcio que usava em torno da coxa esquerda cortava-lhe a carne, mas apesar disso a alma dele cantava de satisfao por servir o Senhor.
      Abenoada seja a dor.
      Os olhos avermelhados inspecionaram o vestbulo quando entrou na residncia.
      Deserta. Subiu silenciosamente as escadas, para no acordar nenhum dos outros numerrios. A porta do quarto estava aberta: as fechaduras eram proibidas naquela casa.
      Entrou, fechando-a atrs de si.
      O quarto era espartano: soalho de madeira, uma cmoda de pinho, em um canto uma lona estendida que lhe servia de cama. Estava ali de visita, naquela semana, mas havia j muitos anos que, pela graa de Deus, dispunha de um santurio semelhante em Nova Iorque.
      O Senhor proporcionou-me abrigo e um objetivo na vida.
      Naquela noite, Silas sentia que comeara, por fim, a pagar a sua dvida. Dirigindose rapidamente  cmoda, pegou o celular que deixara escondido na ltima gaveta e fez uma chamada.
      - Sim? - disse uma voz de homem.
      - Voltei, Professor.
      - Fale - ordenou a voz, com uma nota de satisfao.
      - Esto todos mortos. Os trs senescais.... e o prprio Gro-Mestre.
      Houve uma pausa momentnea, como que para uma curta prece.
      - Acredito, portanto, que tem a informao?
      - Todos disseram o mesmo. Independentemente.
      - E acreditou neles?
      - A foi muita concordncia para ser coincidncia.
      Uma expirao excitada.
      - timo. Tinha receado que a reputao de secretismo da irmandade prevalecesse.
      - A perspectiva da morte  uma motivao poderosa.
      - Diga-me ento, meu discpulo, o que devo saber.
      Silas sabia que a informao que extorquira s suas vtimas ia constituir uma surpresa.
      - Professor, todos eles confirmaram a existncia da Clef de Vote... a lendria Chave de Abbada.
      Ouviu o som de uma inspirao rpida e superficial, e sentiu a excitao do Professor.
      - A Chave de Abbada. Tal como suspeitvamos. De acordo com a lenda, a irmandade concebera um mapa de pedra - uma Clef de Vote... ou Chave de Abbada -, que revelava o esconderijo do maior dos seus segredos... uma informao to poderosa que proteg-la passara a ser a razo da sua prpria existncia.
      - Quando tivermos a Chave de Abbada em nosso poder disse o Professor -, estaremos apenas a um passo de distncia.
      - Estamos mais perto do que julga. A Chave de Abbada encontra-se aqui, em Paris.
      - Em Paris? Incrvel.  quase muito fcil.
      Silas relatou os acontecimentos da noite: como todas as suas quatro vtimas, momentos antes de morrerem, tinham desesperadamente tentado comprar as suas vidas mpias revelando o segredo que lhes fora confiado. Todos eles lhe tinham dito exatamente a mesma coisa - que a Chave de Abbada estava artificiosamente escondida em um determinado local no interior de uma das velhas igrejas de Paris: Saint-Sulpice.
      - Dentro da casa do Senhor - exclamou o Professor. - Como escarnecem de ns!
      - Como fizeram durante sculos.
      O Professor calou-se, como que deixando assentar na alma o triunfo daquele momento. Finalmente, disse:
      - Voc prestou um grande servio a Deus. H centenas de anos que espervamos por isto. Tem de recuperar a pedra. Imediatamente. Esta noite. Sabe o que est em jogo.
      Silas sabia que o que estava em jogo era de uma importncia incalculvel, mas aquilo que o Professor agora lhe ordenava parecia impossvel.
      - Mas a igreja  uma fortaleza. Sobretudo de noite. Como fao para entrar l?
      No tom confiante do homem que possui uma enorme influncia, o Professor explicou o que tinha de ser feito.
      Quando desligou o telefone, Silas sentiu na pele um formigueiro de antecipao.
      Uma hora, disse para si mesmo, grato por o Professor lhe ter dado tempo para cumprir a necessria penitncia antes de entrar na casa de Deus. Tenho de purgar a minha alma dos pecados de hoje. Os pecados que cometera naquele dia tinham sido santos no seu objetivo. Havia sculos que o direito sagrado sancionava a guerra contra os inimigos de Deus. O perdo estava garantido.
      Mesmo assim, Silas bem o sabia, a absolvio exigia sacrifcio.
      Depois de fechar as portadas da janela, despiu-se completamente e ajoelhou no centro do quarto. Baixando os olhos, examinou o cruel cilcio apertado  volta da coxa.
      Todos os verdadeiros seguidores do Caminho usavam aquele artefato - uma correia de couro eriada de farpas metlicas que lhe trespassavam a pele, numa constante recordao dos sofrimentos de Cristo. Alm disso, a dor que causava ajudava tambm a dominar os desejos da carne.
      Apesar de j ter usado o seu cilcio mais do que as duas horas exigidas, Silas sabia que aquele no era um dia como os outros. Pegou a ponta da correia e apertou a fivela mais um furo, estremeceu quando as farpas se cravaram ainda mais profundamente na carne. Deixando escapar lentamente o ar contido nos pulmes, saboreou o ritual purificador do seu prprio sofrimento.
      Abenoada seja a dor, murmurou, repetindo a manta sagrada do padre Josemara
      Escriv - o Professor dos Professores. Embora Escriv tivesse morrido em 1975, a sua sabedoria perdurava, as suas palavras continuavam a ser murmuradas por milhares de fiis em todo o mundo enquanto ajoelhavam no cho e cumpriam a sagrada pratica conhecida como "mortificao corporal".
      Silas voltou a sua ateno para a corda cheia de ns cuidadosamente enrolada no cho a seu lado. A Disciplina. Os ns estavam cobertos de sangue seco. Ansiando os efeitos depuradores da sua prpria agonia, murmurou uma rpida orao. Ento, pegando uma ponta da corda, fechou os olhos e a fez rodopiar com fora por cima do ombro, sentindo os ns baterem-lhe nas costas. Continuou a flagelar-se, golpeando a pele, uma e outra vez.
      Castigo corpus meum.
      Finalmente, sentiu o sangue comear a correr.
      
      
      
      CAPTULO TRS
      
      
      O ar agreste de Abril entrava pela janela aberta do Citroen ZX que seguia para sul, passando diante da pera e atravessando a Place Vendme. Sentado ao lado do condutor, Robert Langdon sentia a cidade passar por ele enquanto tentava aclarar as idias. Um banho rpido e uma escanhoada com a mquina de barbear tinham-no deixado mais ou menos apresentvel, mas contribudo muito pouco para lhe diminuir a ansiedade. A imagem assustadora do corpo do conservador Saunire no lhe saa da cabea.
      Jacques Saunire est morto.
      Aquela morte causava-lhe uma irreprimvel e profunda sensao de perda. Apesar da sua reputao de pessoa reservada, a dedicao s artes de que sempre dera provas fazia do conservador do Louvre um homem geralmente querido e respeitado. Os livros que escrevera sobre os cdigos secretos escondidos nos quadros de Poussin e Teniers contavam-se entre os manuais de estudo que Langdon mais usava nas suas prprias aulas. Aguardara com intensa expectativa o encontro daquela noite, e sentira-se desapontado quando Saunire no aparecera.
      Mais uma vez, a viso do cadver atravessou-lhe o esprito. Jacques Saunire tinha feito aquilo a si mesmo? Langdon voltou-se e olhou pela janela, expulsando a imagem do pensamento.
      L fora, a cidade mantinha a mesma azfama das horas diurnas: vendedores ambulantes empurravam carrinhos carregados de amandes caramelizadas, empregados de restaurantes carregavam sacos de lixo para o passeio, um casal de namorados procurava no calor das carcias uma defesa contra a brisa perfumada pelo aroma dos jasmins.
      O Citroen atravessava autoritariamente todo este caos, com a sua dissonante sereia de dois tons cortando o trnsito como uma faca.
      - O capitaine ficou contente por saber que ainda estava em Paris - disse o policial, falando pela primeira vez desde que tinham sado do hotel. - Uma coincidncia feliz.
      Langdon sentia-se tudo menos feliz, e coincidncia era um conceito em que no acreditava. Como algum que passara a vida explorando as interligaes escondidas de emblemas e ideologias dspares, tinha tendncia para ver o mundo como uma trama de histrias e acontecimentos profundamente entretecidos. As ligaes podem no ser visveis, costumava dizer aos seus alunos de Simbologia em Harvard, mas esto sempre l, escondidas logo abaixo da superfcie.
      - Deduzo - disse - que a Universidade Americana de Paris lhes disse onde eu estava hospedado?
      O tenente abanou a cabea.
      - A Interpol.
      A Interpol, pensou Langdon. Claro. Esquecera que o aparentemente incuo costume que os hotis europeus tinham de exigir a apresentao de um passaporte no ato de registrro no era uma curiosa formalidade, era a Lei. Em qualquer noite, por toda a Europa, os agentes da Interpol podiam saber exatamente quem estava dormindo onde.
      Encontr-lo no Ritz no demorara provavelmente mais do que cinco segundos.
      Enquanto o Citroen acelerava para sul atravs da cidade, a silhueta iluminada da torre Eiffel surgiu ao longe, do lado direito, apontando para o cu. Ao v-la, Langdon pensou em Vittoria, recordando a promessa que, um ano antes e meio de brincadeira, tinham feito de, todos os seis meses, voltarem a encontrar-se em um local romntico diferente. A torre Eiffel teria com toda certeza feito parte da lista. Infelizmente, beijara Vittoria pela ltima vez em um barulhento aeroporto de Roma, havia mais de um ano.
      - J foi l? - perguntou o policial, olhando para ele.
      - Perdo? - sobressaltou-se Langdon, apanhado de surpresa.
      -  maravilhosa, no ? - O tenente apontou para a torre atravs do pra-brisas. - J a subiu?
      - No, ainda no - respondeu Langdon.
      -  o smbolo da Frana. Para mim,  perfeita.
      Langdon assentiu distraidamente. Os simbologistas faziam com frequncia notar que a Frana - um pas afamado pelo seu machismo, costumes dissolutos e lderes diminutos e inseguros como Napoleo e Pepino, o Breve - no poderia ter escolhido como emblema nacional nada mais apropriado do que um falo com trezentos metros.
      No cruzamento com a Rue de Rivoli, o semforo estava vermelho, mas o Citroen nem sequer abrandou. O tenente passou como uma tromba e continuou a acelerar, descendo um trecho ladeado de rvores da Rue Castiglione, que servia de entrada norte aos famosos Jardins das Tulherias, a verso parisiense de Central Park. A maior parte dos turistas traduzia erradamente a designao de Jardins ds Tuileries como tendo qualquer coisa a ver com os milhares de tulipas que floresciam ali, mas Tuileries era na realidade uma referncia literal a algo muito menos romntico. Aquele parque fora em tempos uma enorme e feia cova de onde os parisienses extraam o barro com que manufaturavam as famosas telhas - ou tuiles - vermelhas dos seus telhados.
      Quando entraram no parque deserto, o tenente meteu a mo debaixo do tablier e desligou a incmoda sirene. Langdon deixou escapar um suspiro, saboreando o sbito silncio.  frente do carro, os feixes plidos dos faris de halognio varriam o saibro compactado do caminho, no qual os pneus zuniam entoando um ritmo hipntico. Langdon sempre considerara as Tulherias solo sagrado. Fora naqueles jardins que Claude Monet experimentara formas e cores e literalmente inspirara o nascimento do movimento impressionista. Naquela noite, porm, pesava sobre o local uma estranha atmosfera de sombria premonio.
      O Citroen virou  esquerda, seguindo para oeste ao longo da alameda principal do parque. Contornando um lago circular, o tenente atravessou uma silenciosa avenida e entrou no vasto espao quadrangular que ficava a seguir. Langdon avistou o fim do
      Jardim, assinalado por um gigantesco arco de pedra.
      O Arc du Carrousel.
      No obstante os rituais orgisticos que em tempos tinham decorrido junto ao Arc du Carrousel, os aficcionados da arte reverenciavam aquele lugar por uma razo completamente diferente. Da esplanada onde terminavam as Tulherias avistava-se quatro dos mais fabulosos museus de arte do mundo, um em cada ponto cardeal.
       sua direita, na direo sul e do outro lado do Sena e do Quai Voltaire, Langdon viu a fachada espetacularmente iluminada da velha estao ferroviria, agora o clebre Muse d'Orsay. Olhando para a esquerda, distinguia a parte superior do ultramoderno Centro Pompidou, que albergava o Museu de Arte Moderna. Atrs dele, para oeste, o antigo obelisco de Ramss espreitava por cima das copas das rvores, assinalando a localizao do Muse du Jeu de Paume.
      Bem  sua frente, a leste, do outro lado do arco, erguia-se o monoltico palcio renascentista que se tornara o mais famoso museu de arte do mundo.
      O Louvre.
      Langdon sentiu o j familiar arrepio de espanto maravilhado enquanto os seus olhos tentavam inutilmente abarcar toda a massa do edifcio. Ao fundo da enorme praa fronteira, o Louvre era como uma cidadela recortada contra o cu de Paris. Com a forma de uma grande ferradura, era o edifcio mais comprido da Europa, maior do que trs torres Eiffel deitadas umas a seguir s outras. Nem sequer os cem mil metros quadrados da praa que se estendia entre as duas alas do museu conseguia ofuscar a magnificncia da fachada. Certa vez, Langdon percorrera a p todo o permetro do Louvre, uma espantosa caminhada de quatro quilmetros e meio.
      Calculava-se que seriam necessrias cinco semanas para que um visitante contemplasse devidamente as 65 300 obras de arte conservadas no museu, embora a maior parte dos turistas preferisse uma experincia abreviada a que Langdon costumava chamar "Louvre Light" - uma espcie de sprint para ver os trs objetos mais famosos: a Mona Lisa, a Vnus de Milo e a Vitria Alada. Art Buchwald gabara-se certa vez de ter visto as trs obras-primas em cinco minutos e cinquenta e seis segundos.
      O tenente pegou num pequeno rdio e falou rapidamente em francs:
      - Monsieur Langdon est arriv. Deux minutes.
      Do outro lado veio uma confirmao indecifrvel. O tenente devolveu o aparelho ao bolso do casaco e voltou-se para Langdon.
      - O capitaine espera-o na entrada principal - disse.
      E, ignorando os sinais que proibiam o trfego automvel na praa acelerou e galgou o passeio. A entrada principal do museu era agora visvel, erguendo-se ousadamente  distncia, rodeada por sete tanques triangulares de onde jorravam fontes iluminadas.
      La Pyramide.
      A nova entrada do Louvre de Paris tornara-se quase to famosa como o prprio museu. A controversa e neo moderna pirmide de vidro concebida pelo arquiteto americano de origem chinesa I. M. Pei continuava a atrair o escrnio dos tradicionalistas, na opinio dos quais destrua a dignidade da praa renascentista. Goethe descrevera a arquitetura como msica petrificada, e os detratores de Pei descreviam a sua pirmide como unhas raspando em uma ardsia. Os admiradores progressistas, em contrapartida, exaltavam a construo de vidro transparente com vinte e um metros e sessenta e cinco centmetros de altura como uma espetacular sinergia de estrutura antiga e mtodo moderno - um elo simblico entre o antigo e o novo - que abria ao Louvre a porta do prximo milnio.
      - Gosta da nossa pirmide? - perguntou o tenente. Langdon franziu o sobrolho. Os franceses adoravam, segundo parecia, fazer esta pergunta aos americanos. Era, claro, uma armadilha. Admitir que gostava da pirmide transformava a vtima num tosco americano sem o menor bom gosto, manifestar desagrado era tomado como um insulto.
      - Mitterrand era um homem ousado - respondeu, dividindo a diferena. Dizia-se que o falecido presidente francs, que encomendara a pirmide a Pei, sofria de um "complexo faranico". Responsvel por ter enchido Paris de obeliscos, obras de arte e artefatos egpcios, Franois Mitterrand tivera tal afinidade com a cultura niltica que os Franceses continuavam a chamar-lhe a Esfinge. - Como se chama o seu capito? - perguntou, mudando de assunto.
      - Bezu Fache - respondeu o tenente, aproximando-se da entrada principal da pirmide. - Chamamos-lhe l Taureau.
      Langdon olhou para ele, perguntando a si mesmo se todos os franceses teriam uma misteriosa alcunha animal.
      - Chamam o Touro ao seu capito? O homem arqueou as sobrancelhas.
      - O seu francs  melhor do que quer admitir, monsieur Langdon.
      O meu francs  uma porcaria, pensou Langdon, mas a minha iconografia zodiacal  bastante boa, muito obrigado. Taurus era sempre o touro. A astrologia era uma constante simblica em todo o mundo. O tenente parou o carro e apontou, por entre duas fontes, para uma grande porta na face da pirmide.
      - Ali tem a entrada. Boa sorte, monsieur.
      - No vem?
      - As minhas ordens eram para traz-lo at aqui. Tenho outros assuntos a tratar.
      Langdon deixou escapar um suspiro e desceu. O circo  seu, pensou.
      O tenente engatou a primeira, acelerou e afastou-se a grande velocidade.
      Ali de p vendo as lanternas traseiras do carro desaparecerem na noite, Langdon percebeu que podia muito facilmente reconsiderar, atravessar a praa, apanhar um txi e voltar para a cama. Alguma coisa lhe disse que era provavelmente uma pssima idia.
      Enquanto avanava por entre a bruma de gua das fontes, teve a perturbadora sensao de estar transpondo um limiar invisvel para um outro mundo. A sensao onrica daquela noite estava uma vez mais a envolv-lo. Vinte minutos antes, dormia no seu quarto de hotel. Agora, encontrava-se de p diante da pirmide de vidro mandada construir pela Esfinge,  espera de ser recebido por um polcia a que chamavam o Touro.
      Estou preso num quadro do Dali, pensou.
      Dirigiu-se  entrada principal - uma enorme porta giratria. O trio que ficava para l dela, escassamente iluminado, estava deserto.
      Bato  porta?
      Perguntou a si mesmo se alguma vez algum respeitado Egitologista de Harvard teria batido  porta de uma pirmide esperando que lhe respondessem. Ergueu a mo para bater no vidro, mas das sombras l embaixo surgiu uma figura, subindo a escadaria encurvada. O homem, atarracado e escuro, quase Neanderthal, vestia um casaco assertoado que a largura dos ombros repuxava, como se estivesse apertado. Caminhava com um ar de inconfundvel autoridade sobre pernas curtas e fortes. Vinha falando pelo celular, mas terminou a chamada antes de chegar. Fez sinal a Langdon para que entrasse.
      - Chamo-me Bezu Fache - anunciou, enquanto Langdon passava pela porta giratria. - Capito da Direo Central da Polcia Judiciria. - O tom combinava: um ribombar gutural, como um prenncio de tempestade.
      Langdon estendeu a mo.
      - Robert Langdon.
      A manpula enorme de Fache fechou-se  volta da mo de Langdon com uma fora esmagadora.
      - Vi a fotografia - disse Langdon. - O seu agente disse que foi o prprio Jacques
      Saunire que fez...
      - Senhor Langdon - interrompeu-o Fache, cravando nele os olhos cor de bano. - O que viu na fotografia foi apenas o incio daquilo que o Saunire fez.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO QUATRO
      
      
      O capito Bezu Fache movia-se como um touro furioso, com os largos ombros puxados para trs e o queixo enterrado no peito. Tinha cabelos pretos e reluzentes de gel, esticados para a nuca, destacando o bico-de-vivo pontiagudo como uma seta que lhe dividia ao meio a testa proeminente e o precedia como a proa de um cruzador.  medida que avanava, parecia queimar com os olhos a terra  sua frente, irradiando um brilho incandescente que apregoava a sua reputao de inflexvel severidade em todas as coisas.
      Langdon desceu atrs dele a famosa escadaria de mrmore que conduzia ao trio situado por baixo da pirmide de vidro. Na descida, passaram por dois agentes armados com pistolas-metralhadoras. A mensagem era clara: esta noite, ningum entra e ningum sai sem a bno do capito Fache.
      Enquanto descia abaixo do nvel da praa, Langdon se esforou para combater uma crescente sensao de temor. O ar do capito Fache era tudo menos acolhedor, e o prprio Louvre tinha, quela hora da noite, uma aura quase sepulcral. A escadaria, como a coxia de um cinema s escuras, era iluminada por pequenas lmpadas embebidas nos degraus. Langdon ouvia os seus prprios passos ecoarem na cpula de vidro, l em cima. Quando olhou, viu, atravs do telhado transparente, a brisa dispersar a poalha de gua dos repuxos, fantasmagoricamente iluminados pelas luzes dos tanques.
      - Gosta? - perguntou Fache, apontando para cima com o grande queixo.
      Langdon suspirou, muito cansado para jogos.
      - Sim, a sua pirmide  magnfica.
      - Uma verruga no rosto de Paris - resmungou Fache.
      Um a zero. Langdon sentiu que o seu anfitrio era um homem difcil de agradar.
      Perguntou a si mesmo se Fache faria a mnima idia de que aquela pirmide fora, por exigncia expressa do presidente Mitterrand, construda com exatamente 666 painis de vidro - estranha exigncia que sempre fora um tema quente entre os adeptos da teoria da conspirao, os quais afirmavam que 666 era o nmero de Satans.
      Decidiu no abordar o assunto.
       medida que desciam em direo ao trio subterrneo, o vasto espao foi emergindo das sombras. Dezessete metros abaixo do nvel da praa, os seis mil e quinhentos metros quadrados do novo trio do Louvre estendiam-se como uma gruta interminvel. com paredes e cho de mrmore em quentes tons de ocre, condizendo com a pedra cor de mel da fachada do museu, o trio subterrneo estava normalmente cheio de sol e de turistas. Naquela noite, porm, mostrava-se rido e escuro, impregnado de uma fria atmosfera de cripta.
      - E o pessoal normal da segurana do museu? - perguntou Langdon.
      - En quarantaine - respondeu Fache, como se Langdon tivesse posto em causa a integridade da sua prpria equipe. - Obviamente, esta noite entrou aqui algum que no devia ter conseguido entrar. Todos os guardas de servio esto na Ala Sully, sendo interrogados. A segurana do museu est a cargo dos meus homens.
      Langdon assentiu, caminhando rapidamente para se manter ao lado do capito.
      - Conhecia bem o conservador Jacques Saunire? - perguntou este.
      - No o conhecia de todo. Nunca falamos pessoalmente. Fache pareceu surpreendido.
      - Iam encontrar-se pela primeira vez esta noite?
      - Exato. Tnhamos combinado encontrar-nos na recepo oferecida pela
      Universidade Americana depois da minha conferncia, mas ele no apareceu. 
      Fache rabiscou algumas notas em um pequeno caderno. Enquanto caminhavam,
      Langdon viu de relance a outra pirmide, muito menos conhecida, do Louvre - a Pyramid Inverse - uma enorme clarabia invertida que pendia do teto como uma estalactite, em uma seo contgua do trio. Fache subiu  frente dele o pequeno lance de escadas que conduzia  entrada em arco de um tnel por cima da qual uma tabuleta indicava: DENON. 
      A Ala Denon era a mais famosa das trs sees principais do Louvre.
      - Qual dos dois pediu o encontro desta noite - perguntou Fache subitamente. - Ele ou o senhor?
      A pergunta pareceu estranha.
      - Foi o senhor Saunire - respondeu Langdon, enquanto entravam no tnel. - A secretria dele contatou-me h poucas semanas, via e-mail. Dizia que o conservador Saunire soubera que eu ia dar uma conferncia em Paris, este ms, e gostaria de aproveitar a minha presena para discutir uns assuntos.
      - Que assuntos?
      - No sei. Relacionados com a arte, suponho. Partilhvamos os mesmos interesses.
      Fache lanou-lhe um olhar carregado de ceticismo.
      - No faz a mnima idia do tema do encontro?
      Langdon no fazia. Ficara curioso, na altura, mas no se sentira  vontade para pedir pormenores. O reverenciado Jacques Saunire tinha uma tendncia bem conhecida para o segredo e era rarssimo se encontrar com quem quer que fosse. Langdon ficara grato pela simples oportunidade de conhec-lo.
      - Senhor Langdon, consegue ao menos me dar um palpite sobre o assunto que a nossa vtima queria discutir consigo na noite em que foi assassinada? Poderia ser muito til.
      A dureza da pergunta fez Langdon sentir-se pouco -vontade.
      - No fao a mnima idia. No perguntei. Fiquei muito honrado por ter sido contactado. Sou um admirador da obra do senhor Saunire. Uso com frequncia textos dele nas minhas aulas.
      Fache tomou nota do fato no seu caderninho.
      Os dois homens iam agora a meio caminho do tnel de acesso  Ala Denon e
      Langdon viu, ao fundo, as duas escadas rolantes ascendentes, ambas paradas.
      - Partilhavam ento os mesmos interesses? - perguntou Fache.
      - Sim. A verdade  que passei a maior parte deste ltimo ano escrevendo o rascunho de um livro que aborda a principal rea de especializao do senhor Saunire.
      Estava na esperana de conseguir tirar alguns segredos.
      Fache ergueu vivamente a cabea
      - Como?
      Aparentemente, o idiomatismo no tinha equivalente.
      - Estava desejoso de conhecer as opinies dele sobre o tema.
      - Estou vendo. E qual  esse tema?
      Langdon hesitou, sem saber muito bem como pr aquilo.
      - Essencialmente, o trabalho  a respeito do culto da deusa... o conceito do sagrado feminino e a arte e os smbolos que lhe esto associados.
      Fache passou a mo enorme pelos cabelos.
      - E Saunire era perito nessa matria?
      - O maior de todos.
      - Estou vendo.
      Langdon teve a sensao de que Fache no estava vendo coisa nenhuma.
      Jacques Saunire era considerado o maior iconografista da deusa do mundo. No s tinha uma paixo pessoal por tudo o que se relacionasse com fertilidade, cultos da deusa, Wicca e o sagrado feminino, como, durante os seus vinte anos no cargo de conservador, ajudara o Louvre a reunir a maior coleo do planeta de arte ligada  deusa: machados de dois gumes oriundos do mais antigo santurio das sacerdotisas gregas de Delfos, caduceus de ouro, centenas de ankhs Tjet semelhantes a pequenos anjos de p, sistros usados no antigo Egito para afastar os maus espritos e uma espantosa quantidade de estatuetas de Hrus a ser alimentado por Isis.
      - Talvez o conservador Saunire soubesse do seu manuscrito - sugeriu Fache  e tenha sugerido o encontro para lhe oferecer ajuda?
      Langdon abanou a cabea.
      - A verdade  que ningum sabe do meu livro. Est na fase de rascunho e no o mostrei a ningum, exceto ao meu editor.
      Fache ficou calado.
      Landgon no acrescentou a razo porque no mostrara o manuscrito a mais ningum. O rascunho de trezentas pginas - provisoriamente intitulado Smbolos do Sagrado Feminino Perdido - propunha vrias interpretaes muito pouco convencionais da iconografia religiosa estabelecida que iam sem a mnima dvida provocar controvrsia.
      Quando estava quase chegando s escadas rolantes imobilizadas, deteve-se, percebendo que Fache no o acompanhava. Voltando a cabea, viu-o alguns metros mais atrs, parado  porta de um elevador de servio.
      - Vamos de elevador - disse o capito, quando as portas se abriram. - Como certamente sabe, ainda  uma boa caminhada at  galeria.
      Embora soubesse que o elevador abreviaria a longa subida de dois pisos at  Ala Denon, Langdon no saiu de onde estava.
      - Algum problema? - perguntou Fache, mantendo as portas abertas com um ar de impacincia.
      Langdon suspirou, lanando um olhar de pena  escada rolante. Nenhum problema, mentiu a si mesmo, enquanto retrocedia at ao elevador. Quando rapaz, cara em um poo abandonado e quase morrera, lutando por manter-se  tona durante horas at que finalmente o tinham encontrado. Da experincia ficara-lhe uma quase invencvel fobia de espaos fechados - elevadores, metrs, courts de squash. O elevador  uma mquina perfeitamente segura, repetia constantemente, sem nunca conseguir se convencer.  uma pequena caixa metlica suspensa no interior de um poo fechado!
      Retendo a respirao, entrou no elevador, sentindo a sua to conhecida descarga de adrenalina quando as portas se fecharam.
      Dois pisos. Dez segundos.
      - Portanto - disse Fache, quando o elevador comeou a subir - O senhor e Monsieur Saunire nunca chegaram a falar? Nunca se corresponderam? Nunca trocaram mensagens por E-mail?
      Outra pergunta estranha. Langdon abanou a cabea.
      - No. Nunca.
      Fache inclinou um pouco a cabea, como se estivesse a anotar mentalmente o fato. Ficou olhando em frente, para as portas cromadas, sem acrescentar uma palavra.
      Enquanto subiam, Langdon tentou pensar em tudo menos nas quatro paredes que o rodeavam. Viu, refletido na porta brilhante do elevador, o alfinete de gravata do capito Fache: um crucifixo de prata, com treze placas de nix preto incrustadas. Achou aquilo vagamente surpreendente. O smbolo era conhecido como crux gemmata - uma cruz com treze gemas - um ideograma cristo de Cristo e dos seus doze apstolos. Sem saber muito bem porqu, no esperara que um capito da Polcia francesa proclamasse to abertamente a sua religio. Mas a verdade era que estava na Frana; ali, o cristianismo era mais um direito hereditrio do que uma religio.
      -  uma cruz gemmata - disse Fache, subitamente.
      Sobressaltado, Langdon ergueu os olhos e viu, refletidos no metal, os do policial cravados nele.
      O elevador parou com um ligeirssimo solavanco e as portas abriram-se.
      Langdon saiu para o corredor, ansioso do vasto espao aberto proporcionado pelos famosos altos tetos das galerias do Louvre. O mundo onde se encontrou no era, porm, nada do que esperara.
      Surpreendido, deteve-se abruptamente. Fache lanou-lhe um olhar.
      - Deduzo, senhor Langdon, que nunca viu o Louvre fora de hora?
      Acho que no, pensou Langdon, tentando orientar-se.
      Por regra impecavelmente iluminadas, as galerias do museu estavam mergulhadas em uma surpreendente escurido. Em vez da habitual luz branca vinda de cima, um claro vermelho, bao, parecia emanar dos rodaps - manchas intermitentes de luz vermelha que se derramavam pelas lajes do cho
      Ao olhar para o sombrio corredor, Langdon percebeu que devia ter contado com aquilo. Praticamente todas as grandes galerias usavam luzes vermelhas durante a noite - luzes de baixa intensidade, no-agressivas, estrategicamente distribudas de modo a permitir ao pessoal percorrer os corredores e ao mesmo tempo manter os quadros em uma relativa obscuridade que atenuava os efeitos deletrios de uma sobre exposio  luz. O que, naquela noite, criava um ambiente quase opressivo. Havia longas sombras por todo o lado, e os altos tetos abobadados pareciam um vazio negro e baixo.
      - Por aqui - disse Fache, voltando  direita e comeando a atravessar uma srie de galerias interligadas.
      Langdon seguiu-o, com os olhos adaptando-se pouco a pouco a escurido.  sua volta, grandes quadros a leo comearam a materializar-se como fotografias a serem reveladas em uma enorme cmara-escura... com olhos que o seguiam quando passava.
      Sentiu na boca o sabor to especial do ar dos museus - um sabor estril,  desionizado com um leve toque de carbono -, um produto dos desumidificadores industriais de filtros de carvo que trabalhavam ininterruptamente para combater o corrosivo dixido de carbono exalado pelos visitantes. Montadas bem alto nas paredes, as conspcuas cmaras de segurana transmitiam uma mensagem clarssima: Estamos vendo-os. No toquem em nada.
      - Alguma delas  verdadeira? - perguntou Langdon - apontando para as cmaras.
      Fache abanou a cabea.
      - Claro que no.
      Langdon no ficou surpreendido. A vigilncia eletrnica em um museu daquele tamanho teria um custo proibitivo, alm de no servir para nada. Com quilmetros de galerias para vigiar, seriam necessrias centenas de tcnicos s para monitorizar os visores. A maior parte dos museus tinha optado pela "segurana de reteno". No vale a pena tentar impedir os ladres de entrar, o que importa  no os deixar sair. O sistema de reteno era ativado logo aps o fechamento das portas, e se algum intruso tentasse remover uma das obras de arte, as barreiras fechavam-se selando a galeria, e o ladro via-se atrs de grades ainda antes da Polcia chegar.
      O corredor de mrmore que se estendia  frente deles encheu-se do eco de vozes.
      O rudo parecia vir de uma diviso recuada, mais  frente e  direita, de onde uma mancha de luz intensa se derramava para a passagem.
      - Gabinete do conservador - anunciou o capito.
      Quando se aproximaram, Langdon viu, ao fundo de um curto corredor, o luxuoso gabinete de Jacques Saunire - madeiras quentes, obras dos Velhos Mestres nas paredes e uma enorme mesa antiga sobre cujo tampo se erguia o modelo de um guerreiro de armadura com sessenta centmetros de altura. Um punhado de agentes da Polcia movia-se de um lado para o outro, falando ao telefone e tomando notas. Um deles estava sentado  mesa, escrevendo em um computador porttil. Aparentemente, o gabinete do conservador fora transformado, pelo espao de uma noite, no improvisado posto de comando da DCPJ.
      - Messieurs - disse Fache, e os homens voltaram-se para ele -, ne nous drangez pas sous aucun prtexte. Entendu?
      Todos os presentes assentiram com a cabea.
      Langdon j tinha pendurado suficientes cartes NE PS DERANGER em portas de hotel para apanhar o essencial das ordens do capito. Fache e ele prprio no deveriam ser perturbados fosse a que pretexto fosse.
      Deixando o pequeno grupo de agentes no gabinete, Fache continuou a conduzir Langdon pelo escuro corredor. Trinta metros mais  frente, abria-se a entrada da mais popular das sees do Louvre - La Grande Galerie - um corredor aparentemente interminvel que albergava as mais famosas obras-primas italianas da coleo do museu.
      Langdon sabia que era ali que ia encontrar o corpo de Jacques Saunire; o clebre soalho de parquet da Grande Galeria era claramente visvel na Polaroid.
      Quando se aproximaram, viu que a entrada da galeria estava fechada por uma grade de ao que parecia uma daquelas coisas que os antigos castelos usavam para impedir a entrada aos exrcitos inimigos.
      - Segurana de reteno - explicou Fache, detendo-se junto da grade.
      Mesmo no escuro, a barricada parecia capaz de deter um tanque. Chegando do exterior, Langdon espreitou para os obscuros recessos da Grande Galeria.
      - Tenha a bondade, monsieur Langdon - disse Fache. Langdon voltou-se para ele, sem compreender.
      Fache apontou para o cho, junto  base da grade.
      Langdon seguiu a direo do gesto. Na escurido, no percebera. A barricada fora erguida cerca de sessenta centmetros, oferecendo uma passagem incmoda mas praticvel.
      - Esta rea continua interditada  segurana do museu - continuou Fache. - A minha equipe de Police Techique e Scientifique acaba de completar a sua investigao. - Voltou a apontar para a Parte inferior da grade. - Por favor.
      Langdon olhou para a estreita abertura a seus ps e depois para a macia grade de ferro. Deve estar brincando, com certeza. A grade parecia uma guilhotina preparada para esmagar qualquer intruso.
      Fache resmungou qualquer coisa em francs e consultou o relgio. Ps-se ento de joelhos e fez deslizar o volumoso corpo por baixo da grade. Do outro lado, ergueu-se e olhou para Langdon atravs das barras.
      Langdon suspirou, apoiou as palmas das mos no parquet encerado, estendeu-se de bruos e empurrou-se para a frente. Ao deslizar, prendeu a gola do casaco na borda inferior da grade e bateu com a nuca no ferro.
      Muito suave, Robert, pensou, rastejando desajeitadamente at finalmente conseguir passar. Quando se ps de p, comeou a suspeitar de que ia ser uma noite muito, muito longa.
      
      CAPTULO CINCO
      
      
      Murray Hill Place - a nova sede nacional e centro de conferncias da Opus Dei - situa-se no n 243 da Lexington Avenue, em Nova Iorque. Tendo custado um pouco mais de quarenta e sete milhes de dlares, a torre, com doze mil trezentos e cinquenta metros quadrados de rea coberta total,  toda forrada de tijolo vermelho e calcrio de Indiana. Desenhado por May Pinska, o edifcio comporta mais de cem quartos, seis sales de jantar, bibliotecas, salas de estar e gabinetes. Nos segundo, oito e dcimo sexto pisos h capelas decoradas com trabalhos de marcenaria e mrmore. O dcimo stimo piso  totalmente residencial. Os homens entram no edifcio pela porta principal, na Lexington Avenue. As mulheres entram por uma porta lateral e esto, em todas as ocasies, "acstica e visualmente separadas" dos homens.
      No comeo dessa mesma noite, no santurio do seu apartamento de cobertura, o bispo Manuel Aringarosa preparou um pequeno saco de viagem e envergou uma tradicional sotaina preta. Normalmente, ataria uma faixa prpura  volta da cintura, mas, uma vez que se preparava para viajar entre o pblico, no quis atrair a ateno para o seu alto cargo. S os mais atentos reparariam no anel episcopal de ouro de catorze quilates com a ametista prpura, os grandes diamantes e a aplicao de ouro com a forma de uma mitra um bculo trabalhada  mo. Ps o saco de viagem ao ombro, rezou uma orao silenciosa e saiu do apartamento, descendo no elevador at ao vestbulo onde o motorista esperava para lev-lo ao aeroporto.
      Pouco depois, instalado a bordo de um vo comercial com destino a Roma, contemplava, atravs da janela, o escuro Atlntico. O Sol j tinha se posto, mas Aringarosa sabia que a sua prpria estrela estava em ascenso. Esta noite, a batalha ser ganha, pensou, espantado pelo fato de, apenas meses antes, ter se sentido impotente contra as mos que ameaavam destruir o seu imprio.
      Como presidente-geral da Opus Dei, o bispo Aringarosa passara a ltima dcada da sua vida a divulgar a mensagem da Obra de Deus - literalmente, Opus Dei. A congregao, fundada, em 1928, pelo padre espanhol Josemara Escriv, promovia o regresso aos valores catlicos tradicionais e encorajava os seus membros a fazer grandes sacrifcios pessoais para poderem levar a cabo a Obra de Deus.
      A filosofia tradicionalista da Opus Dei comeara por lanar razes na Espanha anterior ao regime de Franco, mas, com a publicao, em 1934, do livro espiritual de Escriv, Caminho - 999 pontos de meditao para fazer na vida a Obra de Deus -, a mensagem se alastrara pelo mundo. Agora, com mais de quatro milhes de exemplares de O Caminho publicados em quarenta e duas lnguas, a Opus Dei era uma fora global.
      Tinha residncias, centros de ensino e at universidades em todas as principais metrpoles da Terra. A Opus Dei era, a nvel mundial, a organizao catlica que apresentava a mais elevada taxa de crescimento e a situao financeira mais firme.
      Infelizmente, como Aringarosa depressa descobrira, em uma era de cinismo religioso, cultos e tele-evangelistas, o poder e a riqueza de que dispunha eram tambm um m que atraa suspeitas.
      - Muitos os consideram um culto alienante. Outros os chamam uma sociedade secreta crist ultraconservadora. Qual destas coisas  a Opus Dei? -, perguntavam com frequncia os jornalistas, em tom de provocao.
      - Nem uma, nem outra -, respondia pacientemente o bispo. - Somos uma Igreja Catlica. Somos uma congregao de catlicos que escolheram como sua prioridade seguir a doutrina catlica nas nossas vidas quotidianas o mais rigorosamente que pudermos.
      - A Obra de Deus incluir necessariamente votos de castidade, o pagamento do dzimo e a penitncia pelos pecados atravs da autoflagelao e do uso de cilcios?
      - Est descrevendo apenas uma pequena parte da populao da Opus Dei -, dizia o bispo. - H muitos nveis de envolvimento. Milhares de membros da Opus Dei so casados, tm famlia e fazem Obra de Deus no seio das suas prprias comunidades.
      Outros preferem viver em ascetismo na clausura das nossas residncias. Estas escolhas so pessoais, mas todos na Opus Dei partilhamos o objetivo de tornar o mundo melhor fazendo a Obra de Deus.  certamente um propsito admirvel.
      Ah, mas a razo raramente convencia. A mdia gravitava para o escndalo, e a Opus Dei, como a maior parte das grandes organizaes, contava entre os seus membros algumas almas perdidas que lanavam uma sombra sobre todo o conjunto.
      Dois meses antes, um grupo da congregao em uma universidade do Midwest fora apanhado drogando novos recrutas com mescalina na tentativa de induzir um estado eufrico que os nefitos tomassem por uma experincia religiosa. Um outro estudante universitrio usara o seu cilcio durante mais tempo do que as recomendadas duas horas dirias e contrara uma infeco que quase o matara. Em Boston, bastante recentemente, um jovem e desiludido banqueiro doara as poupanas de uma vida inteira  Opus Dei antes de tentar suicidar-se.
      Ovelhas tresmalhadas, pensava Aringarosa, e o seu corao voava para eles.
      O grande embarao fora, claro, o muito publicitado julgamento do espio do FBI Robert Hanssen, que, alm de ser um proeminente membro da Opus Dei, acabara por se revelar culpado de prticas sexuais desviantes. No julgamento, ficara provado que equipara o seu quarto com cmaras de vdeo escondidas para que os amigos pudessem v-lo tendo relaes com a mulher. "O que dificilmente se poder considerar um passatempo adequado a um catlico devoto", observara o juiz.
      Infelizmente, todos estes acontecimentos tinham ajudado ao aparecimento de um novo grupo de vigilncia conhecido como Opus Dei Awareness Network (ODAN). O concorridssimo website deste grupo - www.odan.org - publicava histrias assustadoras narradas por ex-membros que alertavam para o perigo de aderir  organizao. Os meios de comunicao referiam-se agora  Opus Dei como "a Mfia de Deus" e "o Culto de Cristo".
      Receamos aquilo que no compreendemos, pensou Aringarosa, Perguntando a si mesmo se aqueles crticos fariam alguma idia quantas vidas a Opus Dei tinha enriquecido. O grupo gozava do pleno aval e da bno do Vaticano. A Opus Dei  uma prelatura pessoal do prprio Papa.
      Recentemente, no entanto, vira-se ameaada por uma fora infinitamente mais poderosa do que a imprensa.... um inimigo inesperado do qual Aringarosa no tinha meio de se esconder. Cinco meses antes, o caleidoscpio do poder fora sacudido, e
      Aringarosa estava ainda se refazendo do golpe.
      - Nem imaginam a guerra em que se meteram -, murmurou o bispo para si mesmo, olhando atravs da janela do avio para o negro oceano l embaixo. Por um instante, refocou os olhos, demorando-os no reflexo do seu prprio rosto - escuro e oblongo, dominado por um nariz achatado e adunco, partido por um murro quando era um jovem missionrio, em Espanha. Uma deficincia fsica que ele agora quase no notava. O mundo de Aringarosa era o mundo da alma, no o da carne.
      Quando o avio sobrevoava a costa de Portugal, o celular comeou a vibrar no bolso da sotaina de Aringarosa, com o sinal sonoro desligado. Mal-grado as regras da companhia que proibiam o uso de telefones celulares durante o vo, Aringarosa sabia que aquela era uma chamada que no podia perder. Apenas um homem conhecia aquele nmero, o mesmo que lhe enviara o telefone pelo correio.
      Excitado, o bispo respondeu em voz baixa:
      - Sim?
      - Silas localizou a Chave de Abbada - disse a voz. - Est em Paris. Na igreja de
      Saint-Sulpice.
      O bispo Aringarosa sorriu.
      - Ento estamos perto.
      - Podemos consegui-la imediatamente. Mas precisamos da sua influncia.
      - Com certeza. Diga-me o que devo fazer.
      Quando desligou o celular, Aringarosa tinha o corao a bater com fora. Olhou mais uma vez para o vazio da noite, sentindo-se um ano face aos acontecimentos que acabava de desencadear.
      A oitocentos quilmetros dali, o albino chamado Silas, inclinado para uma pequena bacia cheia de gua, lavava o sangue que lhe escorria das costas, observando os esfiapados padres de vermelho que se desenhavam no lquido. Aspergi-me com um ramo de hissope e ficarei puro, rezou, citando os Salmos. Lavai-me, e me tornarei mais branco que a neve.
      Silas sentiu uma excitao expectante que no experimentava desde os tempos da
      sua antiga vida, uma excitao que o surpreendeu e ao mesmo tempo o eletrizou. Havia uma dcada que seguia O Caminho, lavando-se do pecado... reconstruindo a sua vida...apagando a violncia do seu passado. Naquela noite, porm, tudo voltara, numa vaga avassaladora. O dio que tanto se esforara por enterrar fora chamado  superfcie.
      Ficara espantado pela rapidez com que o passado ressurgira. E com ele, claro, tinham regressado as suas capacidades, enferrujadas mas utilizveis.
      A mensagem de Jesus  uma mensagem de paz... de no-violncia... de amor. Era esta a mensagem que lhe tinham ensinado desde o incio, a mensagem que gravara no corao. E no entanto, era esta a mensagem que os inimigos de Cristo ameaavam agora destruir. Aqueles que ameaam Deus com a fora, encontraro a fora. Inamovvel e firme. Durante dois milnios, os soldados de Cristo tinham defendido a sua f contra aqueles que tentavam destru-la. Naquela noite, Silas fora chamado  batalha.
      Depois de secar as feridas, vestiu o hbito que lhe chegava aos tornozelos. Era grosseiro, feito de l escura, que lhe acentuava a brancura da pele e dos cabelos.
      Amarrou a corda  volta da cintura, cobriu a cabea com o capuz e permitiu-se um instante para observar o seu reflexo no espelho. As rodas comearam a girar.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO SEIS
      
      
      Depois de ter passado por baixo da grade de segurana, Robert Langdon deteve-se  entrada da Grande Galeria, olhando para a boca de um longo e fundo desfiladeiro.
      De ambos os lados, as paredes erguiam-se a nove metros de altura, fundindo-se na escurido, l em cima. O claro avermelhado das luzes de servio parecia elevar-se do cho, banhando numa luminosidade irreal a deslumbrante coleo de da Vincis, Ticianos e Caravaggios suspensos do teto por meio de cabos. Naturezas-mortas, cenas religiosas e paisagens faziam companhia a retratos de nobres e polticos.
      Apesar de a Grande Galeria albergar as mais famosas peas da arte italiana, muitos dos visitantes achavam que o que nela havia de mais impressionante era na realidade o seu famoso soalho de parquet. Disposto num estonteante desenho geomtrico de placas de carvalho em diagonal, o soalho produzia uma efmera iluso de tica - uma rede multidimensional que dava ao visitante a impresso de flutuar atravs da galeria sobre uma superfcie que se transformava a cada passo.
      Os olhos de Langdon, que seguiam o traado dos embutidos de madeira, detiveram-se abruptamente em um inesperado objeto cado no cho poucos metros  sua esquerda, isolado por fita da Polcia.
      Voltou-se para Fache.
      - Aquilo ali no cho...  um Caravaggio?
      O capito assentiu, sem sequer olhar.
      O quadro, calculou Langdon, valia mais de dois milhes de dlares, e no entanto ali estava, cado no cho, como um cartaz que algum tivesse jogado fora.
      - Que raio est fazendo no meio do cho?
      Fache lanou-lhe um olhar severo, claramente nada impressionado.
      - Isto  aquilo a que se chama um local do crime, senhor Langdon. No tocamos em nada. Aquela tela foi arrancada da parede pelo conservador Saunire. Foi assim que ele ativou o sistema de segurana.
      Langdon olhou para a grade, tentando reconstituir mentalmente o que acontecera.
      - Monsieur Saunire foi atacado no seu gabinete, conseguiu fugir para a Grande Galeria e ativou a grade de segurana arrancando o quadro da parede. A grade desceu imediatamente, selando a galeria. Esta  a nica porta de entrada e de sada.
      Langdon estava confuso.
      - Quer dizer com isso que o senhor Saunire encurralou o atacante dentro da galeria?
      Fache abanou a cabea.
      - A grade de segurana separou o conservador Saunire do seu atacante. O assassino ficou no corredor e atingiu monsieur Saunire atravs da grade. - Apontou para uma etiqueta cor de laranja presa a uma das barras da grade por baixo da qual acabavam de passar. - A equipe PTC encontrou resduos de plvora de uma arma.
      Disparou atravs da grade. Monsieur Saunire morreu sozinho, aqui dentro.
      Langdon recordou a fotografia do corpo de Saunire. Dizem que fez aquilo a si mesmo. Olhou para o interminvel corredor que se estendia diante deles.
      - Onde est ento o corpo?
      Fache endireitou o seu cruciforme alfinete de gravata e comeou a caminhar.
      - Como provavelmente sabe, a Grande Galeria  muito comprida.
      O comprimento exato, se Langdon bem recordava, era de cerca de quatrocentos e cinquenta metros, o equivalente a trs Washington Monuments postos a seguir uns aos outros. E a largura do corredor era igualmente impressionante, podendo com toda a facilidade acomodar dois comboios de passageiros lado-a-lado. Ao longo do centro, a espaos irregulares, distribuam-se esttuas ou grandes urnas de porcelana, que faziam o papel de separador e obrigavam o fluxo de visitantes a fazer-se num sentido e no outro junto a paredes opostas.
      Fache mantinha-se silencioso, avanando a passo rpido pelo lado direito da galeria, o olhar fixo em frente. Langdon sentia que era quase uma falta de respeito passar diante de tantas obras-primas sem fazer uma pausa, quanto mais no fosse para um olhar. No que conseguisse ver qualquer coisa com esta luz, pensou.
      O mortio claro avermelhado trouxe-lhe infelizmente  memria recordaes da sua ltima experincia com iluminao no-invasiva nos Arquivos Secretos do Vaticano.
      Era j o segundo e perturbador paralelo com a sua quase mortal aventura em Roma.
      Voltou a pensar em Vittoria. Estivera ausente dos seus sonhos durante meses. Mal conseguia acreditar que Roma tivesse sido apenas um ano antes; pareciam-lhe dcadas.
      Uma outra vida. A ltima vez que soubera dela, fora em Dezembro: um postal dizendo que ia a caminho do mar de Java para prosseguir as suas pesquisas... qualquer coisa relacionada com o uso de satlites para monitorizar as migraes das mantas. Langdon no alimentara iluses a respeito de uma mulher como Vittoria Vetra pudesse ser feliz vivendo em um campus universitrio, mas o encontro de Roma despertara nele desejos que nunca imaginara poder sentir. A afinidade de uma vida inteira com o celibato e as liberdades simples que permitia fora de alguma maneira abalada... substituda por um inesperado vazio que parecia ter crescido durante o ltimo ano.
      Continuaram a avanar, sem que Langdon visse qualquer corpo.
      - Jacques Saunire veio at to longe?
      - Monsieur Saunire sofreu um ferimento de bala no estmago. Morreu muito lentamente. Talvez mais de quinze ou vinte minutos. Era obviamente um homem de grande fora pessoal.
      Langdon voltou-se para ele, estupefato.
      - A segurana demorou vinte minutos para chegar aqui?
      - Claro que no. Os seguranas do museu responderam imediatamente ao alarme e encontraram a Grande Galeria selada. Atravs da grade, ouviram algum mexendo-se na extremidade mais distante do corredor, mas no conseguiam ver quem era. Gritaram, mas no obtiveram resposta. Assumindo que s podia tratar-se de um criminoso, seguiram o protocolo e chamaram a Polcia. Ocupamos as nossas posies quinze minutos mais tarde. Quando chegamos, erguemos a grade apenas o suficiente para podermos cassar por baixo dela, e mandei uma dzia de agentes armados para o interior.
      Percorreram toda a galeria, com o objetivo de encurralar o intruso.
      - E?
      - No encontraram ningum aqui dentro. Exceto... - apontou mais para o fundo do corredor - ele.
      Langdon ergueu os olhos e seguiu a direo do dedo estendido de Fache. De incio, pensou que o capito estava apontando para uma grande esttua de mrmore colocada no meio da galeria. Mas, continuando a avanar, comeou a ver alm da esttua. Trinta metros mais  frente, um projetor isolado montado em um suporte apontava para o cho, criando uma crua mancha de luz branca na avermelhada escurido circundante. No centro da poa de luz, como um inseto sob as lentes de um microscpio, o corpo do conservador Saunire jazia nu no cho de parquet.
      - Viu a fotografia - disse Fache -, de modo que isto no constituir surpresa.
      Langdon sentiu um grande frio entranhar-se em seus ossos  medida que se aproximavam do corpo.  sua frente, estava uma das mais estranhas imagens que alguma vez vira.
      O plido cadver de Jacques Saunire jazia no soalho de parquet exatamente como aparecia na foto. Debruado para ele, de olhos semicerrados por causa da luz, Langdon recordou a surpresa que sentira ao saber que Saunire passara os ltimos dez minutos de vida dispondo seu prprio corpo daquela estranha maneira.
      O conservador parecia notavelmente vigoroso para um homem da sua idade... e toda a sua musculatura estava bem  vista. Despojara-se de todas as peas de roupa, que deixara cuidadosamente dobradas no cho, e deitara-se de costas no centro da larga galeria, perfeitamente alinhado com o eixo do corredor. Tinha os braos e as pernas bem abertos e esticados para fora, como uma criana preparando-se para dar um mergulho em uma piscina... ou, talvez mais exatamente, como um homem a ser esquartejado por uma qualquer fora invisvel.
      Logo abaixo do esterno, uma mancha de sangue assinalava o ponto onde a bala trespassara a carne. A ferida sangrara surpreendentemente pouco, deixando apenas uma pequena poa de sangue escuro.
      Tambm o indicador da mo esquerda estava ensanguentado. Aparentemente, Saunire mergulhara-o na ferida para criar o mais perturbador aspecto da ttrica cena; usando o seu prprio sangue como tinta e a pele nua do ventre como tela, desenhara um smbolo simples: cinco segmentos de reta que se intersectavam para formar uma estrela de cinco pontas.
      O pentculo.
      A estrela sangrenta, centrada no umbigo, dava ao cadver uma irrecusvel aura demonaca. A foto que vira j era suficientemente arrepiante, mas agora, ao testemunhar aquilo em pessoa, Langdon sentiu um mal-estar crescente.
      Jacques Saunire fez isto a si mesmo.
      - Senhor Langdon? - Os olhos escuros de Fache estavam cravados nele.
      -  um pentculo - disse Langdon, com uma voz que soou cava naquele espao enorme. - Um dos smbolos mais antigos do mundo. J era usado quatro mil anos antes de Cristo.
      - E que significa?
      Langdon hesitava sempre que lhe faziam aquela pergunta. Explicar a algum o que um smbolo "significava" era como dizer-lhe como uma determinada cano devia faz-lo sentir-se - era diferente de pessoa para pessoa. Nos Estados Unidos, um capuz branco do Ku Klux Klan evocava imagens de dio e racismo, ao passo que, na Espanha, a mesma indumentria tinha um significado de f religiosa.
      - Os smbolos tm significados diferentes em contextos diferentes - disse. - Essencialmente, o pentculo  um smbolo religioso pago.
      Fache assentiu.
      - Culto do diabo.
      - No - corrigiu Langdon, percebendo imediatamente que a sua escolha de palavras devia ter sido mais clara.
      Atualmente, o termo pago tornara-se quase sinnimo de culto do diabo - uma interpretao grosseiramente errada. Na realidade, as razes da palavra remontavam ao latim paganus, que significa habitantes do campo. Os "pagos" eram literalmente pessoas do campo no doutrinadas que continuavam agarradas s antigas religies rurais do culto da Natureza. To forte era, de fato, o medo que a Igreja tinha dos habitantes das aglomeraes rurais que o outrora incuo termo "vilo" - o que vive numa aldeia ou vila - acabara por designar uma pessoa m.
      - O pentculo - esclareceu Langdon -  um smbolo pr-cristo relacionado com o culto da Natureza. Os antigos imaginavam o mundo em que viviam dividido em duas metades: masculino e feminino. Os seus deuses e deusas esforavam-se por manter o equilbrio de poder. Yin e Yang. Quando o masculino e o feminino estavam equilibrados, havia harmonia no mundo. Quando se desequilibravam, havia caos. - Apontou para o estmago de Saunire. - Este pentculo representa o lado feminino de todas as coisas... um conceito a que os historiadores da religio chamam "sagrado feminino" ou "deusa divina". Jacques Saunire o sabia melhor do que ningum.
      - Monsieur Saunire desenhou o smbolo de uma deusa no estmago?
      Langdon teve de admitir que parecia estranho.
      - Na sua interpretao mais especfica, o pentculo simboliza Vnus... a deusa do amor sexual e da beleza femininos.
      Fache olhou para o homem nu e resmungou qualquer coisa.
      - A religio antiga baseava-se na ordem divina da Natureza. A deusa Vnus e o planeta Vnus eram uma e a mesma coisa. A deusa tinha o seu lugar no cu noturno e era conhecida por muitos nomes: Vnus, Estrela do Oriente, Ishtar, Astarte..., todos eles poderosos conceitos femininos com ligaes  Natureza e  Me Terra.
      Fache parecia ainda mais perturbado, como se de algum modo preferisse a idia do culto do diabo.
      Langdon decidiu no lhe revelar a mais surpreendente propriedade do pentculo: a origem grfica da sua ligao a Vnus. Ainda jovem estudante de Astronomia, ficara estupefato ao saber que o planeta Vnus traava, de oito em oito anos, um pentculo perfeito cu eclptico. To espantados tinham os Antigos ficado ao observar o fenmeno, que Vnus e o seu pentculo se tornaram smbolo de perfeio, beleza e das qualidades cclicas do amor sexual. Em um tributo  magia de Vnus, os Gregos usavam o seu ciclo de oito anos para organizar os Jogos Olmpicos. Atualmente, poucas pessoas sabem que o calendrio quadrienal das Olimpadas modernas continua a seguir os meios-ciclos de Vnus. E menos ainda sabem que a estrela de cinco pontas esteve muito perto de se tornar o emblema olmpico oficial, tendo sido substituda na ltima hora pelos cinco anis entrelaados, que refletem melhor o esprito de incluso e harmonia dos Jogos.
      - Senhor Langdon - disse Fache, abruptamente -,  evidente que o pentculo tem tambm de estar relacionado com o diabo. Os seus filmes de terror deixam esse ponto bem claro.
      Langdon franziu o sobrolho. Obrigado, Hollywood. A estrela de cinco pontas tornara-se um chavo praticamente obrigatrio nos filmes a respeito de assassinos psicopatas satnicos, geralmente desenhada nas paredes do apartamento de um satanista juntamente com outra pretensa simbologia demonaca. Langdon ficava sempre frustrado quando via o smbolo neste contexto; as verdadeiras origens do pentculo eram na realidade at muito divinas.
      - Garanto-lhe - disse - que, a despeito do que possa ver nos filmes, a interpretao demonaca do pentculo  historicamente inexata. O significado original feminino  correto, mas o simbolismo do pentculo tem sido distorcido ao longo dos milnios. Neste caso, atravs do derramamento de sangue.
      - Receio no estar compreendendo.
      Langdon olhou para o crucifixo de Fache, sem saber muito bem como expor o que queria dizer.
      - A Igreja, meu caro senhor. Os smbolos so muito resistentes, mas o pentculo foi alterado pela Igreja Catlica primitiva. No mbito das campanhas do Vaticano para erradicar as religies pags e converter as massas ao cristianismo, a Igreja lanou uma campanha de difamao contra os deuses e deusas pagos, apresentando os respectivos smbolos como ligados ao mal.
      - Continue.
      -  um expediente muito comum em pocas de agitao. O novo poder emergente apodera-se dos smbolos existentes e degrada-os ao longo do tempo em uma tentativa de apagar-lhes o significado. Na batalha entre os smbolos pagos e os smbolos cristos, os pagos foram derrotados; o tridente de Poseidon tornou-se a forquilha do diabo, o chapu pontiagudo da mulher sbia passou a ser o emblema da bruxa, e o pentculo de Vnus converteu-se no sinal do diabo. - Langdon fez uma pausa. - Infelizmente, tambm a instituio militar americana perverteu o pentculo, que  hoje um dos principais smbolos da guerra. Ns o pintamos nos nossos caas a jato e o usamos nos ombros dos nossos generais. - Triste sorte para a deusa do amor e da beleza.
      - Interessante. - Fache fez um sinal na direo do cadver de pernas e braos abertos. - E a posio do corpo? Como a interpreta?
      Langdon encolheu os ombros.
      - A posio apenas refora a referncia ao pentculo e ao sagrado feminino.
      A expresso de Fache ensombreceu.
      - Desculpe?
      - Repetio. Repetir um smbolo  a maneira mais simples de reforar-lhe o significado. Jacques Saunire colocou-se na forma de uma estrela de cinco pontas. - Se um pentculo  bom, dois pentculos  melhor.
      Fache seguiu com os olhos os cinco pontos definidos pela cabea, mos e ps do cadver e voltou a passar a mo pelos cabelos cheios de gel.
      - Uma anlise interessante. - Fez uma pausa. - E a nudez? - Quase que grunhiu a palavra, parecendo achar repelente a viso do corpo de um velho. - Porque foi que ele se despiu?
      Boa pergunta, pensou Langdon. Andava remoendo-a desde que vira a fotografia.
      O seu melhor palpite era que um corpo humano nu constitua mais uma referncia a Vnus, a deusa da sexualidade humana. Apesar de a cultura moderna ter eliminado a maior parte da associao de Vnus  unio fsica homem/mulher, um olho etimolgico atento conseguia ainda distinguir vestgios do significado original de Vnus na palavra "venrea". Langdon decidiu no seguir por a.
      - Senhor Fache, no posso obviamente dizer-lhe porque foi que o senhor Saunire desenhou esse smbolo no seu prprio ventre nem porque se colocou dessa maneira, mas posso dizer-lhe que um homem como Jacques Saunire consideraria o pentculo como sinal da divindade feminina. A correlao entre este smbolo e o sagrado feminino  bem conhecida dos historiadores de arte e dos simbologistas.
      - Muito bem. E o uso do seu prprio sangue como tinta?
      - Obviamente, no tinha mais nada com que escrever.
      Fache manteve-se silencioso por instantes.
      - Na realidade, estou convencido de que usou sangue para que a Polcia pudesse seguir certos procedimentos forenses.
      - Perdo?
      - Olhe para a mo esquerda dele.
      Langdon examinou o plido brao do conservador desde o cotovelo at  mo, mas nada viu. Inseguro, contornou o corpo e ajoelhou-se, notando ento, surpreendido, que Saunire segurava entre os dedos um grande marcador de ponta de feltro.
      - Tinha-o na mo quando o encontramos - disse Fache, afastando-se alguns metros at uma pequena mesa porttil coberta de ferramentas de investigao, cabos e vrios aparelhos eletrnicos.
      - Como lhe disse - continuou, procurando entre os objetos que cobriam a mesa -, no tocamos em nada. Conhece esse tipo de caneta?
      Langdon inclinou-se um pouco mais para ver a marca.
      STYLO DE LUMIERE NOIRE.
      Ergueu os olhos, surpreendido.
      A caneta de luz negra, ou de marca de gua, era um marcador de ponta de feltro especial originariamente concebido para ser usado pelos museus, restauradores e Polcia para pr marcas invisveis nos mais variados objetos. Utilizava uma tinta  base de lcool, fluorescente e no corrosiva, visvel apenas  luz negra. Atualmente, o pessoal de manuteno dos museus usava-as nas suas rondas dirias para marcar as molduras dos quadros que necessitassem de restaurao.
      Enquanto Langdon se punha de p, Fache aproximou-se do projetor e desligou-o.
      A galeria mergulhou em sbita escurido.
      Momentaneamente cego, Langdon sentiu-se invadir por uma crescente incerteza.
      A silhueta de Fache reapareceu, iluminada por uma intensa luz prpura. Aproximou-se, transportando uma fonte de luz porttil que o envolvia numa nvoa violeta. 
      - Como talvez saiba - disse, com os olhos brilhando no claro violeta -, a Polcia usa a luz negra para investigar locais de crimes em busca de sangue e outras provas cientficas. Pode, ento, imaginar a nossa surpresa... - Repentinamente, apontou a luz para o cadver.
      Langdon olhou para baixo e deu um salto para trs.
      O corao batia-lhe descompassadamente enquanto contemplava a estranha viso que brilhava  sua frente no soalho de parquet. Traadas em letras luminescentes, as derradeiras palavras de Jacques Saunire refulgiam em tons prpura ao lado do cadver. Ao ver o que estava escrito, Langdon sentiu o nevoeiro que envolvera toda aquela noite tornar-se ainda mais denso. Voltou a ler a mensagem e ergueu os olhos para Fache.
      - Que raio  que isto significa?
      Os olhos de Fache cintilaram com um brilho branco.
      - Essa , monsieur, precisamente a pergunta a que pretendo que responda.
      No muito longe dali, no gabinete de Saunire, o tenente Collet, que regressara ao Louvre, estava inclinado para o console de um rdio pousado em cima da enorme mesa do conservador. Com exceo da estranha figura do pequeno guerreiro medieval que parecia observ-lo de um canto da mesa, sentia-se perfeitamente  vontade. Ajustou os auscultadores e verificou os nveis de entrada no sistema de gravao do disco rgido.
      Tudo no verde. Os microfones funcionavam perfeitamente e a recepo era impecvel.
      - Le moment de vrt, murmurou.
      Sorrindo, fechou os olhos e acomodou-se para saborear o resto da conversa que estava sendo gravada no interior da Grande Galeria.
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO SETE
      
      
      O modesto apartamento dentro da igreja de Saint-Sulpice situava-se no segundo piso,  esquerda da varanda do coro. Duas divises com cho de pedra e um mnimo de mobilirio que serviam de casa  irm Sandrine Biel havia mais de uma dcada. O convento, ali prximo, fora a sua residncia anterior, mas ela preferia o silncio e a calma da igreja e instalara-se muito confortavelmente com uma cama, um telefone e um aquecedor.
      Como conservatrice d'affaires da igreja, a irm Sandrine era responsvel por todos os aspectos no religiosos do funcionamento do templo - manuteno geral, contratar pessoal de apoio e guias, encomendar abastecimentos como vinho para a eucaristia e hstias.
      Naquela noite, adormecida na sua estreita cama, foi acordada pelo retinir estridente da campainha do telefone. Ensonada, levantou o auscultador.
      - Soeur Sandrine. glise Saint-Sulpice.
      - Ol, irm - disse o homem, em francs.
      A irm Sandrine sentou-se na cama. Que horas so? Reconheceu a voz do chefe, apesar de, em quinze anos, nunca ter sido acordada por ele. O abade era um homem profundamente piedoso, que ia para casa e para a cama logo a seguir  missa.
      - Peo desculpas por t-la acordado, irm - continuou o abade, parecendo ele prprio um pouco confuso e nervoso. - Tenho de lhe pedir um favor. Acabo de receber uma chamada de um influente bispo americano. Talvez o conhea? Manuel Aringarosa?
      - O chefe da Opus Dei?
      Claro que o conheo. Quem, na Igreja, o no conhece? A prelatura conservadora de Aringarosa crescera em poder nos ltimos anos. A sua ascenso ao estado de graa fora em 1982, quando Joo Paulo II a elevara inesperadamente "prelatura pessoal do Papa", sancionando oficialmente todas as prticas. Por uma coincidncia que no podia ser inocente, a elevao da Opus Dei ocorrera no mesmo ano em que a riqussima seita alegadamente transferira quase um bilho de dlares para o Instituto do Vaticano para as Obras Religiosas - vulgarmente conhecido como Banco do Vaticano - salvando-o de uma embaraosa bancarrota. Numa segunda manobra que fizera arquear mais de uma sobrancelha, o Papa pusera o fundador da Opus Dei na "via-rpida" para a santidade, reduzindo um perodo de espera pela canonizao que com frequncia se arrastava por um sculo a uns meros vinte anos. A irm Sandrine no conseguia impedir-se de pensar que o estudo de graa de que a Opus Dei gozava em Roma era suspeito, mas com a Santa S no se discutia.
      - Sua Eminncia o bispo Aringarosa telefonou-me pedindo um favor - explicou o abade, nervosamente. - Um dos seus numerrios est esta noite em Paris...
      Enquanto ouvia o estranho pedido, a irm Sandrine sentia-se cada vez mais confusa.
      - Desculpe, est dizendo que esse numerrio no pode esperar at amanh?
      - Receio que no. O avio parte muito cedo. E ele sempre sonhou ver Saint-Sulpice.
      - Mas a igreja  muito mais interessante durante o dia. Os raios de sol entrando pelo culo, as sombras graduadas do gnmon,  isso que torna Saint-Sulpice nica.
      - Concordo, irm. No entanto, consideraria um favor especial se o deixasse entrar hoje  noite. Ele pode a estar... digamos,  uma? Dentro de vinte minutos.
      A irm Sandrine franziu o sobrolho.
      - Com certeza, terei muito gosto.
      O abade agradeceu-lhe e desligou.
      Intrigada, a irm Sandrine deixou-se ficar mais uns instantes no calor da cama, tentando sacudir as teias de aranha do sono. O seu corpo de sessenta anos j no acordava to prontamente como em outros tempos, embora o telefonema daquela noite lhe tivesse sem dvida excitado os sentidos. A Opus Dei sempre a fizera sentir-se pouco  vontade. Alm da adeso da prelatura aos rituais arcanos da mortificao corporal, o modo como encarava as mulheres era, no mnimo, medieval. Ficara chocada ao saber que as numerrias eram obrigadas a limpar, enquanto eles estavam na missa, as residncias dos homens, e ainda por cima sem qualquer espcie de remunerao; as mulheres dormiam em tarimbas de madeira, ao passo que os homens dispunham de enxergas de palha; e as mulheres tinham de sujeitar-se a exigncias ainda mais estritas de mortificao corporal... tudo como penitncia acrescida pelo pecado original.
      Aparentemente, a dentada que Eva dera na ma do conhecimento era uma dvida que as mulheres estavam condenadas a pagar por toda a eternidade. Infelizmente, enquanto a maior parte das Igrejas Catlicas estava avanando na direo certa no que dizia respeito aos direitos das mulheres, a Opus Dei ameaava inverter o processo. Fosse como fosse, a irm Sandrine recebera as suas ordens.
      Fazendo rodar as pernas para fora da cama, ps-se lentamente de p, gelada pelo frio das pedras nos ps descalos. E  medida que o frio lhe subia pelo corpo, sentiu uma inesperada apreenso.
      Intuio feminina?
      Seguidora de Deus, a irm Sandrine aprendera a encontrar paz nas vozes calmantes da sua prpria alma. Naquela noite, porm, essas vozes mantinham-se silenciosas na igreja deserta que a rodeava.
      
      
      
      CAPTULO OITO
      
      
      Langdon no conseguia desviar os olhos das palavras que brilhavam com uma luminescncia violeta rabiscadas no soalho de parquet. A ltima comunicao de Jacques Saunire parecia-lhe o mais improvvel como mensagem de despedida que conseguia imaginar.
      Dizia o seguinte:
      
      13-3-2-21-1-1-8-5
      O, Draconian devil!
      Oh, lame saint!
      
      Embora no fizesse a mnima idia do que aquilo significava, Langdon compreendia a intuio de Fache de que o pentculo tinha qualquer coisa a ver com o culto do diabo.
      O, draconiano demnio!
      Saunire deixara uma referncia explcita ao diabo. No menos bizarra era a srie de algarismos.
      - Uma parte parece um cdigo numrico.
      - Sim - concordou Fache. - Os nossos criptografistas j esto trabalhando nisso.
      Acreditamos que esses nmeros podem ser a chave que nos conduzir ao assassino.
      Talvez um nmero de telefone, ou qualquer tipo de identificao social. Tm algum significado simblico para voc?
      Langdon voltou a olhar para os nmeros, sentindo que ia demorar horas para tirar dali qualquer espcie de significado simblico. Se  que era essa a inteno do Saunire.
       primeira vista, os nmeros pareciam perfeitamente aleatrios. Estava habituado a progresses simblicas que fizessem alguma espcie de sentido, mas tudo ali -. o pentculo, as palavras, os algarismos - parecia dspar ao nvel mais fundamental.
      - Afirmou h pouco - disse Fache - que todas as aes do conservador Saunire aqui na Galeria fizeram parte de um esforo para deixar uma mensagem... culto da deusa, ou qualquer coisa nessa linha? Como  que essa mensagem encaixa no que temos aqui?
      Langdon sabia que a pergunta era retrica. Aquele estranho comunicado no encaixava de maneira nenhuma no seu cenrio de culto da deusa.
      O, draconiano demnio? Oh, santo imperfeito?
      - O texto parece ser uma espcie de acusao - prosseguiu Fache. - No concorda?
      Langdon tentou imaginar os minutos finais de Jacques Saunire, fechado na Grande Galeria, sabendo que estava prestes a morrer. Parecia lgico.
      - Uma acusao contra o seu assassino faz sentido, suponho.
      - O meu trabalho, claro, consiste em pr um nome nessa pessoa. Deixe-me perguntar-lhe o seguinte, senhor Langdon. A seu ver, tirando os nmeros, o que  que esta mensagem tem de mais estranho?
      Mais estranho? Um moribundo barricara-se na galeria, desenhara um pentculo no prprio ventre e rabiscara uma misteriosa acusao no soalho. Tudo ali era estranho!
      - A palavra "draconiano"? - arriscou, dizendo a primeira coisa que lhe veio  cabea. Langdon estava razoavelmente convencido de que uma referncia a Draco, o implacvel poltico do sculo VII a. C., era bastante improvvel como ltimo pensamento.
      - "Draconiano demnio" parece-me uma estranha escolha de palavras.
      - Draconiano? - A voz de Fache soou com uma nota de impacincia. - A escolha de palavras de monsieur Saunire est longe de parecer-me aqui a questo mais importante.
      Langdon no sabia muito bem que questo tinha Fache em mente, mas comeou a suspeitar de que Draco e o capito se teriam dado bastante bem.
      - Jacques Saunire era francs - continuou Fache, secamente. - Vivia em Paris. E no entanto, optou por escrever esta mensagem...
      - Em ingls - terminou Langdon, compreendendo agora aonde o capito queria chegar.
      Fache assentiu.
      - Prcisment. Alguma idia do motivo?
      Langdon sabia que Saunire falava impecavelmente ingls, mas no fazia a mnima idia de que razo o levara a escolher essa lngua para escrever as suas ltimas palavras. Encolheu os ombros.
      Fache voltou a apontar para o pentculo traado no ventre do cadver.
      - Nada a ver com o culto do diabo? Continua tendo certeza?
      Langdon j no tinha certeza de coisa nenhuma.
      - A simbologia e o texto parecem no coincidir. Lamento no poder ajud-lo mais.
      - Talvez isto torne as coisas um pouco mais claras. - Fache afastou-se do corpo e ergueu um pouco mais o projetor de luz negra, fazendo o feixe incidir numa rea maior. - E agora?
      Para espanto de Langdon, um crculo rudimentar brilhou  volta do cadver do conservador. Aparentemente, Saunire deitara-se de costas e fizera rodar a caneta de feltro  sua volta em uma srie de longos arcos, como que inscrevendo-se em um crculo.
      Em um sbito relmpago, o significado tornou-se claro.
      - O Homem de Vitrvio - ofegou Langdon. Saunire criara uma rplica em tamanho natural do mais clebre desenho de Leonardo da Vinci.
      Considerado o desenho anatomicamente mais correto da sua poca, O Homem de Vitrvio de da Vinci tornara-se, nos tempos modernos, um cone da cultura, aparecendo representado em cartazes, bases para copos e camisetas por todo o mundo. O famoso desenho consistia em um crculo perfeito no qual estava inscrita a figura de um homem nu... de braos e pernas estendidos e abertos.
      Da Vinci. Langdon sentiu um arrepio de espanto. A clareza das intenes de Saunire era inegvel. Nos momentos finais da sua vida, o conservador do museu do Louvre despojara-se das roupas e dispusera o seu prprio corpo em uma evidente reproduo de O Homem de Vitrvio.
      O crculo fora o elemento crtico que faltara. Sendo um smbolo de Proteo feminino, o crculo  volta do corpo do homem nu completava a mensagem de da Vinci: harmonia entre o masculino e o feminino. A questo era agora, no entanto, descobrir por que razo Saunire imitara o famoso desenho.
      - Senhor Langdon - disse Fache -, sabe certamente que Leonardo da Vinci tinha uma tendncia para as artes mais obscuras.
      Langdon ficou surpreso pela extenso do conhecimento do policial sobre da Vinci, um conhecimento que sem dvida contribua muito para explicar as suas suspeitas a respeito de um culto diablico. Da Vinci sempre fora um tema embaraoso para os historiadores, especialmente na tradio crist. Apesar do seu gnio visionrio, era um homossexual assumido e um adorador da divina ordem da Natureza, dois "crimes" que o colocavam em perptuo estado de pecado contra Deus. Alm disso, as bizarras excentricidades do artista projetavam uma aura admissivelmente demonaca: da Vinci exumava cadveres para estudar a anatomia humana, mantinha misteriosos dirios em uma ilegvel escrita invertida, acreditava possuir o poder alqumico de transformar o chumbo em ouro, julgava-se at capaz de enganar Deus criando um elixir que adiava a morte, e as suas invenes incluam horrveis e nunca antes imaginados instrumentos de guerra e de tortura.
      A incompreenso gera desconfiana, pensou Langdon.
      At a vastssima produo de deslumbrante arte crist de da Vinci s servira para reforar a sua reputao de hipocrisia espiritual. Aceitando centenas de lucrativas encomendas do Vaticano, Leonardo pintava temas religiosos no como uma expresso das suas prprias crenas mas como uma operao comercial - uma maneira de financiar o estilo de vida opulento que apreciava. Infelizmente, da Vinci era um brincalho que muitas vezes se divertia mordendo pela calada a mo que o alimentava. Incorporava em muitos dos seus quadros religiosos simbolismos escondidos que eram tudo menos cristos: tributos s suas prprias convices e um sutil manguito feito  Igreja. Langdon dera inclusive, na National Gallery de Londres, uma conferncia subordinada ao tema: "A Vida Secreta de Leonardo: O Simbolismo Pago na Arte Crist".
      - Compreendo a sua preocupao - disse -, mas da Vinci nunca chegou verdadeiramente a praticar qualquer espcie de artes negras. Era um homem excepcionalmente espiritual, ainda que em constante conflito com a Igreja. - E enquanto dizia estas palavras, um estranho pensamento acudiu-lhe ao esprito. Olhou novamente para a mensagem escrita no cho. , draconiano demnio! Oh, santo imperfeito!
      - Sim - incitou Fache.
      Langdon pesou cuidadosamente as suas palavras.
      - Estava s pensando que o conservador Saunire partilhava muitas ideologias espirituais com da Vinci, incluindo a preocupao com a tentativa da Igreja de eliminar o sagrado feminino da religio moderna.  possvel que, ao imitar o famoso desenho de da Vinci, estivesse apenas expressando a frustrao que ambos partilhavam relativamente  demonizao da deusa que a Igreja moderna leva a cabo.
      Os olhos de Fache endureceram.
      - Acha que monsieur Saunire est chamando  Igreja santo imperfeito e demnio draconiano?
      Langdon tinha de admitir que era um pouco forado, embora o pentculo parecesse, a um certo nvel, dar fora  idia.
      - Estou apenas dizendo que o senhor Saunire dedicou a vida a estudar a histria da deusa, e que nada nem ningum contribuiu mais para apagar essa histria do que a Igreja Catlica. Parece-me razovel que tivesse tentado exprimir o desapontamento que sentia no seu ltimo adeus.
      - Desapontamento? - perguntou Fache, agora abertamente hostil. - Esta mensagem parece mais enraivecida do que desapontada, diria eu.
      Langdon estava chegando ao fim da pacincia.
      - Capito, pediu-me um palpite sobre o que o senhor Saunire poderia querer dizer, e  isso que estou dando.
      - Que isto  uma acusao  Igreja? - Fache contraiu a mandbula, falando por entre os dentes cerrados. - Senhor Langdon, tenho visto muita morte neste meu trabalho, e deixe-me dizer-lhe uma coisa. Quando um homem  morto por outro homem, no acredito que o seu ltimo pensamento seja escrever uma obscura afirmao espiritual que ningum compreender. Acredito que pensa numa nica coisa. - A voz sibilada do capito cortou o ar. - La vengeance. Acredito que o conservador Saunire escreveu isto para nos dizer quem o matou.
      Langdon ficou olhando para ele.
      - Mas no faz qualquer espcie de sentido.
      - No?
      - No - respondeu, cansado e frustrado. - Disse-me que o Senhor Saunire foi atacado no seu gabinete por algum que aparentemente tinha convidado para entrar.
      - Sim.
      - Parece, portanto, razovel assumir que o conservador Saunire conhecia o seu atacante.
      Fache assentiu.
      - Continue.
      - Se o senhor Saunire conhecia a pessoa que o matou, que espcie de acusao  esta? - Apontou para o cho. - Cdigos numricos? Santos imperfeitos? Demnios draconianos? Pentculos desenhados na barriga? Tudo isto  muito crtico.
      Fache franziu a testa, como se a idia nunca lhe tivesse ocorrido.
      -  verdade.
      - Considerando as circunstncias - continuou Langdon -, julgo que se Saunire quisesse dizer-nos quem o matou, teria escrito o nome dessa pessoa.
      Quando Langdon acabou de dizer estas palavras, um sorriso de satisfao distendeu os lbios de Fache pela primeira vez em toda a noite.
      - Prcisment - disse. - Prcisment.
      Estou testemunhando o trabalho de um mestre, pensou o tenente Collet enquanto ajustava os auscultadores e escutava as palavras de Fache. O agent suprieur sabia que tinham sido momentos como aquele que tinham elevado Fache aos pinculos da Polcia francesa.
      O capito Fache faz o que mais ningum ousa fazer.
      A delicada arte de cajoler era uma habilidade que a moderna investigao policial deixara morrer, uma arte que exigia uma excepcional compostura sob presso. Poucos homens possuam o sangue frio necessrio para este tipo de operao, mas, em Fache, era como uma capacidade inata. A sua conteno e pacincia roavam o robtico. A nica emoo de Fache naquela noite parecia ser uma intensa determinao, como se capturar aquele criminoso fosse de algum modo uma questo pessoal. As instrues que dera aos seus agentes, uma hora antes, tinham sido inusitadamente sucintas e seguras.
      Sei quem assassinou o conservador Jacques Saunire, dissera. Sei o que tenho de fazer.
      Nada de erros, esta noite.
      E at ao momento, nenhum erro fora cometido.
      Collet ainda no conhecia as provas em que Fache baseava a sua certeza da culpabilidade do suspeito, mas sabia que mais valia no questionar os instintos do Touro.
      A intuio de Fache parecia quase sobrenatural. Deus murmura-lhe ao ouvido, insistira certa vez um agente na sequncia de uma demonstrao particularmente impressionante do sexto sentido do capito. Collet via-se forado a admiti-lo: se havia um Deus, Fache fazia parte da sua lista especial de amigos. O capito ouvia missa e confessava-se com zelosa regularidade - muito mais do que a frequncia nos dias santos observada por outros altos funcionrios em nome das boas relaes pblicas. Quando o Papa visitara Paris, alguns anos antes, Fache usara toda a sua influncia para conseguir a honra de uma audincia, e agora tinha, pendurada na parede do gabinete, uma fotografia em que aparecia ao lado do pontfice. O Touro Papal, chamavam-lhe em segredo os seus subordinados.
      Collet achava irnico o fato de as raras tomadas de posio pblicas de Fache nos ltimos anos terem sido para manifestar a sua virulenta reao ao escndalo da pedofilia praticada por sacerdotes. Esses padres deviam ser enforcados duas vezes, declarara.
      Uma pelos seus crimes contra as crianas, outra por enlamearem o bom-nome da Igreja Catlica. Collet tinha a estranha sensao de que era este ltimo crime que mais enfurecia o capito Fache.
      Voltando-se para o computador porttil, Collet passou a ocupar-se da outra metade das suas responsabilidades naquela noite: o sistema de localizao GPS. A imagem no visor mostrava um plano pormenorizado da Ala Denon, fornecido pelo Gabinete de Segurana do Louvre. Seguindo com os olhos o labirinto de galerias e corredores, depressa encontrou o que procurava. Bem no corao da Grande Galeria, um minsculo ponto vermelho piscava.
      La marque.
      Fache mantinha a sua presa com rdea curta. E por boas razes. Robert Langdon j provara ser um sujeito muito esperto.
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO NOVE
      
      
      Para ter certeza de que a sua conversa com o senhor Langdon no seria interrompida, Bezu Fache desligara o celular. Infelizmente, tratava-se de um modelo dos mais caros, equipado com um rdio bi-direccional que, contrariando as suas ordens, um dos agentes estava naquele preciso instante usando para contact-lo.
      - Capitaine - crepitou o telefone, como um walkie-talkie.
      Fache cerrou os dentes, furioso. No conseguia imaginar qualquer razo suficientemente importante para que Collet interrompesse aquela surveillance cache, sobretudo em um ponto to decisivo.
      Dirigiu a Langdon um calmo olhar de desculpa.
      - Um momento, por favor. - Tirou o telefone do cinto e apertou o boto do rdio. - Oui?
      - Capitaine, un agent du Dpartement de Cryptologie est arriv. A fria de Fache evaporou-se instantaneamente. Um criptlogo? Embora a escolha do momento tivesse sido pssima, tratava-se provavelmente de boas notcias. Depois de ter descoberto o crtico texto de Saunire no cho da Galeria, Fache enviara por computador fotos do local do crime para o Departamento de Criptologia, na esperana de que algum conseguisse explicar-lhe o que estava o conservador tentando dizer. A chegada do criptlogo devia significar que algum conseguira decifrar a mensagem.
      - Neste momento estou ocupado - disse Fache, e o seu tom deixava bem claro que algum tinha pisado uma linha. - Diga ao criptlogo que espere no posto de comando.
      Falarei com ele quando terminar.
      - Com ela - corrigiu a voz. -  a agente Neveu.
      Fache estava achando cada vez menos graa quela chamada. Sophie Neveu era um dos maiores erros da DCPJ. Uma jovem dchiffreuse parisiense que estudara criptografia na Inglaterra, no Royal Holloway, Sophie Neveu fora impingida a Fache dois anos, no mbito da tentativa do ministrio de incorporar mais mulheres na fora policial.
      Esta incurso do ministro no politicamente correto estava, na opinio de Fache, enfraquecendo o Departamento. As mulheres no s no tinham as qualidades fsicas exigidas pelo trabalho na Polcia, como a sua simples presena constitua uma perigosa distrao para os agentes em campo. Como Fache sempre temera, Sophie Neveu estava revelando-se mais distrada do que a maior parte das suas colegas.
      Com trinta e dois anos, tinha uma determinao que raiava o obstinado. A sua entusistica adeso  nova metodologia criptolgica britnica exasperava os veteranos criptlogos franceses mais graduados. E, o que era de longe o aspecto mais perturbador para Fache, havia a inescapvel verdade universal de que, em um escritrio cheio de homens de meia-idade, a presena de uma jovem atraente desviava inevitavelmente as atenes do trabalho em curso.
      - A agente Neveu insiste em falar imediatamente com o senhor, capito - disse o homem que falava pelo rdio. - Tentei impedi-la, mas j est a caminho da Galeria.
      Fache recuou um passo, incrdulo.
      - Isso  inaceitvel! Dei ordens expressas...
      Por um instante, Robert Langdon pensou que Bezu Fache estava sofrendo uma apoplexia. O capito ia a meio da frase quando parou de mover o queixo e esbugalhou os olhos, coruscantemente fixos em um ponto acima do ombro dele. Antes que pudesse voltar-se, ouviu uma voz feminina dizer nas suas costas:
      - Excusez-moi, messieurs.
      Langdon completou a volta e viu uma jovem aproximar-se. Caminhava pelo corredor em direo a eles com passadas longas e fluidas... e um ar de absoluta segurana. Vestia informalmente - um comprido camisolo de l creme que lhe chegava aos joelhos e calas pretas -, era atraente e poderia andar por volta dos trinta anos - Os espessos cabelos castanhos caam-lhe soltos sobre os ombros, emoldurando um rosto agradvel. Ao contrrio das falsas louras deslavadas que adornavam as paredes das cataratas de Harvard, aquela mulher era saudvel, com uma beleza sem retoques e uma autenticidade que irradiavam uma autoconfiana impressionante.
      Para seu enorme espanto, a mulher avanou diretamente para ele e estendeu-lhe a mo.
      - Monsieur Langdon, sou a agente Neveu, do Departamento de Criptologia da DCPJ. - As palavras pareciam enrolar-se agradavelmente  volta do ligeiro sotaque franco-ingls. -  um prazer conhec-lo.
      Langdon apertou-lhe a mo macia e sentiu-se por um instante preso ao olhar dela.
      Tinha uns olhos verde-azeitona, incisivos e lmpidos. Fache inspirou fundo, claramente preparando-se para disparar uma reprimenda.
      - Capito - disse ela, voltando-se rapidamente e adiantando-se -, peo desculpas pela interrupo, mas...
      - Ce n'est pas le moment! - rosnou Fache.
      - Tentei telefonar-lhe - continuou Sophie, falando em ingls, como que num gesto de cortesia para com Langdon -, mas o seu celular estava desligado.
      - Desliguei-o por uma boa razo - sibilou Fache. - Estou falando com o senhor Langdon.
      - Decifrei o cdigo numrico - anunciou ela, calmamente.
      Langdon sentiu o pulso bater mais depressa. Decifrou o cdigo?
      Fache deu a impresso de no saber muito bem como reagir.
      - Antes de explicar - continuou Sophie -, tenho uma mensagem urgente para o senhor Langdon.
      O rosto de Fache adquiriu uma expresso de profunda contrariedade.
      - Para o senhor Langdon?
      Sophie assentiu, voltando-se de novo para Langdon.
      - A sua embaixada pede-lhe que entre em contato, senhor Langdon. Tm uma mensagem para o senhor, dos Estados Unidos.
      Langdon reagiu com surpresa. A excitao que sentira por causa do cdigo deu lugar a uma vaga preocupao. Uma mensagem dos Estados Unidos? Tentou imaginar quem poderia estar tentando entrar em contato com ele. S alguns colegas de Harvard sabiam que se encontrava em Paris.
      Fache contraiu a larga mandbula ao ouvir a notcia.
      - A embaixada dos Estados Unidos? - perguntou, com um ar desconfiado. - Como eles souberam que poderiam encontrar o senhor Langdon aqui?
      Sophie encolheu os ombros.
      - Aparentemente, telefonaram para o hotel e o concierge disse-lhes que o senhor
      Langdon tinha sado com um agente da DCPJ.
      Fache parecia confuso.
      - E a embaixada contatou o Departamento de Criptologia da DCPJ?
      - No, senhor - respondeu Sophie, em tom firme. - Quando liguei para a central da DCPJ tentando contact-lo, tinham uma mensagem para o senhor Langdon e pediramme que lhe transmitisse, se conseguisse encontr-lo.
      A testa de Fache cavou-se numa ruga de aparente confuso. Abriu a boca para falar, mas j Sophie tornara a voltar-se para Langdon.
      - Senhor Langdon - disse, tirando do bolso um pequeno pedao de papel -, tenho aqui o nmero do servio de mensagens da embaixada. Pedem-lhe que telefone logo que possa. - Entregou-lhe o papel, olhando-o fixamente. -  melhor fazer a chamada enquanto eu explico o cdigo ao capito Fache.
      Langdon estudou o pedao de papel. Tinha um nmero de telefone de Paris e o de uma extenso.
      - Obrigado - disse, agora francamente preocupado. - Onde  que encontro um telefone?
      Sophie comeou a extrair um celular do bolso do camisolo, mas Fache afastou-a com um gesto da mo. Parecia o Vesvio pronto a entrar em erupo. Sem desviar os olhos de Sophie, pegou seu prprio celular e ofereceu-o.
      - Esta linha  segura, senhor Langdon, Pode us-la.
      Langdon no conseguia perceber porque diabo estava Fache to zangado com a jovem. Sentindo-se pouco  vontade, aceitou o celular. Fache arrastou imediatamente Sophie para alguns metros mais longe e ps-se a descomp-la em voz baixa.
      Simpatizando cada vez menos com o capito, Langdon voltou as costas  estranha confrontao e ligou o celular. Depois de verificar o pedao de papel que Sophie tinha lhe dado, marcou o nmero.
      Ouviu o sinal de chamada.
      Um toque... dois toques... trs toques...
      Finalmente, a ligao foi estabelecida.
      Langdon esperava ouvir a telefonista da embaixada, mas, em vez disso, deu por si escutando um atendedor automtico. Estranhamente, reconheceu a voz gravada na fita.
      Era a de Sophie Neveu.
      - Bonjour, vous tes bien chez Sophie Neveu - disse a voz de mulher. - Je suis absente pour le moment, mais...
      Confuso, Langdon voltou-se para Sophie.
      - Desculpe, senhora Neveu? Julgo que deve ter me dado...
      - No, no,  o nmero correto - interrompeu-o rapidamente Sophie, como se j estivesse  espera da confuso dele. A embaixada tem um sistema de mensagens automtico. Tem de marcar um cdigo de acesso para receber as suas mensagens.
      - Mas... - comeou Langdon.
      -  o nmero de trs dgitos que est no papel que lhe dei.
      Langdon abriu a boca para explicar o estranho engano, mas Sophie lanou-lhe um olhar imperioso que durou apenas um instante. Os olhos verdes enviaram uma mensagem clara como a gua: No faa perguntas. Ligue.
      Cada vez mais confuso, Langdon marcou o nmero da extenso escrito no pedao de papel: 454.
      A mensagem gravada de Sophie foi imediatamente interrompida e Langdon ouviu uma voz eletrnica anunciar em francs: "Tem uma mensagem nova." Aparentemente, 454 era o cdigo de acesso remoto de Sophie para ouvir as suas mensagens quando estava fora de casa.
      Vou ouvir as mensagens desta mulher?
      Langdon ouviu a fita rebobinar. Finalmente, parou, e a mquina voltou a arrancar.
      Langdon escutou. Mais uma vez, a voz era de Sophie.
      - "Senhor Langdon" - dizia, num tom temeroso -, "no reaja a esta mensagem. Limite-se a ouvir calmamente. Encontra-se em perigo neste preciso instante. Siga  risca as minhas instrues."
      CAPTULO DEZ
      
      
      Silas estava sentado ao volante do Audi preto que o Professor lhe arranjara, olhando para a grande igreja de Saint-Sulpice. Iluminadas de baixo pela bateria de projetores, as duas torres sineiras erguiam-se como firmes sentinelas acima do comprido corpo do edifcio. De ambos os flancos, mergulhadas na sombra, sobressaa uma fila de elegantes arcobotantes, como as costelas de um belo animal.
      Os infiis usaram uma casa de Deus para esconder a Chave de Abbada. Mais uma vez, a irmandade confirmara a sua lendria reputao de impostura e engano. Silas desejava ardentemente encontrar a Chave de Abbada e entreg-la ao Professor, para que pudessem finalmente recuperar aquilo que a irmandade tinha havia tanto tempo roubado dos fiis.
      Que poderosa vai tornar-se a Opus Dei.
      Estacionando o Audi na grande Place de Saint-Sulpice, deserta aquela hora, expeliu com fora o ar dos pulmes, a fim de preparar o esprito para a tarefa que tinha pela frente. As amplas costas ainda lhe doam da mortificao corporal a que se sujeitara havia pouco mais de uma hora, e no entanto essa dor era insignificante em comparao com a angstia da sua vida antes da Opus Dei o ter salvado.
      Mesmo assim, as recordaes assombravam-lhe a alma.
      Liberta o teu dio, ordenou a si mesmo. Perdoa queles que te ofenderam.
      Ao olhar para as torres de pedra de Saint-Sulpice, Silas sentiu o seu to conhecido refluxo... aquela fora que tantas vezes lhe arrastava o esprito para trs no tempo, voltando a fech-lo na priso que fora o seu mundo quando jovem. As recordaes do purgatrio chegaram, como sempre faziam, como uma tempestade para os sentidos... o cheiro de couves podres, o fedor de morte, de urina e fezes humanas. Os gritos de desesperana perdendo-se no vento uivante dos Pireneus e os soluos abafados de homens abandonados.
      Andorra, pensou, sentindo os msculos contrarem-se.
      Incrivelmente, fora naquele estril e esquecido principado, entre a Frana e
      Espanha, tiritando na sua cela de pedra, desejando apenas morrer, que tinha sido salvo.
      Embora ness poca no soubesse.
      O relmpago veio muito depois do trovo.
      Nesse tempo no se chamava Silas, embora j no se lembrasse do nome que o pai e a me tinham lhe dado. Sara de casa quando tinha sete anos. O pai alcoolatra, um corpulento trabalhador das docas, furioso com a chegada de um filho albino, espancava regularmente a mulher, culpando-a pela da embaraadora condio do rapaz. E quando o filho tentava defender a me, era igualmente surrado.
      Uma noite, houve uma luta terrvel, e a me no voltou a levantar-se. O rapaz ficou contemplando o corpo sem vida, sentindo uma intolervel vaga de culpa por ter permitido que aquilo acontecesse.
      Sou eu o culpado!
      Como se uma espcie de demnio lhe controlasse o corpo, foi  cozinha e pegou uma grande faca de talhante. Hipnotizado, dirigiu-se ao quarto onde o pai jazia estendido na cama, mergulhado em um estupor alcolico. Sem dizer uma palavra, o rapaz cravou-lhe a faca nas costas. O pai gritou de dor e tentou voltar-se, mas o filho voltou a esfaque-lo, uma e outra vez, at que a casa ficou silenciosa.
      O rapaz fugiu de casa, mas encontrou as ruas de Marselha igualmente inspitas. O seu aspecto estranho fazia dele um marginal entre os outros jovens foragidos, e foi obrigado a viver sozinho na garagem de uma fbrica abandonada, comendo fruta roubada e peixe apanhado nas docas. As suas nicas companhias eram as esfarrapadas revistas que encontrava no lixo, e com elas aprendeu sozinho a ler. Com o tempo, tornou-se forte. Quando tinha doze anos, uma outra alma perdida, uma garota duas vezes mais velha, troou dele na rua e tentou roubar-lhe a comida. O rapaz bateu nela quase at a morte. Quando o arrancaram de cima dela, as autoridades fizeram-lhe um ultimato: sair de Marselha ou ir para um reformatrio.
      O rapaz desceu a costa at Toulon. A medida que os anos passavam os olhares de piedade na rua transformaram-se em olhares de medo. O rapaz crescera, era agora um jovem poderosamente constitudo. Quando as pessoas cruzavam com ele, ouvia-as murmurar entre si. Um fantasma, diziam, de olhos muito abertos de medo ao verem a sua pele branca. Um fantasma com olhos de demnio!
      E ele sentia-se como um fantasma... transparente... flutuando de porto em porto.
      As pessoas pareciam olhar atravs dele.
      Aos dezoito anos, em uma cidade porturia, quando tentava roubar uma caixa de presunto curado de um cargueiro, foi apanhado por dois tripulantes. Os dois marinheiros que comearam a lhe bater cheiravam a cerveja, como o pai. As recordaes de medo e de dio subiram  superfcie como um monstro vindo das profundezas. Partiu o pescoo do primeiro marinheiro com as mos nuas, e s a chegada da polcia salvou o segundo da mesma sorte.
      Dois meses mais tarde, com algemas nos pulsos e nos tornozelos, chegou a uma priso em Andorra.
      Voc  branco como um fantasma, troaram os outros presos quando os guardas o escoltaram at  cela, nu e gelado. Mira el espectro. Talvez o fantasma passe atravs das paredes!
      No decurso dos anos, a pele e a alma do jovem mirraram at que ele soube que era transparente.
      Sou um fantasma. No tenho peso.
      Yo soy un espectro... plido como un fantasma... caminando este mundo a solas.
      Uma noite, o Fantasma foi acordado pelos gritos dos companheiros de priso. No sabia que fora invisvel sacudia o cho onde estava deitado, nem que mo poderosa fazia tremer a argamassa da sua cela de pedra, mas quando se levantou de um salto, um pedregulho enorme caiu no lugar exato onde estivera dormindo. Erguendo os olhos para ver de onde viera a pedra, descobriu um buraco na parede que tremia e, para l dele, algo que no via havia mais de dez anos. A Lua.
      Enquanto a terra ainda tremia, o Fantasma deu por si a rastejar pelo estreito tnel, saiu cambaleando para o ar livre, desceu a encosta da montanha em direo aos bosques. Correu toda a noite, sempre descendo, delirante de fome e de cansao.
       beira da inconscincia, viu-se, ao nascer do dia, em um espao aberto onde uma linha-frrea rasgava uma cicatriz na floresta. Continuou a caminhar como num sonho, seguindo os trilhos. Vendo um vago vazio, enfiou-se nele, em busca de abrigo e descanso. Quando acordou, o comboio estava em andamento. H quanto tempo? Onde estou? Uma dor crescia-lhe nas entranhas. Estarei morrendo? Voltou a dormir. Desta vez, acordou com algum gritando com ele, batendo-lhe, e atirando-o para fora do vago de carga. Coberto de sangue, perambulou pelos arredores de uma pequena aldeia, procurando em vo qualquer coisa que comer. Finalmente, muito fraco para dar mais um passo, deixou-se cair na beira da estrada e mergulhou na inconscincia.
      A luz veio lentamente, e o Fantasma perguntou a si mesmo quanto tempo estivera morto. Um dia? Trs dias? No importava. A cama era macia como uma nuvem, e o ar  volta dele tinha o cheiro doce de velas. Jesus estava l, olhando para ele. Estou aqui, disse Jesus. A pedra foi rolada para o lado, e voc voltou a nascer.
      Dormiu e acordou. O nevoeiro envolveu-lhe os sonhos. Nunca acreditara no paraso, e no entanto Jesus estava velando por ele. Apareceu comida junto  cama, e o Fantasma comeu-a, quase capaz de sentir a carne materializando-se nos ossos. Voltou a adormecer. Quando acordou, Jesus continuava a sorrir-lhe, e disse: Voc est salvo, meu filho. Abenoados aqueles que seguem o meu caminho.
      Adormeceu mais uma vez.
      Foi um grito de angstia que arrancou o Fantasma ao sono. O seu corpo saltou da cama e avanou tropegamente pelo corredor em direo ao som dos gritos. Entrou em uma cozinha e viu um homem grande batendo em outro menor. Sem saber porqu, o Fantasma agarrou o homem grande e atirou-o contra a parede. O homem fugiu, deixando o Fantasma olhando para o corpo estendido de um jovem que vestia uma sotaina de padre. Tinha o nariz quebrado. Erguendo-o nos braos, o Fantasma levou-o para um sof.
      - Obrigado, meu amigo - disse o padre, em um francs desajeitado. - O dinheiro das esmolas  uma tentao para os ladres. Voc falou francs no seu sono. Tambm fala espanhol?
      O Fantasma abanou a cabea.
      - Como se chama?
      O Fantasma no se lembrava do nome que os pais lhe tinham dado. Tudo o que ouvia eram as insultuosas alcunhas dos guardas na priso.
      O padre sorriu.
      - No h problema. Chamo-me Manuel Aringarosa, sou missionrio e vim de Madrid. Mandaram-me para construir uma igreja para a Obra de Deus.
      - Onde estou? - A voz dele soou cava.
      - Em Oviedo. No Norte de Espanha.
      - Como foi que cheguei aqui?
      - Algum te deixou  minha porta. Estava doente. Dei-te de comer. Est aqui h muitos dias.
      O Fantasma estudou o seu jovem salvador. Havia j muitos anos que ningum tinha para com ele um gesto de bondade.
      - Obrigado, padre.
      O padre levou um dedo aos lbios ensanguentados.
      - Eu  que tenho de lhe agradecer, meu amigo.
      Quando o Fantasma acordou na manh seguinte, o mundo pareceu-lhe mais claro.
      Olhou para o crucifixo pregado na parede por cima da cama. Apesar de j no lhe falar, sentiu uma aura reconfortante na sua presena. Sentando-se na cama, ficou surpreendido ao ver um recorte de jornal em cima da mesa-de-cabeceira. O artigo estava redigido em francs e tinha data da semana anterior. Quando leu a histria, encheu-se de medo. Falava de um tremor de terra, na montanha que destrura uma priso e libertara vrios criminosos perigosos.
      O corao comeou a martelar-lhe o peito. O padre sabe quem eu sou! Sentiu ento algo que havia muitos anos no sentia. Vergonha. Culpa.  mistura com o medo de ser apanhado. Saltou da cama. Para onde posso fugir?
      - O Livro dos Atos - disse uma voz, da porta. O Fantasma voltou-se, assustado. O jovem padre sorria ao entrar no quarto. Tinha um penso desajeitadamente feito no nariz e estendia-lhe uma velha Bblia.
      - Encontrei uma em francs, para voc. O captulo est marcado.
      Inseguro, o Fantasma pegou a Bblia e olhou para o captulo que o padre marcara.
      Atos 16. Os versculos falavam de um preso chamado Silas que jazia nu e espancado na sua cela, cantando hinos a Deus. Quando chegou ao versculo 26, o Fantasma abriu a boca de espanto.
      "... Subitamente, houve um grande terramoto, de modo que os alicerces da priso foram abalados, e todas as portas caram."
      Ergueu vivamente os olhos para o padre.
      O padre sorriu-lhe carinhosamente.
      - De agora em diante, meu amigo, se no tem outro nome, passarei a cham-lo Silas.
      O Fantasma assentiu. Silas. Fora-lhe dada carne. O meu nome  Silas.
      -  hora do caf da manh - disse o padre.  Voc vai ter de recuperar as foras, para me ajudar a construir esta igreja.
      Seis mil e quinhentos metros acima do Atlntico, o vo 1618 da Alitalia era sacudido pela turbulncia, e os passageiros agitavam-se, nervosos. O bispo Aringarosa quase no se deu conta. Os seus pensamentos concentravam-se no futuro da Opus Dei.
      Ansioso por saber como estavam correndo as coisas em Paris, desejava poder telefonar a Silas. Mas no podia. O Professor ocupara-se disso.
      -  para sua prpria segurana - explicara o Professor, falando em ingls com sotaque francs. - Conheo o suficiente sobre comunicaes eletrnicas para saber que podem ser interceptadas. As consequncias poderiam ser desastrosas para voc.
      Aringarosa sabia que ele tinha razo. O Professor parecia ser um homem excepcionalmente cuidadoso. No lhe revelara a sua identidade, e no entanto provara ser algum que merecia ser obedecido. Ao fim e ao cabo, conseguira uma informao secretssima. Os nomes dos quatro principais membros da irmandade! Fora esta uma das razes que convenceram o bispo Aringarosa de que o Professor era verdadeiramente capaz de obter o espantoso prmio que afirmava ter ao seu alcance.
      - Bispo - dissera-lhe o Professor -, tratei de tudo. Para que o meu plano tenha xito, tem de permitir que Silas responda unicamente a mim durante alguns dias. No falaro um com o outro. Comunicarei com ele atravs de canais seguros.
      - Voc o tratar com respeito?
      - Um homem de f merece-o ao mais alto grau.
      - Muito bem. Compreendo. Eu e Silas no voltaremos a falar at isto estar resolvido.
      - Fao isto para proteger a sua identidade, a identidade de Silas e o meu investimento.
      - O seu investimento?
      - Bispo, se a sua nsia de manter-se a par dos progressos o atirar para uma priso, no poder pagar os meus honorrios.
      O bispo sorrira.
      - Tem razo. Os nossos desejos so coincidentes. Fique com Deus.
      Vinte milhes de euros, pensou o bispo, olhando pela janela do avio.
      Aproximadamente o mesmo em dlares americanos. Uma ninharia por uma coisa to formidvel. Sentiu uma renovada confiana em que o Professor e Silas no falhariam. O dinheiro e a f eram motivaes muito poderosas.
      
      
      
      
      CAPTULO ONZE
      
      
      - Une plaisanterie numrique? - Bezu Fache estava lvido, olhando, incrdulo e furioso, para Sophie Neveu. Uma brincadeira numrica? - A sua opinio profissional sobre o cdigo do conservador Saunire  que se trata de uma brincadeira matemtica?
      Fache no conseguia compreender a ousadia daquela mulher. No s acabava de aparecer ali sem autorizao, como estava agora tentando convenc-lo de que Saunire, nos momentos finais da sua vida, se lembrara de deixar-lhes uma charada numrica.
      - Este cdigo - explicou rapidamente Sophie, em francs  simplista ao ponto da absurdidade. Monsieur Saunire deve ter sabido que o decifraramos imediatamente. -
      Tirou um pedao de papel do bolso do camisolo e estendeu-o a Fache. - Aqui tem a soluo.
      Fache olhou para o papel.
      1-1-2-3-5-8-13-21
      - S isto? - ladrou. - Tudo o que fez foi pr os nmeros por ordem crescente.
      Sophie teve o descaramento de esboar um sorriso satisfeito.
      - Exatamente
      O tom de Fache desceu para um rosnado gutural.
      - Agente Neveu, no fao idia de para onde diabo vai com isto, mas sugiro que chegue l depressa. - Lanou um olhar ansioso a Langdon, que estava ali perto com o celular encostado ao ouvido, aparentemente ainda escutando a mensagem da embaixada americana.
      Pela lividez que lhe cobria o rosto, deduziu que eram ms notcias.
      - Capito - disse Sophie, com um tom perigosamente desafiador -, a sequncia de nmeros que tem na mo  uma das mais famosas progresses matemticas da Histria.
      Fache no imaginava que existisse sequer uma progresso matemtica que merecesse o epteto de famosa, e com toda certeza no gostou do tom deslocado de Sophie. -  a sequncia Fibonacci - continuou ela, apontando para o pedao de papel que Fache continuava a segurar. - Uma progresso em que cada termo  igual  soma dos dois que o antecedem.
      Fache estudou os nmeros. Cada termo era de fato igual  soma dos dois anteriores, mas continuava a no ver que relevncia poderia tudo aquilo ter no caso da morte de Jacques Saunire.
      - O matemtico Leonardo Fibonacci criou essa sucesso de nmeros no sculo XIII. Obviamente, no pode ser coincidncia o fato de todos os nmeros que o conservador Saunire escreveu no cho pertencerem  famosa sequncia Fibonacci.
      Fache ficou olhando para ela durante vrios instantes.
      - Muito bem, se no  coincidncia, far o favor de me explicar por que razo decidiu Jacques Saunire fazer esta coisa? Que est ele dizendo? O que  que isto significa?
      Sophie encolheu os ombros.
      - Absolutamente nada.  essa a questo. Trata-se de uma brincadeira criptogrfica extremamente simplista. Como pegar as palavras de um poema famoso e disp-las de uma forma aleatria para ver se algum consegue perceber o que todas elas tm em comum.
      Fache deu um ameaador passo em frente, colocando o rosto a poucos centmetros do de Sophie.
      - Espero com toda a franqueza que tenha uma explicao muito mais satisfatria do que essa.
      As feies de Sophie tornaram-se surpreendentemente duras quando replicou:
      - Capito, considerando o que tem aqui em jogo esta noite, julguei que gostaria de saber que h a possibilidade do conservador Saunire estar brincando consigo. Parece no ser o caso. vou informar o diretor da Criptologia de que j no precisa dos nossos servios.
      E com esta ameaa, fez meia volta e afastou-se pelo caminho por onde tinha vindo.
      Aturdido, Fache viu-a desaparecer na escurido. Ter enlouquecido? Sophie Neveu acabava de redefinir o conceito de suicdio profissional.
      Voltou-se para Langdon, que continuava ao telefone com um ar ainda mais preocupado do que antes, ouvindo atentamente a sua mensagem, da embaixada americana. Bezu Fache desprezava muitas coisas... mas poucas lhe mereciam tanta raiva como a embaixada americana.
      Fache e o embaixador entravam em conflito numa base regular por causa de assuntos de Estado comuns - sendo o campo de batalha mais frequente a aplicao da lei aos cidados americanos em visita a Frana. Quase todos os dias, a DCPJ prendia estudantes americanos dos programas de intercmbio por posse de drogas, homens de negcios americanos por solicitarem os servios de prostitutas menores de idade, turistas americanos por furtos em lojas e destruio de propriedade. Legalmente, a embaixada podia intervir e extraditar os cidados culpados de volta para os Estados Unidos, onde se safavam com uma simples reprimenda.
      E era o que a embaixada invariavelmente fazia.
      L'masculation de la Police Judiciaire, chamava-lhe Fache. A Paris Match publicara recentemente um cartoon em que Fache aparecia como um co-polcia tentando morder um criminoso americano, mas sendo impedido de faz-lo por estar acorrentado  embaixada dos Estados Unidos.
      Mas no esta noite, pensou Fache. H muito em jogo.
      Quando desligou o telefone, Robert Langdon parecia doente.
      - Tudo bem? - perguntou Fache. Langdon abanou debilmente a cabea.
      Ms notcias de casa, calculou Fache, notando que Langdon transpirava ligeiramente ao devolver-lhe o celular.
      - Um acidente - murmurou Langdon, olhando para o capito com uma expresso estranha. - Um amigo... - Fez uma pausa. - Tenho de regressar logo de manh.
      Fache no tinha a mnima dvida de que o choque refletido na expresso de Langdon era genuno, mas sentiu que havia ali uma outra emoo, como se um medo distante estivesse de repente tremeluzindo nos olhos do americano.
      - Lamento muito - disse, observando Langdon com ateno. - Quer sentar-se? - perguntou, apontando para um dos bancos da galeria.
      Langdon assentiu com um ar ausente e deu alguns passos na direo do banco.
      Ento deteve-se, parecendo cada vez mais confuso.
      - Na realidade, acho que preciso utilizar os lavabos.
      Fache franziu mentalmente o sobrolho, irritado pelo atraso.
      - Os lavabos. Com certeza. Faamos uma pausa de alguns minutos. - Apontou na direo de onde tinham vindo. - Os lavados ficam perto do gabinete do conservador.
      Langdon hesitou, apontando por sua vez na direo oposta, para o outro extremo da galeria.
      - Se bem me lembro, h lavabos bem mais perto, ali no fundo.
      Fache percebeu que Langdon tinha razo. Estavam a cerca de dois teros do comprimento da Galeria, que terminava daquele lado em um par de lavabos.
      - Quer que v com voc?
      Langdon abanou a cabea, j afastando-se.
      - No  necessrio. Acho que gostaria de ficar sozinho por alguns minutos.
      Fache no ficou muito entusiasmado com a idia de ter Langdon perambulando sozinho por ali, mas consolou-se ao pensar que a Grande Galeria era um beco cuja nica sada se situava precisamente no extremo oposto: a grade por baixo da qual tinham entrado. Embora os regulamentos do Departamento de Incndios exigissem vrias sadas de emergncia em um espao to vasto como aquele, essas sadas tinham sido automaticamente seladas quando Saunire acionara o sistema de segurana. Claro que o sistema fora entretanto restabelecido, mas no importava: as portas exteriores, se abertas, fariam disparar o alarme, e, alm disso, estavam vigiadas Por agentes da DCPJ.
      Langdon no tinha como sair dali sem que ele o visse.
      - Tenho de regressar por um instante ao gabinete do conservador Saunire - disse.
      - Por favor, v diretamente ter comigo, senhor Langdon. H outras coisas que precisamos discutir.
      Langdon fez-lhe um lento aceno com a mo antes de desaparecer nas sombras.
      Fazendo meia volta, Fache caminhou irritado na direo oposta. Chegado  grade, passou por baixo dela, seguiu o corredor e entrou de rompante no posto de comando instalado no gabinete de Saunire.
      - Quem autorizou Sophie Neveu a entrar neste edifcio? berrou.
      Collet foi o primeiro a responder:
      - Ela disse aos guardas do exterior que tinha decifrado o cdigo.
      Fache olhou em redor.
      - Foi embora?
      - No est consigo?
      - Foi embora. - Fache lanou um olhar ao corredor mergulhado em escurido.
      Aparentemente, Sophie no se sentira com disposio para conversas com os colegas a caminho da sada.
      Por um instante, considerou a possibilidade de contactar os guardas colocados no trio subterrneo e ordenar-lhes que detivessem Sophie e a arrastassem de volta ao gabinete antes que pudesse abandonar o local. Mas ento pensou melhor. Percebeu que aquilo era apenas o seu orgulho falando... querer ter a ltima palavra. J tivera distraes mais do que suficientes naquela noite.
      Cuide da agente Neveu mais tarde, disse a si mesmo, j antecipando o prazer de coloc-la na rua. Expulsando Sophie dos seus pensamentos, ficou por instantes olhando para o cavaleiro miniatura de p em cima da mesa de Saunire. Voltou-se ento para Collet.
      - Ele est no visor?
      Collet assentiu com a cabea e fez rodar o computador. O ponto vermelho era claramente visvel no plano do piso, piscando metodicamente em uma diviso marcada com as palavras TOILETTES PUBLIQUES.
      - timo - disse Fache, acendendo um cigarro e saindo para o corredor. - Preciso fazer um telefonema. Certifique-se de que os lavabos so o nico lugar onde Langdon vai.
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO DOZE
      
      
      Robert Langdon sentiu-se ligeiramente tonto enquanto se encaminhava para o fundo da Grande Galeria, repassando mentalmente a mensagem telefnica de Sophie.
      No fim do corredor, sinais iluminados com as silhuetas masculina e feminina que em todo o mundo eram reconhecidas como smbolo das instalaes sanitrias guiaram-no atravs de uma espcie de labirinto de divisrias decoradas com gravuras italianas e destinadas a ocultar os lavabos da vista dos visitantes.
      Encontrou o dos homens, abriu a porta e acendeu a luz. Estava vazio.
      Dirigiu-se aos lavatrios, molhou o rosto com gua fria, tentando acordar. Duas luzes fluorescentes refletiam-se nos azulejos brancos e o local cheirava a amnia.
      Quando estava secando o rosto com a toalha, ouviu a porta abrir-se atrs dele. Voltou-se vivamente.
      Sophie Neveu entrou, com uma expresso de medo nos olhos verde-acinzentados.
      - Ainda bem que veio. No temos muito tempo.
      Langdon ficou onde estava, olhando, confuso, para a agente Sophie Neveu, do Departamento de Criptologia da DCPJ. Minutos antes, ouvira a mensagem dela, pensando que a recm-aparecida criptloga devia ser louca. E no entanto, quanto mais ouvia, mais se convencia de que Sophie Neveu estava falando srio. (No reaja a essa Mensagem. Limite-se a ouvir calmamente. Encontra-se em perigo neste preciso instante. 
      Siga  risca as minhas instrues.) Cheio de incerteza, decidira fazer exatamente o que Sophie sugeria. Dissera a Fache que a mensagem telefnica era a respeito de um amigo que sofrera um acidente, nos Estados Unidos. Depois pedira para utilizar os lavabos do fundo da Grande Galeria.
      Sophie estava agora ali  sua frente, ainda ofegando depois de ter voltado para trs correndo.  luz fluorescente, Langdon ficou surpreendido ao verificar que o seu ar de inflexvel determinao irradiava de feies inesperadamente suaves. S o olhar era penetrante, e a justaposio evocava imagens de um retrato de Renoir com vrias camadas... velado mas claro, com uma ousadia que de um certo modo conservava o seu vu de mistrio.
      - Queria avis-lo, senhor Langdon... - comeou Sophie, ainda tentando normalizar a respirao -, de que se encontra sous surveillance cache. Sob observao dissimulada. - Enquanto falava, o seu ingls com sotaque ecoava nas paredes de azulejos, dando-lhe  voz um timbre cavo.
      - Mas... porqu? - perguntou Langdon. Sophie j lhe dera uma explicao pelo telefone, mas queria ouvi-la da boca dela.
      - Porque - respondeu Sophie, dando um passo em frente -, para o capito Fache, o principal suspeito deste assassinato  o senhor.
      Langdon estava preparado para as palavras, mas mesmo assim continuaram a parecer-lhe perfeitamente ridculas. Segundo Sophie, tinham-no levado ao Louvre, naquela noite, no como simbologista e sim como suspeito, e estava, naquele  preciso instante, sendo alvo involuntrio de um dos mtodos de interrogatrio preferidos da DCPJ - a surveillance cache -, um hbil engano em que a Polcia convidava calmamente o suspeito para o local do crime e o interrogava na esperana de que o nervosismo o levasse a um deslize auto-incriminatrio.
      - Olhe no bolso esquerdo do seu casaco - disse Sophie. Encontrar uma prova de que esto vigiando-o.
      Langdon sentia-se cada vez mais apreensivo. Ver no bolso? Tudo aquilo soava a truque de magia de feira. - olhe - insistiu Sophie.
      Confuso, Langdon meteu a mo no bolso esquerdo do casaco de tweed - um casaco que nunca usava. Procurou no interior, e no encontrou nada. Que raio voc estava esperando? Comeou a perguntar a si mesmo se Sophie no seria de fato louca.
      Foi ento que os seus dedos tocaram algo inesperado. Pequeno e duro. Pegando no minsculo objeto com as pontas dos dedos, tirou-o do bolso e ficou olhando para ele, estupefato. Era um disco metlico, mais ou menos do tamanho de uma pilha de relgio.
      Nunca vira uma coisa daquelas.
      - Que...?
      -  um sinalizador GPS - explicou Sophie. - Transmite continuamente a sua localizao para um satlite do Sistema Global de Posicionamento que a DCPJ pode monitorar. Usamo-os para acompanhar as movimentaes de certas pessoas. So exatos com uma margem de erro pouco superior a meio metro em qualquer parte do mundo. Puseram-lhe uma trela electrnica. O agente que foi busc-lo no hotel enfiou-o no bolso antes de sarem do quarto.
      Langdon recordou o que se passara no hotel... o banho apressado, vestir-se, o agente da DCPJ a estendendo-lhe delicadamente o casaco de tweed quando se preparavam para sair. Est frio l fora, senhor Langdon, dissera o tenente. A Primavera em Paris no  exatamente como as suas canes a descrevem. E ele agradecera e vestira o casaco.
      Os olhos verde-azeitona de Sophie brilhavam intensamente.
      - No lhe falei do dispositivo de localizao mais cedo porque no queria que se pusesse a procurar nos bolsos diante do Fache. Ele no pode saber que o encontrou.
      Langdon no fazia idia de como responder.
      - Puseram-lhe o GPS porque pensaram que poderia tentar fugir. - Fez uma pausa.
      - Na realidade, esto na esperana de que tente fugir; seria uma boa prova adicional.
      - Porque eu haveria de fugir? - perguntou Langdon. - Sou inocente!
      - Fache acha que no.
      Furioso, Langdon dirigiu-se a um dos caixotes de lixo para jogar fora o pequeno disco metlico.
      - No! - Sophie agarrou-lhe o brao, detendo-o. - Deixe-o No bolso. Se jog-lo fora, o sinal deixar de deslocar-se, e eles sabero que encontrou o sinalizador. Fache s o deixou sozinho porque pode sempre saber onde o senhor se encontra. Se suspeitar que descobriu o que est fazendo... - Sophie no terminou a frase. Em vez disso, tirou o pequeno disco de metal da mo de Langdon e voltou a enfiar-lo no bolso do casaco. - O sinalizador fica onde estava pelo menos por enquanto.
      Langdon sentia-se completamente perdido.
      - Como diabo pode o capito Fache acreditar que eu matei Jacques Saunire?
      - Tem alguns motivos bastante razoveis para suspeitar de voc
      - A expresso de Sophie era sombria. - H um indcio que ainda no viu. Fache teve o cuidado de escond-lo.
      Langdon limitou-se a olhar para ela.
      - Lembra-se das trs linhas de texto que o conservador Saunire escreveu no cho?
      Langdon assentiu. As palavras e os nmeros estavam gravadas na memria.
      A voz de Sophie reduziu-se a um murmrio:
      - Infelizmente, o que viu no era a mensagem completa. Havia uma quarta linha que Fache fotografou e depois apagou antes do senhor chegar.
      Embora soubesse que a tinta solvel de uma caneta de marca de gua era facilmente lavvel, Langdon no conseguia imaginar porque motivo teria Fache eliminado uma prova.
      - A ltima linha da mensagem - continuou Sophie - era algo que o capito Fache no queria que visse, senhor Langdon. Fez uma pausa. - Pelo menos, antes de ter arrancado tudo o que pudesse. - Tirou do bolso do camisolo uma impresso de computador de uma fotografia e comeou a desdobr-lo. - O capito Fache enviou por email fotografias do local do crime para o Departamento de Criptologia, na esperana de que algum de ns conseguisse entenderr o que o conservador Saunire queria dizer.
      Esta  uma foto da mensagem completa.
      E estendeu o papel a Langdon.
      Confuso, Langdon olhou para a imagem. A fotografia em grande plano mostrava a mensagem escrita no soalho de parquet. A ltima linha atingiu-o como um pontap no estmago.
      
      13-3-2-21-1-1-8-5
      O, Draconian devil!
      Oh, lame saint!
      P.S. Find Robert Langdon
      
      
      
      CAPTULO TREZE
      
      
      Durante vrios segundos, Langdon ficou olhando. estupefato, para a fotografia do ps-escrito de Saunire. P.S. Encontrar Robert Langdon. Sentiu como se o cho estivesse fugindo debaixo dos seus ps. Jacques Saunire deixou um ps-escrito com o meu nome? Por mais que se esforasse, no conseguia imaginar porqu.
      - Compreende agora - perguntou Sophie, com ansiedade no olhar - por que razo o capito Fache o trouxe aqui esta noite e por que razo  o principal suspeito?
      A nica coisa que Langdon compreendia naquele momento era a razo por que Fache fizera aquele sorriso de satisfao quando ele sugerira que Saunire teria escrito o nome do seu assassino.
      Encontrar Robert Langdon.
      - Porque Saunire escreveria uma coisa destas? - exaltou-se Langdon, com a confuso dando lugar  raiva. - Porque eu haveria de querer mat-lo?
      - Fache ainda no descobriu o motivo, mas tem est gravando toda a conversa consigo na esperana de que lhe revele um.
      Langdon abriu a boca, mas nem uma palavra saiu.
      - Tem um microfone escondido - explicou Sophie. - Est ligado a um emissor que traz no bolso e que transmite o sinal para o posto de comando.
      - Isto  impossvel! - gaguejou Langdon. - Eu tenho um libi. Fui diretamente para o hotel depois da conferncia. Podem perguntar na recepo.
      - Fache j perguntou. O relatrio dele diz que retirou a chave do seu quarto na recepo s dez e meia. Infelizmente, o crime foi cometido mais perto das onze. Podia muito facilmente ter sado do hotel sem ser visto.
      - Mas isto  loucura! Fache no tem qualquer prova!
      Sophie abriu muito os olhos, como que dizendo: No tem provas?
      - Senhor Langdon, o seu nome aparece escrito no cho ao lado do corpo, e a agenda do conservador Saunire diz que estava com ele  hora aproximada a que foi morto. - Fez uma pausa. - O capito Fache tem provas mais do que suficientes para det-lo para ser interrogado.
      Langdon teve repentinamente a sensao de que precisava de um advogado.
      - Mas no fui eu!
      Sophie suspirou.
      - No estamos na televiso americana, senhor Langdon. Na Frana, a Lei protege a Polcia, no os criminosos. Infelizmente, neste caso, h ainda a considerar a imprensa.
      Jacques Saunire era uma figura muito querida e muito considerada em Paris, e o seu assassinato vai ser a notcia da manh. O capito Fache vai se ver imediatamente pressionado a fazer uma declarao, e parecer muito melhor se j tiver um suspeito sob custdia. Seja ou no culpado, o mais certo  ficar retido pela DCPJ at eles conseguirem descobrir o que realmente aconteceu.
      Langdon sentiu-se como um animal encurralado.
      - Porque  que est me dizendo tudo isto?
      - Porque, senhor Langdon, acredito que  inocente. - Sophie desviou o olhar por um instante. - E tambm porque  em parte por minha culpa que est metido neste problema.
      - Como? Foi por sua culpa que o Saunire quis incriminar-me?
      - O conservador Saunire no quis incrimin-lo. Foi um erro. A mensagem no cho era dirigida a mim.
      Langdon precisou de um minuto para processar esta informao.
      - Desculpe?
      - A mensagem no se destinava  Polcia. Ele a escreveu para mim. Penso que foi obrigado a fazer tudo to depressa que no percebeu do aspecto que ia ter para a Polcia. - Fez uma pausa. - O cdigo numrico no tem qualquer significado. Saunire o escreveu para ter certeza de que a investigao envolveria criptlogos, garantindo assim que se saberia o mais cedo possvel o que lhe tinha acontecido.
      Langdon estava cada vez mais perdido. Sophie Neveu podia ser ou no ser louca, mas ao menos agora compreendia por que razo estava tentando ajud-lo. P.S. Encontre Robert Langdon. Aparentemente, acreditava que Jacques Saunire lhe deixara um crptico ps-escrito dizendo-lhe que o encontrasse a ele, Langdon.
      - Mas porque acha que a mensagem era para voc?
      - O Homem de Vitrvio - respondeu ela, calmamente. - Esse desenho sempre foi a minha obra preferida de da Vinci. Saunire usou-a para me chamar a ateno.
      - Espere a. Est me dizendo que o conservador do Louvre sabia qual era a sua obra de arte preferida?
      Sophie assentiu.
      - Peo desculpas, isto est tudo confuso. Jacques Saunire e eu...
      A voz de Sophie quebrou-se, e Langdon detetou nela uma sbita nota de melancolia, um passado doloroso, fervilhando logo abaixo da superfcie. Sophie e Jacques Saunire tinham aparentemente tido um tipo qualquer de relao especial.
      Olhou para a bela jovem que tinha  sua frente, sabendo que, na Frana, era comum os homens de certa idade terem amantes mais novas. Mesmo assim, Sophie Neveu se encaixava mal no papel de "amante".
      - Ns brigamos h dez anos - disse Sophie, e a voz dela no passava agora de um murmrio. - Desde ento, quase no voltamos falando. Esta noite, quando recebemos na Cripto a notcia de que tinha sido assassinado e vi as imagens do corpo e do texto no cho, compreendi que estava tentando me enviar uma mensagem.
      - Por causa do Homem de Vitrvio? 
      - Sim. E das letras P. S.
      - Post scriptu?
      Ela abanou a cabea.
      - P. S. so as minhas iniciais.
      - Mas o seu nome  Sophie Neveu.
      Sophie desviou o olhar.
      - Costumava chamar-me P.S., quando eu vivia com ele. - So as iniciais de Princesse Sophie.
      Langdon ficou sem resposta.
      -  tolice, eu sei - disse ela. - Mas isso foi h anos. Quando eu era uma garotinha.
      - Conheceu-o quando era uma garotinha?.
      - E muito bem - disse ela, e os olhos encheram-se de emoo. - Jacques Saunire era meu av.
      
      
      
      CAPTULO CATORZE
      
      
      - Onde est Langdon? - perguntou Fache, expelindo a ltima baforada do cigarro antes de voltar ao posto de comando.
      - Ainda no banheiro. - O tenente Collet j estava  espera da pergunta.
      - Sem se apressar, pelo que vejo - resmungou Fache.
      O capito espreitou por cima do ombro de Collet para o ponto vermelho do GPS, e o tenente quase conseguiu ouvir as engrenagens do crebro dele funcionando. Fache estava combatendo o impulso de ir ver o que se passava com Langdon. Idealmente, era dada ao alvo de uma vigilncia a maior liberdade de movimentos possvel, para lhe incutir uma falsa sensao de segurana. Era essencial que Langdon voltasse por sua prpria iniciativa. Em todo o caso, j tinham passado mais de dez minutos. Muito tempo.
      - Alguma possibilidade de ele ter nos descoberto?
      Collet abanou a cabea.
      - Continuamos detectando pequenos movimentos dentro do banheiro, portanto continua obviamente a ter o sinalizador com ele. Talvez esteja sentindo-se mal? Se tivesse encontrado o sinalizador, teria jogado fora e tentado fugir.
      Fache consultou o relgio.
      - timo- resmungou.
      Mesmo assim, parecia preocupado. Durante toda a noite, Collet notara no capito uma intensidade que no lhe era habitual. Normalmente descontrado e frio sob presso, Fache parecia naquela noite emocionalmente envolvido, como se aquilo fosse, de algum modo, uma questo pessoal para ele.
      No admira, pensou Collet. Fache precisa desta deteno como de po para a boca. Recentemente, o Conselho de Ministros e a imprensa tinham comeado a criticar mais abertamente o capito Fache e os seus mtodos agressivos, os seus conflitos constantes com poderosas embaixadas estrangeiras e as suas despesas exorbitantes em novas tecnologias. A deteno de um americano, em um caso importante graas ao recurso  alta tecnologia, contribuiria muito para silenciar essas crticas, ajudando-o a garantir o lugar por mais alguns anos at poder aposentar-se com uma simptica penso.
      E sabe Deus a falta que lhe faz a penso, pensou. O engodo da tecnologia prejudicara-o tanto profissional como pessoalmente. Dizia-se que tinha investido todas as suas poupanas na loucura das novas tecnologias, alguns anos antes, e que com isso perdera at a camisa. E Fache  um homem que s usa camisas das mais finas.
      Naquela noite, havia ainda tempo de sobra. A inopinada interrupo de Sophie Neveu, apesar de infeliz, no passara de um pequeno inconveniente. J fora embora, e Fache estava longe de ter jogado todas as suas cartas. Ainda no dissera a Langdon que o nome dele aparecera escrito no cho pela vtima. P. S. Encontrar Robert Langdon. A reao do americano quela prova ia com certeza ser extremamente reveladora.
      - Capito? - chamou um dos agentes do outro lado do gabinete. - Acho que  melhor atender esta chamada. - Estava segurando o auscultador do telefone, com um ar preocupado.
      - Quem ? - perguntou Fache. O agente franziu a testa.
      - O diretor do Departamento de Criptologia.
      - E?
      -  a respeito da Sophie Neveu. H qualquer coisa que no confere.
      
      
      
      CAPTULO QUINZE
      
      
      Chegara o momento.
      Silas sentia-se forte ao descer do Audi preto, com a brisa noturna agitando-lhe o hbito. Andam no ar ventos de mudana. Sabia que a tarefa que tinha pela frente exigia mais delicadeza do que fora, e por isso deixou a pistola no carro. A Heckler Koch USP 40, de treze tiros, que o Professor lhe arranjara. Uma arma de morte no tem lugar na casa de Deus.
      A praa diante da grande igreja estava deserta quela hora. As nicas almas visveis eram, no extremo mais distante, duas prostitutas adolescentes que exibiam os seus dotes aos olhos de meia dzia de turistas retardatrios. A viso daqueles corpos nbeis acendeu em Silas a familiar labareda de desejo. O msculo da coxa contraiu-se instintivamente, fazendo com que as pontas agudas do cilcio martirizassem a carne.
      A luxria evaporou-se instantaneamente. Havia dez anos que Silas negava fielmente a si mesmo todos os prazeres sexuais, mesmo os solitrios. Era O Caminho.
      Sabia que sacrificara muito para seguir a Opus Dei mas recebera muito mais em troca.
      Um voto de castidade e a entrega de todos os seus bens materiais quase no lhe pareciam um sacrifcio. Considerando a pobreza de onde viera e os horrores sexuais a que fora sujeito na priso, a castidade era at uma mudana bem-vinda.
      Agora, ao voltar a Frana pela primeira vez depois de ter sido preso e enviado para uma priso em Andorra, sentia a terra natal a test-lo, a ir buscar recordaes violentas ao fundo da sua alma redimida. Voltou a nascer, recordou a si mesmo. Naquele dia, o servio de Deus exigira o pecado do assassnio, e isso era um sacrifcio que sabia que teria de guardar em silncio no seu corao por toda a eternidade.
      A medida da tua f  a medida da dor que for capaz de suportar dissera-lhe o Professor. Silas conhecia bem a dor e estava ansioso para provar o seu valor aos olhos do Professor, aquele que tinha garantido que as suas aes eram ordenadas por um poder superior.
      - Hago la obra de Dios - murmurou Silas, encaminhando-se para a porta da igreja.
      Deteve-se na sombra do macio prtico e inspirou fundo. S naquele instante percebeu verdadeiramente o que se preparava para fazer, e o que o esperava l dentro.
      A Chave de Abbada. Nos conduzir ao nosso objetivo final.
      Ergueu o punho branco de fantasma e bateu trs vezes.
      Instantes depois, os ferrolhos da enorme porta de madeira comearam a mover-se.
      
      
      
      CAPTULO DEZESSEIS
      
      
      Sophie perguntou a si mesma quanto tempo demoraria Fache para perceber que ela no chegara a sair do edifcio. Vendo que Langdon estava claramente esmagado, interrogou-se sobre se teria sido boa idia encurral-lo no banheiro dos homens.
      Que outra coisa eu poderia fazer?
      Reviu mentalmente o corpo do av, morto e estendido no cho de braos e pernas abertas. Houvera um tempo em que aquele homem fora tudo para ela, e no entanto, naquela noite, surpreendia-se ao descobrir que quase no sentia pena. Jacques Saunire tornara-se um desconhecido. A relao que existira entre ambos esfumara-se num nico instante, em uma noite de Maro, quando tinha vinte e dois anos. H dez anos.
      Regressara uns dias mais cedo de um curso de ps-graduao em uma universidade inglesa e vira involuntariamente o av fazendo algo que no era obviamente suposto ela ver. Uma imagem em que, passados dez anos, ainda mal conseguia acreditar.
      Se no tivesse visto com os meus prprios olhos...
      Muito envergonhada e aturdida para suportar as desastradas tentativas de explicao do av, Sophie sara imediatamente de casa dele, pegando o dinheiro que conseguira poupar e alugando um pequeno apartamento que partilhava com algumas colegas. Jurara nunca falar fosse a quem fosse do que tinha visto. O av tentara desesperadamente entrar em contato com ela, enviando-lhe postais e cartas, suplicando-lhe que o deixasse explicar. Explicar como? Sophie nunca respondeu, exceto uma vez: para proibi-lo de telefonar-lhe ou tentar encontrar-se com ela em pblico. Tinha medo de que as explicaes fossem ainda mais aterradoras do que o incidente em si.
      Incrivelmente, Jacques Saunire nunca desistira, e Sophie tinha agora uma dcada de cartas por abrir guardadas em uma gaveta da cmoda. A crdito do av, tinha de reconhecer que nunca desobedecera  intimao dela tentando telefonar-lhe.
      At esta tarde.
      - "Sophie?" A voz dele soara surpreendentemente velha no atendedor automtico.
      - "Tenho acatado os seus desejos at agora... e custa-me muito telefonar, mas preciso falar contigo. Aconteceu uma coisa terrvel."
      De p na cozinha do seu apartamento em Paris, Sophie sentiu um arrepio gelado ao voltar a ouvi-lo passados todos aqueles anos. A voz meiga do av trouxe  superfcie uma vaga de recordaes de infncia.
      - "Sophie, por favor, oua-me." - Estava falando em ingls, como costumava fazer quando ela era uma garotinha. Pratique o francs na escola. Pratique ingls em casa. -
      "No pode ficar zangada para sempre. No leu as cartas que te mandei ao longo de todos estes anos?" - Fez uma pausa. - "Temos de falar urgentemente. Por favor, conceda ao seu av este desejo. Ligue-me no Louvre. Imediatamente. Penso que ambos corremos um grave perigo."
      Sophie ficou olhando para o atendedor automtico. Perigo? Do que ele estava falando?
      - "Princesa..." - A voz do av quebrou-se com uma emoo que ela no conseguiu identificar. - "Sei que te escondi coisas, e sei que isso me custou o teu amor. Mas foi para sua prpria segurana. Agora precisa saber a verdade. Por favor, tenho de contar a verdade a respeito da sua famlia."
      De repente, Sophie conseguia ouvir o bater do seu prprio corao. A minha famlia? Os pais tinham morrido quando ela era ainda uma criana de quatro anos. O carro em que viajavam galgara o parapeito de uma ponte e cara em um rio de guas tumultuosas. A av e o irmo mais novo tambm estavam no carro, de modo que toda a sua famlia desaparecera de um momento para o outro. Tinha uma caixa de recortes de jornais que o confirmavam.
      As palavras do av desencadearam uma inesperada onda de saudade que lhe chegou ao mago. Naquele fugaz instante, viu imagens, o sonho que tantas vezes a acordara quando era pequena: Esto vivos e voltaram para casa! Mas, tal como no seu sonho, as imagens dissolveram-se.
      Esto todos mortos, Sophie. No vo voltar para casa.
      - "Sophie..." - continuou a voz do av no atendedor. - "H anos que espero para te dizer. Tenho estado  espera do momento certo, mas agora o tempo se esgotou. Ligue-me para o Louvre. Logo que ouvir isto. Vou esperar aqui a noite toda. Receio que estejamos ambos em perigo. H tanto que voc precisa saber."
      A mensagem terminava aqui.
      No silncio que se seguiu, Sophie ficou de p, imvel e tremendo, pelo que lhe pareceu vrios minutos. Considerando bem a mensagem do av, s uma possibilidade fazia sentido, e a verdadeira inteno dele tornou-se clara. Era um engodo.
      Obviamente, o av queria muito v-la. Estava disposto a tentar todos os truques. A averso que sentia pelo homem tornou-se ainda mais profunda. Disse a si mesma que talvez ele estivesse doente, em fase terminal, e tivesse decidido tentar todos os estratagemas de que conseguisse lembrar-se para lev-la a visit-lo uma ltima vez. Se era esse o caso, escolhera bem.
      A minha famlia.
      Agora, no lavabo dos homens do Louvre, ouvia ecos da mensagem daquela tarde.
      Sophie, podemos estar em perigo. Telefone-me.
      No tinha telefonado. Nem planejara faz-lo. Agora, porm, o seu ceticismo estava sendo duramente questionado. O av jazia assassinado no interior do seu prprio museu.
      E tinha escrito uma mensagem cifrada no cho.
      Uma mensagem de que era ela a destinatria. Disso tinha certeza.
      Apesar de no compreender o significado daquela mensagem, Sophie tinha certeza de que a sua natureza crtica era prova adicional de que se lhe destinava. A sua paixo e habilidade para a criptografia eram uma das consequncias de ter crescido ao lado de Jacques Saunire - ele prprio um manaco de charadas, jogos de palavras e palavras cruzadas. Quantos domingos passamos resolvendo os criptogramas e as palavras cruzadas dos jornais?
      Naquela noite, a criptloga que havia nela via-se forada a respeitar a eficincia com que o av usara um simples cdigo para juntar dois desconhecidos: Sophie Neveu e Robert Langdon.
      A questo era: porqu?
      Infelizmente, pela expresso de confuso nos olhos de Langdon, Sophie sentiu que o americano no sabia mais do que ela a respeito dos motivos que tinham levado o av a junt-los.
      Voltou  carga.
      - O senhor e o meu av tinham combinado encontrar-se esta noite. Para falar de qu?
      Langdon parecia verdadeiramente perplexo.
      - A secretria dele marcou o encontro, no deu qualquer razo especfica e eu no perguntei. Assumi que tinha sabido que eu ia dar uma conferncia sobre a iconografia pag das catedrais francesas, se interessava pelo tema e pensado que seria divertido nos encontrarmos para uma bebida depois da palestra.
      Sophie no acreditou. A ligao era muito frgil. O av sabia mais a respeito de iconografia pag do que qualquer outra pessoa em todo o mundo. Alm disso, era um homem extraordinariamente reservado, nada dado a conversas com professores americanos de passagem a menos que tivesse uma razo muito forte. Inspirou fundo e resolveu ir um pouco mais longe.
      - O meu av me telefonou esta tarde e me disse que ele e eu corramos um grave perigo. Significa alguma coisa para voc?
      Os olhos azuis de Langdon estavam velados de preocupao.
      - No, mas considerando o que acabou por acontecer...
      Sophie assentiu. Considerando os acontecimentos daquela noite, teria de ser louca para no estar assustada. Sentindo-se esgotada, aproximou-se da pequena janela na parede mais distante do banheiro e ficou olhando em silncio atravs da trama de fitas de alarme embebidas na vidraa. Estavam muito acima do nvel da praa. Doze metros, pelo menos.
      Com um suspiro, ergueu os olhos e contemplou a deslumbrante paisagem noturna de Paris.  esquerda, do outro lado do Sena, a Torre Eiffel, refulgente de luzes. Em frente, o Arco do Triunfo. E  direita, no alto de Montmartre, a graciosa cpula coberta de arabescos do Sacr-Coeur, cujas pedras polidas brilhavam como um resplandecente santurio. Ali, na extremidade mais ocidental da Ala Denon, a faixa de rodagem do sentido norte-sul da Place du Carrousel corria quase colada ao edifcio, apenas com um estreito passeio a separ-la da parede exterior do Louvre. L em baixo, a habitual caravana de caminhes de entregas esperava, com os motores ronronando, que o semforo mudasse para verde, e os faris eram olhos que piscavam ironicamente para ela
      - No sei que lhe dizer - confessou Langdon, aproximando-se dela. - O seu av estava obviamente tentando dizer-nos qualquer coisa. Lamento ser de to pouca ajuda.
      Sophie voltou-se, detectando uma genuna pena na voz grave de Langdon. Era evidente que, apesar de todos os problemas que o atormentavam, continuava a querer ajud-la.  o professor que h nele, pensou Sophie, recordando o resumo da DCPJ sobre o suspeito. Era um acadmico que, segundo toda a evidncia, detestava no compreender.
      Temos isso em comum, pensou.
      Como decifradora de cdigos, Sophie passara a sua vida tentando extrair um significado de dados aparentemente sem sentido. Naquela noite, o seu palpite era que Robert Langdon, quer soubesse ou no, possua informao que ela precisava desesperadamente. Princesa Sophie, Encontre Robert Langdon. A mensagem no podia ser mais clara. Sophie precisava de mais tempo com aquele homem, tempo para pensar.
      Tempo para, juntos, deslindarem aquele mistrio. Infelizmente, o tempo estava esgotando-se.
      Erguendo os olhos para Langdon, Sophie fez a nica jogada que conseguiu se lembrar.
      - Bezu Fache vai det-lo de um momento para o outro. Posso faz-lo sair deste museu. Mas temos de agir j.
      Langdon abriu muito os olhos.
      - Quer que eu fuja?
      -  a nica coisa inteligente que pode fazer. Se deixar o Fache det-lo, vai passar semanas em uma cadeia francesa enquanto a DCPJ e a embaixada dos Estados Unidos discutem que tribunal tem competncia para julgar o seu caso. Mas se conseguirmos lev-lo daqui para fora e chegar  embaixada, o governo americano proteger o seus direitos enquanto ns dois provamos que no teve nada a ver com este assassinato.
      Langdon parecia no estar nem sequer remotamente convencido.
      - Esquea! Fache tem guardas armados em todas as sadas! Mesmo que escapssemos sem sermos abatidos a tiro, fugir s serviria para me fazer parecer ainda mais culpado. O que tem de fazer  dizer ao Fache que a mensagem escrita no cho se destinava a voc e que o meu nome no est ali como uma acusao.
      -  o que vou fazer - prometeu Sophie, falando apressadamente -, mas s depois de deix-lo a salvo na embaixada americana. Fica a quilmetro e meio daqui, e o meu carro est parado  porta do museu. Lidar com o Fache aqui dentro  muito arriscado.
      Ser que no compreende? O capito est decidido a provar a sua culpa. S adiou a deteno porque queria levar a cabo esta vigilncia na esperana de que fizesse qualquer coisa que reforasse a posio dele.
      - Exatamente. Como fugir!
      O celular de Sophie comeou subitamente a tocar. Fache, provavelmente. Meteu a mo no bolso e desligou o aparelho.
      - Senhor Langdon - disse, apressada -, tenho de fazer-lhe uma ltima pergunta. - E todo o seu futuro pode depender dela. As palavras escritas no cho no so obviamente prova suficiente da sua culpa, e no entanto Fache disse  nossa equipe que tem certeza de que o senhor  o culpado.  capaz de pensar em qualquer outra razo que possa t-lo convencido disso?
      Langdon ficou calado durante vrios segundos.
      - Nenhuma.
      Sophie suspirou. O que significa que Fache est mentindo. No imaginava sequer porqu, mas, de momento estava longe de ser essa a questo. Permanecia o fato de Bezu Fache estar decidido a pr Robert Langdon atrs de grades, custasse o que custasse. Sophie precisava de Langdon, e isto era um dilema que lhe deixava apenas uma concluso lgica.
      Preciso lev-lo at  embaixada dos Estados Unidos.
      Voltando-se para a janela, olhou mais uma vez atravs da trama de fios de alarme embebidos no vidro para o passeio, uns vertiginosos doze metros mais abaixo. Um salto daquela altura deixaria Langdon com um par de pernas quebradas. No mnimo.
      Mesmo assim, Sophie tomou a sua deciso.
      Quisesse ou no, Robert Langdon ia fugir do Louvre.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO DEZESSETE
      
      
      - Como no responde? - Fache tinha no rosto uma expresso de incredulidade. - Estamos ligando para o celular, certo? Sei que o traz com ela.
      Havia vrios minutos que o tenente Collet estava tentando contatar Sophie Neveu.
      - Talvez tenha ficado sem bateria. Ou tenha o toque de chamada desligado.
      Fache parecia perturbado desde que falara ao telefone com o diretor do Departamento de Criptologia. Depois de desligar, dirigira-se a Collet e ordenara-lhe que ligasse para a agente Neveu. Collet no conseguia fazer a ligao, e Fache andava de um lado para o outro, como um leo enjaulado.
      - Que queriam os da Cripto? - arriscou-se Collet a perguntar.
      - Dizer-nos que no encontram qualquer referncia a demnios draconianos nem a santos imperfeitos.
      - S isso?
      - No. Tambm disseram que tinham identificado os nmeros como a sequncia Fibonacci, mas que suspeitavam de que a srie no tem qualquer significado.
      Collet ficou confuso.
      - Mas j tinham enviado a agente Neveu para nos dizer isso mesmo.
      Fache abanou a cabea.
      - No enviaram Neveu.
      - Como?
      - Segundo o diretor, ao receber as minhas ordens convocou a equipe inteira para examinar as imagens que lhe tnhamos enviado. Quando a agente Neveu chegou, lanou um olhar s fotos do Saunire e do cdigo e abandonou o edifcio sem dizer uma palavra.
      Mas o diretor que no estranhou o comportamento dela por ser natural que as fotografias a tivessem perturbado.
      - Perturbado? Nunca tinha visto a foto de um cadver?
      Fache ficou silencioso por um instante.
      - Eu no sabia, e parece que o diretor da Cripto tambm no at que um colega dela o informou, mas, aparentemente, Sophie Neveu  neta de Jacques Saunire.
      Collet ficou sem palavras.
      - O diretor explicou que ela nunca tinha referido o nome de Saunire e assumiu que provavelmente no o fizera por no querer um tratamento preferencial por ter um av famoso.
      No admira que as fotos a tenham perturbado. Collet mal conseguia imaginar a infeliz coincidncia que pusera uma jovem na situao de ter de decifrar um cdigo escrito por um familiar morto. Em todo o caso, as aes dela no faziam sentido.
      - Mas ela reconheceu obviamente os nmeros como sendo a sequncia Fibonacci, uma vez que veio at aqui e nos disse. No percebo porque raio saiu do Departamento sem dizer a ningum o que tinha descoberto.
      Collet s conseguia conceber um cenrio capaz de explicar a estranha srie de acontecimentos: Jacques Saunire tinha escrito um cdigo numrico no cho na esperana de que Fache envolvesse criptlogos na investigao, e consequentemente Sophie. Quanto ao resto da mensagem, estaria o conservador comunicando de algum modo com a neta? Se sim, qual era a mensagem? E qual era o papel de Langdon no meio de tudo aquilo?
      Antes que Collet pudesse continuar a ponderar o assunto, o silncio em que o museu deserto estava mergulhado foi rasgado pela estridncia de um alarme. O som parecia vir do interior da Grande Galeria.
      - Alarme! - gritou um dos agentes, olhando para o monitor do Centro de segurana do Louvre. - Grande Galerie. Toilettes Mssieurs!
      Fache voltou-se para Collet.
      - Onde est Langdon?
      - Continua no banheiro dos homens! - Collet apontou para o ponto vermelho que piscava no visor do computador. - Deve ter quebrado a janela! - Sabia que Langdon no conseguiria chegar muito longe. Embora os regulamentos municipais de Paris exigissem que todas as janelas dos edifcios pblicos situadas acima de quatro metros e meio de altura estivessem equipadas com vidros quebrveis, como precauo em caso de incndio, sair por uma janela do segundo piso do Louvre sem a ajuda de uma corda ou de uma escada seria suicdio. Alm disso, no havia no extremo oeste da Ala Denon rvores ou arbustos que pudessem amortecer uma queda. Imediatamente por baixo da janela do banheiro, as duas faixas de rodagem do sentido norte-sul da Place du
      Carrousel passavam a meia dzia de passos da parede exterior. - Meu Deus! - exclamou, sem desviar os olhos do visor. - Langdon est a subir para o peitoril da janela!
      Fache, porm, j estava em movimento. Sacando o seu revlver Manurnhin MR-93 do coldre axilar, o capito sara correndo do gabinete. Collet, estupefato, viu no monitor o ponto que piscava chegar ao peitoril da janela e ento fazer uma coisa perfeitamente inesperada: passar para o exterior do permetro do edifcio. Que se estar acontecendo?, perguntou a si mesmo. O cara encontrou uma cornija, ou...
      - Jesus! - Collet ergueu-se de um salto quando o ponto se afastou ainda mais da parede. O sinal pareceu estremecer por um instante, e ento deteve-se abruptamente cerca de dez metros para l do permetro do edifcio.
      Teclando furiosamente instrues, Collet chamou ao visor um mapa de Paris e recalibrou o GPS. Ampliando a imagem, viu a localizao exata do sinal.
      J no estava em movimento.
      Permanecia imvel no meio da faixa norte-sul da Place du Carrousel.
      Langdon tinha saltado.
      
      
      
      CAPTULO DEZOITO
      
      
      O capito Fache corria a toda a velocidade pela Grande Galeria quando o rdio de Collet gritou acima do som distante do alarme.
      - Ele saltou! Estou vendo o sinal na Place do Carrousel! Fora da janela do banheiro! E no se mexe! Jesus, acho que o Langdon acaba de suicidar-se!
      Fache ouvia as palavras, mas no faziam sentido. Continuou a correr. A galeria parecia nunca mais acabar. Quando passou pelo cadver de Jacques Saunire, ps a mira nas divisrias que assinalavam o final da Ala Denon. O alarme soava cada vez mais alto.
      - Espere! - gritou a voz de Collet atravs do rdio. - Est movendo-se! Meu Deus, est vivo. Langdon est se movendo!
      Fache continuou a correr, amaldioando a cada passo o comprimento da galeria.
      - Est deslocando-se mais depressa! - gritava Collet no rdio. Vai descendo a Carrousel. Espere... est ganhando velocidade. Est deslocando-se muito depressa!
      Chegado s divisrias, Fache coleou pelo meio delas, viu a porta do banheiro e correu para l. O rdio mal se ouvia, devido ao barulho do alarme.
      - Deve estar em um carro! Acho que est em um carro! No consigo...
      As palavras de Collet foram abafadas pelo alarme quando Fache rompeu finalmente no banheiro, de arma na mo. Fazendo uma careta por causa da ensurdecedora campainha, olhou em redor.
      Os vrios compartimentos estavam vazios, o banheiro deserto. Os olhos de Fache voaram imediatamente para a janela quebrada no extremo oposto da diviso. Correu para l e olhou por cima do peitoril. Langdon no estava  vista. O capito no conseguia imaginar algum arriscando uma coisa daquelas. Se Langdon tivesse saltado daquela altura, estaria seguramente muito ferido.
      O alarme foi finalmente desligado e a voz de Collet tornou-se de novo audvel no rdio:
      - ... deslocando-se para sul... mais depressa... atravessando o Sena na Pont du Carrousel!
      Fache olhou para a esquerda. O nico veculo na Pont du Carrousel era um enorme caminho de entregas que se afastava do Louvre na direo sul. Um oleado, preso nos lados, cobria a carga transportada na caixa aberta, fazendo lembrar uma grande tenda. O capito sentiu um arrepio de apreenso. Momentos antes, aquele caminho estivera provavelmente parado abaixo da janela do banheiro da Ala Denon do Louvre,  espera da mudana de sinal.
      Um risco louco, disse Fache para si mesmo. Langdon no tinha meio de saber o que o caminho transportava debaixo da lona. E se fosse ao? Ou cimento? Ou at lixo? 
      Um salto de doze metros? Era loucura.
      - O sinalizador est virando! - informou Collet. - Est virando  direita, na Pont ds Saints-Pres!
      Como Fache sabia que seria, o caminho tinha acabado de atravessar a ponte e virava  direita para a Pont des Saints-Pres. Seja, pensou. Espantado, viu o caminho fazer a curva e desaparecer. Collet j estava contactando os agentes no exterior, ordenando-lhes que abandonassem os seus postos no permetro do Louvre e corressem para os respectivos carros para iniciar a perseguio, ao mesmo tempo que transmitia a localizao do caminho como um bizarro jogo de televiso.
      Acabou-se, pensou Fache. Os seus homens teriam aquele caminho cercado numa questo de minutos. Langdon no ia a parte nenhuma.
      Devolvendo a arma ao coldre, saiu do banheiro e chamou Collet pelo rdio.
      - Mande trazer o meu carro. Quero estar presente quando fizermos a deteno.
      Enquanto retrocedia em passo de corrida ao longo da Galeria, perguntava a si mesmo se Langdon teria sequer sobrevivido  queda.
      No que isso importasse.
      O suspeito fugiu. Culpado!
      A menos de quinze metros de distncia, Langdon e Sophie escondiam-se nas sombras da Galeria, com as costas apertadas contra uma das grandes divisrias que ocultavam os banheiros. Mal tinham conseguido acabar de esconder-se quando Fache passara por eles, de arma empunhada, e desaparecera no banheiro.
      Os ltimos sessenta segundos tinham sido uma mancha difusa.
      Langdon estava no banheiro dos homens, recusando fugir de um crime que no cometera, quando Sophie se pusera a examinar o vidro da janela e a trama do sistema de alarme. Depois, espreitara para a rua, como que avaliando a altura.
      - Com um pouco de pontaria, pode sair daqui - disse.
      Pontaria? Pouco -vontade, Langdon espreitou para fora.
      Na rua, um enorme caminho de dezoito rodas aproximava-se do semforo, abaixo da janela. Estendido sobre a caixa, uma espcie de oleado azul cobria parcialmente a carga. Langdon esperou que Sophie no estivesse pensando aquilo que lhe parecia que estava pensando.
      - Sophie, no pense que vou saltar...
      - Pegue o sinalizador.
      Confuso, Langdon procurou no bolso at encontrar o minsculo disco metlico.
      Sophie tirou-o da mo e dirigiu-se imediatamente ao lavatrio, pegou um sabonete, colocou o disco em cima dele e apertou com o polegar. Quando o disco se enterrou na superfcie macia, fechou o orifcio com rpidos movimentos dos dedos, deixando o dispositivo de localizao firmemente fixado no sabonete.
      Entregou o sabonete a Langdon, tirou um pesado caixote de lixo metlico que eatava abaixo do lavatrio e, antes que Langdon pudesse protestar, correu para a janela, segurando o caixote de lixo  sua frente como a ponta de um arete. Bateu com o fundo do caixote contra o vidro, estilhaando a janela. O alarme comeou a soar, atingindo um nvel de decibis dolorosamente ensurdecedor.
      - D-me o sabonete! - gritou Sophie, mal conseguindo se fazer ouvir acima do alarme.
      Langdon o entregou.
      Sophie pegou-o e olhou atravs da janela quebrada para o caminho parado no semforo. O alvo era bastante grande - uma vasta extenso de oleado azul - e estava a menos de dez metros da parede do edifcio. Instantes antes do semforo mudar, Sophie inspirou fundo e atirou o sabonete pela janela. O sabonete desceu para o caminho, caiu em cima da lona e deslizou para dentro de uma caixa quando a luz passou a verde e o caminho arrancou.
      - Parabns - disse Sophie, arrastando-o para a porta. - Acaba de fugir do Louvre.
      Saindo do banheiro dos homens, esconderam-se entre as sombras a tempo de verem Fache passar correndo.
      Agora, com o alarme silenciado, Langdon ouvia o uivo das sirenes dos carros da
      DCPJ afastando-se do Louvre. Um xodo policial. Tambm Fache se afastou correndo, deixando a Grande Galeria deserta.
      - H uma escada de incndio a cerca de cinquenta metros deste lugar - disse Sophie. - Agora que os guardas abandonaram o permetro, podemos sair por l. 
      Langdon decidiu no voltar a abrir a boca naquela noite. Sophie Neveu era claramente muitssimo mais esperta do que ele.
      
      
      
      CAPTULO DEZENOVE
      
      
      A igreja de Saint-Sulpice , diz-se, de todos os edifcios de Paris, o que tem a histria mais excntrica. Construda sobre as runas de um antigo templo dedicado  deusa egpcia Isis, a sua traa arquitetnica  ponto por ponto igual  de Notre Dame.
      Serviu de palco aos batizados do marqus de Sade e de Baudelaire, bem como ao casamento de Victor Hugo. O seminrio que lhe est ligado tem uma bem documentada histria de inortodoxia e foi em tempos o local de encontro de numerosas sociedades secretas.
      Naquela noite, a cavernosa nave de Saint-Sulpice estava silenciosa como um tmulo; a nica sugesto de vida era o leve cheiro de incenso que ficara da ltima missa da tarde. Silas percebeu que a irm Sandrine estava pouco  vonatde, que o conduziu at o santurio. No ficou surpreso. Estava habituado a que as pessoas se sentissem pouco  vontade na sua presena.
      -  americano - disse ela.
      - Francs de nascimento - respondeu Silas. - Fui chamado Por Deus na Espanha, e atualmente estudo nos Estados Unidos.
      A irm Sandrine assentiu. Era uma mulher baixinha, de olhos calmos.
      - E nunca tinha visto Saint-Sulpice?
      - Compreendo que  em si mesmo quase um pecado.
      -  mais bonita durante o dia.
      - Estou certo que sim. Em todo o caso, fico-lhe grato por me proporcionar esta oportunidade esta noite.
      - A pedido do abade.  evidente que tem amigos poderosos.
      Nem imagina, pensou Silas.
      Enquanto caminhava atrs da irm Sandrine pela coxia central, Silas foi surpreendido pela austeridade do santurio. Ao contrrio de Notre Dame, com os seus frescos coloridos, os seus altares dourados e as suas quentes madeiras, Saint-Sulpice era nua e fria, transmitindo uma sensao de quase aridez reminiscente das catedrais espanholas. A falta de decorao fazia o interior parecer ainda mais vasto, E quando olhou para a alta abbada nervurada do teto, Silas imaginou-se de p debaixo do casco de um enorme navio virado.
      Uma imagem apropriada, pensou. O navio da irmandade estava prestes a afundar-se para sempre. Ansioso por comear a trabalhar, desejou que a irm Sandrine o deixasse sozinho. Era uma mulher pequena, que no teria a mnima dificuldade em incapacitar, mas fizera o voto de no usar a fora a menos que fosse absolutamente necessrio.  uma religiosa, e no tem culpa de que a irmandade tenha escolhido a igreja dela para esconder a Chave de Abbada. No deve ser punida pelos pecados dos outros.
      - Envergonha-me, irm, saber que foi acordada por minha causa.
      - No tem importncia. Vai estar muito pouco tempo em Paris. No podia perder
      Saint-Sulpice. O seu interesse na igreja  mais arquitetnico ou mais histrico?
      - Na realidade, irm, o meu interesse  espiritual.
      Ela lanou uma agradvel gargalhada.
      - Isso nem  preciso dizer. S queria saber por onde comear a sua visita.
      Silas focou os olhos no altar.
      - No vou necessitar de guia. Foi mais do que gentil. Posso agora orientar-me sozinho.
      - No me custa nada. Afinal, estou acordada.
      Silas deteve-se. Tinham chegado  a primeira fila de bancos; o altar encontrava-se a menos de quinze metros de distncia. Voltou o corpo macio para a mulher e sentiu-a como que encolher-se ao olhar-lhe para os olhos vermelhos.
      - Sem querer parecer mal-educado, irm, no estou habituado a entrar em uma casa de Deus e limitar-me a fazer uma visita guiada. Importa-se que passe algum tempo rezando sozinho antes de dar uma vista de olhos?
      A irm Sandrine hesitou.
      - Oh, claro. vou esperar por voc no fundo da igreja.
      Silas pousou uma mo suave mas pesada no ombro dela e olhou para baixo.
      - Irm, j me sinto suficientemente culpado por t-la acordado Pedir-lhe que continue acordada parece-me excessivo. Por favor, devia voltar para a sua cama. Posso apreciar o seu santurio e sair sem voltar a incomod-la.
      Ela pareceu confusa.
      - Tem certeza de que no vai sentir-se abandonado?
      - Absoluta. A orao  uma alegria solitria.
      - Como queira.
      Silas retirou a mo do ombro dela.
      - Durma bem, irm. Que a paz do Senhor esteja consigo.
      - E tambm consigo. - A irm Sandrine dirigiu-se s escadas.
      - Por favor, tenha cuidado de fechar bem a porta quando sair.
      - Terei - disse Silas, e ficou a v-la desaparecer nas escadas. Ento, voltou-se e ajoelhou na primeira fila de bancos, sentindo o cilcio cravar-se na coxa.
      Querido Deus, ofereo-te este trabalho que fao hoje...
      Acocorada nas sombras da varanda do coro, a irm Sandrine espreitou por entre os balastres para a figura encapuada do monge ajoelhado diante do altar. O sbito medo que lhe enchera a alma tornava-lhe difcil manter-se imvel. Por um fugaz instante, perguntou a si mesma se o misterioso visitante seria o inimigo contra o qual fora posta de sobreaviso e se teria, naquela noite, de executar as ordens que guardava havia tantos anos. Decidiu ficar ali, no escuro, a vigiando-lhe os movimentos.
      
      
      
      CAPTULO VINTE
      
      
      Sophie e Langdon emergiram das sombras e avanaram furtivamente pela galeria deserta em direo  escada de incndio. Enquanto caminhava, Langdon sentiu-se como se estivesse tentando montar um quebra-cabeas s escuras. O aspecto mais recente daquele mistrio era profundamente perturbador: o capito da Polcia Judiciria est tentando atirar para cima de mim uma falsa acusao de assassnio.
      - Acha - sussurrou -, que pode ter sido o Fache que escreveu a mensagem no cho?
      Sophie nem sequer se voltou.
      - Impossvel.
      Langdon no estava assim to seguro.
      - Parece muito decidido a me fazer passar por culpado. Talvez tenha pensado que escrever o meu nome no cho ajudasse.
      - A sequncia Fibonacci? O P.S.? Todo aquele simbolsmo de da Vinci e do sagrado feminino? Foi com toda certeza o meu av.
      Langdon sabia que ela tinha razo. O simbolismo das pistas ajustava-se muito perfeitamente: o pentculo, O Homem de Vitrvio, da Vinci, a Deusa, e at a sequncia Fibonacci. Um conjunto simblico coerente, como lhe chamariam os iconlogos. Tudo inextrincavelmente ligado.
      - E o telefonema para mim, esta tarde - continuou Sophie. - Disse que tinha uma coisa para me contar. Tenho certeza de que a mensagem no cho foi o seu ltimo esforo para me dizer qualquer coisa importante, qualquer coisa que achava que voc, senhor Langdon, poderia me ajudar a compreender.
      Langdon franziu a testa. , draconiano demnio! Oh, santo imperfeito! Bem gostaria de compreender a mensagem, tanto por Sophie como por si mesmo. As coisas tinham sem dvida piorado desde que vira pela primeira vez as crticas palavras. O falso salto da janela do banheiro no ia contribuir nem um pouco para aumentar-lhe a popularidade junto de Fache. Duvidava que o capito da Polcia francesa visse a piada de perseguir e prender um sabonete.
      - Estamos quase chegando  porta - anunciou Sophie.
      - Acha que h alguma chance dos nmeros da mensagem do seu av conterem a chave para a compreenso das outras linhas?
      Langdon trabalhara em tempos com uma srie de manuscritos de Bacon que continham cifras epigrficas nas quais certas linhas codificadas eram pistas que permitiam que se decifrassem outras.
      - Tenho estado toda a noite pensando nos nmeros. Somas, quocientes, produtos.
      No vejo nada. Matematicamente, esto dispostos de uma forma aleatria. Algaravia criptogrfica.
      - E no entanto, fazem todos parte da sequncia Fibonacci. No pode ser coincidncia.
      -  no . Usar os nmeros Fibonacci foi mais uma maneira que o meu av arranjou de me acenar com uma bandeira... como escrever a mensagem em ingls, ou dispor-se a si mesmo como a minha obra de arte preferida, ou desenhar um pentculo na barriga. Tudo isso se destinava a chamar a minha ateno.
      - O pentculo significa alguma coisa para voc?
      - Sim. No tive chance de dizer, mas o pentculo foi um smbolo especial entre mim e o meu av quando eu estava crescendo. Costumvamos jogar cartas tar, por brincadeira, e a minha carta indicadora era sempre do naipe de pentculos. Tenho certeza de que ele trapaceava, mas os pentculos acabaram por tornar-se uma espcie de brincadeira entre ns.
      Langdon sentiu um arrepio. Jogavam tar? O jogo de cartas italiano da Idade
      Mdia estava to carregado de simbolismo hertico escondido que Langdon lhe dedicara um captulo inteiro do seu novo manuscrito. As vinte e duas cartas do baralho tinham nomes como A Papisa, A Imperatriz e A Estrela. Originariamente, o tar fora concebido como um meio secreto de transmitir ideologias proibidas pela Igreja. Nos tempos modernos, as qualidades msticas das cartas eram interpretadas pelos videntes.
      No tar, o naipe indicador da divindade feminina so os pentculos, pensou Langdon, compreendendo que se Jacques Saunire fazia, por brincadeira, trapaa com o baralho da neta, ento o pentculo se tivesse tornado uma espcie de piada privada. 
      Chegara  sada de emergncia e Sophie abriu cuidadosamente a porta. Nenhum alarme tocou. S as portas exteriores estavam ligadas ao sistema de vigilncia.
      Comearam a descer, cada vez mais depressa, uma estreita escada metlica.
      - Quando o seu av - disse Langdon, quase correndo atrs dela - lhe falou do pentculo, fez alguma referncia ao culto da deusa ou a qualquer ressentimento contra a Igreja Catlica?
      Sophie abanou a cabea.
      - No, estava mais interessado nos aspectos matemticos... a Proporo Divina, PHI, as sequncias Fibonacci, esse gnero de coisas.
      Langdon ficou surpreso.
      - O seu av lhe falou a respeito do nmero PHI?
      - Claro. A Proporo Divina. - Fez um ar ligeiramente embaraado. - At costumava dizer, na brincadeira, que eu era meio divina... por causa das letras do meu nome, est vendo?
      Langdon pensou por um instante, e resmungou para si mesmo.
      s-o-PHI-e.
      Ainda descendo a escada, concentrou-se no nmero PHI. Comeava a compreender que as pistas de Saunire eram ainda mais consistentes do que de incio julgara.
      Da Vinci... os nmeros Fibonacci... o pentculo.
      Incrivelmente, todas aquelas coisas estavam ligadas por um nico conceito to fundamental para a Histria da Arte que Langdon dedicava com frequncia vrias aulas ao tema.
      PHI.
      Subitamente, viu-se de novo em Harvard, diante da turma de "Simbolismo na Arte", escrevendo no quadro o seu nmero preferido.
      1.618
      Voltou-se para o mar de rostos interessados.
      - Quem sabe dizer-me que nmero  este?
      Um aluno do curso de Matemtica, sentado numa das ltimas filas, levantou o brao.
      -  o nmero PHI. - Pronunciava-o como fi.
      - Muito bem, Stettner - disse Langdon. - Senhoras e senhores, apresento-lhes o PHI.
      - No confundir com PI - acrescentou Stettner, sorrindo. - Como ns, matemticos, costumamos dizer...
      Calou-se quando os outros alunos se voltaram para ele com expresses irritadas.
      - Este nmero PHI - continuou Langdon -, um-ponto-seis-um-oito,  um nmero muito importante na arte. Quem sabe dizer-me porqu?
      - Por ser to bonito? - arriscou Stettner, tentando redimir-se. Todos riram.
      - A verdade - disse Langdon -,  que Stettner voltou a acertar. PHI  de um modo geral considerado o nmero mais bonito do universo.
      Os risos cessaram abruptamente e Stettner sorriu de orelha a orelha.
      Enquanto carregava o projetor de slides, Langdon explicou que o nmero PHI derivava da sequncia Fibonacci, uma sequncia famosa no s por a soma de dois termos adjacentes ser igual ao termo seguinte, mas tambm por os quocientes de dois termos adjacentes terem a surpreendente propriedade de se aproximarem de 1.618: PHI!
      A despeito da aparente origem mstico-matemtica, explicou Langdon, a faceta verdadeiramente extraordinria do nmero PHI era o seu papel como elemento constitutivo fundamental da natureza. Plantas, animais e at seres humanos, todos possuam propriedades dimensionais que obedeciam com uma espantosa exatido  razo de PHI para 1.
      - A ubiquidade do nmero PHI na natureza - continuou Langdon, apagando as luzes - excede claramente a coincidncia, e por isso os Antigos assumiram que tinha sido preordenado pelo Criador do Universo. Os primeiros cientistas chamavam a um-ponto-seis-um-oito a Proporo Divina.
      - Um momento - pediu uma jovem sentada na primeira fila. A minha nuclear  Biologia e nunca vi essa Proporo Divina na natureza.
      - No? - Langdon sorriu. - Alguma vez estudou a relao entre machos e fmeas em uma comunidade de abelhas?
      - Claro. As fmeas so sempre em maior nmero do que os machos.
      - Correto. E sabia que se dividir o nmero de fmeas pelo nmero de machos em qualquer colmia do mundo, chega sempre ao mesmo nmero?
      - Palavra?
      - PHI.
      A jovem abriu muito a boca, incrdula.
      - IMPOSSVEL!
      - Muito possvel! - respondeu Langdon, sorrindo enquanto projetava a imagem de uma concha em espiral. - Reconhece isto?
      -  um nutilo - respondeu a aluna de Biologia. - Um molusco cefalpode que bombeia gs para dentro da concha compartimentada a fim de regular a flutuabilidade.
      - Exato. E  capaz de calcular a razo entre o dimetro de cada espiral e o da seguinte?
      A jovem pareceu insegura, examinando os arcos concntricos da concha do nutilo.
      Langdon assentiu.
      - PHI. A Proporo Divina. Um-ponto-seis-um-oito. Passou para o slide seguinte: um grande plano da cabea de uma semente de girassol.
      - As sementes de girassol crescem em espirais opostas.  capaz de calcular a razo entre o dimetro de cada rotao e o seguinte?
      - PHI? - disse a turma, em coro.
      - Bingo. - Langdon comeou a passar rapidamente diversos slides... ptalas espiraladas, segmentos de insetos, disposio das folhas no caule de uma planta... em que se revelava, sem excepo, uma surpreendente obedincia  Proporo Divina.
      - Isto  espantoso! - exclamou algum.
      - Pois  - admitiu uma outra voz -, mas o que  que tem a ver com arte?
      - Ah! - disse Langdon. - Ainda bem que algum pergunta. Projetou um novo alide, um pergaminho amarelado no qual estava representado o famoso nu de Leonardo da Vinci, O Homem de Vitrvio, assim chamado em honra de Marcus Vitruvius, o brilhante arquiteto romano que exaltou a Proporo Divina no seu texto De Achitectura. - Ningum compreendeu melhor do que da Vinci a estrutura divina do corpo humano. Da Vinci chegava ao ponto de exumar cadveres para poder estudar as propores da estrutura ssea do ser humano. Foi o primeiro a mostrar que o nosso corpo  literalmente formado por blocos constitutivos cuja razo proporcional  sempre igual a PHI.
      A turma inteira dirigiu-lhe um olhar carregado de dvida.
      - No acreditam? - desafiou-os Langdon. - Da prxima vez que forem para o banho, levem uma fita mtrica.
      Um par de jogadores de futebol fez um risinho trocista.
      - No me refiro apenas aos infelizes atletas, to cheios de inseguranas - continuou Langdon. - Todos vocs. Rapazes e garotas. Experimentem. Meam a distncia do topo da sua cabea at ao cho. Ento dividam esse valor pelo da distncia do seu umbigo at ao cho. Adivinhem que nmero vo obter.
      - No me diga que  PHI! - exclamou, incrdulo, um dos jogadores.
      - Digo, sim senhor - respondeu Langdon. - PHI. Um-ponto-seis-um-oito. Querem outro exemplo? Meam a distncia do ombro s pontas dos dedos, e ento dividam-na pela distncia do cotovelo s pontas dos dedos. Outra vez PHI. Mais uma? Anca ao cho dividida pelo joelho ao cho. PHI. Articulaes dos dedos das mos. Dos ps. Divises espinais. PHI, PHI, PHI. Meus amigos, cada um de vocs  um tributo ambulante  Proporo Divina.
      Mesmo no escuro, Langdon via as expresses espantadas dos estudantes. Sentiu uma satisfao familiar aquec-lo por dentro. Era Por aquilo que ensinava.
      - Como vem, o caos do mundo tem uma ordem subjacente. Quando os Antigos descobriram o nmero PHI, tiveram certeza de que tinham encontrado o tijolo que Deus usara para construir o mundo, e veneraram a natureza por causa disso. E  fcil compreender porqu. A mo de Deus  evidente na Natureza, e ainda hoje subsistem religies pags que adoram a Me-Terra. Muitos de ns celebramos a Natureza do mesmo modo que os pagos faziam, sem sequer darmos por isso. O Primeiro de Maio  um exemplo perfeito, a celebrao da Primavera... da terra regressando  vida para produzir a abundncia. A misteriosa magia inerente  Proporo Divina foi escrita no incio dos tempos. O homem limita-se a jogar segundo as regras da Natureza, e porque a arte  a sua tentativa de imitar a beleza da mo do Criador, podem imaginar que vamos ver muitos exemplos da Proporo Divina ao longo deste semestre.
      Durante a meia hora seguinte, mostrou-lhes diapositivos de obras de Miguel Angelo, Albercht Durer, da Vinci e muitos outros, demonstrando a obedincia intencional e rigorosa de todos estes artistas  Proporo Divina na disposio das respectivas composies. Mostrou a presena do nmero PHI no Prtenon de Atenas, nas pirmides do Egito e at no edifcio das Naes Unidas em Nova Iorque. O nmero PHI aparecia na estrutura organizacional das sonatas de Mozart, na 5 Sinfonia de Beethoven, nas obras de Bartk, Debussy e Schubert. O nmero PHI, disse Langdon aos seus alunos, fora inclusivamente usado por Stradivarius para calcular a localizao exata dos espelhos nos seus famosos violinos.
      - Para terminar - disse, dirigindo-se ao quadro -, voltamos aos smbolos. - Traou cinco linhas que se interceptavam para formar uma estrela de cinco pontas. - Este smbolo  uma das imagens mais poderosas que vo ver este semestre. Formalmente conhecido como pentagrama... ou pentculo, como lhe chamavam os Antigos...  considerado por muitas culturas simultaneamente divino e mgico. Algum sabe me dizer porqu?
      Stettner, o matemtico, levantou a mo.
      - Porque, se traar um pentagrama, as linhas dividem-se automaticamente em segmentos de acordo com a Proporo Divina.
      Langdon dirigiu-lhe um orgulhoso aceno de cabea.
      - Muito bem.  verdade, as razes dos segmentos lineares num pentculo so todas iguais a PHI, o que faz deste smbolo a expresso perfeita da Proporo Divina.
      Por esta razo, a estrela de cinco pontas sempre foi o smbolo da beleza e da perfeio associadas  deusa e ao sagrado feminino.
      Foi a vez de as garotas da turma sorrirem de orelha a orelha.
      - Uma nota, minha gente. Hoje nos limitamos a tocar ao de leve em da Vinci, mas vamos falar muito mais a respeito dele ao longo do semestre. Leonardo era um devoto muito bem informado sobre os antigos usos da deusa. Amanh, mostrarei o seu fresco. A ltima Ceia, que  um dos mais espantosos tributos ao sagrado feminino que alguma vez tero oportunidade de ver.
      - Est brincando, no est? - perguntou algum. - Pensava que A ltima Ceia tinha a ver com Jesus!
      Langdon piscou-lhe um olho.
      - H smbolos escondidos em lugares que nem imaginam.
      - Vamos - sussurrou Sophie. - O que est acontecendo? Estamos quase l. Depressa!
      Langdon olhou para cima, sentindo-se como que regressado de pensamentos muito distantes. Percebeu que tinha parado no meio da escada, paralisado por uma sbita revelao.
      O draconiano demnio! Oh, santo imperfeito!
      Sophie estava olhando para ele.
      No pode ser assim to simples, pensou Langdon.
      Mas, claro, sabia que era.
      Ali, nas entranhas do Louvre, com imagens de da Vinci e do PHI revoluteando-lhe pela cabea, Robert Langdon sbita e inexplicavelmente decifrou o cdigo de Saunire.
      - O draconian devil! Oh, lame saint! - disse. -  um cdigo simplicssimo!
      Sophie estava parada na escada alguns degraus mais abaixo, olhando para ele cheia de confuso. Um cdigo? Estivera pensando toda noite naquelas palavras e no vira qualquer cdigo. Sobretudo simplicssimo.
      - Voc mesma disse. - A voz de Langdon vibrava de excitao. - Os nmeros Fibonacci s tm significado na ordem correta. De outro modo, so algaravia matemtica.
      Sophie no fazia a menor idia do que estaria ele falando. Os nmeros Fibonacci?
      Tinha certeza de que o av s os escrevera para garantir que o Departamento de Criptologia seria chamado a intervir. Tm outro propsito? Enfiou a mo no bolso e tirou de foto, voltando a examinar a mensagem do av:
      13-3-2-21-1-1-8-5
      O, Draconian devil!
      Oh, lame saint!
      O que  que tm os nmeros?
      - A sequncia Fibonacci desordenada  uma pista - disse Langdon, pegando o papel. - Os nmeros indicam como decifrar o resto da mensagem. Escreveu a sequncia fora de ordem para nos dizer que aplicssemos o mesmo conceito ao texto. , draconian devil? Oh, lame saint? Estas linhas no tm qualquer significado. So apenas letras escritas fora de ordem.
      Bastou um instante a Sophie para compreender o que Langdon queria dizer, e era ridiculamente simples.
      - Acha que esta mensagem ... une anagramme? - Olhou para ele. - Como as charadas nos jornais?
      Langdon viu espelhado no rosto de Sophie um ceticismo que no teve dificuldade em compreender. Poucas pessoas sabiam que os anagramas, apesar de serem um vulgar passatempo moderno, tinham uma rica histria de simbolismo sagrado.
      Os ensinamentos msticos da cabala recorriam constantemente aos anagramas - rearranjando as letras do alfabeto hebraico para conseguir novos significados. Os reis franceses da Renascena estavam to convencidos do poder mgico dos anagramas que nomeavam anagramistas reais para os ajudarem a tomar as melhores decises analisando as palavras dos documentos. Os Romanos iam ao ponto de referir-se ao estudo dos anagramas como ars magna  a grande arte.
      Langdon prendeu com os seus os olhos de Sophie.
      - O que o seu av queria dizer esteve sempre diante dos nossos olhos, e ele deixou-nos pistas mais do que suficientes para que pudssemos v-lo.
      Sem mais uma palavra, tirou uma caneta do bolso e redisps as letras de cada linha.
      O, Draconian devil!
      Oh, lame saint!
      era o anagrama perfeito de...
      Leonardo da Vinci!
      The Mona Lisa!
      
      NT- Por razes que se tornaro patentes mais adiante,  essencial que esta e outras mensagens de Jacques Saunire apaream aqui tal como ele as escreveu: em ingls. As tradues sero dadas no prprio texto ou, quando necessrio, em nota de rodap. Note-se, por ser importante, que a forma find  igual para vrios tempos verbais. Assim, na ausncia do sujeito da frase, nem mesmo um ingls pode saber se significa encontrar, encontra, encontre ou encontrem.
      CAPTULO VINTE E UM
      
      
      A Mona Lisa.
      Por um instante, ali parada na escada de incndio, Sophie esqueceu tudo a respeito de tentar sair do Louvre.
      O choque que o anagrama lhe causara s se podia equiparar  vergonha de no ter sido ela a decifrar a mensagem. A sua percia nas tcnicas da mais complexa criptoanlise impedira-a de ver um simples jogo de palavras, e no entanto sabia que devia t-lo visto. Afinal, no era uma principiante em matria de anagramas... sobretudo em ingls.
      Quando era menina, o av usava com frequncia charadas e anagramas para lhe aperfeioar o ingls. Certa vez, escrevera a palavra planets e dissera-lhe que era possvel formar, usando as mesmas letras, nada menos que noventa e duas outras palavras inglesas de vrios tamanhos. Sophie passara trs dias agarrada a um dicionrio ingls at descobri-las todas.
      - No consigo imaginar - disse Langdon - como foi o seu av capaz de criar um anagrama to complicado nos poucos minutos de vida que lhe restavam.
      Sophie sabia a explicao, o que s serviu para faz-la sentir-se ainda pior. Devia ter visto isto! Lembrou-se de que o av - um praticante entusiasta dos jogos de palavras e um apaixonado pela arte - gostava de entreter-se, quando jovem, em criar anagramas de obras de famosos. Na realidade, um dos seus anagramas metera-o em problemas quando Sophie era ainda menina. Ao ser entrevistado por uma revista de arte americana, Saunire manifestara a sua averso ao moderno movimento cubista fazendo notar que o ttulo da obra-prima de Picasso Les Demoiselles dAvignon era um anagrama perfeito de vile meaningless doodles. Os adoradores de Picasso no tinham achado graa nenhuma.
      - Provavelmente, criou este anagrama h j muito tempo - disse, olhando para Langdon. E esta noite teve de us-lo como cdigo improvisado. A voz do av falara do alm com arrepiante preciso.
      Leonardo da Vinci!
      A Mona Lisa!
      Por que razo as suas derradeiras palavras faziam referncia ao clebre quadro era algo que Sophie no conseguia sequer imaginar, mas s lhe ocorria uma possibilidade. Uma possibilidade perturbadora.
      Aquelas no eram as suas ltimas palavras...
      Deveria ir ver a Mona Lisa! Ter-lhe-ia o av deixado l uma mensagem? A idia parecia perfeitamente plausvel. Afinal, a clebre pintura estava exposta na Salle des tats, uma cmara privada acessvel apenas a partir da Grande Galeria. Na realidade, Sophie percebia agora disso, as portas dessa cmara ficavam a escassos vinte metros do local onde o av fora encontrado morto.
      Podia facilmente ter ido at l antes de morrer.
      Sophie olhou para o alto da escada de incndio e ficou paralisada pela indeciso.
      Sabia que tinha de levar Langdon para fora do museu, e no entanto o instinto dizia-lhe que fizesse precisamente o contrrio. Recordando a sua primeira visita  Ala Denon, quando era uma criana, compreendeu que se o av tinha um segredo para lhe contar, poucos lugares na Terra poderiam ser mais adequados como ponto de encontro do que a sala da Mona Lisa.
      -  s mais um pouquinho - sussurra-lhe o av, apertando-lhe a mozinha minscula enquanto a guiava pelo museu deserto, depois da hora de encerramento.
      Sophie tinha seis anos. Sentia-se pequena e insignificante ao olhar para os vastos e altssimos tetos e para os soalhos refulgentes. O museu vazio de gente assustava-a, embora no estivesse disposta a deixar que o av o percebesse. Cerrou os dentes com fora e largou-lhe a mo.
      - L  frente fica a Salle des tats - disse-lhe, enquanto se aproximavam da mais clebre sala do Louvre. A despeito da evidente excitao do av, Sophie queria era ir para casa. J vira reprodues da Mona Lisa em livros e no gostara nem um pouco. No conseguia perceber porque  que todos ficavam to excitados por causa daquele quadro.
      - Cest ennuyeux - resmungou.
      - Aborrecido - corrigiu-a o av. - Francs na escola e ingls em casa.
      - Le Louvre cest pas chez-moi! - desafiou ela.
      O av lanou uma gargalhada cansada.
      - Tem toda a razo. Ento falemos ingls s pela graa.
      Sophie amuou e continuou a andar. Quando entraram na Salle des tats, percorreu com os olhos a estreita sala e deteve-os no evidente lugar de honra: o centro da parede do lado direito, onde estava suspenso um nico quadro por trs de uma parede protetora de Plexiglas. O av deteve-se  entrada e apontou para o quadro.
      - Vai, Sophie. Muito poucas pessoas tm o privilgio de v-la sozinhas.
      Engolindo a apreenso que a invadia, Sophie atravessou lentamente a sala.
      Depois de tudo o que ouvira a respeito da Mona Lisa, sentia-se como se estivesse aproximando-se de uma rainha. Chegada diante da placa de Plexiglas, reteve a respirao e ergueu os olhos, captando tudo de uma s vez.
      No sabia muito bem o que esperara sentir, mas no era com certeza aquilo.
      Nenhuma sacudidela de espanto. Nenhum instante de deslumbramento. O famoso rosto tinha exatamente o mesmo aspecto que nos livros. Ficou em silncio pelo que lhe pareceu uma eternidade,  espera de que qualquer coisa acontecesse.
      - Ento, que acha? - sussurrou o av, aproximando-se dela pelas costas. - Bonita, no ?
      - E muito pequenina.
      Jacques Saunire sorriu.
      - Voc  pequena e  bonita.
      No sou nada bonita, pensou ela. Sophie detestava os seus cabelos ruivos e as sardas, e era mais alta do que qualquer dos rapazes da sala dela na escola. Voltou a olhar para a Mona Lisa e abanou a cabea.
      -  ainda pior do que nos livros. o rosto dela ... brumeux.
      - Enevoada - ajudou o av.
      - Enevoada - repetiu Sophie, sabendo que a conversa no andaria para a frente at que ela aprendesse a nova palavra.
      -  o estilo de pintura chamado sfumato - explicou o av -  muito difcil de conseguir. Leonardo da Vinci fazia-o melhor do que ningum.
      Sophie continuava a no gostar do quadro.
      - Tem cara de quem sabe qualquer coisa... como quando os meninos na escola tm um segredo.
      O av riu.
      - Essa  uma das razes que a tornam to famosa. As pessoas gostam de tentar adivinhar porque est ela sorrindo.
      - Sabe porque  que ela est sorrindo?
      - Talvez. - O av piscou-lhe um olho. - Um dia contarei tudo a respeito dela. 
      Sophie bateu com o p.
      - J te disse que no gosto de segredos!
      - Princesa! - O av continuava a sorrir. - A vida  cheia de segredos. No pode descobri-los todos ao mesmo tempo.
      - Vou voltar l em cima - anunciou Sophie, e a voz dela soou cava no poo da escada.
      - Ver a Mona Lisa? - Langdon recuou um passo. - Agora?
      Sophie considerou o risco.
      - No sou suspeita de assassnio. Vou arriscar. Tenho de saber o que  que o meu av estava tentando me dizer.
      - E a embaixada?
      Sophie sentia-se culpada por fazer de Langdon um fugitivo s para logo a seguir o abandonar, mas no via outra sada. Apontou para uma porta metlica no fundo das escadas.
      - Passe por aquela porta e siga os sinais luminosos que indicam a sada. O meu av costumava trazer-me at aqui. Os sinais o levar-o at uma borboleta de segurana.
       monodirecional e abre Para fora. - Entregou-lhe as chaves do carro. -  o SmartCar encarnado que est no estacionamento do pessoal. Em frente desta fachada. Sabe chegar  embaixada?
      Langdon assentiu, olhando para as chaves que tinha na mo.
      - Oua - continuou Sophie, num tom mais suave. - Penso que o meu av me deixou uma mensagem na Mona Lisa... qualquer espcie de pista sobre quem o matou.
      Ou sobre porque  que eu corro perigo. - Ou sobre o que aconteceu  minha famlia. - Tenho de ir ver.
      - Mas se ele quisesse dizer-lhe por que razo corre perigo, no o teria escrito simplesmente no cho, no lugar onde morreu? Para qu este complicado jogo de palavras?
      - Fosse o que fosse que o meu av estava tentando me dizer, no me parece que quisesse que mais algum o ouvisse. Nem sequer a Polcia. - Muito claramente, o av fizera todo o possvel por enviar uma mensagem diretamente a ela. Escrevera-a em cdigo, incluindo as iniciais secretas, e dissera-lhe que procurasse Robert Langdon... um conselho muito sensato, considerando que o simbologista americano decifrara o cdigo. - Por estranho que possa parecer - acrescentou -, acho que ele queria que eu chegasse  Mona Lisa antes de qualquer outra pessoa.
      - Tambm vou.
      - No! No sabemos durante quanto tempo a Grande Galeria vai continuar deserta. Tem de ir.
      Langdon parecia hesitante, como se a curiosidade acadmica estivesse  beira de sobrepor-se ao bom senso e arrast-lo de volta para as mos de Fache.
      - V. Agora. - Sophie dirigiu-lhe um sorriso agradecido. - Encontramo-nos na embaixada, senhor Langdon.
      Langdon pareceu desagradado.
      - Encontro-me l com voc com uma condio - disse, firmemente.
      Ela fez uma pausa, sobressaltada.
      - Qual?
      - Que deixe de me chamar de senhor Langdon.
      Sophie detetou a dbil sombra de um sorriso torcido espalhar-se pelo rosto de Langdon, e deu por si sorrindo tambm.
      - Boa sorte, Robert.
      Quando chegou ao patamar ao fundo das escadas, Langdon sentiu o cheiro inconfundvel de leo de linhaa e p de gesso assaltando-lhe as narinas. L  frente, um sinal iluminado com a indicao SORTIE/EXIT e uma seta apontava para um comprido corredor.
      Entrou no corredor.
      A direita, abria-se um sombrio estdio de restaurao de onde espreitava um exrcito de esttuas em vrios estgios de reparao. Do lado esquerdo, viu uma srie de estdios que faziam lembrar as aulas de arte em Harvard - filas de cavaletes, quadros, paletas, ferramentas de emoldurar - uma linha de montagem de arte.
      Enquanto descia o corredor, perguntou a si mesmo se no iria, de um momento para o outro, acordar sobressaltado na sua cama em Cambridge. Toda aquela noite lhe parecera um estranho sonho. Estou me preparando para fugir do Louvre... um fugitivo procurado pela Polcia.
      A astuta mensagem anagramtica de Jacques Saunire no lhe saa da cabea, e ps-se a pensar no que iria Sophie encontrar na Mona Lisa... se alguma coisa encontrasse. Parecera segura de que o av queria que fosse ver o famoso quadro mais uma vez. Por muito plausvel que esta interpretao parecesse, Langdon sentia-se assombrado por um perturbador paradoxo.
      P. S. Encontre Robert Langdon.
      Jacques Saunire escrevera o nome dele no cho, ordenando a Sophie que o procurasse. Mas porqu? Apenas para que ele pudesse ajud-la a decifrar um anagrama?
      Parecia muito improvvel.
      Afinal, Saunire no tinha qualquer razo para pensar que ele fosse especialmente hbil em resolver anagramas. Nem sequer nos conhecamos. Mais importante, Sophie afirmara sem ambiguidades que ela devia ter decifrado o anagrama sozinha. Fora Sophie que detectara a sequncia Fibonacci e sem a mnima dvida, com um pouco mais de tempo, teria decifrado a mensagem sem ajuda de ningum.
      Sophie era habilitada para resolver aquele anagrama sozinha. Langdon estava sentindo-se cada vez mais seguro disto, e, no entanto, a concluso abria um buraco evidente na lgica das aes de Saunire.
      Porqu eu? perguntou-se Langdon enquanto percorria o corredor. Por que razo o
      ltimo desejo de Jacques Saunire antes de morrer foi que a neta, que estava zangada com ele, me procurasse? O que era que ele pensava que eu sabia?
      Com um sbito estremecimento, deteve-se no meio de uma passada. Com os olhos muito abertos, procurou no bolso do casaco e tirou de l a foto do computador.
      Olhou longamente para a ltima linha da mensagem de Saunire.
      P.S. Find Robert Langdon.
      Concentrou-se em duas letras.
      P. S.
      Naquele instante, Langdon sentiu que a desconcertante mistura de simbolismos de Saunire se tornava perfeitamente clara. Como um raio, uma carreira inteira de simbologia e histria desabou-lhe em cima da cabea. Todas as aes de Jacques Saunire naquela noite faziam de repente todo o sentido.
      Os pensamentos voavam-lhe pelo crebro enquanto tentava avaliar as implicaes do que tudo aquilo significava. Fazendo meia volta, olhou na direo de onde viera.
      Ainda haveria tempo?
      Sabia que pouco importava.
      Sem hesitar, comeou a correr a toda a velocidade em direo  escada.
      
      
      
      CAPTULO VINTE E DOIS
      
      
      Ajoelhado na primeira fila de bancos, Silas fingia rezar enquanto estudava a disposio do santurio. Saint-Sulpice, como a maior parte das igrejas, tinha a forma de uma gigantesca cruz romana. A longa seo central - a nave - conduzia ao altar-mor, onde era transversalmente atravessada por uma seo mais curta, conhecida como transepto. A interceo da nave com o transepto ocorria exatamente por baixo da cpula principal e era considerada o corao do templo... o seu ponto mais mstico e sagrado.
      No esta noite, pensou Silas. Saint-Sulpice esconde os seus segredos em outro lugar. Olhou para o brao sul do transepto, do lado direito, onde, no espao livre alm da ltima fila de bancos, se encontrava o objeto que as suas vtimas tinham descrito.
      L est.
      Embebida no granito cinzento do cho, brilhava uma fina e polida tira de lato... uma linha dourada que atravessava em diagonal o piso da igreja. A linha apresentava marcas graduadas, como uma rgua. Era um gnmon, tinham-lhe dito, um instrumento astronmico pago, como um relgio de sol. Turistas, cientistas e pagos de todo o mundo iam a Saint-Sulpice olhar para aquela famosa linha.
      A Linha da Rosa.
      Lentamente, Silas seguiu com os olhos o traado da tira de lato que passava diante dele da direita para a esquerda, em um estranho ngulo que nada tinha que ver com a simetria da igreja. Cortando o prprio altar-mor, pareceu-lhe uma cicatriz que desfigurasse um belo rosto. Dividia em duas a balaustrada da comunho e seguia em frente, percorrendo toda a largura da igreja para chegar finalmente ao canto do brao norte do transepto e tocar a base de uma estrutura absolutamente inesperada.
      Um colossal obelisco egpcio.
      Ali, a refulgente Linha da Rosa fazia um ngulo de noventa graus para cima e trepava pela face do obelisco, subindo dez metros at  ponta do pice piramidal, onde finalmente terminava.
      A Linha da Rosa, pensou Silas. A irmandade escondeu a Chave de Abbada na Linha da Rosa.
      Horas antes, quando Silas lhe dissera que a Chave de Abbada do Priorado estava escondida em Saint-Sulpice, o Professor parecera pouco convencido. Mas quando Silas acrescentara que todos os irmos lhe tinham dado a mesma localizao exata, relativamente  linha de lato que atravessava Saint-Sulpice, tivera como que uma revelao.
      - Ests falando da Linha da Rosa.
      O Professor falara-lhe rapidamente da famosa bizarria arquitetural de Saint-Sulpice: uma tira de metal que atravessava o santurio segundo um eixo exato norte-sul.
      Era uma espcie de relgio de sol, um vestgio do templo pago que se erguera naquele preciso local. A luz do Sol, atravessando o culo da parede sul, ia avanando ao longo da linha dia-a-dia, indicando a passagem do tempo, de solstcio a solstcio.
      A tira de lato fora em tempos conhecida como Linha da Rosa. Durante sculos, o smbolo da rosa estivera associado aos mapas e  funo de guiar as almas na direo correta. A rosa-dos-ventos, ou rosa-nutica, desenhada em praticamente todos os mapas, apontava as trinta e duas direes de onde sopravam os ventos, correspondentes aos pontos cardeais e intermdios. Quando inscritos num crculo, estes trinta e dois pontos faziam lembrar a tradicional rosa com trinta e duas ptalas. Ainda agora, o instrumento fundamental da navegao continuava a ser conhecido como rosa-dosventos, e o Norte apontado por uma ponta de seta... ou, mais comumente, por uma flor-de-lis.
      No globo, a Linha da Rosa, tambm chamada meridiano ou longitude, era qualquer linha imaginria traada do Plo Norte ao Plo Sul. Havia, evidentemente, um nmero infinito de linhas-da-rosa, uma vez que qualquer ponto do globo podia ser atravessado por uma longitude ligando os plos norte e sul. A questo para os primeiros navegadores era saber qual destas linhas devia ser considerada a Linha da Rosa, ou longitude zero, aquela a partir da qual todas as outras longitudes da Terra seriam medidas.
      Atualmente, essa linha passava por Greenwich, na Inglaterra.
      Mas nem sempre assim fora.
      Muito antes do estabelecimento de Greenwich como principal meridiano, a longitude zero atravessara Paris, e mais exatamente a igreja de Saint-Sulpice. A tira de lato de Saint-Sulpice era um memorial ao primeiro meridiano principal do mundo, e apesar de Greenwich ter, em 1888, roubado essa honra de Paris, a Linha da Rosa original continuava visvel.
      - Portanto, a lenda  verdadeira - dissera o Professor. - Dizia-se que a Chave de Abbada do Priorado estava sob o Signo da Rosa.
      Agora, ainda ajoelhado no banco, Silas olhou em redor e colocou-se  escuta, para certificar-se de que no havia ali mais ningum. Por um instante, pareceu ouvir um restolhar na varanda do coro. Voltou-se e perscrutou o local durante vrios segundos.
      Nada.
      Estou sozinho.
      Colocou-se de p, voltou-se para o altar e fez trs genuflexes. Ento, rodou  esquerda e seguiu a tira de lato em direo ao obelisco.
      Nesse mesmo momento, no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci, em Roma, a sacudidela dos pneus do avio ao tocarem na pista despertou o bispo Aringarosa da sua sonolncia. Cochilei, pensou, espantado por estar suficientemente descontrado para adormecer.
      - Benvenuto a Roma - disse uma voz nos altofalantes.
      Endireitando-se no banco, Aringarosa alisou a sotaina preta e permitiu-se um raro sorriso. Aquela fora uma viagem que tivera prazer em fazer. Estou na defensiva h muito tempo. Naquela noite, porm, as regras tinham mudado. Havia apenas cinco meses,
      Aringarosa temera pelo futuro da F. Agora, como que por vontade de Deus, a soluo surgira por si mesma.
      Interveno divina.
      Se em Paris, tudo corresse como planejado, Aringarosa estaria em breve na posse de algo que faria dele o homem mais poderoso da cristandade.
      
      
      
      CAPTULO VINTE E TRS
      
      
      Sophie chegou ofegante diante das portas de madeira da Salle des tats, a sala onde estava exposta a Mona Lisa. Antes de entrar, olhou relutantemente mais para o fundo da Grande Galeria, onde, a uma distncia de cerca de vinte metros, o corpo do av continuava cado no cho, iluminado pela luz do projetor.
      O remorso que lhe apertou o corao foi sbito e poderoso, uma profunda tristeza a que se misturava um pouco de culpa. O av estendera-lhe tantas vezes a mo ao longo daqueles ltimos dez anos, e ela permanecera inflexvel, deixando as cartas e as encomendas que ele lhe enviava por abrir na ltima gaveta da cmoda e frustrando todas as tentativas de contato. Mentiu! Guardou segredos terrveis! Que havia eu de fazer? E por isso pusera-o fora da sua vida. Completamente.
      Agora, o av estava morto, e mesmo do alm continuava tentando falar com ela.
      A Mona Lisa.
      Estendeu as mos para as grandes portas de madeira e empurrou. As portas abriram-se. Sophie deteve-se por um instante no umbral, perscrutando a vasta sala retangular. Ela tambm estava banhada em uma suave luz avermelhada. A Salle des tats era um dos raros culs-de-sac do museu: um beco sem sada e a nica sala que abria para a Grande Galeria. Aquelas portas, nica entrada e sada da cmara, ficavam em frente de um imponente Botticelli com quatro metros e meio, exposto na parede oposta. Entre os dois, no meio da galeria, um grande sof octogonal oferecia um ponto de pausa onde os milhares de visitantes podiam repousar as pernas enquanto admiravam a mais valiosa das jias do museu.
      Antes mesmo de entrar, porm, Sophie soube que lhe faltava qualquer coisa. Uma fonte de luz negra. Olhou uma vez mais para o corpo estendido do av, rodeado de aparelhagem electrnica. Se escrevera ali alguma coisa, usara quase com certeza uma caneta de marca de gua.
      Inspirando fundo, dirigiu-se apressadamente ao bem iluminado local do crime.
      Incapaz de olhar para o corpo, concentrou-se no material deixado pela equipe pericial.
      Encontrou uma pequena lanterna de luz negra, enfiou-a no bolso do camisolo e regressou o mais depressa que pde s portas abertas da Salle des tats.
      Dobrou a esquina e passou o umbral. A sua entrada foi, no entanto, acolhida pelo som inesperado de passos abafados vindos do interior da cmara. Tem algum aqui!
      Uma figura fantasmagrica emergiu repentinamente da sombra avermelhada. Sophie saltou para trs.
      - Ah, finalmente! - o sussurro rouco de Langdon quebrou o silncio enquanto a silhueta dela se detinha a poucos passos. O alvio de Sophie foi apenas momentneo.
      - Robert, eu lhe disse para sair daqui. Se Fache...
      - Onde esteve?
      - Precisava de uma fonte de luz negra - murmurou ela, mostrando-lhe a lanterna. - Se o meu av deixou uma mensagem...
      - Sophie, oua - interrompeu-a Langdon, cravando nos dela os olhos azuis. - As letras P.S... significam qualquer outra coisa para voc? Seja o que for?
      Receosa de que as vozes deles ecoassem na galeria deserta, Sophie puxou-o para dentro da Salle des tats e fechou silenciosamente as portas.
      - J lhe disse, as iniciais significam Princesa Sophie.
      - Eu sei, mas alguma vez as viu em outro lugar qualquer? O seu av usava as letras P.S. de qualquer outra maneira? Como monograma ou talvez em papel de carta ou em um artigo pessoal?
      A pergunta sobressaltou-a. Como  que ele sabe? Era verdade, tinha visto as iniciais em uma outra ocasio, uma espcie de monograma. Fora na vspera do dia em que fazia nove anos, quando estava passando secretamente revista  casa,  procura de presentes de aniversrio.
      J nessa poca, detestava segredos. O que foi que o av me comprou este ano?
      Revirou armrios e gavetas. Ser a boneca que eu queria? Onde a ter escondido? Nada encontrando no resto da casa, Sophie reuniu coragem suficiente para entrar no quarto do av. Estava expressamente proibida de faz-lo, mas o av dormia l em baixo, sentado no sof.
      Vou s dar uma espiadela!
      Avanou em pontas de ps sobre as tbuas rangentes do soalho at ao guarda-roupa e olhou para as prateleiras atrs das roupas penduradas. Nada. Depois, procurou debaixo da cama. Nada. Passou  mesa e, abrindo as gavetas uma a uma, revistou-as cautelosamente. Tem de haver qualquer coisa para mim! Quando chegou  ltima, no encontrara ainda vestgios de qualquer boneca. Desanimada, abriu-a e empurrou para o lado umas roupas pretas que nunca vira o av usar. Preparava-se para desistir quando vislumbrou o brilho do ouro no fundo da gaveta. O corao comeou a bater-lhe mais depressa quando percebeu o que devia ser.
      Um colar!
      Com todo o cuidado, tirou a corrente da gaveta. Para sua surpresa, tinha suspensa na ponta uma refulgente chave de ouro. Pesada e brilhante. Hipnotizada, ergueu-a nas mos. Era diferente de qualquer outra chave que j tivesse visto. A maior parte das chaves era achatada, com dentes recortados, mas aquela tinha uma haste triangular coberta de pequenas marcas. A pega tinha a forma de uma cruz, mas no de uma cruz normal. Era uma cruz de braos iguais, como um sinal de mais. Gravado no meio da cruz, viu um estranho smbolo: duas letras entrelaadas com uma espcie de motivo floral.
      - P.S. - murmurou, franzindo a testa enquanto lia as letras. Que querer isto dizer?
      - Sophie? - chamou o av, da porta.
      Assustada, voltou-se bruscamente, deixando cair a chave, que bateu no cho com um rudo surdo.
      - Estava...  procura do meu presente de aniversrio - disse, baixando a cabea, sabendo que tinha trado a confiana dele.
      Pelo que lhe pareceu uma eternidade, o av permaneceu silencioso e imvel,  porta do quarto. Finalmente, deixou escapar um longo suspiro.
      - Pegue a chave, Sophie.
      Sophie pegou a chave.
      O av entrou no quarto.
      - Sophie, voc tem de respeitar a privacidade das outras pessoas. - Gentilmente, ajoelhou-se junto dela e tirou-lhe a chave das mos. - Esta chave  muito especial. Se a perdesse...
      A voz calma do av a fez se sentir ainda pior.
      - Peo desculpas, grand-pre, palavra... Pensei que fosse um colar para o meu aniversrio.
      O av ficou olhando para ela pelo espao de vrios segundos.
      - Vou lhe dizer isto mais uma vez, Sophie, porque  importante. Tem de aprender a respeitar a privacidade das outras pessoas.
      - Sim, grand-pre.
      - Voltamos a falar nisso em outra ocasio. No momento, o jardim tem ervas daninhas que  preciso arrancar.
      Sophie apressou-se a sair, para ir tratar dos seus deveres.
      Na manh seguinte, no recebeu qualquer presente de aniversrio do av. Nem estava  espera de receber, depois do que tinha feito. Mas ele nem sequer lhe deu os parabns durante todo o dia. Nessa noite, foi triste para a cama. Quando se preparava para se deitar, no entanto, viu um carto em cima da almofada. No carto, estava escrito um enigma. Ainda antes de resolve-lo, j estava sorrindo. J sei o que ! O av tinha feito o mesmo no ltimo Natal.
      Uma caa ao tesouro!
      Alvoroada, estudou o enigma at descobrir a soluo. Que a encaminhou para outra parte da casa, onde encontrou outro carto e outro enigma. Resolveu tambm este e correu para o seguinte, com o corao em festa, correu de um lado para o outro, de pista em pista, at que, finalmente, encontrou uma que a fez voltar ao quarto. Subiu os a escada saltando dois degraus de cada vez, entrou de rompante no quarto e deteve-se, paralisada.  sua frente, brilhante maravilhosa, estava uma bicicleta vermelha, com uma fita amarrada. Sophie gritou de pura delcia.
      - Eu sei que tinha pedido uma boneca - disse o av, a sorrir-lhe do canto. - Mas achei que ia gostar ainda mais disto.
      No dia seguinte, o av a ensinou a andar de bicicleta, correndo ao lado dela no caminho empedrado do jardim. Quando Sophie se desviou para a relva e perdeu o equilbrio, caram os dois, rebolando e rindo.
      - Grand-pre - disse Sophie, abraando-o -, peo desculpas por aquilo da chave.
      - Tudo bem, querida. Ests perdoada. No consigo ficar zangado com voc. Os avs e as netas perdoam sempre uns aos outros.
      Sophie sabia que no devia perguntar, mas no conseguiu evit-lo.
      - O que  que ela abre? Nunca vi uma chave assim.  muito bonita.
      O av ficou calado por um longo instante, e Sophie percebeu que no sabia muito bem como responder-lhe. O grand-pre nunca mente.
      - Abre um cofre - disse, finalmente. - Onde guardo muitos segredos.
      Sophie amuou.
      - Odeio segredos!
      - Eu sei, mas estes so segredos importantes. E, um dia, aprender a dar-lhes tanto valor como eu dou.
      - Vi letras na chave, e uma flor.
      - Sim,  a minha flor preferida. Chama-se flor-de-lis. Ns as temos no jardim. So as brancas. Tambm pode cham-las de lrios.
      - J sei! Tambm so as minhas preferidas!
      - Ento, vou fazer um acordo contigo. - O av arqueou as sobrancelhas, como costumava fazer sempre que lhe propunha um desafio. - Se conseguir guardar segredo a respeito da minha chave, e nunca mais voltar a falar dela, a mim ou seja a quem for, um dia eu a darei para voc.
      Sophie nem queria acreditar no que ouvia.
      - Palavra?
      - Prometo. Quando chegar o momento, a chave ser sua. At tem o seu nome escrito.
      Sophie franziu a testa.
      - No, no tem. Diz P.S. Eu no me chamo P.S.!
      O av baixou a voz e olhou em redor, como que a certificar-se de que ningum os ouvia.
      - Muito bem, Sophie, se quer saber, P.S.  um cdigo. So suas iniciais secretas. 
      Ela abriu muito os olhos.
      - Tenho iniciais secretas?
      - Claro. Todas as netas tm iniciais secretas que s os avs conhecem.
      - P.S.?
      Ele lhe fez ccegas.
      - Princesse Sophie.
      - No sou nenhuma princesa! - disse ela, rindo. O av piscou-lhe um olho.
      - . Para mim.
      A partir desse dia, nunca mais voltaram a falar da chave. E ela passara a ser a Princesa Sophie.
      Fechada na Salle des tats, Sophie permanecia em silncio, suportando a dor da perda.
      - As iniciais - insistiu Langdon, olhando para ela de um modo estranho. - J as tinha visto?
      Sophie sentiu a voz do av sussurrando nos corredores do museu. Nunca fale desta chave, Sophie. a mim ou seja a quem for. Sabia que j lhe falhara no lhe perdoando, e perguntou a si mesma se seria capaz de voltar a trair a confiana dele. P.S.
      Encontra Robert Langdon. O av queria que Langdon a ajudasse. Assentiu com a cabea.
      - Sim, vi estas iniciais uma vez. Quando era muito nova.
      - Onde?
      Sophie hesitou.
      - Em uma coisa muito importante para ele.
      Langdon prendeu o olhar ao dela.
      - Sophie, isto  crucial. Pode me dizer se as iniciais apareciam juntamente com um smbolo? Uma flor-de-lis?
      Sophie sentiu-se recuar um cambaleante passo, espantada.
      - Mas... mas como  que sabe?
      Langdon deixou escapar o ar que retinha nos pulmes e baixou a voz:
      - Tenho quase certeza de que o seu av era membro de uma Sociedade secreta.
      Uma irmandade secreta muito antiga.
      Sophie sentiu um n no estmago. Tambm ela estava certa disso. Durante dez anos, tentara esquecer o incidente que lhe confirmara a terrvel verdade. Testemunhara algo impensvel. Imperdovel.
      - A flor-de-lis - continuou Langdon - e as iniciais P.S. so o emblema oficial da irmandade. O braso. O logotipo, por assim dizer.
      - Como  que sabe tudo isso? - Sophie estava pedindo a Deus que Langdon no lhe dissesse que tambm ele era membro.
      - Escrevi a respeito desse grupo - respondeu Langdon, com a voz trmula de excitao. - Pesquisar os smbolos das sociedades secretas  uma das minhas especialidades. Chamam a si mesmos le Prieur de Sion... o Priorado de Sio. Tm a sua base aqui na Frana e atraem membros importantes de toda a Europa. Na realidade, so uma das sociedades secretas mais antigas ainda existentes.
      Sophie nunca ouvira falar deles.
      Langdon falava agora apressadamente, como se temesse no ter tempo para dizer tudo:
      - O Priorado tem contado entre os seus membros alguns dos indivduos mais cultos da Histria: homens como Botticelli, Sir Isaac Newton, Victor Hugo. - Fez uma pausa, com a voz a ressumar zelo acadmico. - E Leonardo da Vinci.
      Sophie sobressaltou-se.
      - Da Vinci fazia parte de uma sociedade secreta?
      - Chefiou o Priorado entre 1510 e 1519, como Gro-Mestre da irmandade, o que talvez ajude a explicar a paixo do seu av pelas obras dele. Havia entre os dois um lao de fraternidade histrica. E tudo isto encaixa perfeitamente com o fascnio de ambos pela iconologia da deusa, o paganismo, as divindades femininas, e tambm com o desprezo pela Igreja. O Priorado tem uma histria bem documentada de reverncia pelo sagrado feminino.
      - Est me dizendo que esse grupo  um culto pago da deusa?
      - Diria antes que  o culto pago da deusa. Mas, mais importante do que isso, so conhecidos como os guardies de um segredo muito antigo. Um segredo que os torna incomensuravelmente poderosos.
      A despeito da convico absoluta que brilhava nos olhos de Langdon, a reao visceral de Sophie era de total incredulidade. Um culto pago secreto? Em tempos encabeado por Leonardo da Vinci? Tudo aquilo parecia completamente absurdo. E no entanto, ao mesmo tempo que recusava acreditar, sentia a mente recuar dez anos... at  noite em que surpreendera involuntariamente o av e testemunhara aquilo que continuava a no poder aceitar. Poder isto explicar...?
      - A identidade dos membros vivos do Priorado  um segredo cuidadosamente guardado - continuou Langdon -, mas o P.S. e a flor-de-lis que viu quando era criana so prova. S pode estar relacionado com o Priorado.
      Sophie compreendeu ento que Langdon sabia muito mais do que ela de incio julgara a respeito do av. Aquele americano tinha sem a mnima dvida volumes de informao para partilhar, mas no ali.
      - No posso me dar ao luxo de deixar que o apanhem, Robert. Temos muita coisa a discutir. Tem de ir!
      Langdon ouviu apenas o dbil murmrio da voz dela. No ia a parte nenhuma.
      Estava perdido em um outro lugar. Um lugar onde segredos antigos subiam  superfcie.
      Um lugar onde histrias esquecidas emergiam das sombras.
      Lentamente, como se estivesse movendo-se debaixo de gua, voltou a cabea e olhou atravs da penumbra avermelhada para a Mona Lisa.
      A flor-de-lis... a flor de Lisa... a Mona Lisa.
      Estava tudo interligado, uma sinfonia silenciosa em que ecoavam os segredos mais profundos do Priorado de Sio e de Leonardo da Vinci.
      A poucos quilmetros dali, na margem do rio juntos a Les Invalides, o estupefato condutor do grande caminho TIR, de mos no ar sob a ameaa de vrias armas, via o capito da Polcia Judiciria lanar um gutural rugido de raiva e atirar uma barra de sabonete s escuras s guas do Sena.
      
      
      
      CAPTULO VINTE E QUATRO
      
      
      Silas ergueu os olhos para o topo do obelisco de Saint-Sulpice, medindo o tamanho da macia coluna de pedra. Sentia os tendes tensos de expectativa. Olhou uma vez mais em redor, para certificar-se de que continuava sozinho. Ajoelhou-se ento junto  base do obelisco, no em reverncia, mas por necessidade.
      A Chave de Abbada est escondida debaixo da Linha, da Rosa. Na base do obelisco de Sulpice.
      Todos os irmos tinham dito o mesmo.
      De joelhos, Silas passou as mos pelo cho de pedra. No viu quaisquer rachadura ou marcas que indicassem uma laje mvel, de modo que comeou a bater de leve com os ns dos dedos no cho. Seguindo a linha de lato junto ao obelisco, foi batendo com os dedos nas lajes de ambos os lados. Finalmente, uma delas ressoou estranhamente.
      H uma cavidade debaixo do cho!
      Silas sorriu. As suas vtimas tinham dito a verdade.
      Ps-se de p e procurou em redor qualquer coisa que pudesse usar para partir a laje.
      Bem l em cima, na varanda do coro, a irm Sandrine abafou uma exclamao. Os seus mais negros receios acabavam de ser confirmados. O visitante no era o que parecia. O misterioso monge da Opus Dei fora a Saint-Sulpice com um outro objetivo.
      Um objetivo secreto.
      No  s voc que tem segredos, pensou.
      A irm Sandrine Bieil era mais do que a zeladora daquela igreja. Era uma sentinela. E, naquela noite, as antigas engrenagens tinham sido postas em movimento. A chegada daquele estranho junto  base do obelisco era um sinal da irmandade.
      Era um grito de alarme.
      
      
      
      CAPTULO VINTE E CINCO
      
      
      A embaixada dos Estados Unidos em Paris  um complexo compacto situado na Avenue Gabriel, a norte dos Champs-Elyses. O recinto, com doze mil metros quadrados,  considerado solo americano, o que significa que todos os que l se encontrem esto sujeitos s mesmas leis e gozam das mesmas salvaguardas que teriam nos Estados Unidos.
      A telefonista do turno da noite da embaixada estava lendo a edio internacional da Time quando a campainha do telefone a interrompeu.
      - Embaixada dos Estados Unidos - respondeu.
      - Boa noite. - O homem que ligara falava ingls com sotaque francs. - Preciso de ajuda. - No obstante a delicadeza das palavras, o tom era seco e oficial. - Disseram-me que h uma chamada telefnica para mim no sistema automtico. O nome  Langdon.
      Infelizmente, esqueci o meu cdigo de acesso de trs dgitos. Ficaria muito grato se pudesse me ajudar.
      A telefonista hesitou, confusa.
      - Lamento muito, senhor. A sua mensagem deve ser muito antiga. Esse sistema foi desativado h dois anos, por razes de segurana. Alm disso, todos os cdigos de acesso tinham cinco dgitos. Quem lhe disse que tinha uma mensagem?
      - No tm um servio de mensagens automtico?
      - No, senhor.
      - Qualquer mensagem que lhe fosse destinada teria sido transcrita manualmente pelos nossos servios. Importa-se de repetir o seu nome?
      Mas o homem tinha desligado.
      Bezu Fache estava confuso enquanto andava de um lado para o outro junto  margem do Sena. Tinha certeza de ter visto Langdon marcar um nmero local, introduzir um cdigo de trs dgitos e em seguida ouvir uma mensagem gravada. Mas se Langdon no telefonou para a embaixada, para quem diabo telefonou?
      Foi nesse momento, ao olhar para o celular, que Fache compreendeu que tinha a resposta na palma da mo. Usou o meu telefone para fazer a chamada. Apertando a tecla do menu, chamou ao visor a lista dos ltimos nmeros marcados e descobriu o telefonema que Langdon tinha feito.
      Um nmero de Paris, seguido pelo cdigo 454. 
      Tornando a discar o nmero, Fache aguardou a linha comear a chamar.
      Finalmente, uma voz de mulher disse:
      - Bonjour, vous tes bien chez Sophie Neveu. Je suis absente pour le moment, mais...
      Fache sentia o sangue ferver de raiva enquanto marcava 4...5...4.
      
      
      
      CAPTULO VINTE E SEIS
      
      
      A despeito da sua fenomenal reputao, a Mona Lisa tem meros 75,5 cm por 25,5 cm - menos do que os cartazes com a reproduo vendidos na loja de souvenirs do Louvre. Est suspensa na parede noroeste da Salle des tats, atrs de uma placa de Plexiglas com cinco centmetros de espessura. A atmosfera etrea, enevoada, do quadro, pintado em um painel de madeira de choupo,  atribuda ao incomparvel domnio que da Vinci tinha da tcnica do sfumato, em que as formas parecem dissolver-se umas nas outras.
      Desde que assentou residncia no Louvre, a Mona Lisa - ou La Joconde, como lhe chamam na Frana - foi roubada por duas vezes, a ltima das quais em 1911, quando desapareceu da salle impntrable do Louvre - Le Salon Carr. Os parisienses choraram nas ruas e escreveram artigos nos jornais suplicando aos ladres que devolvessem o quadro. Dois anos mais tarde, encontraram-na no fundo falso de uma mala, em um quarto de hotel em Florena.
      Langdon, tendo deixado bem claro a Sophie que no tencionava ir embora, atravessou com ela a Salle des tats. Estavam ainda a vinte metros de distncia do quadro quando Sophie ligou a lanterna de luz negra e o fino feixe azulado comeou a correr pelo cho  frente deles. Sophie fazia-o balanar de um lado para o outro, como um detetor de minas, em busca do menor vestgio de tinta luminescente.
      Enquanto avanava ao lado dela, Langdon sentia j o formigueiro de antecipao que acompanhava sempre os seus encontros face-a-face com as grandes obras de arte.
      Esforou-se por ver alm do casulo de luz violeta emitido pela lanterna que Sophie levava na mo.
       esquerda, o sof octogonal da sala emergiu das sombras, parecendo uma ilha negra no meio de um mar vazio de parquet.
      Langdon comeava a ver o painel de vidro escuro na parede. Do outro lado, nos recessos da sua cela privada, encontrava-se suspenso o quadro mais clebre do mundo.
      O status da Mona Lisa como a obra de arte mais famosa do mundo nada tinha a ver, Langdon bem sabia, com o seu enigmtico sorriso. Nem se devia s misteriosas interpretaes que lhe eram atribudas por numerosos historiadores de arte e manacos da teoria de conspirao. Muito simplesmente, a Mona Lisa era famosa porque Leonardo da Vinci a considerava a mais perfeita das suas realizaes. Levava o quadro consigo para onde quer que viajasse e, se lhe perguntavam porqu, respondia que tinha dificuldade em separar-se da mais sublime expresso da beleza feminina.
      Mesmo assim, muitos historiadores de arte suspeitavam de que a reverncia de da Vinci pela Mona Lisa nada tinha com a sua maestria artstica. Na realidade, o quadro era um retrato sfumato surpreendentemente vulgar. A venerao do artista pela sua obra, diziam, devia-se a algo muito mais profundo: uma mensagem escondida nas camadas de tinta. A Mona Lisa era, de fato, uma das piadas privadas mais estudadas do mundo. A bem documentada colagem de duplos sentidos e aluses jocosas do quadro tem sido descrita na maior parte dos livros de Histria da Arte, o que, incrivelmente, no impedia que o pblico em geral continuasse a considerar o seu sorriso um grande mistrio.
      No h qualquer mistrio, pensou Langdon enquanto avanava e via os difusos contornos do quadro comearem a ganhar forma. Nenhum mistrio.
      Muito recentemente, tinha partilhado o segredo da Mona Lisa com um grupo bastante inesperado de ouvintes: uma dzia de detidos na Essex County Penitentiary. O seminrio fizera parte de um Programa de Harvard que visava levar a educao ao sistema prisional. Cultura para Condenados, como os colegas de Langdon gostavam de lhe chamar.
      De p junto de um retroprojetor na biblioteca da penitenciria de luzes apagadas, Langdon explicou o segredo da Mona Lisa aos presos que assistiam  aula, homens que achara surpreendentemente interessados - rudes, mas atentos.
      - Notaro - disse-lhes, aproximando-se da imagem projetada na parede - que o fundo por trs do rosto dela no  uniforme. - Apontou para a clamorosa discrepncia. - Da Vinci pintou a linha de horizonte do lado esquerdo muito mais abaixo do que do lado direito.
      - Fez burrada? - perguntou um dos homens.
      Langdon riu.
      - No. Da Vinci raramente fazia burrada. Na realidade, trata-se de um pequeno truque. Ao baixar a paisagem  esquerda, fez com que a Mona Lisa parecesse muito maior desse lado do que do direito. Uma piadinha privada, poderia dizer. Historicamente, os conceitos de masculino e feminino tm lados atribudos: o esquerdo  feminino, o direito  masculino. Da Vinci, sendo um grande f dos princpios femininos, fez a Mona Lisa parecer mais majestosa do lado esquerdo.
      - Ouvi dizer que ele era maricas - disse um homem que usava uma barbicha.
      Langdon franziu os lbios.
      - De um modo geral, os historiadores no pem a coisa exatamente nesses termos, mas sim, da Vinci era homossexual.
      - Era por isso que estava to nessa do feminino?
      - Na realidade, da Vinci estava em sintonia com o equilbrio entre o masculino e o feminino. Acreditava que a alma humana s podia ser iluminada se possusse em simultneo elementos masculinos e femininos.
      - Quer dizer, garotas com pica? - perguntou algum.
      A sada provocou uma exploso de gargalhadas. Langdon considerou a hiptese de lhes dar uma explicao etimolgica atenuada a respeito da palavra hermafrodita e das ligaes a Hermes e a Afrodite, mas algo lhe disse que seria esforo perdido.
      - Eh, senhor Langdon - interpelou-o um homem cheio de msculos. -  verdade que a Mona Lisa  um retrato do da Vinci vestido de mulher? Ouvi dizer que sim.
      -  muito possvel - respondeu Langdon. - Da Vinci era um brincalho, e a anlise computadorizada da Mona Lisa e de alguns dos seus auto-retratos confirma a existncia de vrios e surpreendentes pontos de congruncia em ambos os rostos. Mas, fosse qual fosse a inteno de da Vinci, a Mona Lisa no  macho nem fmea. Transmite uma sutil mensagem de androginia.  uma fuso de ambas as coisas.
      - Tem certeza de que isso no  s conversa erudita para dizer que a Mona Lisa  feia como o diabo?
      Langdon riu.
      - Talvez tenha razo. Mas a verdade  que da Vinci deixou uma indicao muito clara de que o quadro deve ser considerado andrgino. Algum j ouviu falar de um deus egpcio chamado Amon.
      - Raios, sim - respondeu o homem dos msculos. - O deus da fertilidade masculina!
      Langdon estava espantado.
      -  o que vem escrito em todas as caixas de preservativos Amon. - O Hrcules sorriu amplamente. - Tm na parte da frente um cara com cabea de carneiro e diz que  o deus egpcio da fertilidade. Langdon no conhecia a marca, mas ficou contente por saber que os fabricantes de profilcticos tinham interpretado corretamente os hierglifos.
      - Muito bem. Amon  de fato representado por um homem com cabea de carneiro.
      E sabem como se chamava o seu equivalente feminino? Quem era a deusa egpcia que encarnava a mulher-modelo?
      Seguiram-se vrios segundos de sepulcral silncio.
      - Era Isis - disse Langdon, pegando um marcador. - Temos, pois, o deus masculino, Amon - e escreveu a palavra em um acetato -, e a deusa feminina, Isis, cujo antigo pictograma se chamava em outros tempos LISA.
      Langdon parou de escrever e afastou-se do projetor.
      AMON LISA
      - Lembra-lhes alguma coisa? - perguntou.
      - Mona Lisa... olha que porra! - exclamou algum.
      Langdon assentiu.
      -  verdade, meus senhores, no s o rosto da Mona Lisa parece andrgino, como o seu prprio nome  um anagrama da unio divina entre o masculino e o feminino.  este, meus amigos, o segredo de da Vinci, e a razo daquele sorrisinho de quem sabe qualquer coisa.
      - O meu av esteve aqui - disse Sophie, ajoelhando a menos de dez metros do quadro.
      Apontou o feixe de luz negra para um ponto do soalho de parquet.
      De incio, Langdon nada viu ento, ao ajoelhar junto dela, reparou em uma minscula gota luminescente de lquido seco. Tinta? De sbito, recordou para o que era geralmente usada a luz negra. Sangue. Sentiu-se vibrar. Sophie tinha razo. Jacques
      Saunire fizera uma ltima visita  Mona Lisa antes de morrer.
      - No teria vindo aqui sem um motivo - sussurrou Sophie, pondo-se de p. - Tenho certeza de que me deixou uma mensagem. - Percorrendo rapidamente os poucos passos que faltavam, iluminou o cho em frente do quadro. Fez deslizar a luz negra de um lado para o outro sobre o soalho nu.
      - H aqui qualquer coisa!
      Nesse instante, Langdon viu um dbil brilho prpura no grosso vidro que protegia o quadro. Agarrou o pulso de Sophie e ergueu lentamente o feixe de luz.
      Ficaram ambos petrificados.
      No vidro, rabiscadas diretamente sobre o rosto da Mona Lisa, seis palavras refulgiam em prpura.
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO VINTE E SETE
      
      
      Sentado  mesa de Saunire, o tenente Collet apertou o telefone contra o ouvido, incrdulo. Terei ouvido bem?
      - Um sabonete? Mas como conseguiu Langdon descobrir o marcador GPS?
      - Sophie Neveu - respondeu Fache. - Foi ela que lhe contou.
      - O qu! Porqu?
      - A pergunta  boa, mas acabo de ouvir uma gravao que confirma que ela o avisou.
      Collet estava sem palavras. Que raio ter passado pela cabea da Neveu? Fache tinha provas de que Sophie interferira com uma investigao da DCPJ? Sophie Neveu no ia s ser despedida, ia tambm para a priso.
      - Mas, capito... onde est Langdon agora?
      - Disparou a algum alarme?
      - No.
      - E ningum passou por baixo da grade da Grande Galeria?
      - No. Temos l um dos seguranas do museu, como mandou.
      - Muito bem, ento Langdon ainda deve estar dentro da Grande Galeria.
      - Dentro? Mas que ele est fazendo l? O segurana do museu est armado?
      - Sim.  um graduado.
      - Mande-o entrar - ordenou Fache. - Ainda vou demorar aqui uns minutos, e no quero que Langdon descubra uma sada - Fache fez uma pausa. - E o melhor  dizer ao segurana que agente Neveu provavelmente est com ele.
      - Pensei que a agente Neveu tinha ido embora.
      - Voc a viu sair?
      - No, mas...
      - Tambm nenhum dos homens que vigiavam o permetro a viu sair. S a viram entrar.
      Collet estava estupefato com a ousadia de Sophie. Ainda est no edifcio?
      - Trate disso - continuou Fache. - Quero Langdon e a Neveu detidos quando chegar a.
      Enquanto o caminho TIR se afastava, o capito Fache reuniu os seus homens.
      Robert Langdon provara ser uma presa escorregadia, e com a agente Neveu a ajud-lo, podia tornar-se mais difcil de encurralar do que tinham esperado.
      Decidiu no correr riscos.
      Por uma questo de segurana, mandou metade dos agentes regressar ao Louvre, enquanto os restantes iam vigiar o nico outro lugar de Paris onde Robert Langdon poderia encontrar refgio.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO VINTE E OITO
      
      
      Na Salle des tats, Langdon olhava espantado para as seis palavras que brilhavam na placa de Plexiglas. O texto parecia pairar no espao, lanando uma sombra recortada sobre o enigmtico sorriso da Mona Lisa.
      - O Priorado! - murmurou. - Isto prova que o seu av era membro!
      Sophie olhou para ele, confusa.
      - Compreende o que est escrito ali?
      - Claro - assentiu Langdon, com o crebro funcionando a todo o vapor. -  a proclamao de uma das filosofias mais fundamentais do Priorado.
      Sophie voltou a olhar para a mensagem escrita sobre o rosto da Mona Lisa.
      Em ingls, como a que Jacques Saunire escrevera no cho junto do lugar onde tinha morrido.
      SO DARK THE CON OF MAN
      - To negra a mentira do homem? - murmurou Sophie, tentando uma traduo que fizesse sentido.
      - A tradio do Priorado de perpetuar o culto da deusa baseia-se  explicou Langdon - na convico de que homens poderosos pertencentes  primitiva Igreja crist enganaram o mundo propagando mentiras que desvalorizavam o feminino e faziam pender a balana para o lado do masculino.
      Sophie permaneceu silenciosa, olhando para as palavras.
      - O Priorado acredita que Constantino e os seus sucessores masculinos conseguiram converter o mundo do paganismo matriarcal ao cristianismo patriarcal montando uma campanha de propaganda que demonizou o sagrado feminino, obliterando para sempre a deusa da nova religio.
      A expresso de Sophie continuava a revelar incerteza.
      - O meu av mandou-me a este lugar para encontrar isto. Devia estar tentando me dizer mais qualquer coisa.
      Langdon percebeu o que ela queria dizer. Pensa que isto  outro cdigo. Se havia ou no ali um significado escondido, era coisa que no podia dizer naquele instante. O seu esprito estava ainda lidando com a ousada clareza da mensagem de Saunire.
      To negra a mentira do homem, pensou. Negra, sem dvida.
      Ningum podia negar o bem enorme que a Igreja moderna fazia no conturbado mundo atual, e, no entanto, essa mesma Igreja tinha uma histria de falsidade e violncia. A brutal cruzada para reeducar as religies pags e os cultos femininos prolongara-se por trs sculos, com o recurso a mtodos to inspirados como horrveis.
      A Inquisio catlica publicara o livro que podia sem exagero ser considerado o texto mais ensopado em sangue de toda a histria humana. Malleus Maleficarum - ou O Martelo das Bruxas - alertava o mundo para os perigos das mulheres livres-pensadoras e ensinava o clero a descobri-las, tortur-las e destru-las. Pertenciam ao grupo das que a Igreja considerava bruxas todas as eruditas, sacerdotisas, as ciganas, as msticas, as amantes da natureza, as coletoras de ervas e qualquer mulher suspeitosamente sintonizada com o mundo natural. Tambm as parteiras eram mortas por usarem os seus conhecimentos de medicina para aliviar as dores do parto - um sofrimento, afirmava a Igreja, que Deus muito justamente impusera s mulheres como castigo por Eva ter partilhado o Fruto do Conhecimento, dando assim origem  idia do Pecado Original.
      Durante trezentos anos de caa s bruxas, a Igreja queimara na fogueira uns estarrecedores cinco milhes de mulheres.
      A propaganda e a orgia de sangue tinham resultado.
      O mundo atual era uma prova viva disso mesmo.
      As mulheres, outrora celebradas como a metade essencial da iluminao espiritual, tinham sido banidas dos templos de todo o mundo. No havia mulheres que fossem rabis ortodoxos, nem padres catlicos, nem clrigos islmicos. O outrora sagrado ato de Hieros Gamos - a natural unio sexual entre homem e mulher atravs da qual ambos se tornavam espiritualmente completos - passara a ser apresentado como uma coisa vergonhosa. Homens santos que em outros tempos precisavam da unio sexual com os respectivos equivalentes femininos para comungar com Deus temiam agora os seus impulsos sexuais normais, considerando-os obra do diabo de conluio com o seu cmplice preferido: a mulher.
      Nem sequer a associao feminina ao lado esquerdo tinha escapado  difamao da Igreja. Na Frana e na Itlia, as palavras para esquerda - gache e sinistra - acabaram por adquirir conotaes profundamente negativas, enquanto o lado direito era sinnimo de retido, habilidade, correo. Ainda na atualidade, o pensamento radical era considerado ala esquerda, o mau humor era acordar para a esquerda, e tudo o que fosse mau era sinistro.
      Os dias da deusa tinham chegado ao fim. O pndulo balanara. A Me-Terra tornara-se um mundo do homem, e os deuses da destruio e da guerra cobravam o seu tributo. Durante dois mil anos, o ego masculino correra  solta sem o freio do seu par feminino. O Priorado de Sio acreditava que fora esta obliterao do sagrado feminino que causara aquilo a que os ndios Hopi da Amrica chamavam koyanisquatsi  vida sem equilbrio -, uma situao instvel marcada por guerras inspiradas pela testosterona, uma pltora de sociedades misginas e um crescente desrespeito pela Terra-Me.
      - Robert! - O sussurro de Sophie trouxe-o de volta  realidade. - Vem algum!
      Ele tambm ouviu os passos que se aproximavam, l fora na galeria.
      - Aqui! - Sophie apagou a lanterna de luz negra e pareceu evaporar-se de repente.
      Por instantes, Langdon ficou completamente cego. Aqui! Quando conseguiu adaptar a viso, viu a silhueta de Sophie correr para o centro da sala e desaparecer atrs do grande sof octogonal. Preparava-se para correr atrs dela quando uma voz ribombante o deteve, petrificado.
      - Arrtez! - ordenou um homem, do umbral. O segurana do museu entrou na sala, empunhando com as duas mos e os braos esticados uma pistola apontada ao centro do peito de Langdon. Que ergueu instintivamente as mos para o teto.
      - Couchez-vous! - ordenou o guarda. - Deite-se!
      Langdon obedeceu, estendendo-se no cho de barriga para baixo.
      O guarda avanou rapidamente para ele e, com um p, afastou-lhe as pernas.
      - Mauvaise ide, Monsieur Langdon - disse, fazendo presso com o cano da pistola nas costas de Langdon. - Mauvaise ide.
      Deitado de bruos no cho de parquet, de braos e pernas abertos, Langdon achou pouca graa  ironia da sua posio. O Homem de Vitrvio, pensou. De barriga para baixo.
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO VINTE E NOVE
      
      
      Silas pegou o pesado candelabro de ferro que estava em cima do altar e voltou com ele para junto do obelisco. Serviria perfeitamente como arete. Olhando para a laje de mrmore cinzento que cobria a aparente cavidade no cho, percebeu que no conseguiria parti-la sem fazer barulho. Bastante barulho.
      Ferro contra mrmore. O estrondo havia de ecoar pelos tetos abobadados.
      A freira ouviria? J devia estar dormindo. Mesmo assim, era um risco que Silas no queria correr. Procurando em redor um pano para envolver a extremidade da haste de ferro, a nica coisa que viu foi a toalha de linho do altar, que no se atrevia a profanar.
      O meu hbito, pensou. Sabendo-se sozinho na igreja, desapertou a corda que lhe apertava o hbito na cintura e despiu-o, sentindo o ardor das fibras de l quando se prenderam s feridas recentes que tinha nas costas.
      Nu, com exceo da faixa que lhe envolvia os rins e as virilhas, enrolou o hbito  volta da ponta da barra de ferro. Ento, fazendo pontaria bem no meio da laje, bateu com toda a sua fora. Uma pancada abafada. A laje no se partiu. Bateu outra vez. De novo uma pancada abafada, mas agora acompanhada por um estalar. Ao terceiro embate, a laje estilhaou-se finalmente, e lascas de pedra caram no espao vazio por baixo do cho.
      Um compartimento!
      Silas removeu com gestos rpidos os pedaos de mrmore que tinham ficado agarrados as bordas da abertura e olhou para dentro. Sentiu o sangue latejar-lhe na cabea ao ajoelhar junto do buraco. Esticando o brao muito branco, procurou no interior.
       princpio, nada encontrou. O fundo do compartimento era de pedra lisa e nua.
      Ento, esticando mais o brao por baixo da Linha da Rosa, tocou em qualquer coisa!
      Uma grossa placa de pedra. Introduziu os dedos por baixo do rebordo, agarrou-a com fora e puxou-a cuidadosamente para fora. Quando se ps de p e examinou o seu achado, verificou que tinha nas mos uma tbua de pedra em bruto onde estavam gravadas algumas palavras. Por um instante, sentiu-se um Moiss dos tempos modernos.
      Ficou surpreso ao ler as palavras gravadas na pedra. Tinha esperado que a Chave de Abbada fosse um mapa, ou uma complexa srie de instrues, talvez at codificadas.
      Em vez disso, porm, a placa continha a mais simples das inscries: J 38:11.
      Um versculo da Bblia? A diablica simplicidade de tudo aquilo aturdiu-o. A revelao da localizao secreta do tesouro que procuravam estava contida em um versculo da Bblia? A irmandade no conhecia limites no seu desejo de zombar dos justos!
      J. Captulo trinta e oito. Versculo onze.
      Embora no soubesse de cor o contedo exato do versculo onze, Silas sabia que o Livro de J contava a histria de um homem cuja f em Deus sobrevivia a repetidas provas. Apropriado, pensou, quase incapaz de conter a excitao.
      Olhando por cima do ombro, contemplou a brilhante Linha da Rosa e no conseguiu impedir-se de sorrir. Em cima do altar-mor, apoiada em um atril de madeira dourada, estava uma grande Bblia encadernada a couro.
      Acocorada no seu posto de vigilncia, na varanda do coro, a irm Sandrine tremia.
      Momentos antes, estivera  beira de correr dali para fora e executar as ordens que lhe tinham dado, quando o homem despira inesperadamente o hbito. Ao ver aquela carne cor de alabastro, fora invadida por um espanto horrorizado. As amplas costas estavam sulcadas por verges ensanguentados. Mesmo quela distncia, percebia-se que as feridas eram recentes. Aquele homem foi impiedosamente chicoteado!
      Viu tambm, enrolado  volta da coxa, o cilcio debaixo do qual escorria sangue.
      Que espcie de Deus quereria um corpo castigado desta maneira? Os rituais da Opus Dei, a irm Sandrine bem o sabia, eram algo que nunca conseguiria compreender. Mas isso pouco a preocupava naquele instante. A Opus Dei anda a procura da Chave de Abbada. No imaginava sequer como tinham sabido da sua existncia, mas sabia que no tinha tempo para pensar nisso.
      O ensanguentado monge estava agora vestindo calmamente o hbito, aps o que, com a pedra bem segura debaixo do brao, avanou para o altar, para a Bblia.
      Quase sem se atrever a respirar, com receio de que o rudo a denunciasse, a irm Sandrine abandonou a varanda do coro e correu pelo corredor at ao seu quarto. De gatas no cho, procurou debaixo do estrado de madeira da cama o envelope selado que escondera l anos antes.
      Ao abri-lo, encontrou um papel com quatro nmeros de telefone de Paris.
      Tremendo, comeou a marcar o primeiro.
      L em baixo, Silas pousou a placa de pedra em cima do altar e voltou a sua ateno ansiosa para a Bblia com capas de couro. Os dedos grandes e brancos suavam enquanto voltava as pginas. Folheando o Antigo Testamento, encontrou o Livro de J.
      Localizou o captulo trinta e oito. Passando o dedo pela coluna de texto, antecipou as palavras que estava prestes a ler.
      Elas apontaro o caminho!
      Ao chegar ao versculo onze, leu o texto. Eram apenas oito palavras. Confuso, voltou a l-las, sentindo que algo correra terrivelmente mal. O versculo dizia simplesmente:
      Chegars at aqui; no mais alm.
      
      
      
      CAPTULO TRINTA
      
      
      O guarda graduado Claude Grouard fervia de raiva enquanto olhava para o seu prisioneiro prostrado diante da Mona Lisa. Este filho da me matou o conservador Saunire! Jacques Saunire fora uma espcie de pai adorado para Grouard e para a sua equipe de segurana.
      O que Grouard mais desejava era poder apertar o gatilho e abrir um buraco nas costas de Robert Langdon. Como graduado, era um dos poucos seguranas autorizados a usar uma arma carregada. Recordou a si mesmo, no entanto, que matar Langdon seria um gesto de generosidade em comparao com o que Bezu Fache e o sistema prisional francs lhe reservavam.
      Tirou o rdio do cinto e tentou pedir apoio. Tudo o que ouviu foi esttica. Os sistemas de segurana eletrnicos especiais daquela sala semeavam sempre o caos nas comunicaes entre os guardas. Tenho de me aproximar da porta. Sem deixar de apontar a arma para Langdon, Grouard comeou a recuar lentamente em direo  porta. Ao terceiro passo, viu qualquer coisa que o fez deter-se abruptamente.
      Que diabo  aquilo?
      Uma miragem inexplicvel estava materializando-se no centro da sala. Uma silhueta. Havia mais algum ali dentro? Uma mulher movia-se atravs das sombras, caminhando rapidamente em direo  parede do lado esquerdo.  frente dela, um peixe de luz prpura danava de um lado para o outro no soalho, como se estivesse procurando qualquer coisa com uma lanterna colorida.
      - Qui est l?- perguntou Grouard, sentindo uma descarga de adrenalina invadir-lhe o sangue pela segunda vez no espao de trinta segundos. Subitamente, ficou sem saber para onde apontar a arma ou em que direo mover-se.
      - PTS - respondeu calmamente a mulher, continuando a examinar o cho com a sua luz.
      Police Technique et Scientifique. Grouard estava suando. Pensava que todos os agentes tinham ido embora! Reconheceu a luz prpura como ultravioleta, equipamento normal das equipas de PTC, mas continuava a no compreender por que razo andaria a DCPJ a procurar indcios naquela sala.
      - Votre nom!- gritou Grouard, com o instinto dizendo-lhe que havia algo errado. - Rpondez!
      - Cest mi - respondeu a voz em um francs calmo. - Sophie Neveu.
      Em algum lugar nos longnquos recessos da mente de Grouard, o nome encontrou um eco. Sophie Neveu? Era o nome da neta do conservador Saunire, no era?
      Costumava ir ao museu quando era menina, mas isso fora h muitos anos. No pode ser ela! E mesmo que fosse Sophie Neveu, dificilmente poderia considerar uma razo para confiar nela. Grouard ouvira rumores a respeito da dolorosa zanga entre o conservador e a neta.
      - Sabe quem eu sou - continuou a voz feminina. - E Robert Langdon no matou o meu av. Acredite em mim
      O guarda graduado Grouard no estava, porm, preparado para acreditar. Preciso de apoio! Voltou a tentar o rdio, e voltou a ouvir apenas esttica. A porta estava ainda a uns bons vinte metros de distncia, e Grouard comeou a recuar lentamente, optando por manter a arma apontada para o homem estendido no cho.
      Enquanto recuava, viu a mulher do outro lado da sala levantar a lanterna de luz UV e examinar um grande quadro suspenso da parede diretamente em frente da Mona Lisa. 
      Abriu a boca de espanto, ao perceber de que quadro se tratava.
      - Que diabo ela est fazendo?
      Do outro lado da sala, Sophie Neveu sentiu um suor frio umedecer-lhe a testa.
      Langdon continuava estendido no cho, de braos e pernas abertos. Aguente, Robert.
      Estou quase l. Sabendo que o guarda nunca dispararia contra qualquer deles, Sophie dedicou toda a sua ateno ao assunto que tinha em mos, examinando a rea  volta de uma obra-prima em particular: outro da Vinci. Mas a luz UV nada revelou de invulgar.
      Nem no cho, nem nas paredes, nem na prpria tela.
      Tem de haver aqui qualquer coisa
      Tinha certeza de ter decifrado corretamente as intenes do av.
      Que outra coisa poderia ele querer dizer?
      A obra-prima que estava examinando era uma tela com metro e meio de altura. A cena que da Vinci pintara inclua uma Virgem, sentada em uma pose estranha, com o Menino, Joo Batista e o anjo Uriel, todos dentro do que parecia ser uma gruta. Quando era menina, nenhuma visita  Mona Lisa ficava completa sem que o av a arrastasse at ao outro lado da sala para ver o segundo quadro.
      Estou aqui, grand-pre, mas no vejo nada!
      Ouvia, nas suas costas, o guarda continuar tentando pedir ajuda atravs do rdio.
      Pense!
      Reviu mentalmente a mensagem escrita no vidro protetor da Mona Lisa. So dark the con of man. O quadro para que estava olhando no tinha qualquer vidro de proteo no qual fosse possvel escrever uma mensagem, e Sophie sabia que o av nunca seria capaz de profanar uma obra de arte escrevendo na prpria pintura. Fez uma pausa. Pelo menos, na frente. Ergueu os olhos, seguindo os compridos cabos de suspenso que desciam do teto.
      Ser possvel? Pegando o canto esquerdo da moldura de madeira entalhada, puxou-o para si. O quadro era grande e a armao dobrou quando a afastou da parede.
      Sophie introduziu a cabea e os ombros no espao entre a moldura e a parede e levantou a lanterna de luz negra para inspeccionar a parte de trs da tela.
      Demorou apenas alguns segundos para perceber que seu instinto fora errado. A parte de trs do quadro era plida e vazia. No havia ali qualquer texto escrito em prpura, apenas o verso acastanhado e manchado de uma velha tela e...
      Espere.
      Os olhos de Sophie detiveram-se no brilho incongruente de um pedao de metal perto do rebordo inferior da armao da moldura. O objeto era pequeno, parcialmente entalado na ranhura onde a tela se juntava  madeira. Da extremidade visvel, pendia uma refulgente corrente de ouro.
      Para enorme espanto de Sophie, a corrente estava presa a uma chave de ouro que ela conhecia. A pega, larga e esculpida, era em forma de cruz e tinha gravado um emblema que no voltara a ver desde os seus nove anos. Uma flor-de-lis, com as iniciais P.S. Naquele instante, Sophie sentiu o fantasma do av murmurar-lhe ao ouvido: Quando chegar o momento, a chave ser sua. Sentiu um aperto na garganta ao compreender que o av, mesmo depois de morto, cumprira a sua promessa. Esta chave abre um cofre, dizia a voz dele, onde guardo muitos segredos.
      Percebeu ento que o objetivo de todo o jogo de palavras daquela noite fora aquela chave. O av a tinha consigo quando o assassino disparara contra ele. No querendo que casse nas mos da Polcia, escondera-a atrs daquele quadro. E em seguida imaginara uma engenhosa caa ao tesouro para se certificar de que s Sophie a encontraria.
      - Au secours! - gritava a voz do guarda.
      Sophie arrancou a chave do seu esconderijo e enfiou-a no fundo do bolso do camisolo, juntamente com a lanterna de luz UV. Espiando de trs da tela, viu que o guarda continuava a tentar desesperadamente contactar algum atravs do rdio. Estava recuando para a porta, mantendo a arma firmemente apontada para Langdon.
      - Au secours!- voltou a gritar para o rdio.
      Esttica.
      No consegue transmitir, percebeu Sophie, recordando como os turistas ficavam frustrados quando tentavam ligar para casa pelo celular para se gabarem de estar vendo a Mona Lisa. A quantidade de fios eltricos dos sistemas de segurana embutidos nas paredes tornava impossvel transmitir fosse o que fosse, a menos que se sasse para a galeria. O guarda recuava agora rapidamente para a porta, e Sophie soube que tinha de agir rapidamente.
      Olhando para o grande quadro atrs do qual estava em parte escondida, compreendeu que, pela segunda vez naquela noite, Leonardo da Vinci estava ali para ajudar.
      Mais uns poucos metros, disse Grouard para si mesmo, mantendo a arma apontada.
      - Arrtez! Ou je Ia dtruis!- A voz da mulher ecoou na sala. Grouard olhou para ela e deteve-se, petrificado.
      - Mon dieu, non!
      Atravs da penumbra avermelhada, viu que a mulher tinha tirado o quadro dos cabos de suporte e o pousara de p no cho  sua frente. com metro e meio de altura, a tela tapava-lhe quase completamente o corpo. O primeiro pensamento de Grouard foi de surpresa pelo fato da remoo do quadro da parede no ter disparado os alarmes, mas ento se lembrou que a rede de sensores ainda no voltara a ser restabelecida. Que ela est fazendo?
      Quando viu o que era, o sangue gelou-lhe nas veias.
      A tela comeou a inchar no meio, distorcendo os frgeis contornos da Virgem Maria, do Menino Jesus e de Joo Batista.
      - Non! - gritou Grouard, petrificado pelo horror ao ver o precioso da Vinci esticando. A mulher estava espetando o joelho no centro da tela, por detrs. - NON!
      Voltou-se e apontou a arma para ela, mas compreendeu no mesmo instante que era uma ameaa v. O quadro era apenas tela, mas era como se fosse impenetrvel  um escudo de seis milhes de dlares.
      - No posso disparar contra um da Vinci!
      - Coloque a arma e o rdio no cho - ordenou a mulher, em um calmo francs -, ou eu furo o quadro com o joelho. Julgo que sabe o que o meu av pensaria disso.
      Grouard estava aturdido.
      - Por favor... no. Isso  a Madonna dos Rochedos!- Deixou cair a arma e o rdio, erguendo as mos acima da cabea.
      - Obrigada - disse a mulher. - Agora, faa exatamente o que eu lhe disser, e correr tudo bem.
      Momentos depois, o corao de Langdon continuava a martelar-lhe o peito enquanto descia correndo, ao lado de Sophie, a escada que conduzia ao nvel trreo.
      Nenhum dos dois dissera uma palavra desde que tinham deixado o trmulo guarda estendido no cho da Salle des tats. Langdon apertava com fora a pistola que levava na mo, ansioso por ver-se livre dela. Era pesada e parecia-lhe perigosamente aliengena.
      Enquanto descia os degraus dois a dois, perguntava a si mesmo se Sophie faria alguma idia do valor do quadro que estivera perto de destruir. As escolhas da jovem em matria de arte pareciam estranhamente adequadas  aventura daquela noite. O da Vinci que pegara, muito como a Mona Lisa, era famoso entre os historiadores de arte pela enorme quantidade de simbolismo pago que escondia.
      - Escolheu um refm valioso - comentou por fim, sem deixar de correr.
      - A Madonna dos Rochedos - respondeu ela. - Mas no fui eu que o escolhi, foi o meu av. Deixou-me uma coisinha escondida atrs do quadro.
      Langdon lanou-lhe um olhar sobressaltado.
      - O qu? Mas como soube em que quadro? Porqu a Madonna dos Rochedos?
      - So dark the con of man. - Sophie dirigiu-lhe um sorriso triunfante. - Deixei escapar os dois primeiros anagramas, Robert. No ia deixar passar o terceiro.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO TRINTA E UM
      
      
      - Esto mortos! - disse irm Sandrine ao telefone, no seu quarto em Saint-Sulpice.
      Estava falando para um atendedor automtico. - Atendam, por favor. Esto todos mortos!
      Os trs primeiros nmeros da lista tinham produzido resultados aterradores - uma viva histrica, um detetive trabalhando a dez horas no local de um crime e um sombrio padre consolando uma famlia devastada. Todos os trs contatos tinham morrido. E agora, ao ligar para o quarto e ltimo nmero - o nmero para o qual no era suposta ligar a menos que os outros trs estivessem incomunicveis -, respondera-lhe um atendedor automtico. A voz gravada no mencionava qualquer nome, limitava-se a pedir a quem chamava que deixasse mensagem.
      - A laje do cho foi partida! - disse a irm Sandrine. - Os outros trs esto mortos!
      Irm Sandrine desconhecia a identidade dos quatro homens que protegia, mas os quatro nmeros de telefone escondidos debaixo da cama eram para ser usados em uma nica circunstncia.
      Se alguma vez aquela laje for quebrada, dissera-lhe o mensageiro sem rosto, isso significar que o escalo superior foi descoberto. Um de ns foi mortalmente ameaado e obrigado a dizer uma mentira desesperada. Ligue para estes nmeros. Avise os outros.
      No nos falhe nisto.
      Era um alarme silencioso. Perfeito na sua simplicidade. O plano espantara-a quando o ouvira pela primeira vez. Se um irmo visse a sua identidade comprometida, diria uma mentira que poria em marcha um mecanismo destinado a alertar os outros.
      Naquela noite, porm, parecia que mais do que um fora comprometido.
      - Responda, por favor - sussurrou ela, em pnico.  Onde est?
      - Desligue o telefone - ordenou uma voz profunda, da porta do quarto.
      A irm Sandrine voltou-se, aterrorizada, e viu o gigantesco monge. Tinha na mo o pesado candelabro de ferro. Tremendo, pousou o auscultador no descanso.
      - Esto mortos - continuou o monge. - Todos eles. E enganaram-me. Diga-me onde est a Chave de Abbada.
      - No sei - respondeu a freira. - Esse segredo  guardado por outros. - Outros que esto mortos!
      O homem avanou, apertando com os dedos brancos a haste de ferro.
      -  uma irm da Igreja, e serve-os?
      - Jesus tinha apenas uma mensagem verdadeira - respondeu desafiadoramente a irm Sandrine. - No vejo essa mensagem na Opus Dei.
      Uma raiva sbita explodiu atrs dos olhos do monge. Avanou, esgrimindo o candelabro como se fosse um cacete. Enquanto caa, o ltimo pensamento da irm Sandrine foi de profunda tristeza.
      Mortos, os quatro.
      A preciosa verdade perdeu-se para sempre.
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO TRINTA E DOIS
      
      
      O barulho das campainhas de alarme da Ala Denon espantou os pombos do Jardim das Tulherias, ali prximo, no momento em que Sophie e Langdon saram correndo do museu. Enquanto atravessavam a praa em direo ao carro de Sophie, Langdon ouviu ao longe o uivo das sirenes da Polcia.
      -  aquele! - gritou Sophie, apontando para um carro vermelho de dois lugares estacionado na praa.
      Tem de estar brincando, com certeza! O veculo era seguramente o carro menor que Langdon alguma vez vira.
      - O Smart - disse ela.  Cem quilmetros por litro.
      Langdon mal tinha conseguido instalar-se no lugar do passageiro quando Sophie arrancou a toda a velocidade, galgou um meio-fio e saltou para uma divisria de saibro.
      Agarrou-se ao tablier enquanto o carro subia e atravessava outro passeio antes de dar novo salto para a pequena praa do Carrousel du Louvre.
      Por um instante, Sophie deu a impresso de estar considerando a possibilidade de cortar caminho e seguir em frente, passando a sebe do permetro e atravessando o amplo crculo relvado central.
      - No! - gritou Langdon, sabendo que a sebe  volta do Carrousel du Louvre estava ali para esconder o perigoso abismo que se abria no centro - La Pyramide Inverse - a clarabia em forma de pirmide invertida que horas antes vira do interior do museu. Era suficientemente grande para engolir o minsculo Smart de uma s vez.
      Felizmente, Sophie optou pelo caminho mais convencional, torcendo o volante para a direita e contornando ajuizadamente a praa at  sada. Virou ento  esquerda, meteu pela faixa de sentido norte e acelerou em direo  Rue de Rivoli.
      As sirenes da Polcia uivavam agora mais perto, e Langdon viu as luzes rotativas no retrovisor lateral. O motor do Smart gemeu em protesto quando Sophie o acelerou ao mximo, afastando-se o mais rapidamente possvel do Louvre. Cinquenta metros mais a frente, o semforo da Rue de Rivoli passou para vermelho. Sophie praguejou entredentes e continuou a acelerar. Langdon sentiu os msculos se retesarem.
      - Sophie?
      Chegaram ao cruzamento. Quase sem diminuir, Sophie fez sinal de luzes lanou um rpido olhar  esquerda e  direita voltou a colar o acelerador ao cho do carro e virou bruscamente a esquerda no cruzamento deserto, entrando pela Rivoli. Percorreu a toda a velocidade cerca de quatrocentos metros antes de virar  direita para contornar uma vasta praa. Pouco depois, estavam do outro lado, descendo a ampla avenida dos Champs-Elyses.
      Quando o carro conseguiu finalmente endireitar-se, Langdon voltou-se no banco, torcendo o pescoo para olhar para trs na direo do Louvre. Aparentemente, no estavam sendo perseguidos. O mar de luzes azuis concentrava-se diante do museu. Com o corao batendo um pouco mais devagar, voltou-se de novo para a frente.
      - Foi interessante - comentou.
      Sophie pareceu no ter ouvido. Mantinha os olhos fixos em frente, na longa fita dos Campos Elseos, os mais de trs quilmetros de lojas de luxo a que muitos chamavam a Quinta Avenida de Paris. A embaixada ficava a quilmetro e meio de distncia e Langdon instalou-se mais confortavelmente no banco. So dark the con of man.
      A rapidez de raciocnio de Sophie fora impressionante.
      Madonna of the Rocks. A Madonna dos Rochedos. Sophie dissera que o av lhe deixara qualquer coisa escondida atrs do quadro. Uma ltima mensagem? Langdon no podia deixar de reconhecer o brilhantismo da escolha do esconderijo; a Madonna dos Rochedos era mais um elo adequado da cadeia de simbolismos interligados daquela noite. Jacques Saunire parecia querer revelar a cada passo a sua predileo pelo lado escuro e malicioso de Leonardo da Vinci. A encomenda da Madonna aos Rochedos partira originariamente de uma organizao conhecida como Confraria da Imaculada Conceio, que precisava de uma pintura para pea central de um trptico de altar destinado  sua igreja de San Francesco, em Milo. As monjas deram a Leonardo instrues precisas quanto s dimenses e ao tema desejado para o quadro - a Virgem Maria, So Joo Batista quando beb, Uriel e o Menino Jesus abrigados em uma gruta.
      Apesar de ter feito como lhe pediam, quando entregou a obra, as religiosas reagiram com horror. Da Vinci enchera o quadro de pormenores explosivos e perturbadores.
      O quadro mostrava a Virgem Maria sentada, vestida de azul, com um brao passado pelos ombros de uma criana, presumivelmente o Menino Jesus. Em frente de Maria sentava-se Uriel, tambm com uma criana, presumivelmente Joo Batista. Mas, em vez da cena habitual de Jesus abenoar Joo, era Joo quem abenoava Jesus... e Jesus submetia-se  sua autoridade! Ainda mais perturbador: Maria mantinha uma mo aberta por cima de Joo, em um gesto decididamente ameaador - os dedos enclavinhados como as garras de uma guia pareciam agarrar uma cabea invisvel. Por fim, a imagem sem dvida mais assustadora: por baixo dos dedos encurvados de Maria, Uriel fazia com a mo um gesto de corte - como que a cortar o pescoo  cabea invisvel que Maria segurava com a mo em garra.
      Os alunos de Langdon achavam sempre muita graa ao saber que da Vinci acabara por sossegar a confraria pintando uma segunda verso aguada da Madonna dos Rochedos em que todas as personagens apareciam dispostas de uma maneira mais ortodoxa. Esta segunda verso encontrava-se atualmente exposta, sob o nome de Virgem dos Rochedos, na National Gallery de Londres, embora Langdon continuasse a preferir o mais intrigante original do Louvre.
      - O que  que estava atrs do quadro? - perguntou, enquanto Sophie conduzia a toda a velocidade pelos Champs-Elyses.
      - Mostro-lhe quando estivermos a salvo na embaixada - disse ela, sem tirar os olhos da estrada.
      - Mostra-me? - espantou-se Langdon. - O seu av deixou-lhe um objeto fsico?
      Sophie assentiu.
      - Enfeitado com uma flor-de-lis e as iniciais P.S.
      Langdon nem queria acreditar no que acabava de ouvir.
      Vamos conseguir, pensou Sophie enquanto rodava o volante do Smart para a direita, passava em frente do luxuoso Htel de Crillon entrava no tranquilo bairro das embaixadas de Paris, com as suas ruas ladeadas de rvores. Estavam agora muito perto.
      Sentiu que podia voltar a respirar normalmente.
      Mesmo dirigindo, seu pensamento continuava preso  chave que tinha no bolso, s suas recordaes de a ter visto muitos anos antes, com a pega de ouro em forma de cruz de braos iguais, a haste triangular, as marcas, o braso gravado, as letras P.S.
      Embora a recordao daquela chave quase no lhe tivesse acudido ao esprito durante todos aqueles anos, o seu trabalho no mundo das informaes ensinara-lhe muito a respeito de segurana, e agora o modo peculiar como fora fabricada j no lhe parecia to estranho. Uma matriz varivel trabalhada a laser. Impossvel de duplicar. Em vez de dentes que empurravam linguetas, as complexas sries de marcas feitas a laser da chave eram examinadas por um olho eletrnico. Se o olho eletrnico decidia que as marcas hexagonais estavam corretamente espaadas, dispostas e posicionadas, a fechadura se abria.
      Sophie no fazia a mnima idia do que uma chave daquelas poderia abrir, mas tinha o pressentimento de que Robert saberia dizer-lhe. Afinal, descrevera o braso gravado na pega sem nunca o ter visto. A pega cruciforme indicava que a chave pertencia a uma organizao crist, mas Sophie no sabia de qualquer igreja que usasse chaves de matriz varivel trabalhadas a laser.
      Alm disso, o meu av no era cristo...
      Sophie tivera uma prova testemunhal disto mesmo dez anos antes. Ironicamente, fora uma outra chave - esta muito mais vulgar - que lhe revelara a verdadeira natureza do av.
      A tarde estava quente quando aterrissara no aeroporto Charles de Gaulle e se metera em um txi para casa. O grand-pre vai ficar to espantado quando me vir, pensara. Tendo regressado alguns dias mais cedo, para as frias da Pscoa, da universidade inglesa onde fazia o curso de ps-graduao, Sophie mal podia esperar para ver o av e falar-lhe dos mtodos de criptologia que andava estudando.
      Quando chegou a casa, no o encontrou. Desapontada, pensou que ele no a esperava e provavelmente estava trabalhando no Louvre. Mas  sbado  tarde, lembrou-se. O av raramente trabalhava nos fins-de-semana. Nos fins-de-semana costumava...
      Com um sorriso nos lbios, correu para a garagem. Como j esperava, o carro no estava l. Era fim-de-semana. Jacques Saunire detestava dirigir na cidade e tinha carro por uma nica e exclusiva razo: o seu chteau de frias na Normandia, a norte de Paris.
      Depois de meses na superpovoada Londres, Sophie estava ansiosa pelos cheiros da natureza e por comear as frias o mais depressa possvel. Era ainda cedo, de modo que decidiu partir imediatamente. Pedindo o carro emprestado a uma amiga, rumou para norte, seguindo a sinuosa estrada que atravessava as colinas desertas e banhadas em luar perto de Creully. Chegou pouco depois das dez, metendo pelo longo caminho particular que conduzia ao retiro do av. A estrada de acesso tinha quase dois quilmetros de comprimento, e s no meio do percurso Sophie comeou a avistar a casa por entre as rvores um velho e grande casaro de pedra aninhado nos bosques, no flanco de uma colina.
      Estava mais ou menos  espera de encontrar o av dormindo quela hora da noite, de modo que ficou excitada ao ver a casa refulgente de luzes. Uma alegria que se transformou em surpresa quando, ao chegar, descobriu o ptio cheio de carros estacionados Mercedes, BMW, Audis e um Rolls-Royce.
      Ficou olhando espantada, por um momento, e ento rompeu a rir. O meu av, o famoso recluso! Jacques Saunire era, tudo o indicava, muito menos reservado do que gostava de aparentar. Muito claramente, estava dando uma festa enquanto a neta se encontrava fora estudando, e, a julgar pelos automveis, os convidados eram algumas das pessoas mais influentes de Paris.
      Desejosa de surpreend-lo, correu para a porta da frente. Quando chegou l, porm, encontrou-a fechada  chave. Bateu. No obteve resposta. Intrigada, deu a volta e tentou a porta dos fundos. Tambm fechada. Ningum respondeu aos seus chamados. Confusa, deteve-se por instantes,  escuta. O nico som que ouvia era o do fresco vento da Normandia gemendo baixo enquanto cirandava pelo vale.
      Nem msica.
      Nem vozes.
      Nada.
      No silncio do bosque, Sophie dirigiu-se apressadamente ao lado da casa e trepou a um monte de lenha, comprimindo o nariz contra a janela da sala de estar. O que viu l dentro no fazia qualquer espcie de sentido.
      - No h ningum aqui!
      Todo o piso trreo estava deserto.
      Onde se meteram todos?
      Com o corao saltando-lhe no peito, correu para o barraco das ferramentas e pegou a chave sobressalente que o av guardava debaixo de uma caixa de aparas.
      Voltou  porta principal e abriu-a. Quando entrou no vestbulo deserto, comeou a piscar uma luz vermelha no painel do sistema de segurana - um aviso a quem entrava de que tinha dez segundos para introduzir o cdigo secreto antes que o alarme disparasse.
      Tem o alarme ligado durante uma festa?
      Marcou rapidamente o cdigo e desativou o sistema.
      A casa inteira estava desabitada. Incluindo o andar de cima. Regressando ao vestbulo vazio, deteve-se por um instante no meio do silncio, perguntando a si mesma o que poderia ter acontecido.
      Foi ento que ouviu vozes abafadas. E pareciam vir de algum lugar abaixo dela.
      De onde, no fazia idia. Pondo-se de gatas, encostou um ouvido s tbuas do soalho e escutou. Sim, o som vinha definitivamente l de baixo. As vozes pareciam estar cantando... ou entoando um cntico? Assustou-se. Quase mais estranho do que o prprio som era o fato de saber que aquela casa nem sequer tinha uma garagem.
      Pelo menos, que eu tenha visto.
      Rodou sobre si mesma, examinando a sala de estar. Os olhos detiveram-se no nico objeto em toda a casa que parecia fora do lugar - a antiguidade preferida do av, uma grande tapearia Aubusson. Estava geralmente suspensa da parede leste, junto  lareira, mas naquela noite fora puxada para o lado no seu varo de lato, expondo a parede que ficava atrs.
      Ao avanar para a parede nua, Sophie ouviu o cntico soar mais alto  Hesitante, encostou o ouvido  madeira. As vozes tornaram-se mais claras. Havia sem a mnima dvida pessoas cantando... entoando palavras que no conseguia distinguir.
      O espao por trs desta parede  oco!
      Tateando os bordos dos painis com as pontas dos dedos, encontrou uma pequena depresso redonda, quase invisvel. Uma porta de correr,. com o corao batendo forte, colocou o dedo na depresso e puxou. Com silenciosa preciso, a pesada parede deslizou para o lado. As vozes ecoaram mais fortes, vindas da escurido do outro lado.
      Sophie passou pela abertura e viu-se no incio de uma escada de pedra bruta que descia em espiral. Ia quela casa desde que era criana e nunca fizera a mnima idia da existncia de uma caverna!
       medida que descia, o ar tornava-se mais frio. E as vozes mais ntidas. Ouviu homens e mulheres cantando. A sua linha de viso era limitada pela espiral da escada, mas estava naquele momento chegando ao ltimo degrau. Para l dele, viu um pedao do cho da caverna, iluminada pelo claro alaranjado do fogo.
      Retendo a respirao, Sophie avanou mais alguns passos e acocorou-se para espreitar. Demorou vrios segundos para processar o que estava vendo.
      Era uma gruta, uma tosca cmara que parecia ter sido escavada no granito do flanco da colina. A nica luz era a fornecida pelos archotes nas paredes. Iluminadas pelas chamas, cerca de trinta pessoas reunidas em crculo ocupavam o centro do espao.
      Estou sonhando, disse Sophie para si mesma. Um sonho. Que outra coisa isso pode ser?
      Todos os presentes usavam mscaras. As mulheres vestiam tnicas de tule branco e sapatos dourados. As suas mscaras eram brancas, e seguravam nas mos globos de ouro. As mscaras e as tnicas dos homens eram pretas. Pareciam peas em um gigantesco tabuleiro de xadrez. Todos se balanavam para a frente e para trs, entoando um cntico em reverncia a qualquer coisa que estava no cho no meio deles... qualquer coisa que Sophie no conseguia ver.
      O cntico tornou-se mais forte. Mais rpido. Atroador. Os participantes deram um passo para o interior do crculo e ajoelharam. Nesse instante, Sophie viu aquilo que todos eles testemunhavam. Enquanto recuava, horrorizada, sentiu a imagem gravar-se indelevelmente na memria. Nauseada, fez meia volta e subiu as escadas, apoiando-se s paredes de pedra. Fechou a passagem secreta, fugiu da casa deserta e regressou a Paris, dirigindo no meio de um estupor toldado pelas lgrimas.
      Nessa noite, com a vida destruda pela desiluso e pela traio, juntou as suas coisas e saiu de casa. Em cima da mesa da sala de jantar, deixou uma nota:
      ESTIVE L. NO TENTE ENTRAR EM CONTATO COMIGO.
      Junto  nota, deixou as chaves sobressalentes que tirara da arrecadao das ferramentas.
      - Sophie! - A voz de Langdon foi como um intruso nos seus pensamentos. - Pare! Pare!
      Arrancada das recordaes, Sophie pisou bruscamente o freio, e o carro derrapou at imobilizar-se.
      - O qu? O que foi?
      Langdon apontou para o fundo da rua que se estendia  frente deles.
      Quando viu aquilo, Sophie sentiu o sangue gelar nas veias. Cem metros mais  frente, o cruzamento estava bloqueado por dois carros da DCPJ, estacionados com um propsito evidente. Fecharam a Avenue Gabriel!
      Langdon deixou escapar um lgubre suspiro.
      - Suponho que por esta noite a embaixada est fora dos limites!
      No fundo da rua, os dois agentes da DCPJ que estavam de p junto dos carros olhavam agora na direo deles, aparentemente curiosos a respeito daqueles faris que tinham se detido de forma to abrupta a cem metros de distncia.
      - Okay, Sophie, d a volta. Muito devagar.
      Sophie engrenou a marcha-atrs e fez uma cuidadosa inverso de marcha em trs tempos. Quando se afastavam, ouviu o guinchar de pneus atrs deles. As sirenes comearam a uivar.
      Com uma praga, Sophie acelerou fundo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO TRINTA E TRS
      
      
      O Smart de Sophie corria pelo bairro diplomtico, esgueirando-se por entre embaixadas e consulados, at que finalmente escapou por uma transversal e virou  direita, voltando aos Champs-Elyses.
      Langdon, agarrado ao banco com tanta fora que tinha os ns dos dedos brancos, olhou para trs, em busca de quaisquer sinais de perseguio. Subitamente, desejou no ter decidido fugir. No decidiu, recordou a si mesmo. Fora Sophie que tomara essa deciso ao atirar o marcador GPS pela janela do banheiro dos homens do Louvre. Agora, enquanto se afastavam a toda a velocidade da embaixada, serpenteando por entre o escasso trfego dos Champs-Elyses, Langdon sentia que as suas opes se deterioravam. Apesar de Sophie ter aparentemente conseguido despistar a Polcia, pelo menos no momento, Langdon duvidava que a sorte deles durasse muito tempo.
      Dirigindo com uma s mo, Sophie procurava qualquer coisa no bolso do camisolo. Tirou de l um pequeno objeto de metal e entregou-o.
      -  melhor dar uma olhada nisto, Robert. Foi o que o meu av me deixou atrs da Madonna dos Rochedos.
      Com um estremecimento de excitao, Langdon pegou o objeto e examinou-o. Era pesado e cruciforme. O primeiro instinto foi que tinha na mo um pieu funerrio  uma rplica em miniatura de uma estaca destinada a ser cravada no cho para assinalar uma sepultura. Mas ento reparou que a haste encimada pela cruz era prismtica e triangular.
      E era, tambm, pontuada por centenas de marcas hexagonais que pareciam ter sido finamente executadas e distribudas de uma forma aleatria.
      -  uma chave trabalhada a laser - explicou Sophie.  Esses hexgonos so lidos por um olho eletrnico.
      - Uma chave? Langdon nunca vira nada igual.
      - Veja do outro lado - disse ela, mudando de faixa e passando um cruzamento.
      Quando Langdon voltou a chave, o queixo caiu-lhe de espanto. Ali, intricadamente gravadas no centro da cruz, havia uma flor-de-lis estilizada e as iniciais P.S.!
      - Sophie! - exclamou. -  o braso de que lhe falei! O emblema oficial do Priorado de Sio.
      Ela assentiu.
      - Como lhe disse, vi essa chave h muitos anos. O meu av pediu-me que nunca falasse dela a quem quer que fosse.
      Os olhos de Langdon continuavam presos  chave gravada. A alta tecnologia envolvida no seu fabrico e o smbolo imemorial que ostentava exsudavam uma estranha fuso dos mundos antigo e moderno.
      - Disse-me que abria um cofre onde conservava muitos segredos. - Langdon sentiu um arrepio ao imaginar o tipo de segredos que um homem como Jacques Saunire poderia guardar. De que serviria a uma antiga irmandade uma chave futurista era algo de que no fazia a menor idia. O Priorado existia nica e exclusivamente com o propsito de proteger um segredo. Um segredo incrivelmente poderoso. Ter esta chave alguma coisa a ver com ele? O pensamento era esmagador.
      - Sabe o que  que ela abre? Sophie pareceu desapontada.
      - Estava na esperana de que voc soubesse.
      Langdon permaneceu silencioso enquanto fazia girar a chave entre os dedos, examinando-a.
      - Parece crist - sugeriu Sophie.
      Langdon no estava muito certo disso. A pega da chave no era a tradicional cruz crist de fuste comprido e sim uma cruz quadrada - com quatro braos de igual comprimento -, mil e quinhentos anos anterior ao cristianismo. Aquele tipo de cruz no tinha qualquer das conotaes de crucifixo associadas  cruz latina, concebida pelos Romanos como um instrumento de tortura. Langdon ficava sempre espantado ao verificar quo poucos eram os cristos que, ao olharem para o crucifixo, percebiam que a violenta histria do seu smbolo se reflectia no prprio nome: cruz e crucifixo derivavam do verbo latino crudare: torturar.
      - Tudo o que posso dizer - respondeu Langdon -  que as cruzes de braos iguais, como esta, so consideradas cruzes pacficas. A sua configurao quadrada torna-as pouco prticas para a crucifixo e o equilbrio dos elementos vertical e horizontal transmite uma noo da unio natural entre o masculino e o feminino, tornando-as consistentes com a filosofia do Priorado.
      Sophie lanou-lhe um olhar desanimado.
      - No faz a mnima idia, no ?
      Langdon franziu a testa.
      - Nenhuma.
      - Okay, temos de sair da rua. - Olhou pelo retrovisor. - Precisamos de um lugar seguro para tentarmos descobrir o que  que essa chave abre.
      Langdon pensou com saudade no seu confortvel quarto no Ritz. Obviamente, no era uma opo.
      - Que lhe parece os meus anfitries na Universidade Americana de Paris?
      - Muito bvio. Fache vai l direito.
      - Deve conhecer pessoas. Vive aqui.
      - Fache vai verificar os meus registrros de telefone e e-mail, interrogar os meus colegas. Os meus contatos esto todos comprometidos. E no vale a pena tentar um hotel, porque todos eles exigem identificao.
      Langdon voltou a perguntar a si mesmo se no teria sido melhor arriscar e deixar que Fache o prendesse no Louvre.
      - Vamos telefonar para a embaixada. Posso explicar o que se passou e eles mandam algum nos encontrar em algum lugar.
      - Encontrar conosco? - Sophie voltou-se e olhou para ele, como se o achasse louco. - Robert, est sonhando. A sua embaixada no tem jurisdio fora do espao que ocupa. Mandar algum buscar-nos equivaleria a ajudar um fugitivo ao governo francs.
      No vai acontecer. Se entrar na sua embaixada e pedir asilo temporrio,  uma coisa, mas pedir-lhes que ajam contra a Polcia francesa? - Abanou a cabea. - Telefone para a sua embaixada, e eles aconselham-no a evitar mais estragos e entregar-se ao Fache.
      Depois prometem usar todos os canais diplomticos para lhe conseguir um julgamento justo. - Lanou um olhar s elegantes fachadas das lojas ao longo dos Champs-Elyses. - Quanto dinheiro tem consigo?
      Langdon verificou a carteira.
      - Cem dlares e alguns euros. Porqu?
      - Cartes de crdito?
      - Claro.
      Sophie acelerou, e Langdon teve a sensao de que ela estava arquitetando um plano. A frente deles, no fim dos Champs-Elyses, erguia-se o Arco do Triunfo - o tributo de Napoleo ao seu prprio poder militar - rodeado pela maior praa de Frana, uma enormidade com nove faixas de rodagem.
      Os olhos de Sophie estavam mais uma vez no retrovisor enquanto se aproximavam da praa.
      - Ns os despistamos, por enquanto - disse -, mas no duramos mais cinco minutos se continuarmos neste carro.
      Nesse caso, roube um diferente, pensou Langdon. J que somos criminosos.
      - O que  que vai fazer?
      Sophie entrou na praa com os pneus chiando.
      - Confie em mim.
      Langdon no respondeu. A confiana no o levara muito longe naquela noite.
      Puxando para cima a manga do casaco, consultou o relgio - um exemplar de coleo de um relgio de pulso Rato Mickey que os pais lhe tinham dado quando fizera dez anos.
      Apesar do ar infantil do mostrador atrair de vez em quando alguns olhares espantados, nunca tivera outro; os desenhos animados de Walt Disney tinham sido o seu primeiro contato com a magia da forma e da cor, e o Rato Mickey servia agora para lhe lembrar todos os dias que devia se manter jovem de corao. Naquele momento, porm, os braos de Mickey estavam inclinados em um estranho ngulo, indicando uma hora igualmente estranha: 2:51.
      - Relgio interessante - comentou Sophie, olhando para o pulso enquanto contornava a praa.
      -  uma longa histria - disse ele, voltando a baixar a manga do casaco.
      - Calculo que deva ser. - Dirigiu-lhe um rpido sorriso e saiu da praa, seguindo para norte, afastando-se do centro da cidade. Passou  justa dois sinais verdes, chegou ao terceiro cruzamento e virou  esquerda no Boulevard Malesherbes. Deixaram para trs as ruas sossegadas e orladas de rvores do bairro diplomtico e internaram-se em uma sombria zona industrial. Sophie virou bruscamente  esquerda e, instantes depois.
      Langdon soube onde estavam.
      Gare Saint-Lazare.
       frente deles, o terminal ferrovirio, com o seu teto de vidro, parecia o bizarro resultado de um cruzamento entre um hangar e uma estufa. As estaes de comboios europias nunca dormem. Mesmo quela hora, havia uma dzia de txis parados diante da porta principal. Havia furges onde se vendia sanduches e gua mineral e grupos de adolescentes de ar desgrenhado que saam da estao esfregando os olhos e olhando em redor como se tentassem descobrir em que cidade acabavam de chegar. Um pouco mais  frente, dois agentes da Polcia, de p no passeio, davam indicaes a meia dzia de desorientados turistas.
      Sophie parou o Smart atrs da fila de txis, na rea de estacionamento proibido, apesar de haver fartura de lugares disponveis no parque do outro lado da rua. Antes que Langdon pudesse perguntar-lhe onde ia, j tinha sado do carro. Correu at  janela do txi parado  frente deles e comeou a falar com o motorista.
      Quando desceu do Smart, Langdon a viu entregar ao taxista um grosso mao de notas. O homem assentiu e ento, para espanto de Langdon, arrancou sem eles.
      - Que aconteceu? - perguntou Langdon, indo juntar-se a Sophie no passeio enquanto o txi desaparecia.
      Sophie j ia a caminho da entrada da estao.
      - Venha. Vamos comprar dois bilhetes para o primeiro comboio que saia de Paris.
      Langdon correu para alcan-la. O que comeara como uma corrida de quilmetro e meio at  embaixada dos Estados Unidos tinha-se transformado numa evacuao da cidade. Estava gostando cada vez menos da idia.
      
      CAPTULO TRINTA E QUATRO
      
      
      O motorista que foi buscar o bispo Aringarosa no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci conduzia um pequeno e vulgar Fiat preto. Aringarosa recordou os tempos em que todos os carros do Vaticano eram grandes automveis de luxo, com medalhes nas portas e flmulas ostentando o braso da Santa S. Esses dias desapareceram para sempre. Os carros do Vaticano eram agora menos ostentosos e s muito raramente usavam qualquer emblema que os distinguisse. O Vaticano afirmava que se tratava de cortar despesas para melhor servir as dioceses, mas Aringarosa suspeitava de que era mais por questes de segurana. O mundo enlouquecera e, em muitos lugares da Europa, anunciar o amor por Jesus Cristo equivalia a pintar um alvo no teto do carro.
      Ajeitando a sotaina negra  volta das pernas, Aringarosa instalou-se no banco traseiro do Fiat e preparou-se para a longa viagem at Castel Gandolfo. A mesma que fizera cinco meses antes. A viagem do ano passado a Roma, pensou, com um suspiro. A noite mais longa da minha vida.
      Cinco meses antes, o Vaticano telefonara pedindo a sua presena imediata em Roma. No fora dada qualquer explicao. Os bilhetes esto no aeroporto. A Santa S esforava-se ao mximo por manter um vu de mistrio, mesmo face aos escales mais elevados da hierarquia.
      A misteriosa convocao, suspeitara Aringarosa, no passava provavelmente de uma tentativa do Papa e de outros altos funcionrios do Vaticano de aproveitarem a carona do mais recente xito pblico da Opus Dei: a inaugurao da nova Sede Nacional em Nova Iorque. A Architectural Digest chamara ao edifcio da organizao um brilhante farol de catolicismo sublimemente integrado na paisagem moderna, e, ultimamente, o Vaticano parecia atrado por tudo o que inclusse a palavra moderno.
      Aringarosa no tinha outro remdio seno aceitar o convite, ainda que com relutncia. No exatamente um f da atual administrao pontifcia, o bispo Aringarosa, como a maior parte do clero conservador, vira com grande preocupao o novo Papa instalar-se no seu primeiro ano no cargo. Um liberal sem precedentes, Sua Santidade chegara ao papado na sequncia de um dos mais controversos e invulgares conclaves da histria do Vaticano. Agora, em vez de mostrar humildade face  sua inesperada ascenso, o Santo Padre no hesitava em utilizar todo o poder do mais alto cargo da cristandade. Aproveitando uma perturbadora vaga de apoio liberal no seio do Colgio Cardinalcio, o Papa declarava ser sua misso rejuvenescer o Vaticano e atualizar o catolicismo, adequando-o ao terceiro milnio. O que, trocado por midos, temia Aringarosa, significava que o homem era na realidade suficientemente arrogante para pensar que podia reescrever as leis de Deus e reconquistar os coraes daqueles que achavam que as exigncias do verdadeiro catolicismo tinham se tornado muito inconvenientes no mundo atual.
      Aringarosa usara todo o seu peso poltico - muito substancial, considerando o tamanho da congregao da Opus Dei e a imponncia da sua conta bancria  para tentar persuadir o Papa e os respectivos conselheiros de que suavizar as leis da Igreja era no s uma infidelidade e uma covardia, mas tambm um suicdio poltico.
      Recordara-lhes que a mais recente reviso nas leis da Igreja - o fiasco do Vaticano II - deixara um legado devastador: a frequncia das igrejas era agora mais baixa do que nunca, a fonte dos donativos estava secando e no havia sequer padres suficientes para todos os templos.
      As pessoas precisam de estrutura e orientao por parte da Igreja, insistia Aringarosa, no de palmadinhas nas costas e indulgncia!
      Nessa noite, alguns meses depois, quando o Fiat sara do aeroporto, Aringarosa ficara surpreendido ao verificar que, em vez de estar dirigindo-se ao Vaticano, subia uma sinuosa estrada de montanha em direo a leste.
      - Onde vamos? - perguntara ao condutor.
      - Para os Montes Albanos - respondera o homem. - A reunio de Vossa Eminncia  em Castel Gandolfo.
      A residncia de Vero do Papa? Aringarosa nunca a vira, nem tinha o mnimo desejo de v-la. Alm de ser a casa de frias do Papa, a cidadela do sculo XVI albergava tambm a Specula Vaticana - o Observatrio do Vaticano - um dos mais avanados observatrios astronmicos da Europa. Aringarosa nunca se sentira  vontade com a necessidade histrica que o Vaticano parecia ter de se imiscuir na cincia. Qual era a vantagem de fundir cincia e f? Era manifestamente impossvel a algum que tivesse f em Deus praticar uma cincia livre de parcialidades. E a f no tinha necessidade de qualquer confirmao fsica das suas crenas.
      Seja como for, ali est, pensou, quando Castel Gandolfo surgiu  vista, recortandose contra um estrelado cu de Novembro. Da estrada de acesso, a cidadela parecia um grande monstro de pedra considerando a hiptese de um salto suicida. Empoleirado na beira de um precipcio, o castelo debruava-se sobre o bero da civilizao italiana  o vale onde os Curiazi e os Orazi se tinham batido muito antes da fundao de Roma.
      Mesmo em silhueta, Gandolfo era digno de ser visto: um imponente exemplo de arquitectura defensiva, ecoando o poder da sua dramtica situao no alto do penhasco.
      Infelizmente, como Aringarosa teve ento ocasio de ver, o Vaticano estragara tudo construindo sobre os telhados duas enormes cpulas de alumnio destinadas aos telescpios, fazendo o outrora grave edifcio parecer um orgulhoso guerreiro toucado com um par de chapus de festa.
      Quando desceu do carro, um jovem padre jesuta saiu apressadamente do edifcio para o receber.
      - Bem-vindo, Eminncia. Sou o padre Mangano. Um dos astrnomos do Observatrio.
      Que bom para voc. Aringarosa resmungou um cumprimento e seguiu o seu anfitrio at ao trio do castelo - um vasto espao aberto, decorado com uma confusa mistura de arte renascentista e imagens astronmicas.
      Continuando a seguir o jovem padre, que subia a ampla escada de mrmore travertino, Aringarosa viu sinais que indicavam caminho para centros de conferncias, anfiteatros e servios de informaes.
      Espantou-o pensar que o Vaticano, incapaz de proporcionar diretivas firmes e coerentes que permitissem o crescimento espiritual, arranjava mesmo assim tempo para fazer palestras sobre astrofsica a grupos de turistas.
      - Diga-me - perguntou, dirigindo-se ao jovem padre - quando foi que a cauda comeou a agitar o co?
      O padre lanou-lhe um olhar de estranheza.
      - Eminncia?
      Aringarosa agitou uma mo, decidindo no se lanar nessa ofensiva particular naquela noite. O Vaticano enlouqueceu. Como um pai preguioso que acha mais fcil aceder a todos os caprichos de um filho mimado do que manter-se firme e ensinar valores, a Igreja estava tornando-se cada vez mais mole, tentando reinventar-se para se adaptar a uma cultura que perdera o norte.
      O corredor do ltimo piso era largo, ricamente decorado e apontava uma nica direo - umas enormes portas de carvalho com uma placa metlica:
      BIBLIOTECA ASTRONMICA
      Aringarosa j ouvira falar daquele lugar - A Biblioteca Astronmica do Vaticano -, que se dizia conter mais de vinte e cinco mil volumes, incluindo obras raras de Coprnico, Galileu, Kepler, Newton e Secchi. Alegadamente, era ali que os mais altos funcionrios do papado tinham as suas reunies privadas... as reunies que preferiam no ter dentro dos muros da Cidade do Vaticano.
      Nunca, enquanto se aproximava das portas, o bispo Aringarosa imaginaria a chocante notcia que ia receber l dentro, ou a mortal cadeia de acontecimentos que essa notcia ia pr em movimento. S uma hora mais tarde, quando saiu aturdido da reunio, compreendeu bem as devastadoras implicaes do que acabava de ouvir. Daqui a seis meses!, pensara. Deus nos ajude!
      Agora, uma vez mais sentado em um Fiat, o bispo Aringarosa percebeu que tinha os punhos cerrados s de pensar naquela primeira reunio. Abriu as mos e obrigou-se a inspirar fundo, relaxando os msculos.
      Vai correr tudo bem, disse para si mesmo enquanto o carro serpenteava montanha acima. Mesmo assim, desejava intensamente que o celular tocasse. Porque no me ter o Professor telefonado? Silas j deve ter a Chave de Abbada em seu poder.
      Em um esforo para acalmar os nervos, pensou na ametista prpura do seu anel episcopal. Tateando a textura da aplicao em forma de mitra e de bculo e as arestas dos diamantes, recordou a si mesmo que aquele anel era o smbolo de um poder muito inferior quele que em breve possuiria.
      
      
      
      CAPTULO TRINTA E CINCO
      
      
      O interior da Gare Saint-Lazare era semelhante ao de qualquer outra estao ferroviria da Europa, um vasto e cavernoso espao semiaberto povoado pelos suspeitos do costume: sem teto empunhando pedaos de carto em que anunciavam os seus males e necessidades, grupos de jovens universitrios de olhos remelosos dormindo em cima das mochilas ou evadidos de um outro mundo agarrados aos seus consoles portteis MP3, bagageiros de macaces azuis fumando e conversando encostados s paredes.
      Sophie ergueu os olhos para o enorme painel das partidas suspenso do teto. As finas e compridas placas brancas e pretas rodopiavam velozmente, em uma espcie de onda que vinha de cima para baixo  medida que a informao era atualizada. Terminada a operao, Langdon examinou a lista de ofertas. A primeira linha dizia:
      LILLE RAPIDE 3:06
      - Seria melhor se partisse mais cedo - murmurou Sophie. Mas Lille vai ter de servir. 
      - Mais cedo? Langdon consultou o relgio. 2:59. O comboio partia dentro de sete minutos e ainda nem sequer tinham bilhetes. Sophie guiou-o at  bilheteira e disse:
      - Compre dois bilhetes com o seu carto de crdito.
      - Julgava que as utilizaes do carto de crdito podiam ser...
      - Exatamente.
      Langdon desistiu de tentar acompanhar Sophie Neveu. Usando o carto Visa, comprou dois bilhetes para o carro-leito e entregou-os a Sophie.
      Sophie conduziu-o para as plataformas de embarque. Vindo de cima, o familiar ding-dong eletrnico seguido por uma voz ecoante anunciou a ltima chamada para Lille.
      A frente deles, dezesseis linhas separadas por plataformas de cimento estendiam-se como fitas at desaparecerem na noite. Muito para a direita, na linha nmero trs, o comboio com destino a Lille preparava-se para partir, mas Sophie, passando o brao pelo de Langdon, arrastou-o na direo exatamente oposta. Atravessaram apressados um vestbulo lateral, passando diante de uma cafeteria, e finalmente saram para uma rua silenciosa no lado oeste da estao.
      Junto ao passeio, um taxi solitrio parecia esperar, com o motor ligado. O motorista viu Sophie e fez um sinal de luzes. Sophie saltou para o banco traseiro.
      Langdon seguiu-a.
      Quando o txi arrancou, Sophie pegou os bilhetes de trem recem comprados e rasgou-os em pedacinhos pequenos. Langdon suspirou. Setenta dlares bem gastos.
      S depois do txi ter entrado em uma montona velocidade de cruzeiro, seguindo para norte pela Rue de Clichy,  que Langdon se convenceu de que tinha efetivamente escapado. Pela janela, do lado direito, via Montmartre e a bela cpula do Sacr-Coeur. A imagem foi interrompida pelo relampejar das luzes dos carros da Polcia que passaram por eles na direo oposta.
      Langdon e Sophie baixaram a cabea enquanto o uivo das sirenes se afastava e morria. Sophie limitara-se a dizer ao motorista que sasse da cidade, e, pela contrao determinada do queixo dela, Langdon adivinhou que estava tentando decidir a prxima jogada.
      Resolveu voltar a examinar a chave cruciforme, erguendo-a  altura da janela do txi, aproximando-a dos olhos em um esforo para descobrir quaisquer marcas que indicassem onde fora fabricada.  luz intermitente da rua, nada viu excepto o selo do Priorado.
      - No faz sentido - disse, finalmente.
      - Que parte?
      - O seu av se dar a tanto trabalho para fazer chegar as suas mos uma chave que voc no sabe para que serve.
      - Concordo.
      - Tem certeza de que ele no escreveu mais nada nas costas do quadro.
      - Procurei em toda a rea. Isso era a nica coisa que estava l. Essa chave, entalada entre a armao e a tela. Vi o selo do Priorado enfiei a chave no bolso e samos dali para fora.
      Langdon franziu a testa, examinando agora a ponta da haste triangular. Nada. 
      Semicerrando os olhos, aproximou a chave dos olhos e examinou a aresta da pega.
      Nada.
      - Acho que esta chave foi limpa recentemente.
      - Porqu?
      - Cheira a lcool.
      - Desculpe?
      - Cheira como se algum a tivesse esfregado com um produto de limpeza. -
      Langdon levou a chave ao nariz e cheirou-a.  mais forte do outro lado. - Voltou-a. - Sim, qualquer coisa  base de lcool, como se tivesse sido polida com um limpa-metais ou... - interrompeu-se no meio da frase.
      - O qu?
      Langdon inclinou a chave para a luz e examinou cuidadosamente a face lisa da pega. Parecia ter pontos brilhantes... como se estivesse mida.
      - Olhou bem para a parte de trs da chave antes de mete-la no bolso?
      - O qu? No, no olhei. Estava com pressa.
      Langdon voltou-se para ela.
      - Ainda tem a lanterna de luz negra?
      Sophie enfiou a mo no bolso e tirou de l a fina lanterna. Langdon pegou-lhe, acendeu-a e apontou-a para o verso da pega da chave, Que se ps instantaneamente a brilhar. Havia ali qualquer coisa escrita. Em uma letra apressada mas legvel.
      - Bem - disse Langdon, sorrindo -, parece que j sabemos o que era aquele cheiro de lcool.
      Sophie estava olhando estupefata para as palavras escritas em prpura no verso da chave.
      Rue Haxo 24
      Um endereo! O meu av escreveu um endereo!
      - Onde fica isto? - perguntou Langdon.
      Sophie no fazia idia. Voltando-se para a frente, inclinou-se por cima das costas do banco e perguntou excitadamente ao motorista:
      - Connaissez-vous la Rue Haxo?
      O homem pensou por um instante, e ento assentiu. Disse a Sophie que ficava perto do estdio de tnis nos arredores ocidentais de Paris. Ela pediu-lhe que os levasse l imediatamente.
      - O caminho mais rpido  pelo Bosque de Bolonha - disse-lhe o motorista em francs. - Pode ser?
      Sophie franziu a testa. Normalmente, escolheria um caminho menos escandaloso, mas naquela noite no podia se dar ao luxo de ser esquisita.
      - Oui. - Vamos chocar o nosso visitante americano.
      Olhou novamente para a chave e perguntou a si mesma o que iriam encontrar no nmero 24 da Rue Haxo. Uma igreja? Um quartel-general do Priorado? Seu esprito encheu-se de imagens do ritual secreto a que assistira na gruta escavada por baixo da casa do av, dez anos antes, e deixou escapar um longo suspiro.
      - Robert, h montes de coisas que tenho de lhe dizer. - Fez uma pausa, olhando-o nos olhos enquanto o txi corria para oeste. - Mas primeiro quero que me conte tudo o que sabe a respeito desse Priorado de Sio.
      
      
      
      CAPTULO TRINTA E SEIS
      
      
       entrada da Salle des tats, Bezu Fache espumava de raiva enquanto o guarda graduado Grouard lhe explicava como Sophie e Langdon tinham conseguido desarm-lo.
      Porque  que no disparaste atravs do raio do quadro!
      - Capito! - O tenente Collet corria na direo deles vindo do posto de comando. - Capito, a notcia chegou agora mesmo. Encontraram o carro da agente Neveu.
      - Conseguiu chegar  embaixada?
      - No. Estao ferroviria. Compraram dois bilhetes. O trem acaba de partir.
      Fache despediu Grouard com um gesto e levou Collet para um recanto da galeria, dirigindo-se a ele em voz baixa.
      - Qual era o destino?
      - Lille.
      - Provavelmente, um truque para nos despistar. - Fache soprou com fora, formulando um plano. - Muito bem, alerte a prxima estao, mande parar e revistar o trem, pelo sim pelo no. Deixe o carro dela onde est e ponha agentes  paisana vigiando-o, para o caso de tentarem recuper-lo. Mande fazer uma busca nas ruas em volta da estao, para o caso de terem fugido a p. H nibus a partir da estao?
      - A esta hora, no. S txis.
      - timo. Interrogue os motoristas. Descubra se viram alguma coisa. Depois contacte a companhia de txis e mande descries dos dois fugitivos para a central. Vou falar com a Interpol.
      Collet pareceu surpreendido.
      - Vai pr isto no ar?
      Fache lamentava o potencial embarao, mas no via outra opo. Fechar a rede, e fech-la com fora.
      A primeira hora era crtica. Os fugitivos eram sempre previsveis durante a primeira hora aps a fuga. Precisavam sempre da mesma coisa. Distncia. Alojamento. Dinheiro.
      A Santssima Trindade. A Interpol tinha o poder de fazer todas estas trs coisas desaparecerem em um abrir e fechar de olhos. Enviando por fax fotografias de Langdon e de Sophie para as instituies de viagens, hotis e bancos de Paris, no lhes deixaria a menor chance - no poderiam sair da cidade, no teriam onde se esconder, no teriam maneira de levantar dinheiro sem serem reconhecidos. Regra geral, os fugitivos entravam em pnico e faziam qualquer coisa estpida. Roubar um carro. Assaltar uma loja. Ou, em desespero de causa, usar um carto bancrio. Fosse qual fosse o erro que cometessem, no tardavam a revelar o seu paradeiro s autoridades locais.
      - S Langdon, certo? - disse Collet. - No vai denunciar Sophie Neveu. Ela  um dos nossos.
      - Claro que vou denunci-la! - replicou Fache. - De que serviria denunciar Langdon deixando-a livre para fazer o trabalho sujo? Tenciono passar pente fino no dossi da Neveu... amigos, famlia, contatos pessoais... toda as pessoas a quem ela possa pedir ajuda. No sei o que  que ela pensa que anda fazendo, mas vai custar-lhe muito mais do que o emprego!
      - Voc me quer no telefones ou no campo?
      - No campo. V  estao ferroviria e coordene a equipe. Tem o comando, mas no faa nada sem falar comigo.
      - Sim, senhor. - E Collet afastou-se correndo.
      Fache sentia todo o corpo rgido. Do outro lado da janela, a pirmide de vidro brilhava, o seu reflexo ondulando na gua dos tanques que o vento encrespava.
      Escaparam por entre meus dedos, disse a si mesmo para relaxar.
      At um agente com treinamento de campo precisaria de muita sorte para aguentar a presso que a Interpol ia exercer. Uma criptloga e um professor?
      No durariam at de manh.
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO TRINTA E SETE
      
      
      O parque densamente arborizado conhecido como Bois de Boulogne tinha muitos nomes, mas os cognoscenti parisienses chamavam-lhe Jardim das Delcias Terrenas. A alcunha, parecendo embora lisonjeira, no o era, muito pelo contrrio. Quem conhecesse o sombrio quadro de Bosch com o mesmo nome compreendia a ironia; o quadro, como o bosque, era escuro e tortuoso, um purgatrio para tarados e fetichistas.  noite, os coleantes caminhos florestais enchiam-se de centenas de corpos de aluguel, delcias terrenas para satisfazer os desejos mais escondidos e inominveis de todos e de cada um - homens, mulheres e tudo o que houvesse pelo meio.
      Enquanto Langdon organizava os pensamentos para falar a Sophie do Priorado de Sio, o txi atravessou a entrada do parque e meteu-se pelas ruelas empedradas em direo a oeste. Estava tendo dificuldade em concentrar-se, porque uma amostra dos residentes noturnos do bosque comeava j a emergir das sombras e a ostentar a respectiva mercadoria  luz dos faris. Um pouco  frente, duas adolescentes de seios nus lanaram olhares escaldantes ao txi que passava. Atrs delas, um musculoso negro de corpo oleado, vestindo apenas uma espcie de fio-dental, voltou-lhes as costas e flectiu as ndegas. Ao lado, uma belssima mulher loura levantou a minissaia e mostrou que no era, na realidade, uma mulher.
      Deus me ajude! Langdon voltou o olhar para dentro do txi e inspirou fundo.
      - Fale-me do Priorado - pediu Sophie.
      Langdon assentiu, incapaz de imaginar um pano de fundo menos adequado  lenda que ia contar. Perguntou a si mesmo por onde comear. A histria de irmandade estendia-se por mais de um milnio... uma espantosa crnica de segredos, chantagens, traies e at brutal tortura s mos de um papa furioso.
      - O Priorado de Sio - comeou -, foi fundado em Jerusalm, em 1099, por um rei francs chamado Godofredo de Bulho, imediatamente depois de ter conquistado a cidade.
      Sophie assentiu, com os olhos cravados nele.
      - Godofredo era alegadamente o detentor de um poderoso segredo... um segredo que a sua famlia guardava desde os tempos de Cristo. Receando que este segredo se perdesse com a sua morte, fundou uma irmandade secreta... o Priorado de Sio... que encarregou de mant-lo defend-lo, transmitindo-o sigilosamente de gerao em gerao. Durante os anos da sua presena em Jerusalm, o Priorado soube da existncia de uma grande quantidade de documentos enterrados sob as runas do templo de Herodes, que fora construdo sobre os escombros ainda mais antigos do Templo de Salomo. Acreditavam que esses documentos corroboravam o poderoso segredo de Godofredo e eram to explosivos que a Igreja no pouparia meios para se apoderar deles.
      Sophie parecia pouco convencida.
      - Os membros do Priorado juraram que, levasse o tempo que levasse, aqueles documentos tinham de ser resgatados das runas do templo e salvaguardados para sempre, para que a verdade nunca morresse. com o objetivo de recuperar os documentos, o Priorado criou um brao militar, um grupo de nove cavaleiros chamados a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomo. Langdon fez uma pausa. - Mais vulgarmente conhecidos como Cavaleiros do Templo, ou Templrios.
      Sophie ergueu os olhos, com uma surpreendida expresso de reconhecimento.
      Langdon tinha dado conferncias suficientes sobre os Cavaleiros do Templo para saber que no havia praticamente ningum no mundo que no tivesse ouvido falar deles, pelo menos no abstrato. Para os acadmicos, a histria dos Templrios era um mundo precrio em que os fatos, a lenda e a desinformao estavam de tal modo entrelaados que se tornava quase impossvel extrair dali uma verdade clara. Passara at a evitar se referir os Cavaleiros do Templo nas suas conferncias, porque isso levava invariavelmente a uma barragem de retorcidas perguntas a respeito das mais variadas teorias de conspirao.
      At Sophie j parecia perturbada.
      - Est me dizendo que os Templrios foram criados pelo Priorado de Sio com o objetivo de recuperar uma coleo de documentos secretos? Pensei que os Templrios tinham sido criados para defender a Terra Santa.
      - Um erro comum. A idia de proteger os peregrinos era o disfarce que os Templrios usavam para levar a cabo a sua misso. O seu verdadeiro objetivo na Terra Santa era recuperar os documentos sepultados sob as runas do templo.
      - E os encontraram?
      Langdon sorriu.
      - Ningum sabe com certeza, mas h um ponto em que todos os acadmicos esto de acordo: os cavaleiros descobriram qualquer coisa sob as runas... qualquer coisa que os tornou ricos e poderosos alm de tudo o que algum pudesse imaginar.
      Exps rapidamente a Sophie o esboo acadmico padro da histria aceita dos Templrios, explicando como os Cavaleiros estavam na Terra Santa durante a segunda cruzada e explicaram ao rei Balduno II que se encontravam ali para proteger os peregrinos cristos que percorriam as estradas. Apesar de no receberem qualquer pagamento e de terem feito voto de pobreza, disseram ao rei que precisavam de um abrigo mnimo, e pediram autorizao para se instalarem nos estbulos sob as runas do templo. O rei concedeu-lhes o que pediam, e os Cavaleiros estabeleceram uma humilde residncia no interior do devastado santurio.
      A estranha escolha de alojamento, explicou Langdon, fora tudo menos casual. Os Cavaleiros acreditavam que os documentos que o Priorado procurava estavam enterrados bem fundo por baixo das runas - sob o Santo dos Santos, uma cmara sagrada onde se acreditava que o prprio Deus residira. Literalmente, o cerne mesmo da f judaica. Durante quase dez anos, os nove cavaleiros viveram nas runas, escavando no mais absoluto segredo a rocha slida.
      Sophie lanou-lhe um olhar.
      - E diz que descobriram qualquer coisa?
      - Sem a mnima dvida - respondeu Langdon, e explicou que tinham demorado nove anos, mas que finalmente tinham encontrado aquilo que procuravam. Retiraram o tesouro do templo e voltaram  Europa, onde a sua influncia pareceu se solidificar da noite para o dia.
      Ningum sabia com certeza se os Cavaleiros tinham feito chantagem com o Vaticano ou se a Igreja tentara simplesmente comprar-lhes o silncio, mas a verdade  que o Papa Inocncio II emitiu de imediato uma bula sem precedentes que conferia aos Cavaleiros poderes ilimitados e os considerava uma lei em si mesmos - um exrcito autnomo, independente de quaisquer interferncias de reis ou prelados, fosse ela religiosa ou poltica.
      Com a carta-branca que lhes fora dada pelo Vaticano, os Cavaleiros do Templo cresceram a uma velocidade espantosa, tanto em nmeros como em poder poltico, adquirindo vastas propriedades em uma dzia de pases. Comearam a emprestar dinheiro a reis arruinados, cobrando juros, criando assim o moderno sistema bancrio e aumentando ainda mais a sua riqueza e influncia.
      Por volta de 1300, a sano do Vaticano ajudara os Templrios a amassar tanto poder que o Papa Clemente V decidiu que era preciso fazer qualquer coisa. Em conluio com Filipe IV de Frana, maquinou um engenhoso plano para esmagar os Templrios e apoderar-se dos tesouros da ordem, assumindo deste modo o controle dos segredos com que ameaavam o Vaticano. Em uma operao militar digna da CIA, o Papa Clemente emitiu ordens seladas que deviam ser simultaneamente abertas pelos seus soldados em toda a Europa na sexta-feira 13 de Outubro de 1307.
      Na madrugada dessa sexta-feira, os selos foram quebrados e o espantoso contedo das ordens revelado. Na sua carta, Clemente afirmava que Deus o visitara em uma viso e o avisara de que os Cavaleiros do Templo eram herticos, culpados de prestar culto ao diabo, de homossexualidade, de profanar a cruz, de sodomia e de outros comportamentos blasfemos. E Deus pedira-lhe ento que lavasse a face da Terra arrebanhando todos os Templrios e torturando-os at que confessassem os seus pecados contra Ele. A maquiavlica operao de Clemente funcionou com a preciso de um relgio, nesse mesmo dia, inmeros Cavaleiros foram presos, impiedosamente torturados e finalmente queimados na fogueira como herticos. Os ecos da tragdia ressoavam ainda na cultura moderna: a sexta-feira 13 passou a ser para sempre considerado um dia de azar.
      Sophie parecia confusa.
      - Os Cavaleiros do Templo foram eliminados? Pensava que ainda hoje existiam confrarias de Templrios?
      - E existem, sob uma grande variedade de nomes. A despeito das falsas acusaes de Clemente e de todos os esforos para erradic-los, os Templrios tinham amigos poderosos, e alguns conseguiram escapar s purgas do Vaticano. O poderoso tesouro documental da ordem, que fora a fonte aparente do seu poder e era o verdadeiro objetivo de Clemente, escapou-se por entre os dedos. Os documentos tinham sido entregues h muito aos misteriosos arquitetos dos Templrios, os membros do Priorado de Sio, que um vu de segredo mantivera a salvo longe do alcance do Vaticano. Ao sentir que o Papa apertava o cerco, o Priorado tinha retirado os documentos do preceptorado onde se encontravam, em Paris, e, de noite, levara-os para barcos dos Templrios fundeados em La Rochelle.
      - Para onde foram os documentos?
      Langdon encolheu os ombros.
      - A resposta a essa pergunta s o Priorado de Sio a conhece. Porque os documentos continuam a ser, ainda hoje, objeto de constante investigao e especulao, julga-se que tm sido transferidos de lugar para lugar e escondidos vrias vezes. A especulao atual situa-os Em algum lugar no Reino Unido.
      Sophie parecia pouco  vontade.
      - Durante mil anos - prosseguiu Langdon -, as lendas sobre este segredo tm sido transmitidas de gerao em gerao. O conjunto dos documentos, o seu poder e o segredo que revelam acabaram por ser conhecidos por um nico nome: Sangreal. Foram escritas centenas de livros sobre o tema, e poucos mistrios tm despertado tanto interesse entre os historiadores como o Sangreal.
      - O Sangreal? A palavra tem alguma coisa vendo com o francs sang ou o espanhol sangre, que significam sangue?
      Langdon assentiu. O sangue era a espinha dorsal do Sangreal, mas no do modo que Sophie imaginava.
      - A lenda  complicada, mas o que importa recordar  que o Priorado guarda a prova, e est supostamente  espera do momento histrico certo para revelar a verdade.
      - Que verdade? Que segredo poderia ser assim to poderoso?
      Langdon deixou escapar um fundo suspiro e olhou atravs da janela do txi para o ventre mole de Paris exposto no meio das sombras.
      - A palavra Sangreal  muito antiga. Tem evoludo ao longo dos tempos, transformando-se em um outro termo... um nome mais moderno. - Fez uma pausa. - Quando eu lhe disser esse nome, perceber que j sabe muito a respeito dele. Na realidade, praticamente toda as pessoas no mundo inteiro j ouviram a histria do Sangreal.
      Sophie fez um ar ctico.
      - Nunca ouvi falar.
      - Claro que ouviu. - Langdon sorriu. - S que est habituada a dar-lhe outro nome: Santo Graal.
      
      
      
      CAPTULO TRINTA E OITO
      
      
      Sophie perscrutou o rosto de Langdon no banco traseiro do txi. Estar brincando?
      - Santo Graal?
      Langdon assentiu, muito srio.
      - Santo Graal  o significado literal de Sangreal. A palavra deriva do francs Sangraal, que evoluiu para Sangreal e acabou por dividir-se em duas, San Greal. Santo Graal. Sophie ficou surpresa por no ter visto imediatamente a ligao lingustica.
      Mesmo assim, a afirmao de Langdon continuava a no fazer sentido para ela.
      - Pensava que o Santo Graal era uma taa. Acaba de me dizer que o Sangreal  uma coleo de documentos que revelam um temvel segredo.
      - Sim, mas os documentos do Sangreal so apenas metade do tesouro do Santo Graal. Esto enterrados com o prprio Graal... e revelam o seu verdadeiro significado.
      Por isso, por revelarem a verdadeira natureza do Graal, davam tanto poder aos Templrios.
      A verdadeira natureza do Graal? Sophie sentia-se cada vez mais perdida. O Santo Graal, sempre pensara, era a taa por onde Jesus bebera durante a Ultima Ceia e onde Jos de Arimateia posteriormente recolhera o Seu sangue durante a crucifixo.
      - O Santo Graal  a Taa de Cristo - disse. - O que  que pode ser mais simples do que isto?
      - Sophie - sussurrou Langdon, inclinando-se para ela -, segundo o Priorado de Sio, o Santo Graal no  uma taa. Afirmam que a lenda do Graal... de um clice...  na realidade uma alegoria engenhosamente elaborada. Ou seja, a histria do Graal usa o clice como metfora para outra coisa, uma coisa muito mais poderosa. - Fez uma pausa.
      - Algo que encaixa perfeitamente com tudo o que o seu av tentou nos dizer esta noite, incluindo todas as suas referncias simbolgicas ao sagrado feminino.
      Ainda insegura, Sophie sentiu no sorriso paciente de Langdon que ele compreendia a sua confuso, embora mantivesse uma expresso grave.
      - Mas se o Santo Graal no  uma taa - perguntou -, ento o que ?
      Langdon j contava com a pergunta, mas nem mesmo assim sabia muito bem como dizer aquilo. Se no apresentasse a resposta no devido contexto histrico, Sophie ficaria com um ar vazio de espanto e confuso... exatamente a mesma expresso que vira no rosto do seu editor quando, meses antes, lhe mostrara o manuscrito em que estava trabalhando.
      - Este manuscrito afirma o qu? - engasgou-se o editor, pousando o copo de vinho e olhando para Langdon por cima do almoo meio comido. - No pode estar falando srio!
      - Suficientemente srio para ter passado um ano a investig-lo.
      John Faukman, um conhecido editor de Nova Iorque, puxou nervosamente pela barbicha. Ouvira sem a mnima dvida algumas idias loucas ao longo da sua eminente carreira, mas aquela parecia t-lo deixado estupefato.
      - Robert - disse, finalmente -, no me interprete mal. Gosto muito do seu trabalho e percorremos juntos um longo caminho. Mas se aceito publicar uma idia como esta, vou ter pessoas fazendo manifestaes  porta do meu escritrio durante meses. Alm disso, dar cabo da minha reputao. Voc  um Historiador de Harvard, pelo amor de Deus, no um trapaceiro de esquina  procura de dinheiro fcil. Onde  que vai encontrar provas credveis em quantidade suficiente para apoiar uma teoria destas?
      Com um sorriso tranquilo, Langdon tirou uma folha de papel do bolso do casaco de tweed e entregou-o a Faukman. Continha uma bibliografia com mais de cinquenta ttulos - obras de historiadores conhecidos, uns contemporneos, outros com centenas de anos -, muitos deles bestsellers acadmicos. Todos os ttulos daqueles livros sugeriam a mesma premissa que Langdon acabava de propor.  medida que lia a lista, Faukman ia adquirindo o ar de algum que acabasse de descobrir que a Terra era efetivamente plana.
      - Conheo alguns destes autores. So... historiadores de verdade!
      Langdon sorriu.
      - Como v, Jonas, no  s a minha teoria. Anda por a h muito tempo. Estou apenas elaborando com base nela. Nenhum livro, at hoje, explorou a lenda do Santo Graal de um ponto de vista simbolgico. As provas iconogrficas que tenho descoberto para apoiar a teoria so... bem, espantosamente convincentes.
      Faukman continuava olhando para a lista.
      - Meu Deus, um destes livros foi escrito por Sir Leigh Teabing... um historiador da British Royal Academy.
      - Teabing passou a maior parte da vida estudando o Santo Graal. Falei com ele.
      Na realidade, foi em grande parte o meu inspirador.  um crente, Jonas, como todos os outros que fazem parte dessa lista.
      - Est me dizendo que todos estes historiadores acreditam verdadeiramente... -
      Faukman engoliu em seco, aparentemente incapaz de pronunciar as palavras.
      Langdon voltou a sorrir.
      - O Santo Graal  talvez o tesouro mais procurado de toda a histria da humanidade. Engendrou lendas, guerras, buscas que duraram vidas inteiras. Far sentido que se trate de uma simples taa? Se sim, ento com toda certeza outras relquias deveriam despertar um interesse igual ou ainda maior... a Coroa de Espinhos, a Verdadeira Cruz da Crucifixo, o Titulus..., mas isso no aconteceu. Ao longo da Histria, o Santo Graal foi sempre especial. - Langdon sorriu. - Agora j sabe porqu.
      Faukman ainda estava abanando a cabea.
      - Mas com todos estes livros escritos a respeito dela, porque  que a teoria no  mais geralmente conhecida?
      - Estes livros no podem competir com sculos de Histria estabelecida, especialmente quando essa Histria tem o aval do maior bestseller de todos os tempos.
      Faukman abriu muito os olhos.
      - No me diga que o Harry Potter  a respeito do Santo Graal!
      - Estava me referindo  Bblia.
      - Eu sei - disse Faukman, fazendo uma careta.
      - Lassaste! - O grito de Sophie rasgou o ar dentro do txi. Largue-o!
      Langdon deu um salto quando Sophie se debruou sobre o banco da frente, gritando com o motorista, que tinha o microfone do rdio na mo.
      Sophie voltou-se e meteu a mo no bolso do casaco de Langdon. Antes que ele percebesse o que estava acontecendo, ela j tinha tirado de l a pistola do guarda do museu e apertava a ponta do cano contra a nuca do taxista. O homem largou imediatamente o rdio e ergueu a mo livre acima da cabea. 
      - Sophie! - exclamou Langdon, chocado. - Que diabo...
      - Arrtez! - ordenou Sophie.
      Tremendo, o taxista obedeceu, parando o carro e colocando-o em ponto morto. Foi ento que Langdon ouviu a voz metlica da despachante da central da companhia saindo do autofalante:
      - ... qui sapelle agent Sophie Neveu, et un amricain, Robert Langdon...
      Os msculos de Langdon se enrigeceram. J nos descobriram?
      - Descendez - exigiu Sophie.
      O trmulo taxista manteve os braos erguidos acima da cabea enquanto descia do txi e recuava vrios passos. Sophie tinha baixado o vidro da janela e continuava apontando a arma ao assustado motorista.
      - Robert - disse, calmamente. - Passe para o volante. Voc dirige.
      Langdon no ia discutir com uma mulher que empunhava uma arma. Desceu do carro e sentou-se ao volante. O taxista gritava pragas, com as mos erguidas acima da cabea.
      - Robert - disse Sophie, do banco traseiro, - suponho que j viu o suficiente da nossa floresta mgica?
      Mais ao que o suficiente, pensou ele, assentindo.
      - timo. Leve-nos daqui para fora.
      Langdon olhou para os comandos do carro e hesitou. Merda. Procurou a alavanca de mudanas e a embreagem.
      - Sophie, talvez fosse melhor...
      - Vamos! - gritou ela.
      L fora, vrias prostitutas aproximavam-se para ver o que se passava. Uma delas comeou a digitar um nmero no celular. Langdon apertou a embreagem e empurrou a alavanca das mudanas, na esperana de ter engrenado a primeira. Pisou no acelerador.
      Soltou a embreagem. Os pneus guincharam quando o txi saltou para a frente, com a traseira derrapando de uma maneira que obrigou a multido a procurar refgio. A mulher do celular saltou para o meio das rvores, escapando por centmetros a ser atropelada.
      - Doucement! - disse Sophie, enquanto o carro guinava aos solavancos pela estrada empedrada. - O que  que est fazendo?
      - Tentei avis-la! - gritou ele, para fazer-se ouvir acima dos protestos da caixa de velocidades. - Estou habituado com carros automticos!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO TRINTA E NOVE
      
      
      Por muito sofrimento que o espartano quarto na casa de arenito castanho da Rue La Bruyre tivesse testemunhado, Silas duvidava que qualquer outro se comparasse  angstia que naquele momento lhe torturava o corpo plido. Fui enganado. Est tudo perdido.
      Fora ludibriado. Os irmos tinham mentido, preferindo a morte a revelar o seu verdadeiro segredo. Silas no se sentia com coragem para telefonar ao Professor. No s matara as nicas quatro pessoas que sabiam onde estava escondida a Chave de Abbada, como tambm matara uma monja dentro de Saint-Sulpice. Ela trabalhava contra Deus. Zombava do trabalho da Opus Dei!
      Um crime de impulso, a morte daquela mulher complicava extraordinariamente toda a questo. O bispo Aringarosa fizera o telefonema que permitira a Silas entrar na igreja; que pensaria o abade quando descobrisse que a freira estava morta? Apesar de Silas ter voltado a deit-la na cama, a ferida na cabea era bvia. Tentara recolocar a laje partida do cho, mas o estrago causado era igualmente bvio. Saberiam algum que estivera na igreja.
      Silas planejara refugiar-se na Opus Dei quando o seu trabalho ali estivesse terminado. O bispo Aringarosa me proteger. No conseguia imaginar maior felicidade do que uma vida de meditao e orao entre as paredes do quartel-general da Opus Dei em Nova Iorque. Nunca mais voltaria a pr os ps na rua. Tudo aquilo de que precisava estava dentro daquele santurio. Ningum dar pela minha falta. Infelizmente, bem sabia, um homem proeminente como o bispo Aringarosa no podia desaparecer com a mesma facilidade.
      Coloquei o bispo em perigo. Silas olhou sem ver para o soalho de madeira, pensando em pr fim  prpria vida. Afinal, fora Aringarosa quem a dera... no pequeno reitorado na Espanha, instruindo-o, dando-lhe um propsito.
      - Meu amigo - dissera-lhe Aringarosa -, voc nasceu albino. No permita que os outros te faam ter vergonha disso. No v como o torna especial? No sabia que o prprio No era albino?
      - No da Arca? - Silas nunca ouvira falar disso..
      Aringarosa sorrira.
      - Sim, No da Arca. Como voc, tinha uma pele branca como um anjo. Pense nisso. No salvou toda a vida da Terra. Est destinado a grandes coisas, Silas. O Senhor te libertou por uma razo. Foi chamado. O Senhor precisa de voc para fazer o Seu trabalho.
      Com o tempo, Silas aprendera a ver em si mesmo a uma nova luz. Sou puro.
      Branco. Belo. Como um anjo.
      No momento, no entanto, naquele quarto da residncia, foi a voz do pai que lhe sussurrou, desapontada, do passado. Tu est un dsastre. Un spectre.
      De joelhos no cho de madeira, Silas rezou pedindo perdo. Ento, despindo o hbito, voltou a pregar a Disciplina.
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA
      
      
      Em luta feroz com a alavanca de mudanas, Langdon conseguiu levar o txi desviado at ao outro lado do Bois de Boulogne deixando o motor apagar apenas duas vezes. Infelizmente, o indesmentvel humor da situao era ensombrado pela voz da despachante da central, que no parava de tentar contactar o txi pelo rdio.
      - Voiture cinq-six-trois. Ou tes-vous? Rpondez!
      Quando chegou  sada do parque, Langdon engoliu o machismo e pisou o freio.
      -  melhor voc dirigir.
      Sophie pareceu aliviada quando se instalou atrs do volante. Instantes depois, tinham o carro correndo suavemente para oeste ao longo da Avenue Longchamp, deixando para trs o Jardim das Delcias Terrenas.
      - Qual  o caminho para a Rue Haxo? - perguntou Langdon, vendo Sophie levar o ponteiro do velocmetro acima dos cem quilmetros/hora.
      - O motorista disse que era perto do estdio de tnis Roland Garros  respondeu ela, sem desviar os olhos da estrada. - Conheo a rea.
      Langdon voltou a tirar a chave do bolso, sentindo-lhe o peso na palma da mo.
      Adivinhava que era um objeto de enorme importncia. Muito possivelmente, a chave para a sua prpria liberdade.
      Momentos antes, enquanto falava a Sophie dos Cavaleiros do Templo, percebera que aquela chave, alm de ter gravado o selo do Priorado, tinha uma ligao mais sutil  organizao secreta.
      A cruz de braos iguais era um smbolo de equilbrio e harmonia, mas tambm dos Templrios. Todas as pessoas viram imagens de Cavaleiros do Templo envergando tnicas brancas com uma cruz de braos iguais. Era verdade que os braos da cruz dos Templrios abriam ligeiramente nas extremidades, mas continuavam a ter o mesmo comprimento. Uma cruz quadrada. Como a desta chave.
      Langdon sentiu a imaginao pr-se a correr solta enquanto pensava no que poderiam ir encontrar. O Santo Graal. Quase riu alto face ao absurdo da idia. Pensavase que o Graal se encontrava mm algum lugar na Inglaterra, enterrado em uma cmara secreta por baixo de uma das muitas igrejas dos Templrios, onde permanecia escondido desde pelo menos 1500. A era do Gro-Mestre da Vinci.
      A fim de garantir a segurana dos poderosos documentos, o Priorado fora obrigado a mud-los muitas vezes de lugar ao longo dos sculos anteriores. Os historiadores suspeitavam agora de que passara por seis esconderijos diferentes desde que chegara  Europa, vindo de Jerusalm. O ltimo avistamento do Graal ocorrera em 1447, quando numerosas testemunhas falaram de um incndio que quase destrura os documentos antes que pudessem ser postos em segurana dentro de quatro arcas to grandes que cada uma delas tivera de ser transportada por seis homens. Depois disso, ningum voltara a afirmar t-lo visto. Tudo o que restava era rumores dispersos de que estava escondido na Gr-Bretanha, a terra do rei Artur e dos Cavaleiros da Tvola Redonda.
      Estivesse onde estivesse, dois fatos importantes permaneciam: Leonardo conhecera a localizao do Graal no seu tempo. Esse esconderijo no fora provavelmente alterado at ao presente.
      Por isso, os entusiastas do Graal continuavam a examinar sob a lupa a arte e os dirios de da Vinci na esperana de encontrar uma pista escondida que desvendasse a sua atual localizao. Havia quem afirmasse que o montanhoso fundo de A Madonna dos Rochedos correspondia  topografia de determinadas colinas crivadas de grutas existentes na Esccia. Outros insistiam que a suspeita disposio dos discpulos em A Ultima Ceia era uma espcie de cdigo. Outros ainda pretendiam que raios-X feito  Mona Lisa revelavam que fora inicialmente pintada com um pendente de Isis, de lpislazli, no pescoo, pormenor que Leonardo teria mais tarde decidido cobrir. Langdon nunca vira qualquer sinal do tal pendente, nem conseguia imaginar de que modo poderia ele revelar o esconderijo do Santo Graal, o que no impedia os apaixonados de discutirem ad nauseam em sites e chat-rooms da Internet.
      Todas as pessoas adoram uma conspirao. E as conspiraes no paravam de aparecer. A mais recente fora, claro, a tremenda descoberta de que a famosa Adorao dos Magos de da Vinci escondia um negro segredo por baixo das suas camadas de tinta.
      O perito de arte italiano Maurizio Seracini revelara a perturbadora verdade, que o New York Times publicara com destaque sob o ttulo: O Escndalo Leonardo.
      Seracini provara, sem qualquer sombra de dvida, que embora o esboo cinzentoesverdeado subjacente da Adorao fosse indiscutivelmente da autoria de da Vinci, a pintura propriamente dita no era. A verdade era que um pintor annimo qualquer preenchera o esquisso de da Vinci, como um desses quadros de pintar-por-nmeros, anos aps a morte do mestre. Muito mais perturbador ainda, no entanto, era o que estava por baixo da pintura do impostor. Fotografias tiradas com reflectografia de infravermelhos e raios-X sugeriam que o desconhecido pintor, ao cobrir o estudo esboado, introduzira algumas alteraes suspeitas ao desenho original... como que para subverter as verdadeiras intenes do autor. Fosse ela qual fosse, a natureza do desenho original nunca chegara a ser tornada pblica. Em todo o caso, os embaraados diretores da galeria dos Uffizi, em Florena, tinham imediatamente banido o quadro para um  armazm situado do outro lado da rua. Os visitantes que procuravam a Sala Leonardo da galeria passaram a encontrar estes enganadores e secos dizeres no lugar onde a Adorao estivera exposta:
      
ESTA OBRA EST SENDO SUBMETIDA A TESTES DE DIAGNSTICO
PREPARATRIOS PARA RESTAURAO.
      
      No bizarro submundo dos modernos procuradores do Graal, Leonardo da Vinci continuava a representar o grande enigma. As suas obras pareciam desejosas de revelar um segredo que no entanto, fosse ele qual fosse, continuava escondido, talvez debaixo de uma camada de tinta, talvez codificado e  vista de todos, ou talvez at inexistente.
      Talvez a tantalizante pltora de pistas deixada por da Vinci mais no fosse do que  uma promessa vazia destinada a frustrar os curiosos e a pr um sorriso nos lbios da Mona Lisa.
      - Ser possvel - perguntou Sophie, trazendo Langdon de volta ao presente  que essa chave abra o esconderijo do Santo Graal?
      A gargalhada de Langdon soou falsa, at a ele.
      - No me parece muito provvel. Alm disso, acreditasse que o Graal encontra-se em algum lugar no Reino Unido, no em Frana.
      E contou-lhe abreviadamente a histria.
      - Mas o Graal parece ser a nica concluso racional - insistiu ela. - Temos uma chave extremamente segura, marcada com o selo do Priorado de Sio e que nos foi entregue por um membro do Priorado de Sio... uma irmandade que, conforme acaba de me dizer,  a guardi do Santo Graal.
      Langdon sabia que o argumento era lgico, e, no entanto, recusava instintivamente aceit-lo. Havia rumores de que o Priorado teria jurado levar um dia o Graal de novo para Frana, onde repousaria para todo o sempre, mas nenhuma prova histrica indicava que j tivesse feito. E mesmo que o Priorado tivesse conseguido trazer o Graal para Frana, o nmero 24 da Rue Haxo, perto de um estdio de tnis, dificilmente pareceria um nobre e condigno lugar de repouso final.
      - Sophie, sinceramente, no vejo como possa esta chave ter alguma coisa a ver com o Graal.
      - Porque se supoe que o Graal est na Inglaterra?
      - No s por isso. A localizao do Santo Graal  um dos segredos mais bem guardados da Histria. Os membros do Priorado passam dcadas provando ser dignos de confiana antes de serem elevados aos escales mais altos da irmandade e ficarem sabendo onde est o Graal. O segredo  protegido por um intricado sistema de conhecimento compartimentado, e embora a irmandade tenha muitos membros, apenas quatro deles, em certa altura, o conhecem: o Gro-Mestre e os seus trs senescais. A probabilidade de o seu av ser uma dessas quatro pessoas  muito baixa.
      O meu av era um deles, pensou Sophie, pisando no acelerador. Tinha gravada na memria uma imagem que confirmava para alm de qualquer dvida a posio do av dentro da irmandade.
      - E mesmo que o seu av pertencesse ao escalo superior, nunca lhe seria permitido revelar fosse o que fosse a algum fora da irmandade. A idia de ele a ter chamado para o crculo mais ntimo  inconcebvel.
      J estive l, pensou Sophie, recordando o ritual na caverna. Perguntou a si mesma se teria chegado o momento de falar a Langdon do que tinha visto na casa da Normandia. Durante dez anos, a pura vergonha impedira-a de cont-lo fosse a quem fosse. Toda ela tremia s de pensar nisso. Ouviu ao longe o uivo de sirenes, e sentiu um manto de cansao descer-lhe sobre os ombros.
      - Ali est! - exclamou Langdon, excitado, ao ver o complexo do estdio Roland Garros surgir diante deles.
      Sophie dirigiu-se para l. Ao fim de vrias passagens, encontraram o cruzamento com a Rue Haxo e meteram por ela, seguindo na direo dos nmeros mais baixos. A rua tornou-se mais industrial, ladeada de empresas.
      Precisamos do nmero vinte e quatro, disse Langdon para si mesmo, percebendo que estava sondando o horizonte em busca dos campanrios de uma igreja. No seja ridculo. Uma igreja dos Templrios esquecida neste bairro?
      -  ali - disse Sophie, apontando.
      Os olhos de Langdon seguiram a direo do dedo dela.
      Que diabo!
      Era um edifcio moderno. Uma cidadela atarracada, com uma gigantesca cruz quadrada, de non, encimando a fachada. Por baixo da cruz, as palavras:

BANCO DEPOSITRIO DE ZURIQUE
      
      Langdon ficou contente por no ter partilhado com Sophie as suas esperanas a respeito de uma igreja dos Templrios. Um dos riscos do ofcio, para os simbologistas, era a tendncia para procurar significados ocultos em situaes onde eles no existiam.
      Naquele caso, esquecera completamente que a pacfica cruz de braos iguais fora adotada com o smbolo ideal para a bandeira da Sua. 
      Esse mistrio, pelo menos, estava resolvido.
      Sophie e Langdon tinham em seu poder a chave de um cofre de depsito de um banco suo.
      CAPTULO QUARENTA E UM
      
      
      No exterior de Castel Gandolfo, uma corrente de ar frio da montanha subiu pela face da falsia e varreu o topo da escarpa, provocando um arrepio ao bispo Aringarosa no momento em que descia do Fiat. Devia ter vestido mais qualquer coisa alm da sotaina, disse ele para si mesmo enquanto dominava o reflexo de tiritar. A ltima coisa de que precisava naquela noite era parecer fraco ou receoso.
      O castelo estava mergulhado na escurido, exceto as janelas do ltimo piso, que brilhavam ominosamente. A biblioteca, pensou Aringarosa. Esto acordados e  espera.
      Baixou a cabea para enfrentar o vento e avanou, sem olhar sequer para as cpulas do observatrio.
      O padre que o esperava  porta parecia ensonado. Era o mesmo que o acolhera cinco meses antes, embora naquela noite o fizesse com muito menos hospitalidade.
      - Estvamos preocupados consigo, Eminncia - disse o padre, consultando o relgio e parecendo mais perturbado do que preocupado.
      - As minhas desculpas. As linhas areas so muito pouco fiveis, nos dias que correm.
      O padre murmurou qualquer coisa inaudvel, e ento disse:
      - Esperam-no l em cima. vou acompanh-lo.
      A biblioteca era uma vasta sala quadrada, forrada de madeira escura do cho ao teto. Em todas as paredes, altas estantes atulhadas de livros. O cho era de mrmore com uma orla de basalto negro, uma bela recordao de que aquele edifcio fora em tempos um palcio.
      - Bem-vindo, Eminncia - disse uma voz de homem do outro lado da sala.
      Aringarosa tentou ver quem tinha falado, mas as luzes estavam ridiculamente baixas, muito mais do que na ocasio da sua primeira visita, momento em que toda a sala refulgia. A noite do duro despertar. Naquela noite, os homens que o esperavam sentavam-se na sombra, como se de algum modo se envergonhassem do que ia acontecer.
      Aringarosa entrou com passos lentos, quase majestosos. Via as silhuetas dos trs homens sentados  comprida mesa, no extremo oposto da sala. A do meio era imediatamente reconhecvel: o obeso secretarius vaticana, supervisor de todos os assuntos legais no interior da Cidade do Vaticano. Os outros dois eram importantes cardeais italianos.
      Aringarosa atravessou a biblioteca em direo a eles.
      - As minhas humildes desculpas pela hora. Somos de zonas horrias diferentes.
      Devem estar cansados.
      - De modo nenhum - respondeu o secretarius, com as mos cruzadas sobre a enorme barriga. - Estamos gratos por ter vindo de to longe. O mnimo que podamos fazer era estar acordados  sua espera. Podemos oferecer-lhe um caf, ou qualquer outro refresco?
      - Prefiro que no finjamos que isto  uma visita social. Tenho outro avio para apanhar. Vamos ao assunto?
      - Claro - concordou o secretarius. - Agiu mais rapidamente do que espervamos.
      - Sim?
      - Ainda tem um ms.
      - Deram-me nota das suas preocupaes h cinco meses. Porque havia de esperar?
      - Sem dvida. Estamos muito felizes com a sua diligncia. Os olhos de Aringarosa percorreram todo o comprimento da mesa at uma grande maleta preta.
      -  aquilo que pedi?
      - . - O secretarius parecia pouco  vontade. - Embora tenha de admitir que o seu pedido nos preocupou um pouco. Parece bastante...
      - Perigoso - concluiu um dos cardeais. - Tem certeza de que no podemos transferi-lo para um lugar qualquer? A soma  exorbitante.
      A liberdade  cara.
      - No tenho preocupaes quanto  minha prpria segurana. Deus est comigo.
      Os trs homens fizeram um ar de descarada dvida.
      - Os fundos esto exatamente como os pedi?
      O secretarius assentiu.
      - Ttulos ao portador de alto valor sacveis sobre o Banco do Vaticano. Negociveis como dinheiro em qualquer parte do mundo.
      Aringarosa caminhou at ao extremo da mesa e abriu a maleta. Continha dois grossos maos de ttulos, todos eles marcados com o selo do Vaticano e a palavra PORTADORE, o que os tornava convertveis por quem quer que os detivesse.
      O secretarius parecia tenso.
      - Devo dizer, Eminncia, que todos ns nos sentiramos menos apreensivos se esses fundos fossem em dinheiro.
      Nunca conseguiria transportar tanto dinheiro, pensou Aringarosa, fechando a mala.
      - Os ttulos so negociveis como dinheiro. O senhor mesmo o disse.
      Os cardeais trocaram um olhar embaraado e, finalmente, um deles disse:
      - Sim, mas esses ttulos podem ser diretamente associados ao Banco do Vaticano.
      Aringarosa sorriu para dentro. Fora precisamente por isso que o Professor lhe sugerira que obtivesse o dinheiro em ttulos do Banco do Vaticano. Era como uma aplice de seguro. Agora estamos todos metidos nisto.
      - Trata-se de uma transao perfeitamente legal - argumentou. - A Opus Dei  uma prelatura pessoal da Cidade do Vaticano, e Sua Santidade pode distribuir dinheiro como melhor lhe parecer. No foi aqui violada qualquer lei.
      -  verdade, e no entanto... - O secretarius inclinou-se para a frente, e a cadeira rangeu sob o peso. - No temos qualquer conhecimento do que tenciona fazer com esses fundos, e se for de algum modo ilegal...
      - Considerando o que me pedem - replicou Aringarosa -, o que eu fizer com este dinheiro no  da sua conta.
      Seguiu-se um longo silncio. Eles sabem que eu tenho razo, pensou Aringarosa.
      - Muito bem, suponho que tm qualquer coisa para eu assinar? Sobressaltaram-se os trs, empurrando uma folha de papel na direo dele, como se estivessem desejosos de v-lo partir.
      Aringarosa olhou para o papel que tinha  sua frente. Ostentava o selo do Papa.
      -  igual  cpia que me enviaram?
      - Exatamente.
      Aringarosa ficou surpreendido por sentir to pouca emoo ao assinar o documento. Os trs homens presentes, pelo contrrio, como que suspiraram de alvio.
      - Obrigado, Eminncia - disse o secretarius. - Os seus servios  Igreja nunca sero esquecidos.
      Aringarosa pegou a maleta, sentindo a promessa de autoridade no seu peso. Os quatro homens olharam uns para os outros por um momento, como se houvesse mais alguma coisa a dizer, mas aparentemente no havia.
      - Eminncia? - chamou um dos cardeais quando Aringarosa chegou  porta.
      Aringarosa deteve-se, fazendo meia volta.
      - Sim?
      - Para onde vai agora?
      Aringarosa sentiu que a pergunta era mais espiritual do que geogrfica, mas no tinha a mnima inteno de discutir moral quela hora.
      - Para Paris - disse, e saiu.
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA E DOIS
      
      
      O Banco Depositrio de Zurique era um Geldshrankbank que funcionava vinte e quatro horas por dia, oferecendo aos seus clientes toda a gama de servios bancrios annimos na mais pura tradio das contas numeradas suas. Com escritrios em Zurique, Kuala Lumpur, Nova Iorque e Paris, o banco expandira recentemente os seus servios  rea da guarda e transferncia de valores por meios informticos e ao apoio computadorizado.
      A nata da operao era, de longe, a mais antiga e simples das suas vrias ofertas - os anonyme Lager -, ou seja, os cofres annimos. Os clientes que desejassem guardar fosse o que fosse, desde certificados de aes a quadros valiosos, podiam depositar os seus bens anonimamente, atravs de uma srie de vus de privacidade de altatecnologia, e levant-los a qualquer momento, tambm no mais absoluto anonimato.
      Quando Sophie parou o txi, Langdon estudou a discreta arquitetura do edifcio e sentiu que o Banco Depositrio de Zurique era uma firma com muito pouco sentido de humor. O que via  sua frente era um paraleleppedo sem janelas que parecia ter sido inteiramente moldado em ao, um enorme tijolo de metal um pouco recuado em relao  rua e com uma cruz de braos iguais com quatro metros e meio de altura coroando a fachada.
      A reputao de segredo em termos bancrios de que a Sua gozava acabara por tornar-se uma das exportaes mais lucrativas do pas. Instalaes como aquela eram motivo de controvrsia entre a comunidade artstica porque proporcionavam um esconderijo perfeito onde os ladres de arte podiam esconder o produto dos seus roubos, durante anos se necessrio, at as coisas acalmarem. uma vez que os depsitos estavam protegidos da investigao policial pelas leis do sigilo bancrio e ligados a contas numeradas e no a nomes, os ladres podiam dormir descansados sabendo que os bens roubados estavam em segurana e que nada os relacionava com eles.
      Sophie parou o txi diante do imponente porto que fechava o caminho de acesso ao banco: uma rampa de cimento que desaparecia no subsolo do edifcio. Uma cmara de vdeo, situada bem alto na parede, apontava diretamente para eles, e Langdon teve a sensao de que, ao contrrio das do Louvre, aquela era autntica.
      Sophie baixou a janela e observou a caixa eletrnica do lado do condutor. Um visor LCD dava indicaes em sete lnguas, a primeira das quais era o ingls.
      INSIRA A CHAVE
      Sophie tirou do bolso a chave cinzelada a laser e voltou a dar ateno  caixa. Por baixo do visor havia um buraco triangular.
      - Alguma coisa me diz que vai servir - observou Langdon.
      Sophie alinhou a haste triangular da chave e introduziu-a, fazendo-a deslizar at o fundo. Aparentemente, aquela chave no precisava ser virada. No mesmo instante, o porto comeou a abrir-se. Sophie tirou o p do freio e deixou o carro descer at um segundo porto e uma segunda caixa. Atrs deles, o primeiro porto fechou-se, encurralando-os como um barco em uma comporta. Langdon detestou a sensao de estar preso. Esperemos que este segundo porto tambm funcione.
      O visor da segunda caixa apresentou uma instruo j familiar:
      INSIRA A CHAVE
      Logo que Sophie inseriu a chave, o segundo porto abriu-se. Momentos depois, desciam a rampa em espiral a caminho das entranhas do edifcio.
      A garagem privada era pequena e escura, com espao para cerca de uma dzia de carros. Langdon viu, no extremo oposto, a entrada principal do banco. Uma passadeira vermelha, estendida sobre o cimento, conduzia os visitantes a uma grande porta que parecia feita de slido metal.
      Por falar em mensagens dbias, pensou Langdon. Bem-vindo e no pense em entrar. Sophie estacionou o txi no espao mais prximo da porta e desligou o motor.
      -  melhor deixar a arma aqui - disse.
      Com todo o prazer, pensou Langdon, enfiando a pistola debaixo do banco.
      Avanaram os dois pela passadeira vermelha em direo  placa de metal. A porta no tinha puxador, mas na parede ao lado, havia outro buraco triangular. Desta vez, no apareceram quaisquer instrues.
      - Deve ser para desencorajar os que tm dificuldade em aprender  comentou Langdon.
      Sophie riu, parecendo nervosa.
      - Bom, aqui vamos ns - disse, e inseriu a chave no orifcio. A porta abriu para dentro, com um leve zumbido. Trocando um olhar, Sophie e Langdon entraram. A porta fechou-se atrs dele, com um baque surdo.
      O Banco Depositrio de Zurique ostentava uma das mais imponentes decoraes que Langdon alguma vez vira. Enquanto a maior parte dos bancos se contentava com o habitual mrmore polido e o granito, aquele optara por metal e rebites de parede a parede.
      Quem ser o decorador deles?, perguntou Langdon a si mesmo. A Allied Steel?
      Sophie parecia igualmente intimidada enquanto percorria o vestbulo com o olhar.
      O metal cinzento estava por todo o lado: no cho, nas paredes, nos balces, nas portas: at as cadeiras pareciam ter sido feitas de ao moldado. Em todo o caso, o efeito era impressionante. E a mensagem clara: est entrando em um cofre.
      Um homem alto e corpulento, atrs do balco, olhou para eles quando entraram.
      Desligou o pequeno televisor que estivera vendo e acolheu-os com um agradvel sorriso.
      Apesar dos msculos enormes e da arma que usava ostensivamente  cinta, a sua voz soou com toda a delicada cortesia de um mandarete suo.
      - Bonsoir - disse. - Em que posso ajud-los.
      O acolhimento bilingue era o mais recente truque de hospitalidade do anfitrio europeu. No fazia qualquer assuno e deixava ao convidado plena liberdade de responder na lngua em que se sentisse mais  vontade.
      Sophie no respondeu em nenhuma das duas. Limitou-se a pr a chave em cima do balco,  frente do homem. O sujeito olhou para a chave e ps-se imediatamente mais direito.
      - Com certeza. O seu elevador  no fundo do corredor. Vou avisar algum de que esto a caminho.
      Sophie assentiu e recuperou a chave.
      - Que piso?
      - A chave d essa informao ao elevador.
      Ela sorriu.
      - Ah, sim.
      O guarda ficou vendo os dois recm-chegados avanarem at ao elevador, inserirem a chave, entrarem na cabina e desaparecerem. Mal a porta se fechou, pegou o telefone. No ia avisar ningum da chegada deles. Um dos funcionrios dos cofres fora j automaticamente alertado quando Sophie introduzira a chave na caixa eletrnica junto ao primeiro porto.
      Estava ligando para o gerente noturno. Enquanto ouvia o sinal de chamada, voltou a ligar o televisor e olhou para ele. A notcia que tinha estado seguindo chegava ao fim. No tinha importncia. Lanou um novo olhar aos dois rostos que apareciam na tela.
      - Oui - disse o gerente.
      - Surgiu um pequeno problema.
      - Qual problema?
      - A Polcia francesa procura dois fugitivos.
      - E ento?
      - Acabam ambos de entrar no banco.
      O gerente praguejou entredentes.
      - Okay. vou contactar monsieur Vernet imediatamente.
      O guarda desligou e fez uma segunda chamada. Esta para a Interpol.
      Langdon ficou surpreso ao sentir que o elevador ia para baixo em vez de para cima. No fazia a mnima idia de quantos pisos tinham descido no subsolo do Banco Depositrio de Zurique quando a porta finalmente se abriu. Nem lhe interessava. Estava feliz por se encontrar fora do elevador.
      Em uma impressionante demonstrao de eficincia, estava algum  espera para receb-los. Era um senhor j de idade e aspecto agradvel, vestindo um impecvel terno de flanela que o fazia parecer estranhamente deslocado - um bancrio dos velhos tempos no mundo da alta-tecnologia.
      - Bonsoir - disse o homem. - Boa noite. Tenham a bondade de seguir-me, sil vous plait. - E, sem esperar por uma resposta, rodou sobre os calcanhares a afastou-se a passo rpido por um estreito corredor.
      Langdon e Sophie percorreram atrs dele uma srie de corredores, passando diante de grandes salas cheias de computadores.
      - Voici - disse o homem, detendo-se diante de uma porta de ao e abrindo-a. - Aqui estamos.
      Langdon e Sophie entraram em outro mundo. A pequena diviso parecia a luxuosa sala de estar de um bom hotel. Os painis de metal e os rebites eram ali substitudos por tapetes orientais, mveis de carvalho escuro e cadeiras almofadadas. Sobre a grande mesa que ocupava o meio da sala havia dois copos e uma garrafa aberta de Perrier, cujas bolhinhas ainda borbulhavam. Ao lado, fumegava uma cafeteira de caf. Preciso, pensou Langdon,  com os Suos.
      O homem dirigiu-lhes um sorriso cheio de compreenso.
      - Deduzo que esta  a sua primeira visita?
      Sophie hesitou um instante, e acabou por assentir.
      - Compreendo. As chaves so com frequncia deixadas em herana e quem as usa pela primeira vez no tem invariavelmente muito certeza do protocolo. - Fez um gesto na direo da mesa e das bebidas. - Esta sala  sua enquanto desejarem us-la.
      - Diz que as chaves so por vezes herdadas? - perguntou Sophie.
      - Sem dvida. A sua chave  como as contas numeradas dos bancos suos, que chegam a ser transmitidas de gerao em gerao. No caso das nossas contas douradas, o prazo mnimo de aluguel de um cofre  de cinquenta anos. Pago adiantado.
      Por isso  natural que assistamos a muita rotao familiar.
      Langdon estava olhando embasbacado para ele.
      - Disse cinquenta anos?
      - No mnimo. , evidentemente, possvel estabelecer prazos muito mais dilatados, mas, no havendo instrues em contrrio, se a conta no registrrar qualquer movimento durante cinquenta anos o contedo do respectivo cofre  automaticamente destrudo.
      Desejam que explique o processo de acesso ao seu cofre?
      - Sim, por favor - anuiu Sophie.
      O homem abarcou o salo com um amplo gesto do brao.
      - Esta  a sua sala privada. Depois que eu sair, podero demorar todo o tempo de que necessitarem para rever ou alterar o contedo do seu cofre, que chega... por aqui. - Levou-os at  extremidade mais distante, onde um largo tapete rolante entrava na sala descrevendo uma graciosa curva, vagamente semelhante ao carrossel da bagagem em um aeroporto. - Inserem a sua chave aqui nesta ranhura... - Indicou uma grande caixa eletrnica situada em frente do tapete e que apresentava o j familiar orifcio triangular. - Depois do computador ter confirmado as marcas da chave, introduzem o seu nmero de conta, o cofre  retirado por um rob do cofre central, por baixo de ns, e trazido at aqui. Quando terminarem, voltam a colocar o cofre no tapete rolante, inserem a chave e o processo  invertido. Uma vez que  tudo automatizado, a privacidade est garantida, mesmo relativamente ao pessoal do banco. Se precisarem de alguma coisa, basta apertar o boto de chamada ali na mesa.
      Sophie preparava-se para perguntar qualquer coisa quando um telefone tocou. O homem pareceu confuso e embaraado.
      - Desculpem-me, por favor. - Dirigiu-se ao telefone, pousado em cima da mesa ao lado do caf e da Perrier.
      - Oui? - respondeu.
      Franziu o sobrolho enquanto ouvia o que lhe diziam do outro lado.
      - Oui... oui... daccord. - Desligou e dirigiu-lhes um sorriso contrafeito. - Lamento, tenho de deix-los agora. Fiquem  vontade. - Avanou rapidamente para a porta.
      - Desculpe - chamou Sophie. - Poderia esclarecer uma coisa antes de ir? Falou em introduzir um nmero de conta.
      O homem deteve-se junto da porta, parecendo plido.
      - Mas com certeza. Como acontece na maior parte dos bancos suos, os nossos cofres de depsito esto associados a um nmero, no a um nome. O cliente tem uma chave e um nmero pessoal de conta que s ele conhece. A chave  apenas metade da identificao. O nmero de conta  a outra metade. Caso contrrio, se perdessem a chave, qualquer pessoa poderia us-la.
      Sophie hesitou.
      - E se o meu benfeitor no me tivesse dado qualquer nmero de conta?
      O homem sentiu o corao bater com mais fora. Nesse caso, obviamente nada teriam que fazer aqui! Dirigiu-lhes um calmo sorriso.
      - Vou pedir a algum que os ajude. Estar aqui dentro de momentos.
      Ao sair, rodou uma pesada fechadura, trancando-os l dentro.
      No outro extremo da cidade, Collet estava na Gare Saint-Lazare quando o celular tocou. Era Fache.
      - A Interpol recebeu uma informao - disse. - Esquea o trem. Langdon e Neveu acabam de entrar na filial parisiense do Banco Depositrio de Zurique. Siga imediatamente para l com os seus homens.
      - Alguma pista a respeito do que o conservador Saunire estava tentando dizer  agente Neveu e a Robert Langdon?
      O tom de Fache foi gelado.
      - Se os prender, tenente Collet, eu perguntarei pessoalmente.
      Collet percebeu a deixa.
      - Rue Haxo, nmero vinte e quatro.  para j, capito.
      Desligou o celular e chamou os seus homens pelo rdio.
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA E TRS
      
      
      Andr Vernet, presidente da filial francesa do Banco Depositrio de Zurique, vivia em um luxuoso apartamento em cima do prprio banco. Mal-grado o conforto dos aposentos, sempre sonhara ser dono de um apartamento  beira-rio na Ile Saint-Louis, onde poderia ombrear com os verdadeiros cognoscenti, e no ali, onde apenas encontrava os podres de ricos.
      Quando me aposentar, dizia Vernet para si mesmo, vou encher a minha adega de bordus raros, decorar a minha sala com um Fragonard e talvez um Boucher, e passar os meus dias procurando moblias antigas e livros raros no Quartier Latin.
      Naquela noite, Vernet fora acordado havia apenas seis minutos e meio. Mesmo assim, enquanto percorria apressadamente os corredores subterrneos do banco, era como se o seu alfaiate e o seu cabeleireiro particulares tivessem passado horas a poli-lo para lhe dar aquele brilho. Impecavelmente vestido com um terno de seda, vaporizou a boca com um spray refrescante e ajeitou a gravata enquanto andava. Habituado a ser acordado a qualquer hora para atender clientes internacionais vindos das mais diversas zonas horrias, modelara os seus hbitos de sono pelos dos guerreiros massais, a tribo africana famosa pela sua capacidade de passar, em uma questo de segundos, do sono mais profundo para um estado de total prontido para o combate.
      Prontido para o combate, pensou, receando que a comparao pudesse vir a revelar-se naquela noite incaracteristicamente adequada. A chegada de um cliente de chave de ouro exigia sempre uma ateno especial, mas a chegada de um cliente de chave de ouro que era procurado pela Polcia Judiciria significava uma situao extremamente delicada. O banco j tinha conflitos suficientes com as foras da ordem por causa do direito dos seus clientes ao sigilo mesmo sem provas de que alguns deles eram criminosos.
      Cinco minutos, disse Vernet a si mesmo. Quero essa gente fora do meu banco antes que a Polcia chegue.
      Se agisse rapidamente, o desastre iminente poderia ainda ser evitado. Vernet poderia dizer  Polcia que os fugitivos tinham de fato entrado no banco, mas por no serem clientes e no terem um nmero de conta, os tinha mandado embora. Bem desejava que o maldito guarda no tivesse ligado para a Interpol. A discrio no fazia aparentemente parte do vocabulrio de um segurana pago a 15 Euros por hora.
      Detendo-se diante da porta, inspirou fundo e descontraiu os msculos. Ento, forando um sorriso radioso, abriu a porta e entrou na sala como uma brisa primaveril.
      - Boa noite - disse, ao avistar os seus clientes. - Chamo-me Andr Vernet. Em que posso ser ... - O resto da frase ficou entalada Em algum lugar por baixo da ma-de-ado.
      A mulher que tinha  sua frente era a visitante mais inesperada que alguma vez recebera.
      - Desculpe, no nos conhecemos? - perguntou Sophie. No reconhecia o banqueiro, mas, por um instante, fora como se tivesse visto um fantasma.
      - No... - tartamudeou o presidente do banco. - No... creio. Os nossos servios so annimos. - Deixou escapar o ar dos pulmes e forou um calmo sorriso. - O meu assistente me disse que tm uma chave de ouro mas no um nmero de conta? Posso perguntar como entraram na posse dessa chave.
      - Meu av me deixou a chave - respondeu Sophie, observando atentamente o homem, cuja atrapalhao era cada vez mais evidente.
      - Palavra? O seu av lhe deu a chave mas esqueceu-se de dar-lhe o nmero da conta?
      - Julgo que no teve tempo - disse Sophie. - Foi assassinado esta noite.
      Estas palavras fizeram o banqueiro recuar um passo, cambaleante.
      - Jacques Saunire est morto? - perguntou, com os olhos enchendo-se de horror.
      - Mas... como?
      Foi a vez de Sophie estremecer, aturdida pelo choque.
      - Conhecia o meu av?
      Andr Vernet parecia to aturdido como ela. Endireitou-se, apoiando-se  beira da grande mesa.
      - Eu e Jacques ramos velhos amigos. Quando foi que isso aconteceu?
      - Por volta das onze da noite, dentro do Louvre.
      Vernet dirigiu-se a um fundo sof de couro e deixou-se cair nele.
      - Tenho de fazer aos dois uma pergunta extremamente importante. - Olhou para
      Langdon e depois de novo para Sophie. - Algum dos dois teve alguma coisa a ver com essa morte?
      - No! - respondeu Sophie. - Absolutamente no!
      O rosto de Vernet ficou sombrio. Fez uma pausa, para pensar.
      - A Interpol difundiu as suas fotografias. Foi assim que os reconheci. So procurados por assassinato.
      Sophie deixou descair os ombros. Fache j contatou a Interpol? O capito estava, aparentemente, mais motivado do que ela esperara. Explicou rapidamente a Vernet quem era Langdon e o que acontecera dentro do Louvre naquela noite.
      Vernet parecia espantado.
      - E o seu av, antes de morrer, deixou-lhe uma mensagem dizendo que procurasse o senhor Langdon?
      - Sim. E esta chave. - Sophie pousou a chave de ouro na mesa de caf diante de Vernet, com o selo do Priorado voltado para baixo.
      Vernet olhou para a chave, mas no fez meno de toc-la.
      - Deixou-lhe apenas esta chave? Nada mais? Nenhum pedao de papel?
      Sophie sabia que estivera cheia de pressa dentro do Louvre, mas estava certa de que no havia mais nada escondido atrs da Madonna dos Rochedos.
      - No. S a chave.
      Vernet deixou escapar um suspiro de impotncia.
      - Todas as chaves esto eletronicamente associadas a um nmero de conta com dez dgitos que funciona como password. Sem o nmero, essa chave  intil.
      Dez dgitos. Sophie calculou relutantemente as probabilidades criptogrficas. Dez bilhes de escolhas possveis. Mesmo que pudesse usar os mais potentes computadores de processamento em rede da DCPJ, precisaria de semanas para decifrar o cdigo.
      - Certamente, monsieur, considerando as circunstncias, poder ajudar-nos.
      - Lamento. No h verdadeiramente nada que eu possa fazer. Os clientes escolhem o nmero de conta atravs de um terminal seguro, o que significa que esse nmero s  conhecido pelo titular e por um computador.  uma maneira de garantir o anonimato. E a segurana dos nossos empregados.
      Sophie compreendeu. As lojas de convenincia faziam a mesma coisa, os EMPREGADOS NO TM A CHAVE DO COFRE. O banco no queria obviamente correr o risco de algum roubar uma chave e ento tomar um empregado como refm para obter o nmero da conta correspondente.
      Sentou-se ao lado de Langdon, baixou os olhos para a chave e voltou a ergu-los para Vernet.
      - Faz alguma idia do que o meu av tinha guardado no seu banco?
      - Nenhuma.  essa a definio de um banco Geldschrank.
      - Monsieur Vernet - insistiu ela -, o nosso tempo esta noite  escasso. vou ser muito direta, se me permite. - Estendeu a mo para a chave de ouro e voltou-a, perscrutando os olhos do homem no momento em que revelava o selo do Priorado de Siao. - O smbolo que est nesta chave significa alguma coisa para o senhor?
      Vernet olhou para a flor-de-lis e no teve qualquer reao.
      - No, mas muitos dos nossos clientes mandam gravar logotipos de empresas ou iniciais nas suas chaves.
      Sophie suspirou, continuando a vigi-lo atentamente.
      - Este selo  o smbolo de uma sociedade secreta conhecida como Priorado de Sio.
      Mais uma vez, Vernet no mostrou qualquer reao.
      - No sei nada disso. Eu e o seu av ramos amigos, mas falvamos sobretudo de negcios. - O homem ajustou a gravata, parecendo agora um pouco nervoso.
      - Monsieur Vernet - voltou Sophie  carga, em tom firme. - O meu av telefonou-me esta noite e disse-me que eu corria um grave perigo. Disse que tinha uma coisa para me dar. Deu-me uma chave do seu banco. Agora est morto. Tudo o que possa dizer-nos ser uma grande ajuda.
      Vernet comeou a suar.
      - Tm de sair do edifcio. Receio que a Polcia no tarde a chegar. O nosso guarda sentiu que devia avisar a Interpol.
      Sophie receara isso mesmo. Fez uma ltima tentativa.
      - Meu av disse-me que tinha de contar-me a verdade a respeito da minha famlia.
      Isto significa alguma coisa para voc?
      - Mademoiselle, a sua famlia morreu em um acidente quando era ainda muito jovem. Lamento. Sei que o seu av a amava muito. Disse-me diversas vezes como o entristecia o fato de os dois terem deixado de se falar.
      Sophie ficou sem saber como responder.
      - O contedo desta conta tem alguma coisa a ver com o Sangreal? - perguntou Langdon, inesperadamente.
      Vernet lanou-lhe um olhar estranho.
      - No fao idia do que isso possa ser. - E, nesse instante, o celular tocou. Vernet arrancou-o do cinto. - Oui. - Escutou por um instante, com uma expresso de surpresa e crescente preocupao. - La police? Si rapidement! - Praguejou, deu algumas instrues em francs e disse que estaria no vestbulo dentro de um minuto.
      Desligando o telefone, voltou-se para Sophie.
      - A Polcia respondeu muito mais rapidamente do que  habitual. Esto chegando.
      Sophie no tinha a mnima inteno de sair dali de mos abanando.
      - Diga-lhes que j fomos embora. Se quiserem revistar o banco, exija um mandato de busca. Isso vai atras-los.
      - Oua - disse Vernet -, Jacques Saunire era meu amigo, e o meu banco no precisa deste tipo de publicidade. Por essas duas razes, no tenciono permitir que sejam detidos aqui dentro. Dem-me um minuto, e verei o que posso fazer para ajud-los a sair sem serem vistos. No posso envolver-me mais do que isso. - Ps-se de p e dirigiu-se rapidamente  porta. - Fiquem aqui. Vou tratar disto e volto j.
      - Mas, e o cofre de depsito? - protestou Sophie. - No podemos ir embora.
      - No posso fazer nada. - Vernet abriu a porta. - Lamento muito  acrescentou, antes de sair.
      Sophie ficou olhando para a porta por um instante, perguntando a si mesma se o nmero da conta no estaria enterrado no monte de cartas e embrulhos que o av lhe mandara ao longo dos anos e que ela nunca chegara a abrir.
      Subitamente, Langdon ps-se de p, e Sophie viu-lhe nos olhos um inesperado brilho de contentamento.
      - Robert? Est sorrindo.
      - O seu av era um gnio.
      - Desculpe?
      - Dez dgitos?
      Sophie no fazia idia de que ele estava falando.
      - O nmero da conta - explicou Langdon, com o familiar sorriso torcido estampado
      no rosto. - Tenho certeza de que ele o deixou, Afinal.
      - Onde?
      Langdon tirou do bolso a fotografia do local do crime e abriu-a em cima da mesa de caf. Bastou a Sophie ler a primeira linha para saber que ele tinha razo.
      13-3-2-21-1-1-8-5
      O, Draconian devil!
      Oh, lame saint!
      P.S. Find Robert Langdon
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA E QUATRO
      
      
      - Dez dgitos - disse Sophie, com todos os seus sentidos de criptloga vibrando enquanto olhava para o papel.
      13-3-2-21-1-1-8-5
      O grand-pre escreveu o nmero da conta no cho do Louvre!
      Quando vira pela primeira vez a sequncia Fibonacci alterada escrita no soalho, Sophie assumira que o seu nico objetivo era encorajar a DCPJ a chamar os criptlogos e envolv-la no assunto. Mais tarde, descobrira que os nmeros eram tambm uma pista para decifrar outras linhas: uma sequncia fora de ordem... um anagrama numrico.
      Agora, absolutamente estupefata, via que os nmeros tinham um significado ainda mais importante. Eram, quase com certeza, a chave final para abrir o misterioso cofre do av.
      - O meu av era um mestre dos duplos-sentidos - disse, voltando-se para Langdon. - Adorava tudo o que tivesse mltiplas camadas de significado. Cdigos dentro de cdigos.
      Langdon j estava a caminho da caixa eletrnica junto do tapete rolante. Sophie pegou a foto do computador e seguiu-o. A caixa tinha um teclado numrico semelhante ao dos terminais ATM. O visor mostrava o logotipo cruciforme do banco. Ao lado do teclado, havia um orifcio triangular. Sem perder mais tempo, Sophie inseriu a chave no orifcio.
      O visor mudou instantaneamente.
      CONTA NMERO
      O cursor piscava,  espera.
      Dez dgitos.
      Sophie leu os nmeros, e Langdon teclou-os.
      CONTA NMERO
      1332211185
      Quando acabou de teclar o ltimo algarismo, o teclado voltou a mudar. Apareceu uma mensagem em vrias lnguas. Mais uma vez, o ingls era a primeira.
      ATENO
      Antes de apertar Enter, verifique, por favor, se o nmero de conta est correto.
      Para sua prpria segurana, se o computador no reconhecer o nmero de conta, o sistema se desligar automaticamente.
      - Fonction terminer - disse Sophie, de testa franzida. - Parece que s temos direito a uma tentativa. - As caixas automticas permitem aos utilizadores trs tentativas de introduo do PIN antes de engolirem o carto. Aquela no era, muito claramente, uma caixa automtica comum.
      - O nmero est certo - disse Langdon, comparando cuidadosamente o que tinha teclado com o que estava no papel. Apontou para a tecla ENTER. - Aperte.
      Sophie estendeu o dedo para o teclado, mas hesitou. Acabava de ter um estranho palpite.
      - Depressa - incitou-a Langdon. - Vernet no demora.
      - No - disse ela, retirando a mo. - No  este o nmero certo.
      - Claro que ! Dez dgitos. Que outra coisa podia ser?
      -  muito aleatrio.
      - Muito aleatrio? - Langdon no podia estar mais em desacordo. Todos os bancos aconselhavam os respectivos clientes a escolher PIN aleatrios, para que ningum pudesse adivinh-los.
      Com certeza que, ali, os clientes seriam aconselhados a escolher nmeros de conta aleatrios.
      Sophie apagou tudo o que tinham teclado e olhou para Langdon, com uma expresso de certeza no rosto.
      - O fato de este nmero de conta supostamente aleatrio poder ser rearranjado de modo a formar a sequncia de Fibonacci  muita coincidncia.
      Langdon percebeu que ela tinha razo. Horas antes, Sophie redispusera aquele nmero de conta para formar a sequncia Fibonacci. Quais eram as probabilidades de uma coisa dessas acontecer? Sophie aproximou-se do teclado, introduzindo um nmero diferente, como se o soubesse de cor.
      - Alm disso, considerando a paixo do meu av por simbolismos e cdigos, seria de esperar que escolhesse um nmero de conta que significasse qualquer coisa para ele, qualquer coisa que pudesse recordar com facilidade. - Acabou de teclar o nmero e sorriu maliciosamente. - Qualquer coisa que parecesse aleatrio... mas no fosse.
      Langdon olhou para o visor.
      CONTA NMERO
      1123581321
      Demorou um instante, mas quando percebeu, soube que ela tinha razo.
      A sequncia Fibonacci.
      1-1-2-3-5-8-13-21
      Quando fundida em um nico nmero de dez algarismos, a sequncia Fibonacci tornava-se praticamente irreconhecvel. Fcil de recordar, e no entanto aparentemente aleatrio. Um brilhante cdigo de dez dgitos que Saunire nunca esqueceria. Alm disso, explicava perfeitamente por que razo os nmeros rabiscados no cho do Louvre podiam ser rearranjados de modo a formar a famosa progresso.
      Sophie estendeu o dedo e apertou a tecla ENTER.
      Nada aconteceu.
      Pelo menos, nada que eles pudessem detectar.
      Nesse instante, no cavernoso cofre-forte subterrneo do banco, uma garra mecnica pareceu despertar para a vida. Deslizando sobre um sistema de transporte de duplo carril preso ao teto, comeou a procurar as coordenadas adequadas. L em baixo, no cho de cimento, centenas de caixas de plstico idnticas estavam alinhadas em uma enorme grelha... como filas de pequenos caixes numa cripta.
      Parando com um zumbido sobre o ponto exato do cho, a garra desceu e um olho eletrnico verificou o cdigo de barras impresso na caixa. Ento, com preciso mecnica, a garra prendeu a pesada pega e ergueu a caixa na vertical. Novas engrenagens entraram em funcionamento, e a garra carregou a caixa para o outro extremo do cofre forte, detendo-se sobre um tapete rolante imvel.
      Muito suavemente, o brao mecnico pousou a caixa e subiu. Mal o brao se afastou, o tapete ganhou vida...
      Sophie e Langdon suspiraram de alvio ao verem o tapete rolante comear a mover-se. Ali de p, sentiam-se como dois viajantes cansados  espera de uma misteriosa mala cujo contedo desconheciam.
      O tapete rolante entrava na sala pelo lado direito, atravs de uma estreita fresta por baixo de uma porta retrtil. A porta de metal deslizou para cima e uma grande caixa de plstico emergiu das sombras. Era preta, moldada em plstico extremamente duro, e muito maior do que Sophie imaginara. Fazia lembrar uma dessas caixas que as companhias areas usam para transportar animais de estimao, mas sem orifcios de ventilao.
      Deteve-se exatamente em frente deles.
      Langdon e Sophie ficaram olhando. em silncio, para o misterioso contentor.
      Como tudo o mais naquele banco, a caixa era um produto da indstria - fechos de metal, um cdigo de barras colado na tampa, uma ala moldada. Sophie achou que parecia uma gigantesca caixa de ferramentas.
      Sem perder tempo, soltou as duas linguetas que tinha  sua frente. Olhou para Langdon. Juntos, levantaram a pesada tampa e deixaram-na cair para trs.
      Avanando um passo, espreitaram para o interior da caixa.
      Ao primeiro olhar, Sophie pensou que estava vazia. Ento, viu qualquer coisa. No fundo da caixa. Um objeto solitrio.
      A caixa de madeira polida tinha o tamanho aproximado de uma caixa de sapatos e dobradias muito ornamentadas. A madeira, de um prpura rico e profundo, era lustrosa e de gro grosso. Roseira, percebeu Sophie. A preferida do av. Na tampa via-se, finamente embutida, a imagem de uma rosa. Sophie e Langdon trocaram olhares intrigados. Sophie inclinou-se para a frente e pegou a caixa, levantando-a.
      Meu Deus,  pesada!
      Com muito cuidado, foi pous-la em cima de uma mesa. Langdon estava a seu lado, ambos com os olhos presos  pequena arca do tesouro que o av dela aparentemente os mandara resgatar.
      Langdon estava olhando. fascinado, para a rosa embutida  mo na tampa da caixa: uma rosa com cinco ptalas. Tinha visto aquele tipo de rosa muitas vezes.
      - A rosa de cinco ptalas - murmurou. - O smbolo do Priorado para o Santo Graal.
      Sophie voltou-se e olhou para ele. Langdon adivinhou-lhe os pensamentos, porque eram tambm os seus. As dimenses da caixa, o peso aparente do seu contedo e o smbolo do Priorado para o Graal gravado na tampa, tudo parecia apontar para uma concluso incrvel. A taa de Cristo est dentro desta caixa.
      Langdon voltou a dizer a si mesmo que era impossvel.
      - Tem o tamanho perfeito - murmurou Sophie - para conter... um clice. No pode ser um clice.
      Sophie puxou a caixa por cima do tampo da mesa, preparando-se para abri-la.
      Quando a moveu, algo de inesperado aconteceu. A caixa emitiu um estranho som gorgolejante.
      Langdon examinou-a com mais ateno. H um lquido ali dentro?
      Sophie parecia igualmente confusa.
      - Ouviu...?
      Langdon assentiu, completamente perdido.
      - Lquido.
      Estendendo as mos, Sophie soltou a lingueta da fechadura e abriu a tampa.
      O objeto que estava l dentro no se parecia com qualquer outro que Langdon tivesse alguma vez visto. Uma coisa, no entanto, se tornou de imediato evidente para ambos. Aquilo no era, definitivamente, a Taa de Cristo.
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA E CINCO
      
      
      - A polcia bloqueou a rua - anunciou Andr Vernet, entrando na sala. - Vai ser difcil faz-los sair. - Enquanto fechava a porta, viu a pesada caixa de plstico em cima do tapete rolante e deteve-se bruscamente. Meu Deus! Acessaram  conta do Saunire?
      Sophie e Langdon estavam junto da mesa, debruados sobre o que parecia ser uma caixa de jias de madeira. Sophie baixou imediatamente a tampa e ergueu os olhos.
      - Afinal, sempre tnhamos o nmero da conta - disse.
      Vernet estava sem palavras. Aquilo mudava tudo. Desviou respeitosamente os olhos da caixa e tentou delinear a prxima jogada. Tenho de tir-los do banco. Mas com a Polcia j bloqueando as sadas, s via uma maneira de faz-lo.
      - Mademoiselle Neveu, se eu conseguir faz-la sair do banco em segurana, vai levar esse objeto consigo ou devolv-lo ao cofre-forte antes de partir?
      Sophie olhou para Langdon, e depois de novo para Vernet.
      - Precisamos lev-lo conosco.
      Vernet assentiu.
      - Muito bem. Ento, seja esse objeto o que for, sugiro que o embrulhe no seu casaco enquanto percorremos os corredores. Prefiro que ningum mais o veja.
      Enquanto Langdon despia o casaco, Vernet dirigiu-se ao tapete rolante. Fechou a caixa agora vazia e teclou uma srie de instrues simples. O tapete comeou a moverse, levando o contentor de plstico de regresso s entranhas do cofre-forte. Em seguida, retirou a chave de ouro do orifcio da caixa eletrnica e devolveu-a a Sophie.
      - Por aqui, por favor. Depressa.
      Quando chegaram  plataforma de carga dos fundos, Vernet viu o reflexo das luzes rotativas da Polcia nas paredes da garagem subterrnea. Franziu o sobrolho. Muito provavelmente, estavam bloqueando a rampa. Vou mesmo tentar fazer esta coisa? Tinha comeado a suar.
      Indicou-lhes um dos pequenos carros blindados do banco. Transport sr era mais um dos servios que o Banco Depositrio de Zurique oferecia.
      - Entrem para a cabina de carga - disse, abrindo as macias portas traseiras e apontando-lhes o brilhante compartimento metlico.
      Enquanto Sophie e Langdon subiam para o furgo, Vernet dirigiu-se ao gabinete do encarregado da plataforma, entrou, tirou umas chaves do chaveiro e encontrou um uniforme e um bon de motorista. Tirando o casaco e a gravata, comeou a vestir o casaco do uniforme. Pensando melhor, colocou um coldre axilar por baixo do casaco. No caminho de sada, tirou uma pistola de motorista do armeiro, introduziu-lhe um carregador e enfiou-a no coldre, abotoando o uniforme por cima. Regressando ao furgo, puxou o bon de motorista para os olhos e foi olhar Sophie e Langdon, que estavam de p dentro da caixa de ao vazia.
      - Vo querer isto aceso. - Estendeu o brao e acionou o interruptor situado na parede metlica e que acendia a pequena lmpada do teto. - E  melhor sentarem-se.
      Nem o menor som quando passarmos o porto.
      Sophie e Langdon instalaram-se no cho. Langdon acomodou no colo o tesouro embrulhado no casaco de tweed. Fechando as pesadas portas, Vernet trancou-os l dentro. Segundos depois, sentou-se ao volante e ligou o motor.
      Enquanto o furgo blindado avanava lentamente em direo ao topo de rampa, Vernet j sentia o suor acumular-se debaixo do bon de motorista. Viu que havia  sua frente muito mais luzes da Polcia do que imaginara.  aproximao do furgo, o porto interior abriu-se, rodando para dentro. Vernet passou para o outro lado e esperou que o porto atrs dele voltasse a fechar-se antes de avanar novamente e acionar o sensor seguinte. O segundo porto abriu-se, convidando-o a sair.
      O nico problema  o carro da Polcia que est bloqueando a rampa.
      Vernet limpou a testa com a mo e avanou.
      Um agente da Polcia, um sujeito alto e magro, saiu para o meio da rampa e mandou-o parar a poucos metros da barreira. Havia quatro carros-patrulha estacionados  sua frente.
      Vernet parou. Puxando o bon de condutor ainda mais para os olhos, adotou o ar mais tosco que o seu nvel cultural lhe permitia. Sem sair de trs do volante, abriu a porta e olhou de cima para o agente, cujo rosto parecia tenso e cansado.
      - Qu est-ce qui se passe? - perguntou Vernet, em tom belicoso.
      - Je suis Jrme Collet - respondeu o agente. - Lieutenant Police Judiciaire. - Apontou para a caixa de carga do furgo. Quest-ce quil y a l dedans?
      - Raios me partam se sei - respondeu Vernet, em rude francs. - Sou s o motorista.
      Collet no pareceu impressionado.
      - Estamos procurando dois criminosos.
      Vernet soltou uma gargalhada.
      - Ento vieram ao lugar certo. Alguns dos filhos da me para quem trabalho tm tanto dinheiro que devem ser criminosos.
      Collet mostrou-lhe uma fotografia de passaporte de Robert Langdon.
      - Este homem esteve no banco esta noite?
      Vernet encolheu os ombros.
      - Sei l. Trabalho aqui embaixo. No nos deixam chegar nem perto dos clientes. O melhor  perguntar na portaria.
      - O banco exige um mandato de busca para nos deixar entrar.
      - Administradores - rosnou Vernet. - No me faam falar.
      - Abra o furgo, por favor - pediu Collet, apontando para a caixa de carga.
      Vernet olhou para o agente e forou uma gargalhada de troa.
      - Abrir o furgo? Acha que tenho as chaves? Acha que eles confiam em ns?
      Devia ver a merda de ordenado que me pagam!
      O agente inclinou a cabea para um lado, obviamente ctico.
      - Est me dizendo que no tem as chaves do seu prprio furgo.
      Vernet abanou a cabea.
      - Da caixa de carga, no. S da ignio. Estes furges so selados por controladores na plataforma de embarque. Ento ficamos  espera enquanto algum leva a chave da caixa de carga at ao local de destino. Quando recebemos um telefonema dizendo que as chaves chegaram ao destinatrio, me do autorizao para sair. Nem um segundo antes. Nunca sei que raio de carga transporto.
      - Quando  que este furgo foi selado?
      - Deve ter sido h horas. Esta noite tenho de ir at St. Thurial. As chaves da caixa j esto l.
      O agente no disse palavra, olhando fixamente para Vernet, como que tentando ler os pensamentos. Uma gota de suor preparava-se para deslizar pelo nariz de Vernet.
      - Importa-se? - disse ele, limpando o nariz com a manga do casaco e apontando para o carro da Polcia que bloqueava a passagem. Tenho um horrio a cumprir.
      - Todos os condutores usam Rolex? - perguntou Collet, apontando para o pulso de Vernet.
      Vernet olhou para baixo e viu a pulseira do seu ridiculamente caro relgio espreitando por baixo da manga do casaco. Merde.
      - O qu, esta merda? Comprei-o por vinte euros de um vendedor ambulante chins em St. Germain ds Prs. Vendo-lho por quarenta.
      O agente hesitou um instante e finalmente afastou-se para o lado.
      - No, obrigado. Faa boa viagem.
      Vernet s voltou a respirar quando o furgo j tinha se afastado uns bons cinquenta metros. E agora tinha outro problema. A sua carga. Para onde  que os levo?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA E SEIS
      
      
      Silas estava deitado de bruos na esteira de lona do seu quarto, deixando que o ar secasse o sangue das feridas que tinha nas costas. A segunda sesso daquela noite com a Disciplina deixara-o tonto e fraco. Ainda no tirara o cilcio, e sentia o sangue escorrer pela parte interior da coxa. Mas a verdade era que no encontrava justificao para desapertar a correia.
      Deixei ficar mal a Igreja. Muito pior ainda, deixei ficar mal o bispo. 
      Aquela noite era para ser a da salvao de Aringarosa. Cinco meses antes, o bispo regressara de uma reunio no Observatrio do Vaticano, onde soubera qualquer coisa que o deixara profundamente mudado. Deprimido durante semanas, Aringarosa partilhara finalmente as novidades com Silas.
      - Mas isso  impossvel! - exclamara Silas. - No posso aceit-lo!
      -  verdade - afirmara Aringarosa. - Impensvel, mas verdadeiro. Dentro de apenas seis meses.
      As palavras do bispo tinham deixado Silas aterrorizado. Rezara pedindo a redeno, e mesmo naqueles dias negros, a sua f em Deus e no Caminho nunca vacilara. Fora s um ms mais tarde que as nuvens tinham miraculosamente se rasgado e a luz da possibilidade brilhara atravs delas.
      Interveno divina, dissera Aringarosa.
      Pela primeira vez, o bispo parecera cheio de esperana.
      - Silas - murmurara -, Deus concedeu-nos uma oportunidade de proteger O Caminho. A nossa batalha, como todas as batalhas vai exigir sacrifcios. Est disposto a ser um soldado de Deus?
      Silas cara de joelhos diante do bispo Aringarosa, o homem que lhe tinha dado uma nova vida, e dissera:
      - Sou um cordeiro de Deus. Guie-me para onde o seu corao mandar.
      Quando Aringarosa descreveu a oportunidade que se deparara, Silas soube que s podia ser a mo de Deus. Destino miraculoso! Aringarosa ps Silas em contato com o homem que propusera o plano - um homem que a si mesmo chamava o Professor.
      Embora Silas e o Professor nunca tivessem se encontrado cara-a-cara, sempre que falava com ele ao telefone Silas ficava assombrado pela profundidade da f daquele homem e pela amplitude do seu poder. O Professor parecia saber tudo, ter olhos e ouvidos em todo lado. Como conseguia as suas informaes era algo que Silas ignorava, mas Aringarosa depositava uma enorme confiana nele e pedira a Silas que fizesse o mesmo. Faa o que o Professor te ordenar, e venceremos dissera a Silas. Venceremos. 
      Enquanto agora olhava para as tbuas do cho, Silas temeu que a vitria lhes tivesse escapado. O Professor fora enganado. A Chave de Abbada era um ardiloso beco sem sada. E com o engano, toda a esperana se desvanecera.
      Silas desejou poder ligar para o bispo Aringarosa e avis-lo, mas o Professor eliminara todas as linhas de contato direto entre eles naquela noite. Para nossa segurana. Finalmente, vencendo o medo, Silas ps-se laboriosamente de p e apanhou o hbito, que estava cado no cho. Procurou no bolso o celular. Com a cabea baixa de vergonha, marcou o nmero.
      - Professor - murmurou -, est tudo perdido. - E ento contou como fora enganado.
      - Voc perde a f muito depressa - respondeu o Professor.
      - Acabo de receber notcias. Inesperadas e magnficas. O segredo vive. Jacques Saunire transmitiu informaes antes de morrer. Eu o contactarei em breve. O nosso trabalho desta noite ainda no terminou.
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA E SETE
      
      
      Viajar dentro da mal iluminada caixa de carga do furgo blindado era como ser transportado no interior de uma cela de solitria. Langdon esforou-se por controlar a to conhecida ansiedade que o avassalava em espaos fechados. Vernet disse que nos levaria para uma distncia segura da cidade. Para onde? A que distncia?
      Tinha as pernas rgidas de estar sentado tanto tempo no cho metlico do furgo, e mudou de posio, fazendo uma careta quando o sangue recomeou a circular-lhe na parte inferior do corpo. Continuava a aconchegar nos braos o bizarro tesouro que tinham tirado do banco.
      - Acho que estamos na auto-estrada - sussurrou Sophie.
      Langdon tinha a mesma sensao. O furgo, depois de uma enervante parada no topo da rampa, seguira em frente, serpenteando  direita e  esquerda durante um ou dois minutos, e agora corria ao que lhes parecia ser a sua velocidade mxima. Por baixo deles, os pneus  prova de bala zuniam sobre um pavimento liso. Concentrando-se na caixa de roseira que transportava nos braos, Langdon pousou a sua preciosa carga no cho, desembrulhou o casaco e tirou de l a caixa, que puxou para si. Sophie mudou de posio de modo a ficarem sentados lado-a-lado. Langdon teve subitamente a sensao de que eram duas crianas abrindo uma prenda de Natal.
      Em contraste com os tons quentes da caixa de roseira, a rosa embutida era de uma madeira clara, provavelmente freixo, que parecia brilhar  fraca luz da lmpada. A Rosa. Exrcitos inteiros de religies tinham sido construdos  volta daquele smbolo. E de sociedade secretas tambm. Os Rosa-Cruz. Os Cavaleiros da Cruz Rosada.
      - V - incitou-o Sophie. - Abra-a.
      Langdon inspirou fundo. Enquanto estendia a mo para a tampa, lanou mais um olhar de admirao ao fino trabalho de marchetaria e ento, levantando a lingueta do fecho, abriu a tampa, expondo o objeto que estava l dentro.
      Langdon compusera diversas fantasias a respeito do que poderiam encontrar naquela caixa, mas era agora evidente que se enganara totalmente. Aninhado no interior almofadado e forrado de seda escarlate da caixa estava um objeto que no conseguia sequer comear a compreender.
      Um cilindro feito de mrmore branco e polido, com as dimenses aproximadas de uma lata de bolas de tnis. Mais complicado do que uma simples coluna de pedra, no entanto, aquele cilindro parecia ter sido montado com muitas peas. Cinco discos de mrmore do tamanho de donuts tinham sido postos uns em cima dos outros e ligados entre si por uma delicada armao metlica. Fazia lembrar uma espcie de caleidoscpio tubular com vrios anis. As duas extremidades eram fechadas por remates de mrmore, o que tornava impossvel ver o interior. Tendo ouvido o chocalhar de um lquido, Langdon assumia que o cilindro era oco.
      Por mais intrigante que fosse a construo do cilindro, foram, porm, as gravaes
       volta da circunferncia do tubo que atraram mais fortemente a ateno de Langdon. 
      Em cada um dos discos estava gravada a mesma e improvvel srie de letras: o alfabeto inteiro. Fez lembrar a Langdon um brinquedo da sua infncia, uma vara em que encaixavam vrios aros com letras que se rodavam para formar diferentes palavras.
      - Espantoso, no  - murmurou Sophie.
      Langdon ergueu os olhos.
      - No sei. O que ?
      Havia agora um brilho nos olhos de Sophie.
      - O meu av costumava constru-los como passatempo. Foram inventados por Leonardo da Vinci.
      Mesmo  escassa luz, Sophie percebeu a surpresa de Langdon.
      - Por da Vinci? - murmurou, voltando olhando para o cilindro.
      - Sim. Chama-se criptex. Segundo o meu av, os planos para a sua construo faziam parte de um dos dirios secretos de da Vinci.
      - Para que serve?
      Considerando os acontecimentos da noite, Sophie sabia que a resposta podia ter algumas implicaes interessantes.
      -  um cofre - disse. - Para guardar informaes secretas.
      Langdon abriu ainda mais os olhos.
      Sophie explicou que criar modelos das invenes de da Vinci fora um dos passatempos preferidos do av. Um talentoso artfice que passava horas na sua oficina de carpintaria e serralharia, Jacques Saunire gostava de imitar os mestres: Faberg, vrios especialistas do cloisonn, e o menos artstico mas muitssimo mais prtico Leonardo da Vinci.
      At um olhar de passagem pelos clebres dirios permitia perceber por que razo da Vinci era to famoso pela sua falta de persistncia como pelo seu gnio. Desenhara planos para centenas de invenes que nunca construra. Um dos passatempos preferidos de Jacques Saunire fora trazer  vida algumas das mais obscuras criaes do mestre: relgios, bombas de gua, criptex, e at o modelo totalmente articulado de um cavaleiro medieval francs que ocupava agora um lugar de honra em cima da sua mesa. 
      Concebido por da Vinci em 1495, como uma espcie de consequncia dos seus estudos anteriores de anatomia e cinesiologia, o mecanismo interior do cavaleiro rob possua articulaes e tendes perfeitos que lhe permitiam sentar-se, agitar os braos e mover a cabea, graas a um pescoo flexvel, ao mesmo tempo que abria e fechava uma mandbula anatomicamente correta. Aquele cavaleiro de armadura, Sophie sempre o pensara, era o objeto mais belo que o av alguma vez construra... isto , at ter visto o criptex na sua caixa de roseira.
      - Fez um para mim quando eu era pequena - disse Sophie. - Mas nunca tinha visto nenhum to grande e ornamentado.
      Langdon no desviava os olhos da caixa.
      - Nunca ouvi falar de criptex.
      Sophie no estava surpresa. A maior parte das invenes no realizadas de Leonardo nunca tinham sido estudadas ou sequer batizadas. A palavra criptex fora, muito provavelmente, uma Criao do av, um nome adequado quele instrumento que usava a cincia da criptologia para proteger a informao escrita no rolo, ou cdex, que continha.
      Sophie sabia que da Vinci fora um dos pioneiros da criptologia, embora esse mrito raramente lhe fosse reconhecido. Na universidade, os professores, quando falavam dos mtodos de cifragem de dados, referiam regra geral criptologistas modernos como Zimmerman e Schneier, mas esqueciam-se de mencionar que fora Leonardo quem inventara as primeiras formas rudimentares de cifragem, sculos antes. Fora, claro, o av que lhe falara disso.
      Enquanto o furgo blindado corria pela estrada, Sophie explicou a Langdon que o criptex fora a soluo de Leonardo para o dilema de enviar mensagens seguras a longas distncias. Em uma poca sem telefones nem e-mail, quem quisesse enviar informaes privadas a algum que vivesse longe no tinha alternativa seno escrev-las e confiar a carta a um mensageiro que a levasse. Infelizmente, se o mensageiro suspeitasse de que a carta continha informaes valiosas, podia ganhar muito mais dinheiro vendendo-a aos inimigos do remetente do que entregando-a ao destinatrio.
      Ao longo dos sculos, foram muitas as grandes figuras que inventaram solues criptolgicas para o problema da proteo de dados: Jlio Csar imaginou um esquema de escrita em cdigo conhecido como Caixa de Csar; Maria, rainha da Esccia, criou uma cifra de substituio graas  qual enviava mensagens secretas da priso, e o brilhante cientista rabe Abu Yusuf Ismail al-Kindi protegia os seus segredos com uma engenhosa cifra de substituio polialfabtica.
      Da Vinci, ao contrrio, preferiu uma soluo mecnica  matemtica e  criptologia. O criptex. Um contentor porttil capaz de proteger cartas, mapas, diagramas, fosse o que fosse. Uma vez a informao guardada dentro do criptex, s a pessoa que conhecesse a chave adequada podia acess-la.
      -  preciso uma senha - explicou Sophie, apontando para os aros marcados com letras. - O criptex funciona mais ou menos como o cadeado de segredo de uma bicicleta.
      Quando alinhamos os anis na posio correta, o cadeado se abre. O criptex tem cinco anis. Quando os rodamos na sequncia certa, as tranquetas no interior alinham-se e o cilindro se desmancha.
      - E l dentro?
      - Quando o cilindro se desmancha, a pessoa tem acesso a um compartimento central suficientemente grande para conter um rolo de papel onde est escrita a informao que se pretende manter secreta.
      Langdon fez um ar incrdulo.
      - E est me dizendo que o seu av fazia estas coisas para voc quando era pequena.
      - Fez-me vrios menores. Pelo menos em duas ocasies, nos meus aniversrios, me deu um criptex e uma charada. A resposta  charada era a senha para o criptex, e quando eu a descobria, podia abri-lo e encontrar o meu carto de parabns.
      - Muito trabalho por um carto.
      - No, os cartes continham sempre outra charada, ou uma pista. O meu av adorava inventar complicadssimas caas ao tesouro por toda a casa, com uma sequncia de pistas que acabavam por conduzir-me ao meu verdadeiro presente. Cada caa ao tesouro era um teste de carter e de mrito, obrigando-me a merecer as minhas recompensas. E nunca eram fceis.
      Langdon voltou a olhar para o cilindro de mrmore, ainda com uma expresso ctica.
      - Mas porque no simplesmente for-lo? Ou quebr-lo? Os fechos de metal parecem fraquinhos, e o mrmore  uma rocha pouco resistente.
      Sophie sorriu.
      - Porque da Vinci era muito mais esperto do que isso. Concebeu o criptex de tal maneira que se algum tentar for-lo, seja de que maneira for, a informao  destruda.
      Veja. - Meteu as mos na caixa e retirou cuidadosamente o cilindro. - Toda a informao era primeiro escrita em um rolo de papiro.
      - Papiro ou velino?
      Sophie abanou a cabea.
      - Papiro. Eu sei que o velino era mais duradouro e mais comum naquele tempo, mas tinha de ser papiro, e quanto mais fino melhor.
      - Okay.
      - Antes de ser inserido no compartimento do criptex, o papiro era embrulhado  volta de uma fina ampola de vidro. - Virou o criptex, e o lquido l dentro gorgolejou. - Uma ampola cheia de lquido.
      - Que lquido?
      Sophie sorriu.
      - Vinagre.
      Langdon hesitou um instante e ento assentiu com a cabea.
      - Brilhante.
      Vinagre e papiro, pensou Sophie. Se algum tentasse forar o criptex, a ampola partia-se e o vinagre dissolvia rapidamente o papiro. Quando o violador chegasse  mensagem secreta, esta teria se transformado em uma pasta sem qualquer significado.
      - Como v - continuou Sophie -, a nica maneira de obter a informao  conhecer a senha, com cinco letras. E com cinco anis, cada um deles com vinte e seis letras, temos vinte e seis elevado  quinta potncia. - Fez rapidamente as contas. - Cerca de doze milhes de possibilidades.
      - Se assim diz - respondeu Langdon, com ar de quem tinha cerca de doze milhes de perguntas correndo pela cabea. - Que informao acha que est a dentro?
      - Seja o que for, parece evidente que o meu av queria a todo o custo mant-la secreta. - Fez uma pausa, fechando a tampa da caixa e olhando para a rosa de cinco ptalas que tinha embutida. Havia qualquer coisa incomodando-a no fundo da cabea. -
      Disse h pouco que a rosa  um smbolo do Graal?
      - Exatamente. No simbolismo do Priorado, a rosa e o Graal so sinnimos.
      Sophie franziu a testa.
      - Isso  estranho, porque o meu av sempre me disse que a rosa significava segredo. Costumava pendurar uma rosa na porta do escritrio, l em casa, quando estava fazendo algum telefonema confidencial e no queria que eu o interrompesse. E encorajava-me a fazer o mesmo.
      - Querida, - dizia-lhe o av, - em vez de nos fecharmos  chave, podemos pendurar uma rosa, La fleur ds secrets, na nossa porta quando precisarmos de privacidade. Desse modo, aprenderemos a respeitar-nos mutuamente e a confiar um no outro. Pendurar uma rosa  um antigo costume romano.
      - Sub-rosa - disse Langdon. - Os Romanos penduravam uma rosa sobre o local onde se reuniam para indicar que essa reunio era confidencial. Os presentes sabiam que o que quer que fosse dito sob a rosa tinha de permanecer secreto.
      Explicou rapidamente que no fora apenas pelas suas conotaes sigilosas que o Priorado escolhera a rosa como smbolo do Graal. A Rosa rugosa, uma das espcies mais antigas da flor, tinha cinco ptalas e uma simetria pentagonal, tal como a estrela guia de Vnus, o que lhe dava uma forte ligao iconogrfica com afeminidade. Alm disso, a rosa tinha tambm uma estreita relao com o conceito de verdadeira direo e a navegao. A Rosa-dos-Ventos ajudava os marinheiros a navegar, tal como as Linhas da Rosa, as linhas de longitude marcadas nos mapas. Por este motivo, a rosa era um smbolo que falava do Graal em vrios nveis - segredo, feminilidade e orientao  o clice feminino e a estrela guia que conduzia  verdade secreta.
      Quando Langdon acabou de falar, a sua expresso pareceu tornar-se repentinamente tensa.
      - Robert? Sente-se bem?
      Os olhos dele estavam cravados na caixa de roseira.
      - Sub... rosa - engasgou-se, com um espanto assustado espalhando-se pelo rosto. - No pode ser.
      - O qu?
      Langdon ergueu lentamente o olhar.
      - Sob o signo da Rosa - murmurou. - Este criptex... Julgo saber o que .
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA E OITO
      
      
      Langdon mal podia acreditar na sua prpria suposio, e no entanto, considerando quem lhes dera aquele cilindro de pedra, o modo como lhes fora dado e, agora, a rosa embutida na caixa, no era possvel chegar a qualquer outra concluso.
      Tenho nas mos a Chave de Abbada do Priorado.
      A lenda era especfica. A Chave de Abbada  uma pedra codificada que se encontra sob o signo da Rosa.
      - Robert? - Sophie estava a observ-lo. - Que est acontecendo?
      Langdon precisava de um instante para ordenar os pensamentos.
      - O seu av lhe falou alguma vez de uma coisa chamada La Clef de Vote?
      - A chave do cofre? - traduziu ela.
      - No, isso  a traduo literal. Clef de Vote  um termo arquitetnico comum. Vote no se refere ao cofre de um banco mas ao arco de uma abbada. Como um teto abobadado.
      - Mas os tetos abobadados no tm chaves.
      - Por acaso, tm. Todos os arcos de pedra precisam de uma pedra central, em forma de cunha, que, colocada no topo, trava as peas e suporta todo o peso. Esta pedra , em sentido arquitetural, a chave da abbada. Em ingls, chamamos-lhe keystone. - Langdon vigiou-lhe os olhos,  espera de qualquer centelha de reconhecimento. 
      Sophie encolheu os ombros, ainda olhando para o criptex.
      - Mas isto no  obviamente uma Chave de Abbada.
      Langdon no sabia por onde comear. A Chave de Abbada como tcnica para construir arcos de pedra fora um dos segredos mais bem guardados da primitiva irmandade Manica. O Grau do Arco Real. Arquitetura. Chaves de Abbada. Estava tudo interligado. O conhecimento secreto de como usar uma pedra em cunha para construir um arco abobadado era parte do segredo que fizera dos Maons artfices to ricos, e era um segredo que eles guardavam ciosamente. As chaves de abbada sempre tinham tido uma tradio de segredo. E no entanto, o cilindro de mrmore dentro da caixa
      de roseira era obviamente algo muito diferente. A Chave de Abbada do Priorado, se de fato era isso que tinham nas mos, no era nem de longe o que Langdon imaginara.
      - A Chave de Abbada do Priorado no  a minha especialidade  admitiu Langdon. - O meu interesse no Santo Graal  essencialmente simbolgico, de modo que tenho tendncia para ignorar a infinidade de lendas a respeito de como encontr-lo.
      Sophie arqueou as sobrancelhas.
      - Encontrar o Santo Graal?
      Langdon concordou, pouco  vontade, pronunciando muito cuidadosamente as palavras seguintes:
      - Sophie, segundo a tradio do Priorado, a Chave de Abbada  um mapa gravado... um mapa que revela o lugar onde est escondido o Santo Graal.
      O rosto de Sophie ficou por instantes sem expresso.
      - E acha que  isso que aqui temos?
      Langdon no sabia o que dizer. Aquilo parecia incrvel at aos seus prprios ouvidos, e, no entanto, a Chave de Abbada era a nica concluso lgica a que conseguia chegar. Uma pedra codificada, escondida sob o signo da Rosa.
      A idia de que o criptex fora concebido por Leonardo da Vinci - ex-Gro-Mestre do Priorado de Sio - brilhava como mais um incontornvel indicador de que o cilindro era de fato a Chave de Abbada. O projeto de um ex-Gro-Mestre... trazido  vida centenas de anos depois por outro membro da irmandade. A ligao era muito palpvel para ser  posta de lado.
      Ao longo da ltima dcada, os historiadores tinham procurado a Chave de Abbada em igrejas francesas. Os demandadores do Graal, conhecedores da histria de crticos duplos-sentidos do Priorado, tinham concludo que a Clef de Vote era literalmente uma Chave de Abbada - uma cunha arquitetnica -, uma pedra gravada em cdigo inserida na abbada de uma igreja. Sob o signo da Rosa. Em arquitetura, o que no faltava era rosas. Janelas de roscea. Relevos de roseta. E, claro, uma abundncia de potentilhas - as flores decorativas de cinco ptalas com frequncia encontradas no topo dos arcos, diretamente por cima da chave. O esconderijo parecia diabolicamente simples. O mapa para chegar ao Santo Graal estava incorporado no alto de um arco ou de uma abbada em uma igreja esquecida qualquer, zombando dos fiis que passavam por baixo dela sem nada ver.
      - O criptex no pode ser a Chave de Abbada - argumentou Sophie. - No  suficientemente antigo. Tenho certeza de que foi o meu av que o fez. No pode fazer parte de uma qualquer antiga lenda do Graal.
      - A verdade - respondeu Langdon, sentindo um formigamento de excitao percorrer-lhe o corpo -,  que se supe que a Chave de Abbada ter sido criada pelo Priorado nas ltimas duas dcadas.
      Os olhos de Sophie refletiam incredulidade.
      - Mas se o criptex revela o esconderijo do Santo Graal, porque teria meu av dado a mim? No fao a mnima idia de como abri-lo nem do que fazer com ele. Nem sequer sei o que  o Santo Graal!
      Langdon compreendeu, para sua surpresa, que ela tinha razo. Ainda no tivera oportunidade de explicar a Sophie a verdadeira natureza do Santo Graal. No momento, estavam concentrados na Chave de Abbada.
      Se  o que isto realmente ...
      Tendo como fundo sonoro o zunido dos pneus  prova de bala, Langdon exps rapidamente a Sophie tudo o que ouvira a respeito da Chave de Abbada. Aquele que supostamente fora, durante sculos, o maior segredo do Priorado - a localizao do Santo Graal  no tinha sido escrito. Por questes de segurana, era oralmente transmitido a cada novo senescal no decurso de uma cerimnia secreta. No entanto, em algum momento durante o ltimo sculo, tinham comeado a transpirar rumores de que o Priorado alterara a sua poltica. Talvez por causa das novas possibilidades de escuta eletrnica, o Priorado jurara nunca mais voltar a dizer a localizao do esconderijo sagrado.
      - Mas ento, como transmitiam o segredo? - perguntou Sophie.
      -  a que entra a Chave de Abbada - explicou Langdon. - Quando um dos quatro membros do escalo superior morre, os trs restantes escolhem nos escales inferiores um novo candidato para ascender a senescal. Em vez de dizerem ao novo senescal onde est escondido o Santo Graal, submetem-no a um teste atravs do qual ele pode provar ser digno do cargo.
      Sophie pareceu perturbada, e Langdon recordou subitamente o que ela lhe contara a respeito de o av organizar caas ao tesouro - preuves de mrite. O criptex era, na realidade, um conceito semelhante. Por outro lado, provas como aquela eram extremamente comuns nas sociedades secretas. As mais conhecidas eram as da Maonaria, em que os membros subiam na hierarquia provando ser capazes de guardar um segredo e submetendo-se a rituais e provas de mrito ao longo de muitos anos. As tarefas tornavam-se progressivamente mais difceis at culminarem na admisso do candidato como maon do trigsimo segundo grau.
      - A Chave de Abbada  ento uma preuve de mrite - disse Sophie. - Se o novo senescal consegue abri-la, prova ser digno da informao que ela contm.
      Langdon assentiu.
      - Estava esquecendo que j tem experincia com esse tipo de coisa.
      - E no s com o meu av. Em criptologia,  aquilo a que se chama uma linguagem auto-autorizadora. Ou seja, se a pessoa  suficientemente esperta para l-la, pode saber o que est sendo dito.
      Langdon teve um instante de hesitao.
      - Sophie, compreende que se esta  de fato a Chave de Abbada, o fato de seu av lhe ter acesso implica que era excepcionalmente poderoso dentro do Priorado. Teria de ser um dos quatro membros do escalo superior.
      Sophie suspirou.
      - Era poderoso em uma sociedade secreta. Disso tenho eu certeza. S posso assumir que era o Priorado.
      Langdon olhou para ela com mais ateno.
      - Sabia que ele pertencia a uma sociedade secreta?
      - H dez anos, vi coisas que no devia ver. No voltamos a nos falar desde ento.
      - Fez uma pausa. - Meu av no era apenas um dos membros superiores do grupo... Era o membro superior.
      Langdon no podia acreditar no que ela acabava de dizer.
      - Gro-Mestre? Mas... como  que pode saber uma coisa dessas:
      - Prefiro no falar disso. - Sophie desviou o olhar, com uma expresso to determinada como dolorida.
      Langdon manteve um silncio aturdido. Jacques Saunire? Gro-Mestre? Apesar das espantosas repercusses, se fosse verdade, tinha a estranha sensao de que fazia perfeitamente sentido. Afinal, os anteriores Gro-Mestres do Priorado tinham tambm sido distintas figuras pblicas com alma de artista. Tinham sido descobertas provas do fato alguns anos antes, na Bibliothque National de Paris, em documentos que ficaram conhecidos como Les Dossiers Secrets.
      No havia estudioso do Priorado nem manaco do Graal que no tivesse lido os Dossiers. Catalogados sob o Nmero 4 Iml 249, os Dossiers Secrets tinham sido autenticados por muitos especialistas e confirmado de forma incontroversa aquilo de que os historiadores suspeitavam havia muito tempo: os Gro-Mestres do Priorado incluam Leonardo da Vinci, Botticelli, Sir Isaac Newton, Victor Hugo e, mais recentemente, Jean Cocteau, o famoso artista parisiense.
      Porque no Jacques Saunire?
      A incredulidade de Langdon aumentou ao recordar que tivera um encontro marcado com Saunire para aquela noite. O Gro-Mestre do Priorado pediu uma reunio comigo. Porqu? Para conversar a respeito de arte? Pareceu-lhe, de sbito, muito improvvel. Afinal, se o instinto de Langdon estivesse certo, o Gro-Mestre do Priorado de Sio acabava de transferir a lendria Chave de Abbada da irmandade para a neta ao mesmo tempo que lhe ordenava que procurasse Robert Langdon.
      Inconcebvel!
      No conseguia, por muito que forasse a imaginao, conceber um conjunto de circunstncias que explicasse o comportamento de Saunire. Mesmo que se julgasse ameaado de morte, havia trs outros senescais que tambm conheciam o segredo e consequentemente garantiam a segurana do Priorado. Porque haveria Saunire de correr um risco to grande ao confiar a Chave de Abbada  neta, especialmente considerando que os dois no se davam? E porqu envolver a ele, Langdon, um completo desconhecido?
      Falta uma pea do puzzle, pensou.
      As respostas iam aparentemente ter de esperar. O som do motor diminuindo a marcha os fez erguer os olhos. Saibro debaixo dos pneus. Porque  que estava parando?, perguntou Langdon a si mesmo. Vernet dissera-lhes que os levaria para bem longe da cidade, onde estariam a salvo. O furgo diminuiu ainda mais e acabou por deter-se em um terreno inesperadamente acidentado. Sophie lanou a Langdon um olhar preocupado, baixando apressadamente a tampa da caixa do criptex e trancando o fecho.
      Langdon voltou a vestir o casaco.
      O motor continuava funcionando quando as portas traseiras do veculo se abriram.
      Langdon ficou surpreendido ao verificar que se encontravam em uma rea arborizada, bem afastados da estrada. Vernet surgiu  vista, com uma expresso tensa no rosto. Tinha uma pistola na mo direita.
      - Lamento muito - disse. - No tenho verdadeiramente por onde escolher.
      
      
      
      CAPTULO QUARENTA E NOVE
      
      
      Vernet parecia pouco  vontade com uma pistola na mo, mas havia nos olhos dele uma determinao que Langdon sentiu no ser sensato pr  prova.
      - Receio ter de insistir - disse Vernet, apontando-lhes a arma da traseira do furgo.
      - Colque a caixa no cho.
      Sophie apertou-a contra o peito.
      - Disse que o senhor e o meu av eram amigos.
      - Tenho o dever de proteger os bens do seu av - respondeu Vernet. - E  exatamente o que estou fazendo. Agora, coloque a caixa no cho.
      - O meu av a confiou a mim! - protestou Sophie.
      - Faa o que lhe digo - ordenou Vernet, erguendo a arma. Sophie colocou a caixa no cho.
      Langdon viu o cano da pistola rodar na direo dele.
      - Senhor Langdon - continuou Vernet -, faa o favor de traze-la. E tenha presente que o peo a si porque, no seu caso, no hesitarei em disparar.
      Langdon ficou olhando para o banqueiro, incrdulo.
      - Porque  que est fazendo isto?
      - Porque ser? - replicou Vernet, em ingls que a tenso tornava mais duro. - Para proteger os bens do meu cliente.
      - Ns  que somos agora o seu cliente - disse Sophie.
      O rosto de Vernet tornou-se frio como gelo, uma estranha transformao.
      - Mademoiselle Neveu, ignoro como conseguiu esta noite essa chave e o nmero da conta, mas me parece bvio que no foi pelos meios mais lcitos. E se soubesse no momento a extenso dos seus crimes, nunca os teria ajudado a sair do banco.
      - J lhe disse que no tivemos nada a ver com a morte do meu av!
      Vernet olhou para Langdon.
      - E no entanto, a Polcia afirma que  procurado no s pelo assassnio de Jacques Saunire, mas tambm pelos de trs outros homens.
      - O qu? - Langdon estava siderado. Trs outros assassinatos? A coincidncia do nmero foi um choque maior do que ser o principal suspeito. No, no podia ser simples fruto do acaso. Os trs senescais? Baixou os olhos para a caixa de nogueira. Se os senescais foram assassinados, Saunire no podia fazer outra coisa. Tinha de passar a Chave de Abbada a algum.
      - A Polcia que resolva o assunto quando eu os entregar continuou Vernet. - J comprometi demais o meu banco.
      Sophie fuzilou-o com o olhar.
      -  evidente que no pretende nos entregar. Se fosse assim, teria nos levado de volta ao banco. Em vez disso, nos trouxe at aqui e nos aponta uma arma.
      - O seu av me contratou por uma razo: manter os bens que me confiou a salvo de cobias e de indiscries. Seja o que for que est dentro dessa caixa, no tenho a mnima inteno de permitir que v fazer parte de uma lista de provas em qualquer investigao policial. Senhor Langdon, traga-me a caixa.
      Sophie abanou a cabea.
      - No.
      A arma disparou e uma bala cravou-se na parede metlica por cima deles. A detonao ecoou dentro do furgo, seguida pelo som do invlucro vazio caindo no cho.
      Merda! Langdon ficou petrificado.
      - Senhor Langdon, pegue a caixa - ordenou Vernet, num tom mais confiante.
      Langdon obedeceu.
      - Agora traga-a at aqui. - Vernet apontava-lhes a arma de fora do furgo, de p junto ao pra-choques traseiro, com o brao estendido para dentro da caixa de carga.
      Langdon avanou para as portas abertas.
      Tenho de fazer qualquer coisa, pensou. Estou me preparando para entregar a Chave de Abbada do Priorado! Ao caminhar para a porta, a sua posio a um nvel mais elevado tornou-se mais pronunciada, e Langdon perguntou a si mesmo se haveria algum modo de tirar partido do fato. A arma de Vernet, mesmo levantada, ficava  altura dos joelhos dele. Um pontap bem colocado, talvez? Infelizmente,  medida que Langdon se aproximava, Vernet pareceu adivinhar a perigosa dinmica que estava desenvolvendo-se e recuou vrios passos, colocando-se a dois metros de distncia. Bem fora do alcance de qualquer ataque.
      - Coloque a caixa no cho, junto  porta - ordenou Vernet.
      Sem outra alternativa, Langdon ajoelhou e pousou a caixa de roseira na beira da caixa de carga, diretamente em frente das portas abertas.
      - Agora ponha-se de p.
      Langdon comeava a endireitar-se quando viu o pequeno invlucro ejetado pela arma de Vernet cado no cho junto ao batente inferior das portas do furgo.
      - Ponha-se de p e afaste-se da caixa.
      Langdon demorou um pouco mais, examinando a soleira de metal. Endireitou-se.
      E, ao faz-lo, empurrou discretamente o pequeno invlucro por cima do batente e para o estreito rebordo onde as portas encaixavam hermeticamente. J de p, recuou um passo.
      - V l para trs e vire-se de costas. Langdon obedeceu.
      Vernet ouvia o martelar do seu prprio corao. Apontando a arma com a mo direita, estendeu a esquerda para a caixa de madeira. Descobriu que era muito pesada.
      Preciso das duas mos. Olhou para os seus dois cativos e calculou o risco. Estavam
      ambos a uns quatro metros e meio de distncia, no outro extremo da caixa de carga, de costas para ele. Tomou uma deciso. Rapidamente, pousou a arma no pra-choques, levantou a caixa com as duas mos, pousou-a no cho, voltou a pegar na arma e apontou-a para o fundo do furgo. Nenhum dos seus dois prisioneiros tinha se mexido.
      Perfeito. Agora, tudo o que lhe restava fazer era fechar e trancar as portas.
      Deixando a caixa no cho, agarrou as portas de metal e empurrou-as. Quando passaram por ele, levantou a mo direita para o nico ferrolho de metal que tinha de correr para tranc-las. As portas fecharam-se com um baque surdo. Vernet deitou rapidamente a mo  ala do ferrolho e puxou-a para a esquerda. O ferrolho deslizou alguns centmetros e parou, desalinhado com o encaixe. Que aconteceu? Vernet tornou a puxar, mas o ferrolho no se moveu. O mecanismo no estava adequadamente alinhado. As  portas no esto bem fechadas! Sentindo-se invadir por uma onda de pnico, empurrou-as para dentro com toda a sua fora, mas sem resultado. Tem qualquer coisa bloqueando-as!
      Ps-se de lado, preparando-se para for-las com o ombro, quando elas pareceram explodir para fora, atingindo-o no rosto e fazendo-o estatelar-se de costas no cho, com um uivo de dor. A arma vou para longe e Vernet levou as mos ao rosto, sentindo o sangue quente escorrer-lhe do nariz quebrado.
      Robert Langdon saltou para o cho Em algum lugar perto dele e Vernet tentou levantar-se, mas no conseguia ver. Voltou a cair de costas. Sophie Neveu gritava.
      Momentos mais tarde, Vernet sentiu uma nuvem de poeira e de fumaa de escapamento envolv-lo. Ouviu o ranger dos pneus no saibro e sentou-se a tempo de ver o largo e pesado furgo falhar uma curva. Houve um estalo quando o pra-choques dianteiro bateu em uma rvore. O motor rugiu, e a rvore vergou. Finalmente, foi o pra-choques que cedeu, partindo-se ao meio. O blindado saltou em frente, com metade do pra-choques arrastando pelo cho. Quando chegou  estrada pavimentada, uma chuva de fascas iluminou a noite, seguindo o furgo que se afastava a toda a velocidade.
      Vernet olhou para o lugar onde estivera estacionado. Mesmo a plida luz da Lua, viu que no havia ali nada. A caixa de madeira tinha desaparecido.
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA
      
      
      O Fiat preto afastou-se de Castel Gandolfo, comeando a descer a sinuosa estrada em direo ao vale l embaixo. No banco traseiro, o bispo Aringarosa sorriu, sentindo o peso dos ttulos ao portador na mala que segurava sobre os joelhos e perguntando a si mesmo quanto tempo faltaria para ele e o Professor poderem fazer a troca.
      Vinte milhes de euros.
      Aquele dinheiro ia permitir-lhe comprar um poder muito mais valioso do que isso.
      Enquanto o carro corria de regresso a Roma, Aringarosa deu por si mais uma vez a estranhar o fato do Professor ainda no o ter contactado. Tirou o celular do bolso da sotaina e verificou o sinal de rede. Muito fraco.
      - Aqui em cima a rede  muito intermitente - disse o condutor, observando-o pelo retrovisor. - Dentro de cinco minutos sairemos da montanha e o servio melhora.
      - Obrigado. - Aringarosa sentiu uma repentina vaga de inquietao. No h rede nas montanhas? Talvez o Professor tivesse estado tentando ligar para ele durante todo aquele tempo. Talvez qualquer coisa tivesse corrido horrivelmente mal.
      - Com gestos apressados, verificou o voice mail do telefone. Nada. Mas, claro, percebeu ento, nunca o Professor deixaria uma mensagem gravada; era um homem que tinha um cuidado enorme com as suas comunicaes. Ningum compreendia melhor do que o Professor os perigos de falar abertamente neste mundo moderno. A escuta eletrnica desempenhara um papel crucial no modo como reunira a espantosa soma de conhecimentos secretos de que era detentor.
       por isso mesmo que toma precaues extra.
      Infelizmente, os protocolos de segurana do Professor incluam a recusa de dar a Aringarosa qualquer nmero de contato. S eu terei a iniciativa dos contatos, dissera-lhe o Professor. Portanto, conserve o telefone ligado e  mo. Agora, sabendo que o seu telefone talvez no tivesse funcionado devidamente, Aringarosa temia o que o Professor poderia pensar se tivesse tentado ligar-lhe vrias vezes sem obter resposta.
      Vai pensar que alguma coisa correu mal.
      Ou que eu no consegui os ttulos.
      Uma fina camada de suor umedeceu-lhe a testa.
      Ou pior... que peguei o dinheiro e fugi!
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA E UM
      
      
      Mesmo a uns modestos sessenta quilmetros horrios, a metade do pra-choques que pendia da dianteira da carrinha blindada raspava pela deserta estrada suburbana com um barulho insuportvel, lanando uma chuva de fascas.
      Temos de sair da estrada, pensou Langdon.
      Quase no conseguia ver para onde iam. O nico farol ainda funcionava estava completamente de esguelha e iluminava agora, com um feixe enviesado, as rvores que ladeavam a estrada rural. Aparentemente, o blindado daquele furgo referia-se apenas  caixa de carga, e no ao habitculo.
      Sophie ocupava o banco do passageiro, olhando com um ar inexpressivo para a caixa de roseira que levava pousada nos joelhos.
      - Sente-se bem? - perguntou-lhe Langdon. Sophie parecia abalada.
      - Acreditou nele?
      - A respeito dos outros trs assassnios? Absolutamente. Responde a uma poro de perguntas... o desespero do seu av em passar a Chave de Abbada a algum, e tambm o empenho com que Fache me persegue.
      - No, me referia a Vernet querer proteger o banco.
      Langdon lanou-lhe um olhar.
      - O que quer dizer?
      - Ficar com a Chave de Abbada para ele.
      Langdon no tinha sequer considerado a hiptese.
      - Como ele poderia saber o que a caixa contm?
      - Estava no banco dele. Conhecia o meu av. Talvez soubesse coisas. Pode ter decidido que queria ficar com o Graal para ele.
      Langdon abanou a cabea. Vernet no lhe parecia desse tipo.
      - A experincia me diz que h apenas duas razes para as pessoas procurarem o Graal. Ou so ingnuas e acreditam que procuram h a Taa de Cristo muito perdida...
      - Ou?
      - Ou sabem a verdade e sentem-se ameaadas por ela. Muitos grupos, ao longo da Histria, tentaram destruir o Graal.
      O silncio entre eles aumentou o estrpito do pra-choques arrastando pela estrada. J tinham percorrido alguns quilmetros, e, ao olhar para a chuva de fascas que vinha da frente do veculo, Langdon perguntou a si mesmo se aquilo no seria perigoso. 
      De qialquer maneira, se cruzassem com outro carro, no deixariam de dar na vista.
      Tomou uma deciso.
      - Vou ver se consigo endireitar aquele pra-choques.
      Encostou  beira da estrada e parou o furgo.
      Silncio, por fim.
      Enquanto se dirigia  dianteira do veculo, sentia-se surpreendentemente alerta.
      Ver-se sob a mira de uma arma pela segunda vez naquela noite dera-lhe um novo flego.
      Inspirou um fundo hausto de fresco ar noturno e tentou organizar as idias. Alm da gravidade de ser um homem perseguido, comeava a sentir o esmagador peso da responsabilidade, da perspectiva de terem de fato nas mos um conjunto de indicaes cifradas que permitia desvendar um dos mais duradouros mistrios de todos os tempos.
      E como se este fardo no fosse suficientemente pesado, percebia agora que qualquer possibilidade de devolver a Chave de Abbada ao Priorado acabava de se evaporar. A notcia das trs outras mortes tinha implicaes terrveis. O Priorado foi infiltrado. Esto todos comprometidos. A irmandade encontrava-se obviamente sob vigilncia, ou ento havia uma toupeira nas suas fileiras. O que talvez explicasse por que razo Jacques Saunire resolvera passar a Chave de Abbada  neta e a Langdon... pessoas fora da confraria, pessoas que sabia com certeza no estarem comprometidas.
      No podemos devolver a Chave da Abbada  irmandade. Mesmo que fizesse alguma idia de como encontrar um membro do Priorado, havia uma muito boa chance de que quem se apresentasse para receb-la fosse o prprio inimigo. No momento, pelo menos, parecia que a Chave da Abbada ia ter de continuar nas mos dele e de Sophie, quer quisessem quer no.
      A dianteira do furgo estava em pior estado do que imaginara. O farol do lado esquerdo desaparecera e o do lado direito parecia um olho pendente da rbita.
      Endireitou-o, mas voltou a cair. A nica boa notcia era que o pra-choques fora quase completamente arrancado. Langdon deu-lhe um pontap teve a sensao de que talvez fosse capaz de acabar de parti-lo.
      Enquanto dava pontaps na retorcida pea de metal, recordou a sua primeira conversa com Sophie. O meu av me deixou uma mensagem telefnica, dissera-lhe ela.
      Disse que precisava me contar a verdade a respeito da minha famlia. Naquele momento, aquilo nada significara para ele, mas agora, sabendo que o Priorado de Sio estava envolvido, sentia que havia ali novas e assustadoras possibilidades a emergir.
      O pra-choques partiu-se subitamente, com um estalo. Langdon fez uma pausa, para recuperar o flego. Pelo menos, o furgo ia deixar de parecer uma pea de fogo-deartifcio.
      Agarrou o pra-choques e comeou a arrast-lo para o meio das rvores, perguntando a si mesmo o que fazer a seguir. No tinham idia de como abrir o criptex, ou por que razo Saunire o confiara  guarda deles. Infelizmente, a sobrevivncia de ambos naquela noite dependia de encontrarem respostas para aquelas perguntas.
      Precisamos de ajuda, decidiu Langdon. De um profissional.
      No mundo do Santo Graal e do Priorado de Sio, isto significava apenas um homem. O problema, claro, seria vender a idia a Sophie.
      Dentro do furgo, enquanto esperava que Langdon regressasse, Sophie sentia o peso da caixa de roseira nas pernas, e isso irritava-a. Porque foi que o meu av me deu esta coisa? No tinha a mnima idia do que fazer com ela.
      Pense, Sophie! Use a cabea. O grand-pre est tentando dizer-lhe qualquer coisa!
      Abriu a caixa e estudou os anis do criptex. Uma prova de mrito. Sentia ali a mo do av. A Chave de Abbada  um mapa que s os dignos podem seguir. Aquilo era av de uma ponta  outra.
      Tirou o criptex da caixa e passou os dedos pelos anis. Cinco letras. Experimentou rod-los, um a um. O mecanismo moveu-se suavemente. Acertou os discos de modo que as letras escolhidas ficassem alinhadas entre as duas setas metlicas situadas nas extremidades opostas do criptex. Os anis formavam agora uma palavra de cinco letras que Sophie sabia ser absurdamente bvia.
      G-R-A-A-L.
      Com muito cuidado, pegou nos extremos do cilindro e puxou. O criptex no se moveu. Ouviu o vinagre gorgolejar no interior e parou de puxar. Resolveu tentar outra vez.
      V-I-N-C-I.
      Nenhum movimento.
      V-O-U-T-E.
      Nada. O criptex permaneceu solidamente fechado. De testa franzida, Sophie voltou a guard-lo na caixa de roseira e fechou a tampa. Olhou l para fora, para Langdon, e sentiu-se grata por ele estar ali naquela noite.
      P.S. Encontre Langdon.
      A razo que o av tivera para o incluir era agora clara. Sophie no estava equipada para compreender as intenes do av, que, sabendo-o, nomeara Robert
      Langdon como seu guia. Um tutor para lhe supervisar a educao. Infelizmente para Langdon, acabara por ser muito mais do que um tutor, naquela noite. Tornara-se o alvo de Bezu Fache... e de uma qualquer fora invisvel decidida a apoderar-se do Santo Graal. Seja o l o Graal o que for.
      Sophie perguntou a si mesma se valeria a pena arriscar a vida para descobri-lo.
      Quando o furgo blindado voltou a arrancar, Langdon verificou, satisfeito, que era agora muito mais fcil de dirigir... e muito mais silencioso.
      - Sabe o caminho para Versalhes?
      - Porqu, est com vontade de fazer turismo?
      - No, tenho um plano. H um historiador de religio que conheo e que vive perto de Versalhes. No recordo exatamente onde, mas podemos procurar. Fui vrias vezes a casa dele. Chama-se Leigh Teabing.  um ex-historiador da British Royal Academy.
      - E vive em Paris?
      - A paixo da vida dele  o Graal. Quando comearam a aparecer rumores a respeito da Chave de Abbada do Priorado, h cerca de quinze anos, mudou-se para a Frana para poder visitar igrejas na esperana de descobri-la. Escreveu vrios livros sobre a Chave de Abbada e o Graal. Talvez possa ajudar-nos a descobrir como se abre isso e o que fazer com o que est l dentro.
      - Confia nele? - perguntou Sophie, receosa.
      - Confio em que sentido? Em que no nos roubar a informao?
      - E que no nos denunciar  Polcia.
      - No pretende lhe dizer que somos procurados pela Polcia. Espero que nos acolha em casa at termos conseguido resolver esta confuso.
      - Robert, j lhe ocorreu que todas as estaes de televiso de Frana esto provavelmente preparando-se para divulgar as nossas fotografias? Bezu Fache sempre soube usar os meios de informao em seu proveito. Vai fazer com que nos seja impossvel ir aonde quer que seja sem sermos reconhecidos.
      Formidvel, pensou Langdon. A minha estria na TV francesa vai ser em Os Mais Procurados de Paris. Pelo menos, Jonas Faukman ia ficar satisfeito; sempre que Langdon aparecia nos noticirios, as vendas dos seus livros davam um pulo.
      - Esse homem  suficientemente seu amigo? - insistiu Sophie.
      Langdon duvidava que Teabing fosse do gnero de ver televiso, especialmente quela hora da noite, mas mesmo assim a pergunta merecia ser considerada. O instinto dizia-lhe que podia confiar plenamente em Teabing. Um porto de abrigo ideal.
      Considerando as circunstncias, o ingls ia provavelmente fazer o possvel e o impossvel para ajud-los. No s lhe devia um favor, como era um investigador do Graal, e Sophie afirmava que o av fora o atual Gro-Mestre do Priorado de Sio. Quando Teabing soubesse disso, ia crescer-lhe gua na boca  idia de ajud-los a desvendar o mistrio.
      - O Teabing pode ser um aliado poderoso - respondeu. Dependendo de quanto estivermos dispostos a contar-lhe.
      - Fache vai provavelmente oferecer uma recompensa monetria.
      Langdon riu.
      - Acredite, dinheiro  a ltima coisa de que este sujeito precisa.
      Leigh Teabing era rico da maneira que os pequenos pases so ricos.
      Descendente do primeiro duque de Lancaster, ganhara o seu dinheiro  maneira antiga: herdando-o. A propriedade que tinha nos arredores de Paris era um palcio do sculo XVII, com dois lagos privados.
      Langdon conhecera-o vrios anos antes, atravs da BBC. Teabing abordara a cadeia televisiva com a proposta de um comentrio histrico em que contaria a explosiva histria do Santo Graal a um pblico de milhes de espectadores. Os produtores tinham adorado a escaldante premissa de Teabing, a pesquisa que levara a cabo e as suas credenciais, mas tinham tambm receado que um conceito to chocante e difcil de digerir manchasse a reputao de jornalismo de qualidade de que a estao gozava em todo o mundo. Por sugesto de Teabing, a BBC resolvera os seus problemas de credibilidade pedindo e registrrando a opinio de trs respeitados historiadores de diversas partes do mundo. Todos eles tinham corroborado com as suas prprias pesquisas a espantosa natureza do segredo do Santo Graal.
      Langdon fora um dos escolhidos.
      A BBC levara-o de avio at  propriedade de Teabing em Paris, para as filmagens. Sentara-se diante das cmaras, na opulenta sala de estar, e dissera o que tinha a dizer, admitindo o seu ceticismo inicial ao ouvir pela primeira vez a histria alternativa do Santo Graal e descrevendo em seguida como anos de pesquisas o tinham convencido de que ela era de fato verdadeira. Finalmente, contribura com uma parte dos resultados das suas prprias pesquisas: uma srie de ligaes simbolgicas que apoiavam de forma inquestionvel as aparentemente controversas afirmaes.
      Quando o programa fora para o ar na Gr-Bretanha, a despeito das personalidades envolvidas e das provas bem documentadas, a premissa ia de tal modo contra o gro do cristianismo popular que suscitara imediatamente um vendaval de hostilidade. Nunca chegara a ser transmitido nos Estados Unidos, mas as repercusses tinham ecoado atravs do Atlntico. Pouco depois, Langdon recebera um postal de um velho amigo, o bispo catlico de Filadlfia. O postal dizia apenas: Voc, Robert?
      - Robert, tem certeza de que podemos confiar nesse homem?
      - Absoluta. Somos colegas, ele no precisa de dinheiro e por acaso at sei que despreza as autoridades francesas. O governo francs cobra-lhe impostos exorbitantes por ele ter comprado um edifcio histrico. No vai ter vontade nenhuma de ajudar Fache.
      Sophie ficou olhando em frente, para a negra fita da estrada.
      - Se formos procur-lo, quanto  que tenciona lhe contar?
      Langdon fez um ar despreocupado.
      - Acredite, Leigh Teabing sabe mais a respeito do Priorado de Sio e do Santo
      Graal do que qualquer outra pessoa neste mundo.
      Sophie voltou-se para ele.
      - Mais do que o meu av?
      - Queria dizer mais do que qualquer pessoa fora da irmandade.
      - Como  que sabe que Teabing no  membro da irmandade?
      - Teabing tem passado a vida tentando divulgar a verdade a respeito do Santo
      Graal. O juramento do Priorado  manter essa verdade secreta.
      - Parece-me que h a um conflito de interesses.
      Langdon compreendeu a preocupao dela. Jacques Saunire dera o criptex diretamente  neta, e embora ela no soubesse o que continha nem o que era deveria fazer com ele, hesitava em envolver um completo desconhecido. Considerando a informao que podia estar ali em causa, tinha provavelmente razo.
      - No precisamos falar da Chave de Abbada ao Teabing logo de incio. Talvez at nunca. A casa dele nos proporcionar um lugar onde poderemos descansar e pensar, e pode ser que quando lhe falarmos a respeito do Graal, comece a fazer uma idia da razo por que o seu av lhe deu o criptex.
      - Nos deu o criptex - emendou ela.
      Langdon sentiu um humilde orgulho e perguntou a si mesmo porque Saunire o teria includo.
      - Sabe mais ou menos onde vive esse senhor Teabing? - perguntou Sophie.
      - A propriedade chama-se Chteau Villette.
      Sophie voltou-se para ele, com uma expresso incrdula.
      - Chteau Villette?
      - Isso mesmo.
      - Tem bons amigos.
      - Conhece a propriedade?
      - Passei por l. Fica na rea dos castelos. A vinte minutos daqui.
      Langdon franziu a testa.
      - To longe?
      - Sim, o que lhe d tempo suficiente para me explicar o que  realmente o Santo
      Graal.
      Langdon hesitou.
      - Digo-lhe na casa do Teabing. Eu e ele especializmo-nos em diferentes reas da lenda, de modo que, entre os dois, ficar com a imagem completa. - Sorriu. - Alm disso, o Graal tem sido a vida dele, e ouvir a teoria do Santo Graal da boca de Leigh Teabing ser como ouvir a histria da relatividade da boca de Einstein.
      - Esperemos que Leigh no se importe de receber visitas tardias.
      - Para que conste,  Sir Leigh. - Langdon cometera aquele erro apenas uma vez. - Teabing  uma personagem e tanto. Foi armado cavaleiro pela rainha, aqui h uns anos, depois de ter escrito uma extensiva histria sobre a Casa de York.
      Sophie olhou para ele.
      - Est brincando, no est? Vamos visitar um cavaleiro?
      Langdon esboou um sorriso contrafeito.
      - Andamos na procura do Graal, Sophie. Quem melhor do que um cavaleiro para nos ajudar?
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA E DOIS
      
      
      Chteau Villette espraiava os seus 75 hectares vinte e cinco minutos a noroeste de Paris, perto de Versalhes. Desenhado por Franois Mansart, em 1668, para o conde de Aufflay, era um dos mais significativos castelos histricos de Paris. com dois lagos retangulares e jardins concebidos por Le Ntre, Chteau Villette era mais um modesto castelo do que um solar. A propriedade tornara-se carinhosamente conhecida como La Petite Versailles.
      Langdon deteve subitamente o furgo blindado junto ao incio do caminho de acesso, que se estendia por quilmetro e meio. Do outro lado do imponente porto, a residncia de Sir Leigh Teabing erguia-se ao longe, no meio de um prado. Na porta, uma tabuleta avisava, em ingls: PROPRIEDADE PRIVADA. PROIBIDA A ENTRADA.
      Como que para proclamar que a sua casa era mais uma ilha britnica, Teabing no se limitara a mandar fixar a tabuleta em ingls. Tambm instalara o intercomunicador do porto do lado direito da entrada, o lado do passageiro em toda a parte na Europa, exceto na Inglaterra.
      Sophie lanou um olhar de estranheza ao mal situado intercomunicador.
      - E se chega algum szinho?
      - No me pergunte. - Langdon j discutira a questo com Teabing. - O nosso homem prefere as coisas como so na terra dele.
      -  melhor ser voc a falar - disse Sophie, baixando a janela.
      Langdon mudou de posio, inclinou-se pela frente de Sophie para chegar ao boto do intercomunicador. Quando o fez, o perfume dela encheu-lhe as narinas, e percebeu como estavam prximos. Esperou, naquela incmoda posio, enquanto comeava a ouvir-se no pequeno autofalante o sinal de chamada de um telefone.
      Finalmente, o intercomunicador crepitou e uma voz irritada perguntou, em francs:
      - Chteau Villette. Quem ?
      - Robert Langdon - gritou Langdon, quase deitado no colo de Sophie. - Sou um amigo de Sir Leigh Teabing. Preciso da ajuda dele.
      - Sir Leigh est dormindo. Como eu estava. Qual  a natureza do seu assunto?
      - Privada. De grande interesse para ele.
      - Nesse caso, estou certo de que ter muito prazer em receb-lo de manh.
      Langdon mudou o peso do corpo.
      -  muito importante.
      - Tambm o sono de Sir Leigh. Se  um amigo, sabe com certeza que a sade dele  frgil.
      Sir Leigh Teabing tivera polio quando criana e usava aparelhos nas pernas e muletas para andar, mas, durante sua ltima visita, Langdon achara-o to vivo e pitoresco que aquilo quase no parecia uma enfermidade.
      - Diga-lhe, por favor, que descobri novas informaes a respeito do Graal.
      Informaes que no podem esperar at de manh.
      Seguiu-se uma longa pausa. Langdon e Sophie esperaram, com o motor do furgo trabalhando ruidosamente. Passou um minuto. Finalmente, algum falou.
      - Meu bom homem, acho que continua a regular-se pela hora de Harvard. - A voz era clara e jovial.
      Langdon sorriu, reconhecendo o cerrado sotaque britnico.
      - Leigh, as minhas desculpas por acord-lo a esta hora obscena.
      - O meu mordomo me disse que no s est em Paris, como falou do Graal.
      - Achei que isso o arrancaria da cama.
      - E arrancou.
      - Alguma possibilidade de abrir o porto para um velho amigo?
      - Aqueles que procuram a verdade so mais do que amigos, so irmos.
      Langdon voltou o rosto para Sophie e rolou os olhos para cima. J estava habituado  predileo de Teabing pelas tiradas dramticas.
      - Claro que vou abrir o porto - proclamou Teabing -, mas primeiro tenho de confirmar que o seu corao  leal. Um teste  sua honra. Responder a trs perguntas.
      Langdon gemeu, sussurrando a Sophie:
      - Tenha pacincia. Como lhe disse,  muito extravagante.
      - Primeira pergunta - anunciou Teabing, num tom hercleo.
      - Sirvo-lhe ch ou caf?
      Langdon conhecia a opinio de Teabing a respeito da relao dos Americanos com o caf, que considerava um estranho fenmeno.
      - Ch. Earl Grey.
      - Excelente. Segunda pergunta. Leite ou acar?
      Langdon hesitou.
      - Leite - murmurou-lhe Sophie ao ouvido. - Acho que os britnicos bebem ch com leite.
      - Leite - disse Langdon.
      Silncio.
      - Acar?
      Teabing no respondeu.
      Espere! Langdon recordou a beberagem amarga que lhe fora servida durante sua ltima visita e compreendeu que a pergunta era um truque.
      - Limo! - gritou. - Earl Grey com limo.
      - Sem dvida. - Teabing parecia agora muitssimo divertido.
      - E, finalmente, tenho de fazer a mais grave das perguntas. - Fez uma pausa e prosseguiu, em tom solene -: Em que ano um remador de Harvard bateu pela ltima vez um homem de Oxford em Henley?
      Langdon no fazia idia, mas s conseguia imaginar uma razo para que a pergunta fosse feita.
      - Certamente tal enormidade nunca aconteceu.
      O porto abriu-se com um estalido.
      - O seu corao  leal, meu amigo. Pode entrar.
      
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA E TRS
      
      
      - Monsieur Vernet! - O gerente do turno da noite do Banco Depositrio de Zurique ficou tremendamente aliviado ao ouvir atravs do telefone a voz do seu presidente. - Aonde foi, senhor? A Polcia est aqui. Esto todos  sua espera.
      - Tenho um pequeno problema - disse Vernet, em tom aflito. - Preciso da sua ajuda.
      Tens mais do que um pequeno problema, pensou o gerente. A Polcia cercara completamente o edifcio e ameaava mandar o capito da DCPJ em pessoa entregar o mandato de busca que o banco exigira. - Em que posso ajud-lo?
      - O furgo blindado nmero trs. Preciso encontr-lo. Intrigado, o gerente consultou o calendrio de entregas.
      - Est aqui. L em baixo, no cais de carga.
      - No, no est. o furgo foi roubado pelos dois indivduos que a Polcia procura.
      - O qu? Como foi que eles conseguiram sair?
      - No posso entrar em detalhes pelo telefone, mas temos aqui uma situao que pode ser muito prejudicial para o banco.
      - O que  que quer que faa, senhor?
      - Quero que ative o transmissor de emergncia do furgo. Os olhos do gerente voaram para a caixa de comando LoJack, do outro lado da sala. Como muitas viaturas de transporte de valores, todas os furges do banco estavam equipados com um dispositivo de localizao que podia ser ativado por controlo remoto, via rdio, a partir da central. O gerente s usara o sistema de emergncia uma vez, durante um assalto, e funcionara impecavelmente, localizando o furgo e transmitindo as coordenadas para as autoridades. Naquela noite, no entanto, o gerente teve a impresso de que o presidente gostaria de um pouco mais de prudncia.
      - Est consciente, monsieur, de que se eu ativar o sistema LoJack, o transmissor informar simultaneamente as autoridades de que temos um problema.
      Vernet no disse nada durante vrios segundos.
      - Sim, eu sei. Faa-o, de qualquer maneira. Furgo nmero trs. Eu espero. Quero saber a localizao exata logo que a tiver.
      - Imediatamente, monsieur.
      Trinta segundos mais tarde, a quarenta quilmetros de distncia, a luz vermelha de um pequeno emissor-receptor escondido por baixo do chassis do furgo blindado comeou a piscar.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA E QUATRO
      
      
      Enquanto o furgo percorria, por entre duas alas de freixos, o sinuoso caminho at  casa, Sophie sentia os msculos descontrarem-se. Era um alvio sair da estrada, e no conseguia imaginar muitos lugares mais seguros para repousar um pouco do que aquela grande manso isolada, propriedade de um bem humorado estrangeiro.
      Entraram na vasta praceta redonda, e Chteau Villette surgiu-lhes  vista do lado direito com trs pisos e pelo menos sessenta metros de comprimento, o edifcio tinha uma fachada de pedra iluminada por holofotes exteriores e erguia-se em perfeita justaposio aos jardins impecavelmente cuidados e  superfcie vtrea dos lagos.
      As luzes interiores estavam acendendo-se.
      Em vez de parar diante da porta principal, Langdon estacionou o furgo no meio de uma rea rodeada de rvores.
      - No vale a pena correr o risco de algum vendo da estrada explicou a Sophie. - Ou deixar Teabing perguntando a si mesmo porque diabo chegamos a casa dele em um carro blindado meio destrudo.
      Sophie assentiu.
      - O que  que fazemos com o criptex? Provavelmente no devamos deix-lo aqui, mas se Leigh o ver, vai com certeza querer saber o que .
      - No se preocupe - disse Langdon, despindo o casaco enquanto descia do carro.
      Enrolou-o em volta da caixa de madeira e segurou o embrulho nos braos, como se fosse um beb.
      Sophie fez um ar de dvida.
      - Muito sutil - comentou.
      - Teabing nunca recebe ningum  porta; prefere fazer uma entrada teatral. Vou descobrir um lugar para esconder isto antes de ele se juntar a ns. - Fez uma pausa. - Suponho que talvez seja melhor avis-la antes de o conhecer. Sir Leigh tem um sentido de humor que as pessoas acham com frequncia um pouco... estranho.
      Sophie duvidou que qualquer outra coisa que acontecesse naquela noite pudesse ainda parecer-lhe estranha.
      O caminho de acesso  entrada principal era de a pedra, descrevendo uma curva at  grande porta de carvalho e cerejeira lavrados, dotada de uma aldraba de bronze do tamanho de uma toranja. Antes que Sophie pudesse levantar a aldraba, a porta foi aberta do interior.
      Diante deles estava um afetado e elegante mordomo, fazendo os ajustes finais  gravata branca e ao smoking que aparentemente acabava de vestir. Devia ter cerca de cinquenta anos, com feies refinadas e uma expresso austera que deixava bem claro que no achava minimamente divertida a presena deles naquela casa.
      - Sir Leigh descer dentro de momentos - anunciou, em ingls cuidadosamente carregado de sotaque francs. - Est se vestindo. Prefere no receber as visitas de pijama. Quer dar-me o seu casaco? - acrescentou, franzindo a testa ao embrulho que Langdon transportava nos braos.
      - No, obrigado. Estou bem assim.
      - Com certeza. Por aqui, por favor.
      Conduziu-os, atravessando o luxuoso vestbulo de mrmore, at uma sala de estar elegantemente decorada, banhada na luz suave de candeeiros vitorianos com abat-jours franjados. O ar ali dentro tinha um cheiro antediluviano, quase a realeza, com sugestes de tabaco de cachimbo, folhas de ch, xerez e alvenaria. Na parede mais distante, flanqueada por duas refulgentes armaduras de cota de malha, abria-se uma lareira de pedra suficientemente grande para assar um boi. Dirigindo-se  lareira, o mordomo ajoelhou e chegou um fsforo ao monte j preparado de toros de carvalho e acendalhas.
      Instantes depois, o fogo crepitava.
      O homem ps-se de p, endireitando o casaco.
      - Sua Senhoria deseja que se instalem  vossa vontade. - E com esta saiu, deixando Sophie e Langdon sozinhos.
      Sophie hesitou, sem saber em qual das antiguidades colocadas em frente da lareira devia sentar-se: o sof renascena de veludo, a cadeira de balan o rstica ou o par de bancos de pedra que pareciam ter sido tirados de um templo bizantino qualquer.
      Langdon tirou a caixa do criptex de dentro do casaco, aproximou-se do div de veludo e enfiou-a debaixo dele, o mais fundo que pde, bem fora das vistas. Em seguida, sacudiu o casaco, voltou a vesti-lo, alisou as lapelas e sorriu a Sophie enquanto se sentava diretamente por cima do tesouro escondido.
      O div, decidiu Sophie, e sentou-se ao lado dele. Enquanto olhava para o fogo que ia crescendo, saboreando o calor, Sophie teve a sensao de que o av teria adorado aquela sala. As paredes forradas a madeira escura estavam cobertas de quadros dos Velhos Mestres, um dos quais reconheceu como sendo um Poussin, o segundo pintor preferido do av. No console acima da lareira, um busto de sis, de alabastro, vigiava a sala.
      Por baixo da deusa egpcia, dentro da lareira, duas grgulas de pedra serviam de suportes  grade, as goelas escancaradas para revelar as faces ameaadoras. Sophie sempre tivera um medo pavoroso de grgulas, quando era criana. At que o av a curara do medo levando-a ao telhado da catedral de Notre Dame em um dia de tempestade. Princesa, olhe para estas tolas criaturas, dissera-lhe, apontando para as grgulas-algerozes de cujas bocas jorrava gua. Est ouvindo aquele barulhinho engraado que fazem com a garganta? Sophie assentira, obrigada a sorrir ao som da gua gorgolejando nas gargantas de pedra. Esto gargarejando, explicara o av.
      Gargariser.  por isso que lhes chamam grgulas. E Sophie nunca mais voltara a ter medo.
      A doce recordao provocou-lhe uma pontada de tristeza e a brutal realidade do assassnio apoderou-se uma vez mais dela. O grand-pre morreu. Imaginou o criptex debaixo do div e perguntou a si mesma se Leigh Teabing faria alguma idia de como abri-lo. Ou se devemos sequer perguntar-lhe. As ltimas palavras do av tinham sido para dizer-lhe que encontrasse Robert Langdon. No dissera nada a respeito de envolver mais quem quer que fosse. Precisvamos de um lugar onde pudssemos nos esconder, pensou, decidindo confiar no julgamento de Langdon.
      - Sir Robert! - trovejou uma voz Em algum lugar atrs deles. - Vejo que viaja com uma jovem.
      Langdon ps-se de p. Sophie levantou-se de um salto. A voz viera do topo da escada que subia em curva e desaparecia nas trevas do piso superior. L em cima, uma sombra moveu-se, mais densa do que as outras, apenas uma silhueta.
      - Boa noite, Sir Leigh - respondeu Langdon. - Permita que lhe apresente Sophie Neveu.
      - Uma honra. - Teabing avanou para a luz.
      - Obrigada por ter nos recebido - disse Sophie, reparando que o homem usava braadeiras metlicas nas pernas e muletas. Descia a escada degrau a degrau. - Bem sei que  muito tarde.
      - To tarde, minha querida, que  cedo. - Sir Leigh riu. - Vous ntes pas amricaine?
      Sophie abanou a cabea.
      - Parisienne.
      - O seu ingls  excelente.
      - Obrigada. Estudei no Royal Holloway.
      - Ah, est ento explicado. - Teabing continuava a descer a escada. - Talvez
      Robert tenha lhe dito que eu fiz os meus estudos um pouco mais abaixo, em Oxford. - Cravou em Langdon um olhar malicioso. - Claro que tambm me candidatei a Harvard, como segunda escolha.
      Tinha finalmente chegado ao fundo da escada, e Sophie achou que parecia tanto um cavaleiro como Sir Elton John. Gorducho e rubicundo, Sir Leigh Teabing tinha cabelos ruivos e uns joviais olhos cor de avel que pareciam cintilar quando ele falava. Vestia calas pregueadas e uma ampla camisa de seda por baixo de um casaco de malha.
      Apesar das braadeiras metlicas nas pernas, toda a sua postura revelava uma inquebrantvel dignidade que parecia ser mais o subproduto de uma nobre ancestralidade do que o resultado de um esforo consciente.
      Aproximou-se dos dois e estendeu a mo a Langdon.
      - Robert, perdeu peso.
      - E o meu amigo, em contrapartida, encontrou algum.
      Teabing riu com gosto, dando uma palmada no rotundo ventre.
      - Touch. Os meus nicos prazeres carnais, hoje em dia, parecem ser culinrios. - Voltando-se ento para Sophie, pegou-lhe gentilmente na mo e inclinou ao de leve a cabea, respirando-lhe para os dedos e baixando os olhos. - Mlady. 
      Sophie olhou para Langdon, sem saber muito bem se tinha recuado no tempo ou entrado numa casa de loucos.
      O mordomo que abrira a porta voltou a aparecer, transportando um servio de ch que disps na mesa diante da lareira.
      - Este  o Rmy Legaludec - disse Teabing. - O meu mordomo.
      O esguio mordomo baixou rigidamente a cabea e retirou-se.
      - Rmy  de Lyon - murmurou Teabing, como se isso fosse uma infeliz doena. - Mas faz uns molhos muito decentes.
      Langdon parecia divertido.
      - Sempre julguei que importaria pessoal ingls.
      - Santo Deus, no! No desejaria um chef ingls a ningum, exceto aos cobradores de impostos franceses. - Lanou um olhar a Sophie. - Pardonnez-moi, mademoiselle Neveu. Asseguro-lhe que a minha averso s coisas francesas se estende exclusivamente aos polticos e  seleo de futebol. O seu governo rouba-me o meu dinheiro e a sua seleo nacional ainda recentemente humilhou a nossa.
      Sophie respondeu com um sorriso amvel. Teabing observou-a por instante e ento voltou-se para Langdon.
      - Aconteceu qualquer coisa. Esto ambos com um ar abalado.
      Langdon assentiu.
      - Tem sido uma noite interessante, Leigh.
      - No duvido. Batem-me  porta sem se fazerem anunciar no meio da noite e falam do Graal. Diga-me, trata-se realmente do Graal, ou s o disse por saber que esse  o nico assunto capaz de me tirar da cama em plena madrugada?
      Um pouco de ambas as coisas, pensou Sophie, lembrando-se do criptex escondido debaixo do div.
      - Leigh - comeou Langdon -, gostaramos de falar consigo a respeito do Priorado de Sio.
      As hirsutas sobrancelhas de Teabing arquearam-se numa expresso intrigada.
      - Os guardies. Ento sempre tem a ver com o Graal. Diz que descobriu informaes? Alguma coisa de novo, Robert?
      - Talvez. No temos certeza. Poderamos ficar com uma idia mais clara se primeiro nos desse alguma informao.
      Teabing agitou o indicador estendido.
      - Sempre o mesmo americano espertalho. Um jogo de toma-l-d-c. Muito bem. Estou  sua disposio. O que  que posso dizer-lhes?
      Langdon suspirou.
      - Estava na esperana de que pudesse explicar  menina Neveu a verdadeira natureza do Santo Graal.
      Teabing pareceu espantado.
      - Ela no sabe?
      Langdon abanou a cabea. O sorriso que se espalhou pelo rosto de Leigh Teabing foi quase obsceno.
      - Robert, trouxe-me uma virgem?
      Langdon fez uma careta, olhando para Sophie.
      - Virgem  o termo que os entusiastas do Graal usam para descrever algum que nunca tenha ouvido a histria verdadeira.
      Teabing voltou-se gulosamente para Sophie.
      - Diga-me o que j sabe, minha querida.
      Rapidamente, Sophie esboou o que Langdon lhe contara pouco antes: o Priorado de Sio, os Cavaleiros do Templo, os documentos Sangreal e o Santo Graal, que muitos afirmavam no ser uma taa... e sim qualquer coisa muito mais poderosa.
      - S isso? - Teabing lanou a Langdon um olhar escandalizado. - Robert, pensei que fosse um cavalheiro. Privou-a do clmax!
      - Eu sei. Pensei que talvez os dois pudssemos... - Langdon calou-se, tendo aparentemente decidido que a indecorosa metfora j fora longe de mais.
      Teabing j tinha Sophie presa no seu refulgente olhar.
      -  uma virgem do Graal, minha querida. E, pode crer, nunca mais vai esquecer a sua primeira vez.
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA E CINCO
      
      
      Sentada no div ao lado de Langdon, Sophie bebia o seu ch e comia um scone, sentindo os efeitos benficos da cafena e do alimento. Sir Leigh Teabing sorria enquanto passeava desajeitadamente de um lado para o outro diante da lareira, fazendo tilintar as braadeiras metlicas sempre que passava por cima do rebordo protetor de pedra.
      - O Santo Graal - disse Teabing, em tom que se tornara professoral. - A maior parte das pessoas s me pergunta onde  que ele est. Receio bem que se trate de uma pergunta a que talvez nunca saiba responder. - Voltou-se e olhou diretamente para Sophie. - No entanto... a pergunta muitssimo mais relevante  a seguinte: o que  o Santo Graal?
      Sophie sentiu um ar de excitao acadmica crescendo nos dois homens.
      - Para compreender plenamente o Graal - continuou Teabing -, temos primeiro de compreender a Bblia. Conhece bem o Novo Testamento?
      Sophie encolheu os ombros.
      - No conheo de todo. Fui criada por um homem que venerava Leonardo da Vinci.
      Teabing pareceu simultaneamente estupefato e contente.
      - Uma alma iluminada. Soberbo! Nesse caso, deve saber que Leonardo era um dos guardies do segredo do Santo Graal. E que escondeu pistas na sua arte.
      - Robert falou-me disso, sim.
      - E as opinies de da Vinci sobre o Novo Testamento?
      - No fao idia.
      Teabing tinha um sorriso de alegria nos olhos quando apontou a estante do outro lado da sala.
      - Robert, importa-se? Na prateleira de baixo. La Storia di Leonardo.
      Langdon atravessou a sala, tirou da estante um grande livro de arte, voltou para trs e pousou-o em cima da pequena mesa entre os dois. Fazendo rodar o livro de modo a coloc-lo de frente para Sophie, Teabing levantou a capa e apontou para uma srie de citaes escritas na guarda.
      - Do livro de notas de da Vinci sobre especulaes e polmicas - disse, indicando uma citao em especial. - Julgo que vai achar esta relevante para a nossa discusso.
      Sophie leu as palavras.
      Muitos fizeram das iluses e dos falsos milagres o seu ofcio, enganando a estpida multido. - LEONARDO DA VINCI
      - Aqui tem outra - continuou Teabing, indicando uma citao diferente.
      A cega ignorncia  que nos engana.  mseros mortais, abri os olhos! - LEONARDO DA VINCI
      Sophie sentiu um pequeno arrepio.
      - Da Vinci est falando da Bblia?
      Teabing assentiu.
      - Os sentimentos de Leonardo quanto  Bblia esto diretamente relacionados com o Santo Graal. Na realidade, Leonardo pintou o verdadeiro Graal, que vou lhe mostrar dentro de momentos, mas primeiro temos de falar sobre a Bblia. - Sorriu. - E tudo o que precisa saber a respeito da Bblia pode resumir-se ao que disse o grande doutor cannico Martyn Percy: A Bblia no foi enviada do cu por fax.
      - Desculpe?
      - A Bblia  um produto do homem, minha querida, no de Deus. No caiu magicamente das nuvens. O homem criou-a como um registrro histrico de tempos tumultuosos, e tem evoludo ao longo de inmeras tradues, adies e revises. A Histria nunca conheceu uma verso definitiva do livro.
      - Okay.
      - Jesus Cristo foi uma figura histrica tremendamente influente, talvez o lder mais enigmtico e inspirador que o mundo alguma vez viu. Como o profetizado Messias, Jesus derrubou reis, inspirou milhes de pessoas e fundou novas filosofias. Como descendente das linhagens de Salomo e de David, tinha o direito legtimo de reclamar o ttulo de rei dos Judeus. Compreensivelmente, a Sua vida foi registrrada por milhares de seguidores em todo o mundo. - Teabing fez uma pausa para beber um gole de ch e em seguida pousou a xcara no console da lareira. - Foram considerados mais de oitenta evangelhos para o Novo Testamento, e no entanto, apenas uns poucos acabaram por ser escolhidos... entre eles os de Mateus, Marcos, Lucas e Joo.
      - Quem escolheu que evangelhos incluir? - perguntou Sophie.
      - Aaah! - exclamou Teabing, com incontvel entusiasmo. - A ironia fundamental do cristianismo! A Bblia, tal como hoje a conhecemos, foi coligida por um pago, o imperador romano Constantino, o Grande.
      - Julgava que Constantino era cristo - disse Sophie.
      - Nem pouco mais ou menos - troou Teabing. - Foi pago toda a vida, batizado no leito de morte quando j estava muito fraco para protestar. No tempo de Constantino, a religio oficial de Roma era o culto do Sol... o culto do Sol Invictus, de que Constantino era o sumo sacerdote. Infelizmente para ele, um crescente turbilho religioso estava apoderando-se de Roma. Trs sculos depois da crucifixo de Jesus Cristo, os seus seguidores tinham-se multiplicado exponencialmente. Cristos e pagos comearam a guerrear-se, e o conflito atingiu propores tais que ameaava dividir Roma em duas.
      Constantino decidiu que era preciso fazer qualquer coisa. Em 325 d. C. resolveu unificar o imprio sob uma nica religio: o cristianismo.
      Sophie parecia espantada.
      - Porque haveria um imperador pago de escolher o Cristianismo como religio de Estado?
      Teabing soltou um risinho.
      - Constantino era um excelente homem de negcios. Percebeu que o Cristianismo estava em ascenso, e limitou-se a apostar no cavalo vencedor. Ainda hoje os historiadores ficam maravilhados com a forma brilhante como converteu os adoradores do Sol pagos ao cristianismo. Fundindo smbolos, datas e rituais pagos com a crescente tradio crist, criou uma espcie de religio hbrida que era aceitvel para ambas as partes.
      - Uma adulterao grotesca - interveio Langdon. - Os vestgios da religio pag na simbologia crist so inegveis. Os discos solares egpcios tornaram-se os halos dos santos catlicos. Pictogramas de sis cuidando do seu miraculosamente concebido filho Hrus tornaram-se o modelo das nossas modernas imagens da Virgem com o Menino. E praticamente todos os elementos do ritual catlico... a mitra, o altar, a doxologia e a comunho, o ato de comer Deus... foram diretamente tirados de religies pags anteriores.
      Teabing gemeu.
      - Nunca deixe um simbologista comear a falar de cones cristos. No cristianismo, nada  original. O deus pr-cristo Mitra... chamado Filho do Sol e Luz do Mundo... nasceu a vinte e cinco de Dezembro, morreu, foi sepultado em um tmulo de rocha e ressuscitou trs dias mais tarde. A propsito, 25 de Dezembro  tambm o dia de aniversrio de Osris, de Adnis e de Dionsio. O recm-nascido Krishna foi presenteado com ouro, incenso e mirra. At o dia santo semanal do cristianismo foi roubado aos pagos.
      - Como?
      - Originariamente - interveio novamente Langdon -, o cristianismo honrava o Sabat judeu, ao sbado, mas Constantino mudou-o de modo a coincidir com o dia da venerao do Sol dos pagos. - Fez uma pausa, sorrindo. - Ainda hoje, a maior parte das pessoas que vo  missa ao domingo de manh no sabe que est ali por causa do tributo semanal dos pagos ao deus-Sol.
      Sophie sentia a cabea a andar  roda.
      - E tudo isso tem a ver com o Graal?
      - Com certeza - declarou Teabing. - Continuemos. Durante esta fuso de religies, Constantino, que precisava da fora da nova tradio crist, convocou a famosa reunio ecumnica conhecida como Conclio de Niceia.
      Sophie ouvira falar de Niceia apenas como tendo sido o lugar onde nascera o Credo Niceno.
      - Nessa reunio - prosseguiu Teabing -, foram discutidos e votados muitos aspectos do cristianismo: a data da Pscoa, o papel dos bispos, a administrao dos sacramentos e, claro, a divindade de Jesus.
      - No estou entendendo. A divindade de Jesus?
      - Minha querida - disse Teabing -, at quele momento da Histria, Jesus tinha sido visto pelos seus seguidores como um profeta mortal... um grande homem, e poderoso, mas apesar de tudo um homem. Um mortal.
      - No como o Filho de Deus?
      - Exatamente. O estabelecimento de Jesus como Filho de Deus foi oficialmente proposto e votado no Conclio de Niceia.
      - Espere um momento. Est me dizendo que a divindade de Jesus resultou de uma votao?
      - E bastante renhida, por sinal - respondeu Teabing. - Em todo o caso, estabelecer a divindade de Jesus era crucial para a unificao do Imprio Romano e para a base de poder do novo Vaticano. Ao avalizar oficialmente Jesus como Filho de Deus, Constantino estava transformando-o em uma divindade que existia alm do mbito do mundo humano, uma entidade cujo poder era indiscutvel. O que no s prevenia futuros desafios pagos ao cristianismo, como estabelecia que os seguidores de Cristo passavam a s poder redimir-se atravs do canal sagrado acabado de criar: a Igreja Catlica Romana.
      Sophie olhou para Langdon, que lhe fez um ligeirssimo aceno de concordncia.
      - Era tudo uma questo de poder - continuou Teabing. Cristo como Messias era essencial ao funcionamento da Igreja e do Estado. Muitos estudiosos afirmam que a Igreja primitiva o roubou literalmente dos seus seguidores originais, apoderando-se da sua mensagem humana, envolvendo-a em um impenetrvel manto de divindade e usando-a para expandir o seu prprio poder. Escrevi vrios livros sobre o tema.
      - E suponho que todos os dias os cristos devotos lhe enviam cartas insultando-o?
      - Porque haveriam de faz-lo? - surpreendeu-se Teabing. - A maior parte dos cristos instrudos conhece a histria da sua f. Jesus foi sem dvida um grande homem. As manobras de baixa poltica de Constantino em nada diminuem a majestade da vida de Cristo. Ningum est dizendo que Jesus foi um trapaceiro, ou negando que viveu neste mundo e inspirou milhes de pessoas a terem uma vida melhor. Tudo o que dizemos  que Constantino se aproveitou das suas substanciais influncia e importncia. E, ao fazlo, modelou a face do cristianismo tal como hoje o conhecemos.
      Sophie olhou para o livro de arte que tinha  sua frente, ansiosa por ir adiante e ver o quadro de da Vinci do Santo Graal.
      - O buslis da questo  o seguinte - disse Teabing, falando agora mais depressa. - Uma vez que Constantino promoveu Cristo a divindade quase quatro sculos depois de ele ter morrido, havia milhares de documentos que relatavam a sua vida como um homem mortal. Constantino sabia que, para reescrever os livros de Histria, precisava de um golpe de ousadia. Foi daqui que nasceu o momento mais profundo da histria do Cristianismo. - Fez uma pausa, estudando o rosto de Sophie. - Constantino encomendou e financiou uma nova Bblia, que omitia os evangelhos que falavam das caractersticas humanas de Cristo e dava destaque aos que faziam dele um deus. Os evangelhos mais antigos foram banidos, arrebanhados e queimados.
      - Uma nota interessante - acrescentou Langdon. - Quem continuasse a preferir os evangelhos proibidos  verso de Constantino era declarado hertico. A palavra hertico nasceu nessa poca. O termo latino hariticus significa escolha. Os que escolheram a histria original de Cristo foram os primeiros herticos do mundo.
      - Felizmente para os historiadores - encadeou Teabing -, alguns dos evangelhos que Constantino tentou erradicar conseguiram sobreviver. Os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados, nos anos 50, em uma gruta escondida perto de Qumran, no deserto da Judia. E, claro, os Manuscritos Coptas, em 1945, em Nag Hammadi. Alm de contarem a verdadeira histria do Graal, estes documentos falam do ministrio de Cristo em termos muito humanos, claro que o Vaticano, fiel  sua tradio de desinformao, fez tudo o que pde para evitar a divulgao desses textos. E porque no o faria? Os manuscritos denunciam gritantes discrepncias e mentiras histricas, demonstrando claramente que a Bblia moderna foi compilada por indivduos que tinham um objetivo poltico: promover a divindade do homem Jesus Cristo e usar a influncia dele para reforar a sua prpria base de poder.
      - Em todo o caso - interps Langdon -,  importante ter presente que o desejo da Igreja moderna de suprimir estes documentos decorre de uma crena sincera na viso que tem de Cristo. O Vaticano  constitudo por homens muito piedosos que acreditam verdadeiramente que estes documentos contrrios s podem ser falsos testemunhos.
      Teabing riu e instalou-se em uma cadeira em frente de Sophie.
      - Como v, o nosso professor  muito mais compreensivo do que eu no que respeita a Roma. Seja como for, tem razo quando afirma que o clero moderno est convencido da falsidade destes documentos. O que  compreensvel. A Bblia de Constantino foi a verdade deles durante sculos. Ningum est mais doutrinado do que o doutrinador.
      - O que ele quer dizer - esclareceu Langdon -  que veneramos os deuses dos nossos pais.
      - O que eu quero dizer - contraps Teabing -  que quase tudo o que os nossos pais nos ensinaram a respeito de Cristo  falso. Como falsas so as histrias a respeito do Santo Graal.
      Sophie voltou a olhar para a citao de Leonardo da Vinci que tinha  sua frente. A cega ignorncia  que nos engana.  mseros mortais, abri os olhos!
      Teabing pegou no livro e folheou-o mais para a frente.
      - E finalmente, antes de lhe mostrar as pinturas do Santo Graal de da Vinci, gostaria que desse uma olhada nisto. Abriu o livro em uma colorida ilustrao que ocupava duas pginas contguas. - Acredito que reconhece este fresco?
      Deve estar brincando! Sophie estava olhando para o mais famoso fresco de todos os tempos, A ltima Ceia, a lendria pintura que da Vinci executara na parede de Santa Maria delle Grazie, perto de Milo. O fresco, muito degradado, representa Jesus e os discpulos no momento em que o primeiro anuncia que um deles o vai trair.
      - Conheo o fresco, sim.
      - Nesse caso, talvez me permita um pequeno jogo. Importa-se de fechar os olhos?
      Insegura, Sophie fechou os olhos.
      - Onde Jesus est sentado? - perguntou Teabing.
      - No meio.
      - Muito bem. E que alimento esto ele e os discpulos partindo e comendo?
      - Po. Obviamente.
      - timo. E o que  que esto bebendo?
      - Vinho. Esto bebendo vinho.
      - Excelente. Uma ltima pergunta. Quantos copos de vinho h em cima da mesa?
      Sophie hesitou, percebendo que era uma pergunta armadilhada. E depois da ceia, Jesus pegou na taa de vinho, partilhando-a com os Seus discpulos.
      - Uma taa - disse. - O clice. A Taa de Cristo. O Santo Graal. - Jesus passou  volta da mesa um nico clice de vinho, como os cristos modernos fazem na comunho.
      Teabing suspirou.
      - Abra os olhos.
      Ela assim fez. Teabing estava sorrindo, com um ar satisfeito. Sophie olhou para a ilustrao e viu, para seu grande espanto, que todos os convivas sentados  mesa tinham um copo de vinho, incluindo Cristo. Treze copos. Alm disso, os copos eram de vidro, pequenos e sem p. No havia qualquer clice no quadro. Nenhum Santo Graal.
      Os olhos de Teabing cintilaram.
      - Um pouco estranho, no lhe parece, considerando que tanto a Bblia como a lenda padro do Graal celebram este momento como o do aparecimento definitivo do Santo Graal. Estranhamente, da Vinci parece ter esquecido de pintar a Taa de Cristo.
      - Com toda certeza os estudiosos de arte devem t-lo notado.
      - Ficaria chocada se soubesse que anomalias da Vinci incluiu nesta pintura e que a maior parte dos estudiosos no v ou prefere simplesmente ignorar. Este fresco , na realidade, a chave para o mistrio do Santo Graal. Da Vinci pe tudo a descoberto em A Ultima Ceia.
      Sophie examinou ansiosamente a ilustrao.
      - Este fresco nos diz o que o Graal realmente ?
      - No o que  - sussurrou Teabing -, mas antes quem . O Santo Graal no  uma coisa. , na realidade... uma pessoa.
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA E SEIS
      
      
      Sophie ficou olhando para Teabing por um longo instante, e ento voltou-se para Langdon.
      - O Santo Graal  uma pessoa?
      Langdon assentiu.
      - Uma mulher, para ser mais exato.
      Pela expresso vazia do rosto de Sophie, Langdon percebeu que a tinham perdido.
      Lembrou-se de ter tido uma reaco semelhante da primeira vez que ouvira a afirmao.
      Fora s depois de compreender a simbologia por detrs do Graal que a ligao feminina se tornara clara. Teabing estava, aparentemente, pensando algo na mesma linha.
      - Robert - disse - talvez seja a altura de o simbologista esclarecer? - Dirigiu-se a uma pequena mesa e regressou com uma folha de papel que pousou  frente de
      Langdon.
      Langdon tirou uma caneta do bolso do casaco.
      - Conhece, claro, os smbolos modernos para masculino e feminino?  comeou.
      - Claro - disse Sophie.
      - Estes - continuou ele, calmamente - no so os smbolos originais de masculino e feminino. Muitas pessoas assumem erradamente que o smbolo masculino deriva de um escudo e uma lana, enquanto o feminino representa um espelho refletindo a beleza. Na realidade, derivam dos antigos smbolos astronmicos do deus-planeta Marte e da deusaplaneta Vnus. Os smbolos originais so muito mais simples. - Langdon traou outro desenho no papel.
      - Este  o cone original de masculino - explicou. - Um falo rudimentar.
      - Muito apropriado - comentou Sophie.
      - Sem dvida - acrescentou Teabing.
      - Este cone  formalmente conhecido como a lmina, e representa agresso e virilidade. Na realidade, este mesmssimo smbolo flico continua hoje a ser usado nos uniformes militares como indicao do posto.
      -  verdade. - Teabing sorriu - Quantos mais pnis um fulano tem, mais alto  o seu posto. Coisas de rapazes.
      Langdon fez uma careta.
      - Continuando, o smbolo feminino, como imagina,  o exato oposto. - Fez outro desenho no papel. - A este chama-se o clice.
      Sophie ergueu os olhos, parecendo surpreendida. Langdon viu que ela tinha feito a ligao.
      - O clice - disse - assemelha-se a uma taa, ou vaso, e, mais importante ainda, evoca a forma do tero da mulher. Este smbolo transmite feminidade e fertilidade. - Olhou diretamente para ela. - Sophie, a lenda nos diz que o Santo Graal  um clice... uma taa. Mas descrev-lo como um clice  na realidade uma alegoria destinada a proteger a sua verdadeira natureza. Ou seja, a lenda usa o clice como uma metfora para algo muito mais importante.
      - Uma mulher - disse Sophie.
      - Exatamente. - Langdon sorriu. - O Graal  literalmente o antigo smbolo da feminidade e o Santo Graal representa o sagrado feminino e a deusa, hoje perdidos, praticamente eliminados pela Igreja. O poder da fmea e a sua capacidade de produzir vida eram outrora muito sagrados, mas representavam uma ameaa  ascenso de uma Igreja predominantemente masculina, e por isso o sagrado feminino foi demonizado e declarado impuro. Foi o homem, e no Deus, que criou o conceito do pecado original, em que Eva prova a ma e provoca a queda da raa humana. A mulher, em tempos a criadora de vida, passava a ser a inimiga.
      - Devo acrescentar - acrescentou Teabing - que este conceito da mulher como criadora de vida era o alicerce da antiga religio. O parto era mstico e poderoso. Infelizmente, a filosofia crist decidiu defraudar o poder criativo da fmea ignorando a verdade biolgica e fazendo do homem o Criador. O Gnesis diz-nos que Eva foi feita a partir de uma costela de Ado. A mulher tornou-se um rebento do homem. E um rebento pecaminoso, ainda por cima. O Gnesis foi o comeo do fim para a deusa.
      - O Graal - engrenou Langdon -  simblico da deusa perdida. Quando o Cristianismo apareceu, as antigas religies pags no morreram facilmente. As lendas sobre demandas cavalheirescas do Graal perdido eram de fato histrias de demandas proibidas do sagrado feminino perdido. Os cavaleiros que afirmavam procurar o clice falavam em cdigo como uma forma de se protegerem contra uma Igreja que subjugara as mulheres, banira a Deusa, queimara os incrus e proibira a reverncia pag pelo sagrado feminino.
      Sophie abanou a cabea.
      - Peo desculpas. Quando disseram que o Santo Graal  uma pessoa, pensei que fosse uma pessoa de carne e osso.
      - E  - disse Langdon.
      - E no uma pessoa qualquer - interps Teabing, pondo-se excitadamente de p. - Uma mulher que transportava consigo um segredo to poderoso que, se revelado, ameaava arrasar os prprios alicerces do Cristianismo!
      Sophie parecia esmagada.
      - Uma mulher historicamente bem conhecida? - perguntou.
      - Muito. - Teabing pegou nas muletas e apontou na direo do corredor. - E se quiserem acompanhar-me ao estdio, meus amigos, terei a honra de mostrar-lhes o retrato que da Vinci fez dela.
      A duas salas de distncia, na cozinha, Rmy Legaludec, o mordomo, mantinha-se de p e em silncio diante de um televisor. O noticirio mostrava as fotografias de um homem e de uma mulher... os mesmos dois indivduos a quem acabava de servir ch.
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA E SETE
      
      
      Junto  barricada que vedava a sada do Banco Depositrio de Zurique, o tenente Collet perguntava a si mesmo porque diabo estaria o capito Fache demorando tanto tempo para conseguir um mandato de busca. Era evidente que os banqueiros escondiam qualquer coisa. Afirmavam que Langdon e Neveu tinham de fato estado no banco mas que lhes fora recusada a entrada por no possurem a necessria identificao de conta.
      Ento por que  que no nos deixam entrar e dar uma vista de olhos?
      Finalmente, o telefone do tenente tocou. Era o posto de comando, ainda situado no Louvre.
      - J temos o mandato de busca? - perguntou Collet.
      - Esquea o banco, tenente - disse-lhe o agente. - Acabamos de receber uma informao. Sabemos o lugar exato onde Langdon e a agente Neveu esto escondidos.
      Collet sentou-se com fora no cap do carro.
      - Est brincando.
      - Tenho um endereo nos subrbios. Em algum lugar perto de Versalhes.
      - O capito Fache j sabe?
      - Ainda no. Est ocupado com uma chamada importante.
      - Estou a caminho. Ele que me ligue logo que estiver livre. - Collet tomou nota do endereo e saltou para dentro do carro. Enquanto se afastava do banco com os pneus guinchando, percebeu que se esquecera de perguntar quem informara a DCPJ sobre a localizao de Langdon. No que fizesse qualquer diferena. Tinha agora uma oportunidade de redimir-se do seu ceticismo e anteriores erros. Estava  beira de fazer a deteno mais espectacular da sua carreira.
      Contatou pelo rdio os cinco carros que o seguiam.
      - Nada de sirenes. No quero que Langdon saiba que estamos chegando.
      A quarenta quilmetros dali, um Audi preto saiu da estrada rural e parou no meio da escurido  beira de um campo. Silas apeou-se e espreitou por entre as barras de ferro forjado do gradeamento que cercava a vasta propriedade. Viu, ao longe, a manso que se erguia no topo da suave vertente banhada pelo luar.
      Todas as luzes do piso trreo estavam acesas. Estranho para esta hora, pensou Silas, sorrindo. A informao que o Professor lhe dera estava evidentemente correta. No sairei desta casa sem a Chave de Abbada, jurou a si mesmo. No deixarei ficar mal o bispo e o Professor.
      Depois de verificar o carregador de treze tiros da sua Heckler and Koch, fez passar a arma por entre as grades e deixou-a cair no solo coberto de musgo do outro lado.
      Ento, agarrando-se com as duas mos ao topo dos vares de ferro, iou-se, passou por cima do gradeamento e saltou para o cho. Ignorando a dor excruciante do cilcio, recuperou a arma e iniciou a longa caminhada em direo  casa.
      CAPTULO CINQUENTA E OITO
      
      
      O estdio de Teabing era diferente de qualquer outro que Sophie tivesse visto.
      Seis ou sete vezes mais amplo do que o mais luxuoso dos escritrios, o cabinet de travail de Sir Leigh parecia um desgracioso hbrido de laboratrio cientfico, biblioteca,  arquivo e feira da ladra interior. Iluminado por trs lustres suspensos, o vasto cho de tijoleira mostrava-se salpicado de ilhas dispersas de mesas de trabalho vergadas ao peso de livros, obras de arte, artefatos e uma surpreendente quantidade de aparelhagem eletrnica: computadores, projetores, microscpios, fotocopiadoras e scanners planos.
      - Transformei o salo de baile - explicou Teabing, com um ar embaraado, quando entraram na sala. - No tenho assim muitas oportunidades de danar.
      Sophie sentiu como se toda aquela noite fosse uma espcie de quinta dimenso onde nada era o que ela esperava.
      - Tudo isto  para o seu trabalho?
      - Descobrir a verdade tornou-se a paixo da minha vida respondeu Teabing. - E o Sangreal  a minha amante preferida.
      O Santo Graal  uma mulher, pensou Sophie, e o seu esprito era uma colagem de idias interligadas que pareciam no fazer qualquer sentido.
      - Disse que tinha um retrato da mulher que afirma ser o Santo Graal.
      - Sim, mas no sou eu que afirmo que ela  o Santo Graal. O prprio Cristo fez essa afirmao.
      - Qual  o quadro? - perguntou Sophie, percorrendo as paredes com o olhar.
      - Hmmm... - Teabing fez todo um espectculo de fingir ter-se esquecido. - O Santo Graal. O Sangreal. O Clice. - Voltou-se subitamente e apontou para a parede mais distante, da qual estava suspensa uma cpia com dois metros e quarenta de comprimento de A Ultima Ceia, exatamente a mesma imagem que Sophie acabava de ver no livro. - L est ela!
      Sophie teve certeza de que lhe escapara qualquer coisa.
      -  o mesmo quadro que acaba de me mostrar.
      Teabing piscou-lhe um olho.
      - Eu sei, mas a ampliao  muito mais excitante. No acha?
      Sophie voltou-se para Langdon, em busca de ajuda.
      - Me perdi.
      Langdon sorriu.
      - A verdade  que o Santo Graal marca de fato presena na ltima Ceia. Leonardo deu-lhe um lugar de destaque.
      - Espere a - pediu Sophie. - Disse-me que o Santo Graal  uma mulher. A Ultima Ceia  um retrato de treze homens.
      - Ser? - perguntou Teabing. - Olhe com mais ateno.
      Insegura, Sophie aproximou-se da reproduo, examinando as treze figuras: Jesus no centro, seis discpulos do lado esquerdo, outros seis do lado direito.
      - So todos homens - confirmou.
      - Oh? - exclamou Teabing. - E o que est sentado no lugar de honra,  direita do Senhor?
      Sophie examinou a figura  direita de Jesus, concentrando a ateno.  medida que estudava o corpo e o rosto da personagem, sentiu uma onda de estupefao crescer-lhe no peito. O indivduo tinha longos cabelos vermelhos, mos delicadamente entrelaadas, a sugesto de um seio. Era, sem a mnima dvida... uma mulher.
      -  uma mulher! - exclamou Sophie.
      Teabing estava rindo.
      - Surpresa, surpresa. No  engano, pode crer. Leonardo era muito hbil em pintar as diferenas entre os sexos.
      Sophie no conseguia desviar os olhos da mulher sentada ao lado de Cristo. A Ultima Ceia se prope a apresentar treze homens. Quem  a mulher? Embora tivesse visto aquela imagem clssica vezes sem conta, nunca reparara na gritante discrepncia.
      - Ningum repara - disse Teabing. - As nossas noes preconcebidas desta cena so to poderosas que a mente bloqueia a incongruncia e sobrepe-se aos olhos.
      -  um fenmeno conhecido como escotoma - acrescentou Langdon. - O crebro o faz muitas vezes, com smbolos muito poderosos.
      - Outra razo possvel para no ter reparado na mulher continuou Teabing -  o fato da maior parte das fotografias que aparecem nos livros de arte terem sido tiradas antes de 1954, quando os pormenores estavam ainda escondidos sob camadas de sujeira e vrias restauraes feitas por incompetentes durante o sculo XVIII. Agora, finalmente, o fresco foi limpo at  camada original de tinta de da Vinci. - Apontou para a fotografia. - Et voil!
      Sophie aproximou-se ainda mais da imagem. A mulher sentada  direita de Jesus era jovem e tinha um ar piedoso, com um rosto tmido, belos cabelos avermelhados e mos tranquilamente entrelaadas.  esta a mulher que podia, sozinha, fazer desmoronar a Igreja?
      - Quem  ela? - perguntou.
      - Essa senhora, minha querida - respondeu Teabing -,  Maria Madalena.
      Sophie voltou-se.
      - A prostituta?
      Teabing teve uma curta inspirao entredentes, como se a palavra o tivesse ofendido pessoalmente.
      - Maria Madalena no era nada disso. Esse falso juzo  um legado da campanha de calnias lanada pela Igreja primitiva. A Igreja precisava difamar Maria Madalena para encobrir o seu perigoso segredo: o papel dela como Santo Graal.
      - O papel dela?
      - Como j disse - esclareceu Teabing -, a Igreja primitiva precisava convencer o mundo de que o profeta mortal Jesus era um ser divino. Por essa razo, os evangelhos que descreviam os aspectos terrenos da vida de Jesus tinham de ser omitidos da Bblia.
      Infelizmente para os primeiros editores, havia um tema terreno particularmente perturbador que aparecia mencionado em todos os evangelhos. - Fez uma pausa. - O casamento de Jesus Cristo.
      - Desculpe? - Os olhos de Sophie saltaram para Langdon, e depois de novo para Teabing.
      - Est historicamente registrrado, e da Vinci tinha com toda certeza conhecimento do fato. A Ultima Ceia praticamente grita ao espectador que Jesus e Madalena eram um casal.
      Sophie voltou olhando para a reproduo do fresco.
      - Repare que Jesus e Madalena esto vestidos como imagens reflexas um do outro - disse Teabing, apontando para as duas personagens centrais.
      Sophie estava fascinada. E, sem a mnima dvida, as roupas dos dois eram de cores inversas. Jesus usava uma tnica vermelha e um manto azul; Maria Madalena usava uma tnica azul e um manto vermelho. Yin e Yang.
      - Aventurando-nos no ainda mais bizarro - continuou Teabing -, repare que Jesus e a sua noiva parecem estar unidos pela anca e inclinam-se para longe um do outro, como que para criar entre ambos este espao negativo claramente delineado.
      Ainda antes que Teabing traasse o contorno com o dedo, Sophie viu-o: a indiscutvel forma de V no ponto focal da pintura. Era o mesmo smbolo que Langdon desenhara momentos antes e que dissera representar o Graal, o clice e o tero feminino.
      - Finalmente - disse Teabing -, se vir Jesus e Madalena como elementos da composio e no como personagens, ver uma outra forma bvia saltar-lhe aos olhos. - Fez uma pausa. - Uma letra do alfabeto.
      Sophie a viu imediatamente. Dizer que a letra lhe saltou aos olhos seria um eufemismo. Subitamente, no via mais nada seno a letra. Bem no centro da pintura destacava-se o inquestionvel desenho de um enorme e impecavelmente traado M. 
      - Um pouco perfeito de mais para ser coincidncia, no acha? - perguntou Teabing.
      Sophie estava estupefata.
      - E est ali porqu?
      Teabing encolheu os ombros.
      - Os tericos da conspirao lhe diro que significa Matrimnio ou Maria Madalena. Para ser honesto, ningum sabe. A nica certeza  que o M escondido no  resultado de um acaso. Inmeras obras relacionadas com o Graal contm um M escondido... seja em marcas-de-gua, camadas inferiores de pintura ou aluses composicionais. O mais evidente de todos os M , claro, o que aparece no altar de Nossa Senhora de Paris, em Londres, concebido por um ex-Gro-Mestre do Priorado de Sio, Jean Cocteau.
      Sophie pesou a informao.
      - Admito que os M escondidos so intrigantes, embora assuma que ningum afirma que constituem prova do casamento de Jesus com Madalena.
      - No, no - respondeu Teabing, que se dirigia a uma mesa prxima carregada de livros. - Como disse h pouco, o casamento de Jesus com Maria Madalena  um fato historicamente registrrado. - Ps-se a remexer nas rimas de livros. - Alm disso, Jesus como homem casado faz infinitamente mais sentido do que a tradicional viso bblica de Jesus como homem solteiro.
      - Porqu? - perguntou Sophie.
      - Porque Jesus era judeu - disse Langdon, pegando no testemunho enquanto Teabing procurava o seu livro -, e o decoro social da poca praticamente proibia que um judeu adulto no fosse casado. O costume judaico condenava o celibato, e a obrigao de qualquer pai era procurar uma esposa adequada para o filho. Se Jesus no fosse casado, pelo menos um dos evangelhos mencionaria o fato e proporia uma explicao qualquer para esta anormalidade.
      Teabing localizou um enorme livro e puxou-o para si por cima do tampo da mesa.
      Encadernado em couro, tinha o tamanho de um cartaz, como um grande atlas. O ttulo gravado na capa dizia: Evangelhos Gnsticos. Teabing abriu-o e Langdon e Sophie juntaram-se-lhe. Sophie viu que continha fotografias daquilo que parecia ser passagens ampliadas de documentos antigos: papiro esfarrapado com textos manuscritos. No reconheceu a lngua antiga, mas as pginas contguas continham tradues impressas em letra de forma.
      - So fotocpias do Nag Hammadi e dos Manuscritos do Mar Morto que referi h pouco - disse Teabing. - Os mais antigos registrros cristos. No condizem com os evangelhos que aparecem na Bblia, o que  extremamente perturbador. - Folheando as pginas mais para a frente, apontou para uma passagem. - O Evangelho de Filipe  sempre um bom lugar para se comear.
      Sophie leu a passagem:
      E a companheira do Salvador  Maria Madalena. Cristo amava-a mais do que a todos os discpulos e costumava beij-la muitas vezes na boca. Os outros discpulos sentiam-se ofendidos por isto e expressavam a sua desaprovao. Perguntavam-lhe: 
      Porque  que a amas mais do que a todos ns?
      As palavras surpreenderam Sophie, mas no lhe pareceram de modo algum conclusivas.
      - No diz aqui nada a respeito de casamento.
      - Au contraire. - Teabing sorriu, apontando para a primeira linha. - Como qualquer estudioso do aramaico lhe dir, a palavra companheira, naquele tempo, significava literalmente esposa.
      Langdon corroborou com um aceno de cabea.
      Sophie voltou a ler a primeira linha. E a companheira do Salvador  Maria Madalena.
      Teabing voltou a folhear o livro, apontando vrias outras passagens que, para espanto de Sophie, sugeriam claramente que Madalena e Jesus partilhavam uma relao romntica. Ao ler aqueles textos, recordou o irado padre que batera  porta do av quando ela era uma colegial.
      -  aqui que mora Jacques Saunire? - perguntou o padre, fulminando com o olhar a jovem Sophie quando ela abriu a porta.
      - Quero falar com ele a respeito deste editorial que escreveu! E o padre agitou um jornal.
      Sophie foi chamar o av e os dois homens desapareceram no escritrio e fecharam a porta. O meu av escreveu qualquer coisa no jornal? Sophie correu imediatamente para a cozinha e folheou o jornal da manh. Encontrou o nome do av num artigo publicado na segunda pgina. Leu-o. No compreendeu tudo o que era ali dito, mas parecia que o governo francs, cedendo s presses dos padres, proibira um filme americano chamado A ltima Tentao de Cristo, que era a respeito de Jesus ter relaes sexuais com uma senhora chamada Maria Madalena. O av dizia que a Igreja era arrogante e fizera mal em proibir o filme.
      No admira que o padre esteja zangado, pensou Sophie.
      -  pornografia! Sacrilgio! - gritou o padre, emergindo do escritrio e avanando furiosamente para a porta da rua. - Como  que pode avalizar uma coisa destas? Este americano, este Martin Scorsese,  um blasfemo, e a Igreja no lhe permitir um plpito na Frana! - E o padre bateu com a porta ao sair.
      Quando o av entrou na cozinha e viu Sophie com o jornal, franziu o sobrolho.
      - Voc rpida - observou.
      - Acha que Jesus Cristo tinha uma namorada?  perguntou ela.
      - No, querida, s disse que a Igreja no devia ser autorizada a dizer-nos o que podemos ou no podemos pensar.
      - Jesus tinha uma namorada?
      O av ficou silencioso por um longo momento.
      - Seria assim to mau se tivesse?
      Sophie considerou o caso e encolheu os ombros.
      - Por mim, no me importava.
      Sir Leigh Teabing continuava a falar:
      - No vou aborrec-la com todas as referncias  unio entre Jesus e Madalena. O tema tem sido explorado ad nauseam pelos historiadores modernos. Gostaria, no entanto, de fazer notar o seguinte. - Apontou para outra passagem. -  do Evangelho de Maria Madalena.
      Sophie nem sequer sabia que havia um evangelho de Maria Madalena. Leu o texto:
      E Pedro perguntou:  verdade que o Salvador falou com uma mulher sem nos dar conhecimento? Teremos agora de voltar-nos para ela e escutar o que diz? Preferiu-a a ns?
      E Levi respondeu: Pedro, sempre foste um exaltado. Agora vejo-te a combater esta mulher como se ela fosse um adversrio. Se o Salvador a achou digna, quem s tu para rejeit-la? Certamente o Salvador conhece-a muito bem. Por isso a amou mais do que a ns.
      - A mulher de que esto falando  Maria Madalena - explicou Teabing. - Pedro tem cimes dela.
      - Porque Jesus preferia Maria.
      - No s isso. O que estava em jogo era muito mais importante do que simples afetos. Neste ponto dos Evangelhos, Jesus suspeita de que em breve ser preso e crucificado. Por isso d a Madalena instrues sobre como conduzir a sua Igreja depois de ter desaparecido. Pedro expressa o seu descontentamento por ter de obedecer a uma mulher. Diria que este Pedro era bastante sexista.
      Sophie estava tentando no se perder.
      - Estamos falando de So Pedro. A rocha sobre a qual Jesus construiu a sua Igreja?
      - Ele mesmo, com uma pequena diferena. Segundo estes evangelhos no adulterados, no foi a Pedro que Jesus deu instrues sobre como estabelecer a Igreja Crist. Foi a Maria Madalena.
      Sophie olhou para ele.
      - Est me dizendo que a Igreja Crist devia ter sido continuada por uma mulher!
      - Era esse o plano. Jesus foi o primeiro dos feministas. Queria que o futuro da sua
      Igreja ficasse nas mos de Maria Madalena.
      - E Pedro no aprovava - interveio Langdon, apontando para A Ultima Ceia. - E aquele, ali. V-se que da Vinci sabia muito bem o que Pedro pensava de Maria Madalena.
      Mais uma vez, Sophie ficou sem palavras. Na pintura, Pedro inclinava-se ameaadoramente para Maria Madalena e passava a mo esticada pelo pescoo dela, como uma faca. O mesmo gesto que na Madonna dos Rochedos!
      - E aqui tambm - continuou Langdon, indicando o grupo de discpulos mais perto de Pedro. - No pressagia nada de bom, no ?
      Sophie concentrou a ateno e viu uma mo a emergir do grupo de discpulos.
      - Aquela mo empunha uma adaga?.
      - Exatamente. E, o que  ainda mais estranho, se contar os braos, verificar que essa mo pertence... a ningum.  uma mo sem corpo. Annima.
      Sophie comeava a sentir-se esmagada.
      - Peo desculpas, mas continuo a no ver como  que tudo isto faz de Maria Madalena o Santo Graal.
      - Ah! - exclamou Teabing uma vez mais. - A  que est a questo! - Voltou-se de novo para a mesa e tirou do monte um grande mapa, que desdobrou diante dela. Era uma espcie de elaborada genealogia - Poucas pessoas sabem que Maria Madalena, alm de ser o brao direito de Cristo, era j uma mulher poderosa.
      Sophie leu o ttulo da rvore genealgica.
      A TRIBO DE BENJAMIM
      - Maria Madalena est aqui - disse Teabing, apontando um lugar perto do topo da genealogia.
      Sophie ficou surpreendida.
      - Madalena pertencia  Casa de Benjamim?
      -  verdade - respondeu Teabing. - Maria Madalena era de descendncia real.
      - Mas sempre pensei que fosse pobre.
      Teabing abanou a cabea.
      - Madalena foi apresentada como prostituta com o objetivo de esconder as provas das suas poderosas ligaes familiares.
      Sophie deu por si a olhar para Langdon, que mais uma vez corroborou. Voltou-se de novo para Teabing.
      - Mas que diferena fazia  Igreja primitiva que Maria Madalena tivesse sangue real?
      Teabing sorriu.
      - Minha querida, no era o sangue real de Maria Madalena que tanto preocupava a Igreja, e sim o seu casamento com Cristo, que tambm tinha sangue real. Como sabe, Mateus diz-nos que Jesus pertencia  Casa de David. Um descendente de Salomo... rei dos Judeus. Ao casar com uma mulher da poderosa Casa de Benjamim, Jesus fundia duas linhagens reais, criando uma unio poltica com potencial para apresentar uma legtima pretenso ao trono e restaurar a linha de reis tal como vinha de Salomo.
      Sophie sentiu que ele estava quase chegando ao fulcro da questo. Teabing parecia agora extremamente excitado.
      - A lenda do Santo Graal  uma lenda a respeito de sangue real. Quando a lenda do Graal fala do clice que conteve o sangue de Cristo..., est, na realidade, falando de Maria Madalena... o tero feminino que conteve a linhagem real de Jesus.
      As palavras pareceram ecoar nas paredes do salo de baile antes que o crebro de Sophie as registrasse. Maria Madalena conteve a linhagem real de Jesus Cristo?
      - Mas como podia Cristo ter uma linhagem real a menos...? Fez uma pausa e olhou para Langdon.
      Langdon sorriu-lhe docemente.
      - A menos que tivessem um filho.
      Sophie ficou petrificada.
      - Veja! - proclamou Teabing - a maior operao de encobrimento de toda a Histria! Jesus no s era casado, como tambm era pai. Minha querida, Maria Madalena era o Vaso Sagrado. Era o clice que conteve o sangue real de Jesus. Foi o tero que gerou a linhagem, e a vinha de onde nasceu o fruto sagrado!
      Sophie sentiu os plos dos braos eriarem-se-lhe.
      - Mas como poderia um segredo dessa importncia permanecer escondido durante todos estes anos?
      - Cus! - exclamou Teabing. - Esteve tudo menos escondido! A linhagem real de Jesus Cristo est na origem da mais duradoura lenda de todos os tempos: o Santo Graal. A histria de Madalena tem sido proclamada do alto dos telhados h sculos atravs de todo o gnero de metforas e em todas as lnguas. Est em todo o lado, para quem tenha os olhos abertos.
      - E os documentos Sangreal? - perguntou Sophie. - Contm alegadamente provas de que Jesus teve uma linhagem real?
      - Sim.
      - Ento, toda a lenda do Santo Graal tem a ver com sangue real?
      - Muito literalmente - respondeu Teabing. - A palavra Sangreal deriva de San Greal... Santo Graal. Mas na sua forma mais antiga, a palavra Sangreal dividia-se de maneira diferente. - Teabing rabiscou num pedao de papel, que lhe estendeu.
      Sophie leu o que ele tinha escrito:
      Sang Real
      Reconheceu imediatamente a traduo.
      Sang Real significava literalmente Sangue Real.
      
      
      
      CAPTULO CINQUENTA E NOVE
      
      
      O recepcionista instalado no trio de entrada do quartel-general da Opus Dei em Nova Iorque ficou surpreendido ao ouvir pelo telefone a voz do bispo Aringarosa.
      - Boa noite, Eminncia.
      - Alguma mensagem para mim? - perguntou o bispo, parecendo invulgarmente ansioso.
      - Sim, Eminncia. Ainda bem que telefonou. No consegui apanh-lo no seu apartamento. Teve uma mensagem telefnica urgente h cerca de uma hora.
      - Sim? - Aringarosa pareceu aliviado pela notcia. - A pessoa que telefonou deixou algum nome?
      - No, Eminncia, apenas um nmero. - E o recepcionista repetiu o nmero.
      - Prefixo trinta e trs?  Frana, no ?
      - Exato, Eminncia. Paris. O senhor que telefonou disse que era de importncia crucial que o contactasse imediatamente.
      - Obrigado. Tenho estado  espera desse telefonema - disse, Aringarosa, e desligou imediatamente.
      Enquanto pousava o auscultador, o recepcionista perguntou a si mesmo por que razo a ligao parecera to ruim. O horrio do bispo Aringarosa mostrava-o em Nova Iorque nesse fim-de-semana, mas parecera estar a meio mundo de distncia. O homem encolheu os ombros. O bispo Aringarosa andava comportando-se de uma maneira estranha havia j vrios meses.
      O meu celular deve ter estado sem recepo, pensou Aringarosa enquanto o Fiat se aproximava da sada do aeroporto Ciampino, reservado a vos charter, em Roma. O Professor esteve tentando contactar-me. Apesar de preocupado por ter perdido a chamada, o fato de o Professor se sentir suficientemente confiante para ligar diretamente para o quartel-general da Opus Dei em Nova Iorque encorajava-o. As coisas devem ter corrido bem em Paris esta noite.
      Marcou o nmero que lhe tinha sido dado, sentindo a excitao de saber que muito em breve estaria em Paris. Chegarei l antes da madrugada. Um pequeno jato alugado esperava-o para o curto vo at a Frana. As companhias comerciais no eram uma opo quela hora, sobretudo considerando o contedo da maleta.
      Ouviu o toque de chamada.
      - Diretion Centrale Police Judiciaire - disse uma voz de mulher.
      Aringarosa hesitou. Aquilo era inesperado.
      - Ah, sim... Pediram-me para ligar para este nmero?
      - Qui tes-vous? - perguntou a mulher. - O seu nome, por favor?
      Aringarosa no sabia muito bem se devia ou no fornecer esta informao. A Polcia Judiciria francesa?
      - O seu nome, monsieurt - insistiu a mulher.
      - Bispo Manuel Aringarosa.
      - Un moment. - Houve um clique na linha.
      Ao cabo de um longo momento, uma voz de homem, spera e preocupada.
      - Eminncia, ainda bem que finalmente consigo contact-lo. Eu e o senhor temos muito que discutir.
      
      
      
      CAPTULO SESSENTA
      
      
      Sangreal... Sang Real... San Greal... Sangue Real... Santo Gral.
      Estava tudo interligado.
      O Santo Graal  Maria Madalena... a me da linhagem real de Jesus Cristo.
      Sophie sentiu uma nova onda de desorientao submergi-la, ali de p no antigo salo de baile, olhando para Robert Langdon. Quantas mais peas Langdon e Teabing punham em cima da mesa, mais imprevisvel o puzzle se tornava.
      - Como v, minha querida - disse Teabing, coxeando at uma das estantes -, Leonardo no  o nico que tem tentado dizer ao mundo a verdade a respeito do Santo Graal. A linhagem real de Cristo tem sido estudada em detalhes por dezenas de historiadores. - Passou o dedo por uma fila de vrias dzias de livros.
      Sophie inclinou a cabea e leu alguns dos ttulos:
      A REVELAO DOS TEMPLRIOS:
      Guardies Secretos da Verdadeira Identidade de Cristo
      A MULHER com A JARRA DE ALABASTRO.
      Maria Madalena e o Santo Graal
      A DEUSA NOS EVANGELHOS
      Reclamando o Sagrado Feminino
      - Este , talvez, o mais conhecido de todos - disse Teabing, tirando um j muito usado livro encadernado do monte e estendendo-o. Tinha escrito na capa.
      SANTO SANGUE, SANTO GRAAL
      O Best-seller Internacionalmente Aclamado
      Sophie ergueu os olhos.
      - Um best-seller internacional? Nunca ouvi falar dele.
      - Era muito nova. Este livro causou enorme polmica nos anos 80. Em minha opinio, os autores fazem na sua anlise algumas conjecturas pouco sustentadas, mas a premissa fundamental  slida, e cabe-lhes o mrito de terem finalmente trazido para a ribalta a idia de linhagem de Cristo.
      - Qual foi a reaco da Igreja?
      - Escandalizada, claro. Mas j era de esperar. Trata-se, Afinal, de um segredo que o Vaticano tinha tentado enterrar no sculo IV. Em parte, foi essa a inteno das cruzadas. Reunir e destruir informao. A ameaa que Maria Madalena representava para os homens da Igreja primitiva era potencialmente ruinosa. Era no s a mulher a quem Cristo confiara a misso de criar a sua Igreja, como tambm tinha provas fsicas de que a recm-proclamada divindade da Igreja gerara um linhagem mortal. Para se proteger de Maria Madalena, a Igreja perpetuou a sua imagem como meretriz e escondeu as provas do casamento de Cristo com ela, despoletando deste modo quaisquer potenciais afirmaes de que Cristo deixara descendncia e era um profeta mortal.
      Sophie olhou para Langdon, que assentiu.
      - Sophie, as provas histricas que apoiam tudo isto so substanciais.
      - Admito - continuou Teabing - que estas afirmaes so assustadoras, mas tem de compreender que a Igreja tinha poderosas motivaes para promover um encobrimento desta amplitude. Nunca teria conseguido sobreviver ao conhecimento pblico de que Cristo deixara descendncia. Um filho de Jesus minaria a no crucial divindade de Cristo, e logo da Igreja Crist, que se declarara o nico vaso atravs do qual a humanidade podia aceder ao divino e obter entrada no reino dos cus.
      - A rosa de cinco ptalas - disse Sophie, apontando subitamente para a lombada de um dos livros de Teabing. Exatamente o mesmo desenho que est embutido na caixa de roseira.
      Teabing olhou para Langdon e sorriu.
      - Tem bom olho. - Voltou-se de novo para Sophie. -  o smbolo do Priorado para o Graal. Maria Madalena. Porque o seu nome era proibido pela Igreja, Maria Madalena tornou-se secretamente conhecida por muitos pseudnimos... o Clice, o Santo Graal e a Rosa. - Fez uma pausa. - A Rosa tem ligaes com o pentculo de Vnus e com a rosados-dos-ventos da bssola. A propsito, a palavra rose  idntica em francs, ingls, alemo e em muitas outras lnguas.
      - Rose - acrescentou Langdon -  tambm o anagrama de Eros, o deus grego do amor sexual.
      Sophie lanou-lhe um olhar surpreso, e Teabing prosseguiu:
      - A rosa sempre foi o principal smbolo da sexualidade feminina. Nos primitivos cultos da deusa, as cinco ptalas representavam os cinco estdios da vida feminina: nascimento, menstruao, maternidade, menopausa e morte. Nos tempos modernos, as ligaes da rosa  feminilidade so consideradas mais visuais. - Olhou para Robert. - Talvez o simbologista possa explicar?
      Robert hesitou. Demasiado tempo.
      - Oh, cus! - bufou Teabing. - Vocs, os Americanos, so to pudicos. - Olhou para Sophie. - Aquilo que tanto atrapalha o Robert  o fato da rosa desabrochada fazer lembrar o rgo genital feminino, a flor sublime atravs da qual toda a humanidade chega a este mundo. E se alguma vez viu um quadro de Georgia OKeeffe, sabe exatamente do que estou falando.
      - A questo aqui - interveio Langdon, apontando para a estante -  que todos estes livros substanciam a mesma afirmao histrica.
      - Que Jesus era pai - disse Sophie, ainda insegura.
      - Sim - corroborou Teabing -, e que Maria Madalena foi o tero que conteve a sua linhagem real. Ainda hoje, o Priorado de Sio continua a venerar Maria Madalena como a Deusa, o Santo Graal, a Rosa e a Me Divina.
      O ritual a que assistira na caverna voltou a passar como um relmpago pelo esprito de Sophie.
      - De acordo com os ensinamentos do Priorado - continuou Teabing, - Maria Madalena estava grvida na altura da crucifixo.
      Para garantir a segurana do filho ainda no nascido de Jesus Cristo no teve outro remdio seno fugir da Terra Santa. Com a ajuda do tio de Jesus, Jos de Arimateia, chegou a Frana, na altura conhecida como Glia, onde encontrou um refgio seguro entre a comunidade judaica. Foi aqui, em Frana, que deu  luz uma filha. Que se chamou Sara.
      Sophie ergueu vivamente a cabea.
      - At sabem o nome da criana?
      - Sabem muito mais do que isso. As vidas de Madalena e de Sara foram
      escrupulosamente registradas pelos seus protetores judeus. No esquea que a filha de Madalena pertencia  linhagem dos reis hebraicos: David e Salomo. Por este motivo, os judeus da Glia consideravam-na um membro sagrado da realeza e reverenciavam-na como progenitora de uma linhagem real. Inmeros eruditos dessa poca registraram a estada de Madalena em Frana, incluindo o nascimento de Sara e a subsequente rvore genealgica.
      Sophie estava estupefata.
      - H uma rvore genealgica de Jesus Cristo?
      - Sem dvida. Que  considerada uma das pedras basilares dos documentos Sangreal. Uma genealogia completa dos primeiros descendentes de Cristo.
      - Mas para que serve uma genealogia documentada da linhagem de Cristo? - perguntou Sophie. - No constitui prova. Os historiadores no tm qualquer possibilidade de confirmar-lhe a autenticidade.
      Teabing riu.
      - Exatamente a mesma que tm de confirmar a autenticidade da Bblia.
      - Querendo com isso dizer...?
      - Querendo com isto dizer que a Histria  sempre escrita pelos vencedores. Quando duas culturas se chocam, a que perde e obliterada, e a que vence escreve os livros de Histria... livros que exaltam a sua prpria causa e menosprezam a do inimigo derrotado. Como Napoleo certa vez disse, O que  a Histrias seno uma rbula em relao  qual todos esto de acordo? - Sorriu.  Mas, pela sua prpria natureza, a Histria  sempre um relato unilateral.
      Sophie nunca tinha pensado no assunto naqueles termos.
      - Os documentos Sangreal contam simplesmente o outro lado da histria de Cristo. No fim, em que lado cada um acredita acaba por ser uma questo de f e de explorao pessoal, mas pelo menos a informao sobreviveu. Os documentos Sangreal incluem dezenas de milhares de pginas de informao. Testemunhas oculares do tesouro Sangreal dizem-nos que era transportado em quatro grandes bas. Pensa-se que nesses bas se encontram os Documentos Puristas... milhares de pginas de documentos anteriores a Constantino, intocados, escritos pelos primeiros seguidores de Cristo, que o reverenciam como mestre e profeta inteiramente humano. Desse tesouro faria igualmente parte, diz-se, o lendrio Documento Q... um manuscrito em cuja existncia at o Vaticano admite acreditar. Alegadamente,  um livro que contm os ensinamentos de Jesus, talvez at escrito pelo seu prprio punho.
      - Escrito pelo prprio Cristo? - exclamou Sophie
      - Evidentemente - respondeu Teabing. - Porque no haveria Jesus de manter um registro do seu prprio ministrio? A maior parte das pessoas fazia-o, naquele tempo. Outro documento explosivo que se acredita pertencer ao tesouro  um manuscrito chamado O Dirio de Madalena... o relato pessoal de Maria Madalena do seu relacionamento com Cristo, da crucifixo e da sua estada em Frana. 
      Sophie ficou silenciosa por um longo momento.
      - E esses quatro bas de documentos eram o tesouro que os Templrios encontraram nas runas do Templo de Salomo?
      - Exatamente. Os documentos que tornaram os Cavaleiros to poderosos. Os documentos que tm sido objeto de inmeras demandas do Graal ao longo da Histria.
      - Mas disse que o Santo Graal era Maria Madalena. Se as pessoas andam  procura de documentos, porque lhe chama uma demanda do Santo Graal?
      Teabing olhou para ela, e a expresso suavizou-se.
      - Porque o esconderijo do Santo Graal inclui um sarcfago. L fora, o vento uivava nas rvores.
      - A demanda do Santo Graal  literalmente uma demanda para ajoelhar diante dos ossos de Maria Madalena - continuou Teabing, num tom agora mais calmo. - Uma jornada para rezar aos ps a ostracizada, do sagrado feminino perdido.
      Sophie sentiu um espanto inesperado.
      - O esconderijo do Santo Graal ... um tmulo!
      Os olhos cor de avel de Teabing adquiriram um ar sonhador.
      - Sim, um tmulo que contm o corpo de Maria Madalena e os documentos que contam a verdadeira histria da sua vida. No fundo, a demanda do Santo Graal sempre foi uma busca de Madalena... a rainha despojada, sepultada com as provas do legtimo direito da sua famlia ao poder.
      Sophie aguardou um instante enquanto Teabing se recompunha. Havia tanta coisa a respeito do av que continuava a no fazer sentido.
      - E, durante todos estes anos, os membros do Priorado tm cumprido a misso de proteger o Sangreal e o Tmulo de Maria Madalena?
      - Sim, mas a irmandade tinha tambm um outro dever, ainda mais importante: proteger a prpria linhagem de Cristo. Que estava em perigo constante. A Igreja primitiva receava que se fosse permitido a essa linhagem desenvolver-se, o segredo de Jesus e Madalena acabaria eventualmente por vir  tona e pr em causa a doutrina catlica fundamental: a de um Messias divino que nunca casou nem nunca teve uma unio sexual. - Fez uma pausa. - Apesar disso, a linha de Cristo cresceu secretamente na Frana at que, no sculo V, num golpe de ousadia, se misturou pelo casamento com o sangue real francs e deu origem a uma linhagem que conhecemos como dos Merovngios.
      A notcia surpreendeu Sophie. Merovngios era uma palavra que todos os estudantes franceses conheciam.
      - Os Merovngios fundaram Paris.
      - Exato. Essa  uma das razes por que a lenda do Graal  to rica na Frana. Muitas das demandas do Graal levadas a cabo pelo Vaticano neste pas foram na realidade misses secretas que tinham como objetivo eliminar membros da linhagem real. J ouviu falar do rei Dagoberto?
      Sophie recordava vagamente o nome de um sanguinolento episdio ouvido numa aula de Histria.
      - Dagoberto foi um rei merovngio, no foi? Apunhalado no olho enquanto dormia?
      - Exato. Assassinado pelo Vaticano em conluio com Pepino de Heristal. Em finais do sculo VII. Com a morte de Dagoberto, a linhagem merovngia quase se extinguiu. Felizmente, Sigisberto, filho de Dagoberto, escapou aos assassinos e manteve a linhagem... que mais tarde incluiu Godofredo de Bulho, fundador do Priorado de Sio.
      - O mesmo Godofredo - interps Langdon - que ordenou aos Cavaleiros do Templo que recuperassem os documentos Sangreal das runas do Templo de Salomo e deste modo forneceu aos Merovngios provas das suas ligaes hereditrias a Jesus Cristo.
      Teabing assentiu, deixando escapar um fundo suspiro.
      - Os deveres do moderno Priorado de Sio so esmagadores. Est encarregado de uma tripla tarefa. A irmandade tem de proteger os documentos Sangreal, tem de proteger o tmulo de Maria Madalena e, claro, tem de manter e proteger a linhagem de Cristo... os poucos membros da linha de sangue dos Merovngios que chegaram at aos tempos modernos.
      As palavras ficaram como que suspensas no espao enorme, e Sophie sentiu uma estranha vibrao, como se os seus ossos reverberassem com uma nova espcie de verdade. Descendentes de Jesus que sobreviveram at aos tempos modernos? Ouviu a voz do av murmurar-lhe uma vez mais ao ouvido. Princesa, tenho de dizer-te a verdade a respeito da tua famlia.
      Um arrepio percorreu-lhe a pele.
      Sangue real.
      No conseguia sequer imagin-lo.
      Princesa Sophie.
      - Sir Leigh? - A voz do mordomo crepitou no intercomunicador colocado na parede, e Sophie deu um salto. - Seria possvel vir  cozinha por um instante?
      A inoportuna intruso fez Teabing franzir o sobrolho. Aproximou-se do intercomunicador e apertou o boto.
      - Rmy, como sabe, estou ocupado com os meus convidados. se precisarmos de alguma coisa da cozinha, ns prprios trataremos disso. Obrigado e boa noite.
      - Preciso dar-lhe uma palavra antes de me deitar, Sir. Se tiver a bondade.
      Teabing resmungou e apertou o boto.
      - Curto e conciso, Rmy.
      -  uma questo que tem a ver com a casa, Sir. No creio que interesse aos convidados.
      Teabing fez um ar incrdulo.
      - E no pode esperar at de manh?
      - No, senhor. Tomo-lhe apenas um minuto.
      Teabing rolou os olhos nas rbitas, voltando-se para Langdon e para Sophie.
      - H momentos em que pergunto a mim mesmo quem serve quem.
      - Voltou a apertar o boto.  J vou Rmy. Quer que leve alguma coisa?
      - S libertao da opresso, senhor.
      - Rmy, sabe bem que o teu stake au poivre  a nica razo por que continua a trabalhar para mim.
      - Como no se cansa de me dizer, senhor.
      
      
      
      CAPTULO SESSENTA E UM
      
      
      Princesa Sophie.
      Sophie sentiu-se vazia por dentro enquanto ouvia o cliquetear das muletas de Teabing afastando-se pelo corredor. Aturdida, voltou-se para enfrentar Langdon no salo de baile deserto. Ele j estava abanando a cabea, como se pudesse ler-lhe os pensamentos.
      - No, Sophie - murmurou, procurando tranquiliz-la com o olhar. - A idia passou-me pela cabea quando soube que o seu av pertencia ao Priorado e voc me disse que ele queria lhe contar um segredo a respeito da sua famlia. Mas  impossvel. Langdon fez uma pausa. - Saunire no  um nome merovngio.
      Sophie no sabia muito bem se devia sentir-se aliviada ou desapontada. Horas antes, Langdon perguntara-lhe, de passagem, qual era o nome de solteira da me.
      Chauvel. A pergunta, que lhe parecera estranha, fazia agora sentido.
      - E Chauvel? - perguntou, ansiosa.
      Ele voltou abanando a cabea.
      - Lamento. Sei que responderia a algumas das suas perguntas. S restam duas descendncias diretas dos Merovngios. Os apelidos so Plantard e Saint-Clair. Ambas as famlias vivem escondidas, provavelmente protegidas pelo Priorado.
      Sophie repetiu silenciosamente os nomes para si mesma, e abanou a cabea. No havia ningum na famlia dela chamado Plantard ou Saint-Clair. Um refluxo de cansao parecia agora querer arrast-la. Percebeu que no estava mais perto de compreender a verdade que o av tinha querido revelar-lhe do que quando estivera no Louvre. Desejou que ele nunca tivesse falado da famlia, naquela tarde. Reabrira velhas feridas que continuavam to dolorosas como sempre. Morreram, Sophie. No vo voltar. Pensou na me cantando para ela adormecer, no pai carregando-a s costas, na av e no irmo mais novo sorrindo-lhe com aqueles ardentes olhos verdes Tudo isso lhe fora roubado. A nica coisa que lhe restara fora o av.
      E agora tambm ele partiu. E eu estou sozinha. Voltou-se em silncio para A Ultima Ceia e ficou olhando para os longos cabelos vermelhos e para os olhos tranquilos de Maria Madalena. Havia naqueles olhos qualquer coisa que refletia a perda de um ser amado. Tambm Sophie a sentia.
      - Robert? - chamou, em voz baixa.
      Ele aproximou-se.
      - Bem sei que o Leigh disse que a histria do Graal est por todo o lado  nossa volta, mas esta noite foi a primeira vez que ouvi falar de tudo isto.
      Langdon deu a impresso de querer pousar uma mo reconfortante no ombro dela, mas conteve-se.
      - J tinha ouvido a histria, Sophie. Todo mundo ouviu. S que as pessoas no percebem isso, quando a ouvem.
      - No compreendo.
      - A histria do Graal est por todo o lado, mas est escondida. Quando a Igreja proibiu que se falasse da banida Maria Madalena, a sua histria e importncia passaram a ter de ser transmitidas por canais mais discretos... canais que suportassem a metfora e o simbolismo.
      - Claro. As artes.
      Langdon apontou para a reproduo de A Ultima Ceia.
      - Um exemplo perfeito. Algumas das mais duradouras formas de arte, literatura e msica do nosso tempo contam secretamente a histria de Maria Madalena e de Jesus.
      Langdon falou-lhe rapidamente de obras de da Vinci, Botticelli, Poussin, Bernini, Mozart e Victor Hugo que falavam em murmrios do esforo feito para restaurar o sagrado feminino. Lendas persistentes, como a de Sir Gwain e do Cavaleiro Verde, do rei Artur, da Bela Adormecida, eram alegorias ao Graal. Nossa Senhora de Paris de Victor Hugo e A Flauta Mgica de Mozart estavam cheias de smbolos manicos e de segredos do Graal.
      - Quando abrimos os olhos para o Santo Graal - disse -, ns o vemos por todo o lado. Em quadros. Na msica. Em livros. At em desenhos animados, em parques temticos e em filmes populares.
      Mostrou-lhe o relgio Rato Mickey e contou-lhe como Walt Disney dedicara secretamente a sua vida a transmitir a histria do Graal s geraes futuras. Disney sempre fora exaltado como o Leonardo da Vinci dos tempos modernos. Ambos estavam geraes  frente das respectivas pocas, eram artistas excepcionalmente dotados, membros de sociedade secretas e, mais notavelmente, insaciveis brincalhes. Como Leonardo, Walt Disney adorava incluir mensagens escondidas e simbolismos na sua arte.
      Para o simbologista treinado, assistir a um dos primeiros filmes de Disney era como ser bombardeado por uma autntica barragem de aluses e metforas.
      A maior parte das mensagens de Disney tinha a ver com religio, mitos pagos e histrias da deusa subjugada. No foi por acaso que Disney recontou histrias como A Gata Borralheira, A Bela Adormecida e Branca de Neve - todas elas relacionadas com a encarcerao do sagrado feminino. Nem era preciso ter estudos de simbolismo para perceber que Branca de Neve - uma princesa que caa em desgraa depois de ter mordido uma ma envenenada era uma clara aluso  queda de Eva no Jardim do den. Ou que a princesa Aurora de A Bela Adormecida - que, sob o nome de cdigo de Rosa, as fadas escondiam nas profundezas da floresta para a protegerem das garras da bruxa m - era a histria do Graal contada s crianas.
      Apesar da sua imagem de grande corporao, a Disney continuava a contar elementos sabedores entre os seus empregados, e os seus artistas continuavam a divertir-se inserindo simbolismos escondidos nos produtos da empresa. Langdon nunca esqueceria o dia em que um dos seus alunos levara para a aula um DVD de O Rei Leo e parara o filme na imagem em que a palavra SEX  claramente visvel, formada por partculas de p flutuando no ar sobre a cabea de Simba. Embora Langdon suspeitasse que era mais provvel tratar-se de uma traquinice estudantil de algum desenhista do que de uma aluso erudita  sexualidade humana pag, aprendera a no subestimar o domnio da simbologia que a Disney demonstrava. A Pequena Sereia era uma fascinante tapearia de smbolos espirituais to especificamente relacionados com a deusa que no podia de modo algum tratar-se de uma coincidncia.
      Quando vira A Pequena Sereia pela primeira vez, Langdon no conseguira abafar uma exclamao de espanto ao verificar que o quadro na casa subaqutica de Ariel era nem mais nem menos do que A Madalena Arrependida do artista francs do sculo XVII Georges de La Tour - uma famosa homenagem  banida Madalena -, uma decorao adequada, considerando que o filme era uma colagem com noventa minutos de bvias referncias  santidade perdida de sis, Eva, Pisces, a deusa-peixe, e, repetidamente, Madalena. O nome da Pequena Sereia, Ariel, tinha poderosas ligaes ao sagrado feminino e, no Livro de Isaas, era sinnimo de Cidade Santa sitiada.  claro que os ondulantes cabelos vermelhos da sereiazinha tambm no podiam ser uma coincidncia.
      O cliquetear das muletas de Teabing aproximava-se pelo corredor, a um passo invulgarmente vivo. Quando o dono da casa entrou no estdio, a sua expresso era severa.
      -  melhor explicar-se, Robert - disse, friamente. - No foi honesto comigo.
      
      
      
      CAPTULO SESSENTA E DOIS
      
      
      - Estou sendo falsamente incriminado, Leigh - disse Langdon, tentando manter-se calmo. Voc me vonhece. Sabe que no matei ningum.
      O tom de Teabing no se suavizou:
      - Robert, a sua fotografia est na televiso, pelo amor de Deus. Sabia que era procurado pelas autoridades?
      - Sabia.
      - Ento abusou da minha confiana. Espanta-me que tenha tido o desplante de vir a minha casa e incitar-me a dissertar sobre o Graal para poder esconder-se da Polcia.
      - No matei ningum.
      - Jacques Saunire est morto e a Polcia diz que foi voc que o matou. - Teabing pareceu subitamente entristecido. - Um amigo to grande das artes...
      - Sir? - O mordomo tinha aparecido  porta do estdio, de braos cruzados atrs de Teabing. - Deseja que os ponha na rua?
      - Eu mesmo o fao. - Teabing coxeou at ao outro lado do estdio e abriu as portadas de uma ampla janela de sacada que dava Para um relvado natural. - Por favor, procurem o seu carro e vo embora.
      Sophie no se mexeu de onde estava.
      - Temos informaes sobre a Clef de Vote. A Chave de Abbada do Priorado.
      Teabing ficou olhando para ela durante vrios segundos, e ento sorriu desdenhosamente.
      - Uma tentativa desesperada. Robert sabe como eu a tenho procurado.
      - Ela est dizendo a verdade - interveio Langdon. - Foi por isso que viemos aqui esta noite. Para falar sobre a Chave de Abbada.
      O mordomo avanou um passo.
      - Saiam, ou terei de chamar as autoridades.
      - Leigh - sussurrou Langdon. - Sabemos onde est.
      Teabing pareceu ter um momentneo desequilbrio. Rmy avanava, rgido, pela sala.
      - Saiam imediatamente. Ou usarei da fora...
      - Rmy! - Teabing voltou-se vivamente para o mordomo. Desculpe-nos por um momento.
      O queixo de Rmy deu a impresso de cair.
      - Senhor? Sou forado a protestar. Estas pessoas so...
      - Eu cuido disto - disse Teabing, apontando para o corredor.
      Ao cabo de um instante de aturdido silncio, Rmy retirou-se, de cabea baixa como um co escorraado. A fresca brisa noturna entrava pelas portas abertas. Teabing voltou-se para Sophie e para Langdon, com uma expresso ainda desconfiada.
      -  melhor que isto seja bom. O que  que sabem a respeito da Chave de Abbada?
      Escondido na espessura dos arbustos fora do estdio de Teabing, Silas apertou a coronha da pistola e espiou atravs das portas de vidro. Apenas momentos antes, contornara a casa e vira Langdon e a mulher conversando no grande estdio. Antes que pudesse avanar, aparecera um homem de muletas, gritara com Langdon, abrira as portas e pedira aos dois que sassem, Ento, a mulher falou da Chave de Abbada, e tudo mudou. Os gritos transformaram-se em sussurros. A tenso desaparecera. E as portas tinham sido rapidamente fechadas.
      Agora, acocorado nas sombras, Silas espreitava atravs dos vidros. A Chave de Abbada est Em algum lugar dentro desta casa. Sentia-a. 
      Mantendo-se no escuro, aproximou-se muito lentamente, desejoso de ouvir o que estava sendo dito. Ia dar-lhes cinco minutos. Se no revelassem onde tinham escondido a Chave de Abbada, teria de entrar e convenc-los  fora.
      Dentro do estdio, Langdon sentia o espanto do seu anfitrio.
      - Gro-Mestre? - engasgou-se Teabing, olhando para Sophie. - Jacques Saunire?
      Sophie assentiu, vendo o choque nos olhos dele.
      - Mas como  que pode saber uma coisa dessas?
      - Jacques Saunire era meu av.
      Teabing recuou um passo, como se lhe tivessem batido, e olhou para Langdon, que assentiu com a cabea. Teabing voltou-se de novo para Sophie.
      - Menina Neveu, estou sem palavras. Se isto  verdade, ento lamento muito sinceramente a sua perda. Tenho de admitir que, para as minhas pesquisas, coligilistas de homens de Paris que me pareciam ser bons candidatos a estar envolvidos com o Priorado. Jacques Saunire fazia parte dessas listas, juntamente com muitos outros. Mas Gro-Mestre, voc diz? Quem imaginaria. - Ficou calado por um instante, e ento abanou a cabea. - Mas continua a no fazer sentido. Mesmo que o seu av fosse o Gro-Mestre do Priorado e tivesse criado com as suas prprias mos a Chave de Abbada, nunca lhe diria como encontr-la. A Chave de Abbada indica o caminho para o maior tesouro da irmandade. Neta ou no, no estava  altura de receber um tal conhecimento.
      - O senhor Saunire estava morrendo quando transmitiu as informaes  explicou Langdon. - No tinha muita escolha.
      - No precisava escolher - argumentou Teabing. - H trs senescais que tambm conhecem o segredo.  a que reside a beleza do sistema. Um deles ascender a Gro- Mestre e escolhero outro senescal, a quem revelaro o segredo.
      - Suponho que no viu o noticirio completo - disse Sophie. - Alm do meu av, trs outros destacados parisienses foram assassinados esta noite. Todos da mesma maneira. Todos parecem ter sido interrogados.
      Teabing deixou cair o queixo.
      - E est convencida de que eram...
      - Os senescais - completou Langdon.
      - Mas como? Era absolutamente impossvel a um assassino descobrir as identidades de todos os quatro membros do escalo superior do Priorado de Sio! Olhem para mim, ando investigando h dcadas, e no sei o nome de um nico membro do Priorado. Parece inconcebvel que todos os senescais e o Gro-Mestre pudessem ser descobertos e mortos em um s dia.
      - Duvido que a informao tenha sido recolhida em um s dia - disse Sophie. - Tem todo o ar de uma dcapitation bem planejada.  uma tcnica que usamos para combater os sindicatos do crime organizado. Quando a DCPJ quer atacar um dos grupos, senta-se, observa e escuta silenciosamente durante meses, identifica todos os principais jogadores, e quando avana, apanha-os todos ao mesmo tempo. Decapitao. Sem chefes, o grupo mergulha no caos e divulga novas informaes.  possvel que algum tenha vigiado atentamente o Priorado e ento dado o golpe, na esperana de que os membros do topo revelassem a localizao da Chave de Abbada.
      Teabing no parecia convencido.
      - Mas os irmos nunca falariam. Todos eles juram guardar segredo. Mesmo com risco da prpria vida.
      - Exatamente - disse Langdon. - Quero dizer, se nunca revelassem o segredo, e fossem todos mortos...
      Teabing deixou escapar uma exclamao.
      - A localizao da Chave de Abbada se perderia para sempre!
      - E com ela - completou Langdon - a localizao do Santo Graal.
      O corpo de Teabing pareceu vacilar sob o peso das palavras de Langdon. Ento, como se estivesse muito exausto para continuar de p mais um instante que fosse, deixou-se cair em uma cadeira e ficou olhando para a janela.
      Sophie aproximou-se e falou-lhe docemente:
      - Considerando a situao em que o meu av se encontrava, parece possvel que, em desespero de causa, tenha tentado passar o segredo a algum fora da irmandade. Algum em que julgasse poder confiar. Algum da famlia.
      Teabing estava plido.
      - Mas algum capaz de tal ataque... de descobrir tanta coisa a respeito da irmandade... - Fez uma pausa, irradiando um novo medo. - S pode tratar-se de uma fora. Este tipo de infiltrao s podia ter vindo do mais antigo inimigo do Priorado.
      Langdon ergueu os olhos.
      - A Igreja.
      - Quem mais? H sculos que Roma procura o Graal.
      Sophie estava ctica.
      - Acham que a Igreja matou o meu av?
      - No seria a primeira vez na Histria que a Igreja matava para se proteger - respondeu Teabing. - Os documentos que acompanham o Santo Graal so explosivos, e h muito que a Igreja quer destru-los.
      Langdon estava tendo dificuldade em aceitar a premissa de Teabing de que a Igreja era capaz de matar abertamente pessoas para obter aqueles documentos. Tendo conhecido o novo Papa e muitos dos cardeais, sabia que eram homens profundamente espirituais que nunca consentiriam com um assassnio. Fosse o que fosse que estivesse em jogo. Sophie era, aparentemente, da mesma opinio.
      - No ser possvel que os membros do Priorado tenham sido mortos por algum exterior  Igreja? Algum que no compreenda o que o Graal realmente ? A Taa de Cristo seria, afinal, um tesouro muito aliciante. Certamente que j houve caadores de tesouros que mataram por muito menos.
      - A experincia me diz - declarou Teabing - que as pessoas so capazes de ir muito mais longe por causa daquilo que temem do que por causa daquilo que desejam. 
      Detesto algum desespero neste ataque ao Priorado.
      - O argumento  paradoxal - contrariou Langdon. - Porque haveriam os membros do clero catlico de assassinar membros do Priorado em uma tentativa de obter e destruir documentos que, de todos os modos, consideram falsos testemunhos?
      Teabing deixou escapar um risinho.
      - As torres de marfim de Harvard amoleceram-no, Robert. Sim, o clero de Roma foi abenoado com uma f poderosa, e, por causa disso, as suas crenas conseguem suportar qualquer tormenta, incluindo documentos que contradizem tudo o que consideram sagrado. Mas, e o resto do mundo? E aqueles que no foram abenoados com uma certeza to absoluta? E aqueles que olham para a crueldade de que o mundo  hoje palco e perguntam, onde est Deus? Os que olham para os escndalos da Igreja e perguntam, quem so estes homens que afirmam dizer a verdade a respeito de Cristo e no entanto mentem para esconder o abuso sexual de crianas praticado pelos seus sacerdotes? - Teabing fez uma pausa. - O que acontece a essas pessoas, Robert, se vm a pblico provas cientficas convincentes de que a verso da Igreja da histria de Cristo  falsa e que a maior histria contada  na verdade a maior histria impingida?.
      Langdon no respondeu.
      - Eu digo-lhe o que acontece se esses documentos so revelados  continuou Teabing. - O Vaticano enfrenta uma crise de f sem precedentes nos seus dois mil anos de histria.
      - Mas se  a Igreja a responsvel por este ataque - perguntou Sophie, ao cabo de um longo silncio -, porque foi que s agiram agora? Passados todos estes anos? O Priorado mantm os documentos Sangreal escondidos. No representam qualquer ameaa direta para a Igreja.
      Teabing deixou escapar um ominoso suspiro e lanou um olhar a Langdon.
      - Robert, assumo que est a par da misso final do Priorado. O pensamento fez Langdon conter a respirao.
      - Estou - disse.
      - Menina Neveu - continuou Teabing -, h muitos anos que a Igreja e o Priorado mantm um entendimento tcito. Ou seja, a Igreja no ataca o Priorado, e o Priorado conserva os documentos Sangreal escondidos. - Fez uma pausa. - No entanto, parte da histria do Priorado sempre incluiu um plano para desvendar o segredo. A irmandade planeja, em uma data especfica, quebrar o silncio e consumar o seu triunfo final mostrando ao mundo os documentos Sangreal e gritando a verdadeira histria de Jesus Cristo do alto das montanhas.
      Sophie ficou olhando para Teabing em silncio. Por fim, tambm ela se sentou.
      - E pensa que essa data se aproxima? E que a Igreja sabe disso?
      - Uma especulao - respondeu Teabing. - Mas que proporcionaria  Igreja a motivao para desencadear um ataque desesperado na tentativa de encontrar os documentos antes que seja muito tarde.
      Langdon teve a desagradvel sensao de que aquilo que Teabing dizia fazia todo o sentido.
      - Acha que a Igreja seria realmente capaz de descobrir a data do Priorado?
      - Porque no?... Se estamos assumindo que descobriu as identidades dos membros do Priorado, ento seria seguramente capaz de descobrir-lhes os planos. E mesmo que no conheam a data exata,  possvel que estejam deixando-se levar pelas suas prprias supersties.
      - Supersties? - surpreendeu-se Sophie.
      - Em termos de profecia - explicou Teabing -, estamos atualmente em uma poca de enorme mudana. O milnio acaba de passar, e com ele terminaram os dois mil anos da idade astrolgica de Pisces, o peixe, que  tambm o signo de Jesus. Como qualquer simbologista astrolgico lhe dir, o ideal pisceano acredita que tem de haver um poder superior dizendo ao homem o que fazer, uma vez que ele  incapaz de pensar pela sua prpria cabea. Foi, por isso, uma era de religio fervorosa. Agora, no entanto, estamos entrando na Idade de Aquarius, o carregador de gua, cujos ideais afirmam que o homem aprender a verdade e ser capaz de pensar por si mesmo. A mudana ideolgica  enorme, e est acontecendo neste preciso momento.
      Langdon sentiu um arrepio. Nunca vira grande interesse ou credibilidade na profecia astrolgica, mas sabia haver na Igreja quem a seguisse de muito perto.
      - A Igreja chama a este perodo de transio o Fim dos Dias.
      Sophie fez um ar ctico.
      - Como no fim do mundo? O Apocalipse?
      - No - respondeu Langdon. - Esse  um erro bastante comum. Muitas religies falam do Fim dos Dias. No se refere ao fim do mundo, e sim ao fim da Idade atual, a dos Peixes, que comeou no momento do nascimento de Cristo, cobriu dois mil anos e acabou com a passagem do milnio. Agora que entramos na Idade de Aqurio, o Fim dos Dias chegou.
      - Numerosos historiadores do Graal - acrescentou Teabing acreditam que se o Priorado est de fato planejando revelar a verdade, este ponto da Histria seria uma altura simbolicamente adequada. A maior parte dos acadmicos do Priorado, incluindo eu prprio, pensava que a revelao da irmandade coincidiria precisamente com a passagem do milnio. Obviamente, no coincidiu  certo que o calendrio romano no encaixa precisamente com os marcadores astrolgicos, pelo que h vrias reas cinzentas na previso. Se a Igreja possui agora informaes precisas de que a data se aproxima ou se esto apenas ficando nervosos por causa da previso astrolgica,  algo que no sei dizer. Seja como for, no tem importncia. Qualquer dos cenrios explica por que razo a Igreja pode ter decidido lanar um ataque preventivo contra o Priorado. - Franziu a testa. - E, acredite, se a Igreja descobrir o Santo Graal, o destruir. Os documentos e as relquias da abenoada Maria Madalena. Os olhos dele ensombreceram. - Ento, minha querida, com o desaparecimento do Santo Graal, deixar de haver provas. A Igreja ganhar a sua luta milenar para reescrever a Histria. O passado ser apagado para sempre.
      Lentamente, Sophie tirou do bolso do camisolo a chave cruciforme e estendeu-a a Teabing. Teabing a pegou e examinou.
      - Cus, o selo do Priorado. Onde arranjou isto?
      - O meu av me deu esta noite, antes de morrer.
      Teabing passou os dedos pela chave.
      - A chave de uma igreja?
      Sophie inspirou fundo.
      - Essa chave d acesso  Chave de Abbada.
      Teabing ergueu vivamente a cabea.
      - Impossvel! Qual foi a igreja que falhei? Visitei todas as que h de Frana!
      - No est em uma igreja - disse Sophie. - Est em um banco depositrio suo.
      O ar de excitao de Teabing desvaneceu-se.
      - A Chave de Abbada est em um banco?
      - Em um cofre - acrescentou Langdon.
      - No cofre de um banco? - Teabing abanou violentamente a cabea. -  impossvel. A Chave de Abbada  suposta estar escondida sob o signo da Rosa.
      - E est - disse Langdon. - Estava guardada em uma caixa de madeira de roseira com uma rosa de cinco ptalas embutida na tampa.
      Teabing estava siderado.
      - Vocs viram a Chave de Abbada?
      Sophie assentiu.
      - Fomos ao banco.
      Teabing aproximou-se deles, com os olhos tresloucados de medo.
      - Meus amigos, temos de fazer qualquer coisa. A Chave de Abbada est em perigo! Temos o dever de proteg-la. E se h outras chaves? Talvez roubadas dos senescais assassinados? Se a Igreja consegue chegar ao banco, como vocs...
      - Chegaro muito tarde - disse Sophie. - Tiramos de l a Chave de Abbada.
      - O qu? Tiraram a Chave de Abbada do seu esconderijo?
      - No se preocupe - interveio Langdon. - A Chave de Abbada est bem escondida.
      - Extremamente bem escondida, espero eu!
      - Na verdade - continuou Langdon, incapaz de reprimir um sorriso -, tudo depende da frequncia com que manda limpar o p debaixo do div.
      L fora, o vento refrescara, agitando o hbito de Silas, que continuava acocorado o mais perto possvel das portas da janela de sacada. Embora no tivesse conseguido ouvir a maior parte da conversa, as palavras: Chave de Abbada tinham passado atravs dos vidros em diversas ocasies.
      Est l dentro.
      Tinha as palavras do Professor frescas na memria. Entre em Chteau Villette.
      Apodera-se da Chave de Abbada. No machuque ningum.
      Agora, Langdon e os outros tinham mudado subitamente para outra sala, apagando as luzes do estdio ao sarem. Sentindo-se como uma pantera perseguindo sua presa. Silas aproximou-se das portas de vidro. No estavam trancadas. Deslizou para o interior e voltou a fech-las sem rudo. Ouvia vozes abafadas vindas de uma outra diviso. Empunhou a pistola, baixou a trava de segurana e avanou cautelosamente pelo corredor.
      
      
      CAPTULO SESSENTA E TRS
      
      
      Sozinho junto ao incio do caminho de acesso  casa de Leigh Teabing, o tenente Collet olhava para a vasta manso isolada. Escuro. Boa cobertura no terreno. Viu a sua  meia dzia de agentes espalharem-se em silncio ao longo do gradeamento. Podiam transp-lo e cercar a casa em questo de minutos. Langdon no podia ter escolhido um melhor lugar para um assalto de surpresa.
      Collet preparava-se para ligar para Fache quando, finalmente, o seu celular tocou. Fache parecia quase to contente com o rumo dos acontecimentos quanto Collet imaginara.
      - Porque no me disse que tnhamos uma pista para chegar  Langdon?
      - Estava ocupado com uma chamada, e eu...
      - Onde est exatamente, tenente Collet?
      Collet deu-lhe o endereo.
      - A propriedade pertence a um cidado britnico chamado Leigh Teabing. Langdon percorreu uma distncia considervel para chegar at aqui, e o veculo est no interior, sem sinais de entrada forada, de modo que h boas possibilidades de ele conhecer o ocupante.
      - Estou a caminho - disse Fache. - No faa nada. Vou tratar disto pessoalmente.
      O queixo de Collet caiu.
      - Mas, capito, est a vinte minutos de distncia! Podemos agir imediatamente.
      Tenho-o vigiado, disponho de oito homens. Quatro tm espingardas e os outros pistolas.
      - Espere por mim.
      - Capito, e se Langdon tem um refm l dentro? Se nos descobre e resolve fugir a p? Temos de agir j. Os meus homens esto em posio e prontos para avanar.
      - Tenente Collet, vai esperar pela minha chegada antes de iniciar qualquer ao.  uma ordem. - E Fache cortou a ligao.
      Aturdido, o tenente Collet desligou o celular. Porque raio  que Fache quer que eu espere? Collet sabia a resposta. Fache, apesar de famoso pelo seu instinto, era notrio pelo seu orgulho. Quer os louros da deteno. Depois de ter colocado o rosto do americano em todas as televises, tencionava assegurar-se de que a sua prpria disporia do mesmo tempo de exposio. A misso de Collet era apenas aguentar o forte at o chefe aparecer para salvar a situao.
      Logo a seguir, porm, ocorreu-lhe uma segunda explicao possvel para o adiamento. Controle de danos. A hesitao em deter um fugitivo s acontecia quando surgiam dvidas quanto  culpa do suspeito. Estar Fache pouco seguro de que Langdon seja o homem certo? A perspectiva era assustadora. S faltara ao capito Fache fazer o pino para deter Langdon naquela noite: surveillance cache, Interpol, e agora televiso.
      Nem sequer o grande Bezu Fache sobreviveria ao terremoto poltico se, por engano, tivesse exibido o rosto de um eminente cidado americano em todas as televises, acusando-o de assassnio. Se Fache tivesse percebido que cometera um erro, faria todo o sentido ordenar, que ficasse quieto. A ltima coisa de que precisava era de ter um subordinado seu invadindo a casa de um cidado britnico e prendendo Langdon.
      Alm disso, percebeu Collet, se Langdon fosse inocente, isso explicaria um dos mais estranhos paradoxos daquele caso: que razo teria levado Sophie Neveu, neta da vtima, a ajudar o suposto assassino a fugir? A menos que Sophie soubesse que Langdon estava sendo falsamente acusado. Fache postulara todo o tipo de explicaes para justificar o estranho comportamento de Sophie, incluindo a de que a jovem, como nica herdeira, convencera o seu amante secreto, Robert Langdon, a assassinar Jacques Saunire por causa da herana. Se Saunire suspeitasse disto, era possvel que tivesse deixado a mensagem P.S. Encontrem Robert Langdon. Mas Collet tinha praticamente certeza de que havia ali mais qualquer coisa. Sophie Neveu parecia ser uma pessoa muito ntegra para estar envolvida em uma jogada to srdida.
      - Tenente! - chamou um dos agentes, aproximando-se correndo. - Encontramos um carro.
      Collet seguiu o agente, que, cerca de cinquenta metros mais  frente, apontou para uma espcie de desvio do lado oposto da estrada. Ali, escondido entre os arbustos, quase fora das vistas, estava parado um Audi preto. Tinha matrcula de aluguel. Collet tocou na tampa do motor. Estava quente. Bastante quente.
      - Deve ter sido assim que o Langdon chegou at aqui. Ligue para a empresa de aluguel. Descubra se foi roubado.
      - Sim, senhor.
      Um outro agente fez sinal a Collet, pedindo-lhe que se aproximasse do gradeamento.
      - Tenente, d uma olhada nisto. - E entregou-lhe um par de binculos de viso noturna. - Aquele grupo de rvores, perto do topo do caminho de acesso.
      Collet apontou os binculos na direo indicada e focou a imagem. Lentamente, as formas esverdeadas tornaram-se mais ntidas. Localizou a curva do caminho e seguiu-a at o grupo de rvores. E ficou olhando. embasbacado. Ali, no meio das rvores, estava um carro blindado. Um carro blindado igual ao que ele deixara sair do Banco Depositrio de Zurique um par de horas antes. Pediu aos cus que aquilo fosse uma bizarra coincidncia, mas sabia perfeitamente que no podia ser.
      - Parece bvio - disse o agente - que foi naquele carro que Langdon e Neveu conseguiram sair do banco.
      Collet estava sem fala. Pensou no condutor do furgo que mandara parar na barricada. O Rolex. A pressa de partir. Nunca verifico a caixa de carga.
      Incrdulo, Collet compreendeu que algum do banco mentira deliberadamente  DCPJ a respeito do paradeiro de Langdon e de Sophie e os ajudara a fugir. Mas quem? E porqu? Disse para si mesmo que talvez fosse aquela a razo por que Fache lhe dissera para ficar quieto. Talvez Fache tivesse percebido que havia mais gente envolvida naquilo do que apenas Langdon e Sophie. Se Langdon e Sophie vieram no carro blindado, quem trouxe o Audi preto?
      Centenas de quilmetros a sul dali, um Beechcraft Baron 58 alugado voava para norte por cima do mar Tirreno. Apesar da quietude dos cus, o bispo Aringarosa agarrava com as duas mos um saco para o enjo, seguro de que ia precisar dele de um momento para o outro. A conversa que tivera com Paris no fora nada do que tinha imaginado.
      Sozinho na pequena cabina, Aringarosa girou o anel de ouro  volta do dedo e tentou acalmar a esmagadora sensao de medo e desespero. Em Paris, correu tudo terrivelmente mal. Fechando os olhos, Aringarosa rezou para que Bezu Fache tivesse os meios necessrios para remediar a situao.
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO SESSENTA E QUATRO
      
      
      Teabing estava sentado no div, com a caixa de roseira pousada no colo, admirando a rosa intricadamente embutida na tampa. Esta noite acabou por ser a mais estranha e a mais mgica de toda a minha vida.
      - Levante a tampa - sussurrou Sophie, de p diante dele, ao lado de Langdon.
      Teabing sorriu. No me apressem. Depois de passar mais de dez anos  procura daquela Chave de Abbada, queria saborear cada milissegundo do momento.
      - A Rosa - murmurou. - A Rosa  Madalena  o Santo Graal. A Rosa  a bssola que aponta o caminho. - Sentiu-se tolo. Durante anos, viajara pelas catedrais e igrejas de Frana, pagando para ter direito a um acesso especial, examinando centenas de arcos e abbadas por baixo de rosceas, procurando a Chave de Abbada codificada. La Clef de Vote... uma chave de pedra sob o signo da Rosa.
      Abriu lentamente o fecho e levantou a tampa.
      Quando finalmente pousou os olhos no contedo da caixa, soube que s podia ser a Chave de Abbada. Estava olhando para um cilindro de pedra, constitudo por anis interligados e marcados com letras. O objeto pareceu-lhe estranhamente familiar.
      - Construdo a partir dos dirios de da Vinci - explicou Sophie. - O meu av fazia-os como passatempo.
      Claro, compreendeu Teabing. Tinha visto os esboos e os planos. A chave para encontrar o Santo Graal esta dentro desta pedra. Retirou o pesado criptex de dentro da caixa, segurando-o gentilmente. Apesar de no fazer a mnima idia de como abrir o cilindro, sentiu que o seu destino estava ali dentro. Em momentos de desesperana, muitas vezes perguntara a si mesmo se o esforo de uma vida inteira seria alguma vez recompensado. Agora, essas dvidas tinham desaparecido para sempre. Ouvia as antigas palavras... a base da lenda do Graal:
      Vous ne trouvez pas le Saint-Graal, cest le Saint-Graal qui vous trouve.
      Ningum encontra o Santo Graal,  o Santo Graal que nos encontra.
      E naquela noite, incrivelmente, a chave para encontrar o Santo Graal entrara-lhe pela porta dentro.
      Enquanto Sophie e Teabing, sentados no div com o criptex, falavam do vinagre, dos anis e de qual poderia ser a senha, Langdon levou a caixa de roseira para uma mesa bem iluminada, do outro lado da sala, para examin-la melhor. Uma frase que Teabing dissera andava-lhe s voltas na cabea.
      A chave do Graal est escondida sob o signo da Rosa.
      Ergueu a caixa de madeira para a luz e examinou o smbolo embutido. Embora a sua familiaridade com a arte no inclusse marcenaria nem marchetaria, acabava de recordar o famoso teto de azulejos de um mosteiro espanhol dos arredores de Madrid, de onde, trs sculos depois de ter sido construdo, os azulejos tinham comeado a cair, revelando textos sagrados escritos pelos monges no estuque que tapavam.
      Voltou a olhar para a rosa.
      Sob a Rosa.
      Sub-Rosa.
      Segredo.
      Um rudo no corredor, atrs dele, o fez se voltar. No viu nada seno sombras. O mordomo de Teabing tinha muito provavelmente acabado de passar. Voltou a dedicar a sua ateno  caixa. Passou os dedos pelo suave contorno do embutido, perguntando a si mesmo se seria possvel retirar a Rosa, mas a juno era perfeita. Duvidou que at uma lmina de barbear coubesse entre a rosa embutida e a depresso milimetricamente escavada onde estava encaixada.
      Abriu a caixa e examinou o interior da tampa. Era liso e suave. Ao mud-la de posio, no entanto, a luz apanhou o que parecia ser um minsculo orifcio, situado exatamente no centro. Fechou a tampa e examinou o motivo embutido na face superior.
      Nenhum orifcio.
      No atravessa a tampa.
      Pousou a caixa em cima da mesa e, olhando em redor, descobriu um monte de papis presos por um clip metlico. Retirou o clip e voltou  caixa, abriu-a e estudou novamente o orifcio. com extremo cuidado, endireitou o clip e introduziu uma ponta no orifcio. Empurrou muito de leve. Quase no foi preciso fazer fora. Ouviu qualquer coisa cair com um ligeiro rudo em cima da mesa. Fechou a tampa e olhou. Era uma pequena pea de madeira, semelhante  pea de um puzzle. A Rosa de madeira soltara-se da tampa e cara em cima da mesa.
      Incapaz de falar, Langdon olhou para o espao na tampa da caixa onde a Rosa estivera. Ali, gravadas na madeira, escritas numa caligrafia perfeita, havia quatro linhas de texto em uma lngua que nunca vira.
      Os caracteres parecem vagamente semitas, disse Langdon para si mesmo, e, no entanto, no reconheo a lngua!
      Um sbito movimento atrs dele chamou-lhe a ateno. Vinda de parte nenhuma, uma sbita pancada na cabea o fez cair de joelhos.
      Enquanto caa, julgou por instantes ver um fantasma plido pairando por cima dele, empunhando uma pistola. Depois, ficou tudo escuro.
      
      
      
      CAPTULO SESSENTA E CINCO
      
      
      Apesar de ser tecnicamente uma agente da lei, nunca, at quela noite, Sophie Neveu se vira sob a mira de uma arma. Quase inconcebivelmente, a arma para que estava olhando naquele momento era empunhada pela plida mo de um grande albino de longos cabelos brancos. O homem cravava nela uns olhos vermelhos que irradiavam uma qualidade desencorpada, assustadora. Vestindo um hbito de l preso na cintura por uma corda, parecia um monge medieval. Sophie no fazia a mnima idia de quem ele pudesse ser, mas comeava a sentir um sbito respeito pelas suspeitas de Teabing de que a Igreja estava provavelmente por trs de tudo aquilo.
      - Sabem o que vim buscar - disse o monge, e a sua voz soou cava. 
      Sophie e Teabing estavam sentados no div, de braos erguidos, como o inesperado visitante ordenara. Langdon jazia estendido no cho, gemendo. Os olhos do monge pousaram imediatamente na Chave de Abbada que Teabing tinha no colo.
      - No ser capaz de abri-lo - disse Teabing, em tom de desafio.
      - O meu Professor  um homem sbio - respondeu o monge, avanando um passo, com a arma oscilando de Teabing para Sophie.
      Sophie perguntou a si mesma onde estaria o mordomo. Ser que no ouviu Robert cair?
      - Quem  o seu professor? - perguntou Teabing. - Talvez possamos chegar a um acordo financeiro.
      - O Graal no tem preo - disse o homem, e avanou mais um passo. 
      - Est sangrando - observou Teabing calmamente, apontando com a ponta do queixo o tornozelo esquerdo do monge, onde um fio de sangue escorrera pela perna. - E coxeia.
      - Voc tambm - replicou o monge, olhando para as muletas de alumnio encostadas ao lado do div. - Agora, entregue-me a Chave de Abbada.
      - Sabe da Chave de Abbada? - perguntou Teabing, parecendo surpreendido.
      - No interessa o que eu sei. Levante-se, muito devagar, e entregue-a.
      - Levantar-me  uma operao difcil para mim.
      - Precisamente. Preferia que ningum tentasse quaisquer movimentos rpidos.
      Teabing enfiou o brao direito por uma das muletas e segurou a Chave de Abbada com a mo esquerda. Inclinando-se para a frente, conseguiu pr-se de p, segurando o pesado cilindro na palma da mo esquerda e apoiando-se instavelmente  muleta com a direita.
      O monge aproximou-se mais, mantendo a arma apontada para a cabea de Teabing. Sophie viu, sentindo-se impotente, o monge estender a mo para pegar o cilindro.
      - No vai conseguir - disse Teabing. - S os que disso so dignos podem abrir esta pedra.
      S Deus julga quem  e no  digno, pensou Silas.
      -  muito pesado - disse o homem das muletas, com o brao cedendo. - Se no pegar depressa, receio deix-lo cair! - E cambaleou perigosamente.
      Silas avanou rapidamente para pegar a pedra, e, no momento em que o fez, o homem das muletas perdeu o equilbrio. A muleta escorregou para o lado e ele comeou a cair para a direita. No! Silas saltou em frente para salvar a pedra, baixando involuntariamente a mo armada. Mas a Chave de Abbada estava afastando-se dele.
      Enquanto caa para a direita, o homem rodou o brao esquerdo para trs e o cilindro caiulhe da mo em cima do div. Ao mesmo tempo, a muleta metlica que estava escorregando pareceu acelerar o movimento, descrevendo um amplo arco em direo  perna de Silas.
      Uma onda de dor intolervel subiu pelo corpo de Silas quando a muleta acertou com uma preciso assassina no cilcio, cravando as farpas na carne j martirizada. A pistola disparou-se com uma detonao ensurdecedora, mas o projtil enterrou-se, inofensivo, no soalho de madeira enquanto Silas caa. Antes que pudesse voltar a levantar a arma, o p da mulher apanhou-o em cheio por baixo do queixo.
      No seu posto junto ao incio do caminho de acesso, Collet ouviu o tiro. A detonao abafada disparou-lhe uma onda de pnico atravs das veias. Com Fache a caminho, j perdera toda a esperana de reclamar qualquer crdito por ter encontrado Langdon. Mas que o matassem ia permitir que o ego de Fache o levasse perante uma comisso de inqurito por procedimento policial negligente.
      Foi disparada uma arma dentro de uma casa particular, e o senhor esperou junto ao caminho de acesso?
      Collet sabia que a oportunidade de uma aproximao discreta tinha h muito passado. E tambm sabia que se continuasse ali sem fazer nada por mais um segundo que fosse, quando rompesse a manh toda a sua carreira teria passado  histria.
      Olhando para o porto de ferro, tomou uma deciso.
      - Amarrem-lhe o guincho e atirem-no abaixo.
      Nos distantes recessos do seu crebro atordoado, Langdon ouvira o tiro. E ouvira tambm um grito de dor. Seu? Tinha um martelo-pneumtico abrindo-lhe um buraco na nuca. Em algum lugar ali perto, havia pessoas falando.
      - Onde diabo voc estava? - gritava Teabing.
      - Que aconteceu? - Era a voz do mordomo. - Oh, meu Deus! Quem  esse? Vou chamar a Polcia.
      - O inferno! Nada de Polcia. Seja til e arranje-nos alguma coisa para amarrar este monstro.
      - E gelo! - gritou Sophie.
      Langdon voltou a derivar para a inconscincia. Mais vozes. Movimento. Agora, estava sentado no div. Sophie segurava um saco de gelo contra a nuca dele. Doa-lhe o crnio todo. Quando conseguiu finalmente focar os olhos, viu um corpo cado no cho.
      Estarei com alucinaes? O corpo pertencia a um enorme monge albino, amarrado e amordaado com fita isolante. Tinha o queixo aberto por um profundo corte e o hbito ensopado em sangue, do lado direito, sobre a coxa. Tambm ele parecia estar recuperando os sentidos. Langdon voltou-se para Sophie.
      - Quem  ele? Que... aconteceu?
      Teabing aproximou-se coxeando.
      - Foi salvo por um cavaleiro que empunhava uma Excalibur fabricada pela Acme Orthopedic.
      Huh? Langdon tentou endireitar-se. Sophie pousou-lhe no brao uma mo trmula mas meiga.
      -  melhor repousar por um minuto, Robert.
      - Receio - continuou Teabing - ter acabado de demonstrar  sua amiga as infelizes vantagens da minha condio. Parece que todos nos subestimam.
      Sentado no div, Langdon baixou os olhos para o monge e tentou imaginar o que tinha acontecido.
      - Ele estava usando um cilcio - explicou Teabing.
      - Um qu?
      Teabing apontou para a ensanguentada tira de couro eriada de pontas que estava cada no cho.
      - Uma correia de Disciplina. Usava-a na coxa. Apontei com todo o cuidado.
      Langdon esfregou a cabea. Sabia o que eram as correias de Disciplina.
      - Mas como... como soube?
      Teabing sorriu.
      - O Cristianismo  a minha rea de estudo, Robert, e h certas seitas que trazem um sinal na testa. - Apontou com a muleta para a mancha de sangue no hbito do monge. - Por assim dizer.
      - A Opus Dei - murmurou Langdon, recordando a histria recentemente divulgada nos meios de comunicao a respeito de vrios destacados homens de negcios de
      Boston que eram membros da Opus Dei. Colegas e subordinados apreensivos tinham-nos falsamente acusado de usarem cilcios por baixo dos elegantes ternos e coletes. Na realidade, nenhum dos trs homens em causa os usava. Como muitos membros da Opus Dei, tinham o grau de supranumerrios e no praticavam qualquer espcie de mortificao corporal. Eram catlicos devotos, pais exemplares e membros profundamente empenhados da comunidade. Como seria de esperar, a imprensa no tinha demorado muito a destacar estas virtudes, concentrando-se de preferncia nos membros numerrios da seita, muito mais interessantes do ponto de vista de valor de choque... homens como o monge que agora jazia amarrado diante dele.
      Teabing estava olhando atentamente para a correia ensanguentada.
      - Mas porque estaria a Opus Dei interessada em encontrar o Santo Graal? - perguntou, como que para si mesmo.
      Langdon estava muito tonto para considerar sequer a questo.
      - Robert - disse Sophie, dirigindo-se  mesa em cima da qual ficara a caixa de madeira. - O que  isto? - Estava segurando a pequena rosa embutida que ele retirara da tampa.
      - Cobria uma gravao na tampa da caixa. Penso que o texto nos dir como abrir a Chave de Abbada.
      Antes que Sophie ou Teabing pudessem responder, um mar de luzes azuis da Polcia invadiu a base do ligeiro declive e iniciou a subida do caminho de acesso.
      Teabing franziu o sobrolho.
      - Meus amigos, parece que temos de tomar uma deciso. E  bom que a tomemos rapidamente.
      
      
      
      CAPTULO SESSENTA E SEIS
      
      
      Collet e os seus agentes irromperam pela porta da frente da casa de Sir Leigh Teabing de armas empunhadas. Espalhando-se, comearam a revistar todas as divises do piso trreo. Encontraram um buraco de bala no soalho da sala de estar, sinais de luta, uma pequena quantidade de sangue, uma estranha correia de couro coberta de farpas e um rolo de fita isolante parcialmente usado. O piso parecia completamente deserto. 
      Quando Collet se preparava para dividir os seus homens e mand-los revistar a garagem e os jardins, ouviu vozes no piso superior.
      - Esto l em cima!
      Depois de galgarem a dois e dois os degraus da ampla escadaria, o tenente e os seus homens percorreram, de diviso em diviso, a vasta casa, revistando quartos e corredores mergulhados em sombras enquanto convergiam para o ponto onde soavam as vozes. O som parecia vir do ltimo quarto de um excepcionalmente comprido corredor.
      Os agentes comearam a avanar com cuidado, fechando todas as sadas alternativas. 
      Ao aproximarem-se do ltimo quarto, Collet viu que a porta estava aberta. As vozes tinham cessado subitamente e sido substitudas por um estranho ronronar, como o de um motor.
      De pistola levantada, o tenente deu o sinal. Estendendo cuidadosamente a mo para a ombreira, encontrou o interruptor da luz e acionou-o. Seguido pelos seus homens, entrou no quarto gritando e apontou a arma... a coisa nenhuma.
      Um quarto de hspedes vazio. Impecavelmente arrumado.
      De um painel eletrnico situado junto  cama, vinha o som de um motor de automvel trabalhando. Collet j vira aqueles painis em outros pontos da casa. Um sistema qualquer de intercomunicadores. Correu para l. O painel tinha cerca de uma dzia de interruptores devidamente assinalados:
      ESTDIO... COZINHA... LAVANDARIA... GARAGEM...
      Onde diabo  que estou ouvindo um carro?
      QUARTO PRINCIPAL... SOLRIO... CAVALARIAS... BIBLIOTECA...
      Cavalarias! Collet desceu as escadas em segundos e correu para a porta dos fundos, arrebanhando um dos seus homens pelo caminho. Atravessaram o relvado e chegaram ofegantes diante de um velho estbulo desbotado pelas intempries.
      Ainda antes de entrarem, Collet ouviu o som cada vez mais distante do motor de um carro que se afastava. Levantou a arma, entrou de rompante e acendeu as luzes. O lado direito do estbulo era uma oficina rudimentar: cortadores de grama, ferramentas, utenslios de jardinagem. Prximo, na parede, um painel eletrnico. Um dos interruptores estava para baixo, na posio de transmitir.
      QUARTO DE HSPEDES II
      Collet girou sobre si mesmo, espumando de raiva. Atraram-nos ao segundo piso usando o intercomunicador! Investigando o outro lado do estbulo, descobriu uma comprida fila de baias, mas nenhum cavalo. Aparentemente, o dono da casa preferia outro tipo de transporte; as baias tinham sido transformadas numa impressionante garagem. A coleo era fabulosa: um Ferrari preto, um refulgente Rolls-Royce, um Aston-Martin sport coup, um Porsche 356.
      A ltima baia estava vazia.
      Collet correu para l e viu manchas de leo no cho. No vo conseguir sair da propriedade. O caminho e o porto estavam bloqueados por dois carros-patrulhas, para impedir precisamente essa eventualidade.
      - Tenente? - O agente apontava para o fundo do estbulo.
      As portas traseiras, de correr, estavam abertas de par em par, mostrando um pedao do terreno lamacento e acidentado que descia em suave declive at se perder na escurido.
      Collet correu para as portas, tentando sondar o negrume. A nica coisa que conseguiu ver foi a mancha de sombra um pouco mais densa de uma floresta,  distncia. Nenhum farol. O vale era provavelmente atravessado por dezenas de caminhos e trilhas de caa que no apareciam em qualquer mapa, mas Collet estava confiante que a sua presa no conseguiria chegar ao bosque.
      - Mande alguns homens bater o terreno at l abaixo. O mais certo  estarem atolados em um buraco qualquer aqui perto. Os carros de desporto no se do bem com este tipo de terreno.
      - Hum, tenente? - O agente estava apontando para um chaveiro do qual pendiam vrios conjuntos de chaves. As etiquetas por cima das chaves ostentavam nomes familiares.
      DAIMLER... ROLLS-ROYCE... ASTON-MARTIN... PORSCHE...
      O ltimo gancho estava vazio.
      Quando Collet leu a etiqueta por cima do prego vazio, soube que tinha um problema.
      
      
      
      CAPTULO SESSENTA E SETE
      
      
      O Range Rover era Java Black Pearl, 4X4, transmisso normal, com faris de alta potncia de polipropileno, montes de luzes na traseira e volante  direita.
      Langdon estava contente por no ter de ser ele a dirigir.
      Seguindo as indicaes do patro, Rmy, o mordomo de Teabing, estava fazendo um impressionante trabalho de conduo ao manobrar o veculo atravs dos campos iluminados pelo luar que se estendiam para alm dos fundos de Chteau Villette. Sem faris, atravessara um descampado e descia agora um longo declive, afastando-se cada vez mais da propriedade. Parecia dirigir-se  recortada silhueta de uma zona de bosque, ao longe.
      Langdon, segurando a Chave de Abbada em cima dos joelhos, voltou-se no lugar do passageiro e olhou para Teabing e Sophie, instalados no banco de trs.
      - Como est a sua cabea, Robert? - perguntou Sophie, em tom preocupado.
      Langdon forou um sorriso dolorido.
      - Melhor, obrigado. - Estava matando-o.
      Ao lado dela, Teabing espiou por cima do ombro para o monge, amarrado e amordaado, apertado no espao destinado  bagagem situado atrs do banco. Tinha a arma do homem no colo e parecia uma dessas velhas fotos de um caador britnico posando junto da pea abatida no decurso de um safari.
      - Estou muito contente por ter passado por aqui esta noite, Robert - disse Teabing, sorrindo como se estivesse divertindo-se pela primeira vez em anos.
      - Lamento t-lo envolvido nisto, Leigh.
      - Oh, por favor, esperei a vida inteira ser envolvido. - Teabing olhou alm de Langdon, atravs do pra-brisas, para a sombra de uma longa sebe. Bateu no ombro de Rmy. - Lembre-se, nada de luzes de freios. Se for necessrio, use o freio de mo. Quero internar-me um pouco no bosque. No h qualquer razo para corrermos o risco de ser vistos da casa.
      Rmy reduziu a velocidade para marcha lenta e fez o Range Rover passar por uma abertura na sebe. No instante em que o veculo entrou, com um solavanco, em um caminho quase coberto de mato, as copas das rvores taparam completamente a luz da Lua.
      No vejo nada, pensou Langdon, esforando-se por distinguir qualquer forma  frente deles. Estava escuro como breu. Rasparam ramos pelo lado esquerdo do jipe e Rmy corrigiu na direo oposta. Mantendo o volante mais ou menos reto, avanou, a passo de caracol, cerca de trinta metros.
      - Est indo muito bem, Rmy - disse Teabing. - J devemos estar suficientemente afastados. Robert, importa-se de apertar nesse botozinho azul a abaixo do ventilador? Est vendo-o?
      Robert encontrou o boto e apertou-o.
      Uma mortia luz amarelada iluminou o trilho  frente deles, revelando uma densa parede de matagal de ambos os lados. Faris de nevoeiro, percebeu Langdon. Davam apenas luz suficiente para mante-los no caminho, apesar de j estarem suficientemente embrenhados no bosque para que as luzes os no denunciassem.
      - Muito bem, Rmy - declarou Teabing, alegremente. - J temos luz. As nossas vidas esto nas suas mos.
      - Para onde vamos? - perguntou Sophie.
      - Este caminho continua cerca de trs quilmetros pelo interior da floresta - respondeu Teabing -, atravessando a propriedade e rumando depois para norte. Desde que no encontremos charcos muito profundos nem rvores cadas, iremos sair ilesos junto  auto-estrada 5.
      Ilesos. Langdon teve vontade de dizer que a sua cabea pedia licena para discordar. Baixou os olhos para o colo, onde a Chave de Abbada continuava a salvo dentro da sua caixa de madeira. A rosa embutida voltara ao respectivo lugar e, apesar de sentir as idias ainda um pouco embaralhadas, Langdon estava desejoso de voltar a retirar o embutido e examinar com mais ateno as palavras gravadas por baixo dele. 
      Abriu o fecho e comeou a levantar a tampa da caixa quando Teabing lhe pousou a mo no ombro.
      - Um pouco de pacincia, Robert - pediu Teabing. - Est escuro e o caminho  cheio de buracos. Deus nos ajude se quebrarmos qualquer coisa. Se no reconheceu a lngua  luz, no vai com certeza conseguir melhor no escuro. Concentremo-nos em sair daqui inteiros, est bem? Haver tempo para isso muito em breve.
      Langdon sabia que Teabing tinha razo. com um aceno de cabea, voltou a baixar a tampa. L atrs, o monge gemia, debatendo-se com a fita que lhe tolhia os movimentos. De repente, ps-se a espernear furiosamente.
      Teabing voltou-se e apontou-lhe a pistola por cima das costas do banco.
      - No percebo de que se queixa, caro senhor - disse. - Invadiu a minha casa e fez um enorme galo na cabea de um querido amigo meu. Acho que teria todo o direito de dar-lhe um tiro agora mesmo e deix-lo apodrecendo no meio do bosque.
      O monge ficou imvel e silencioso.
      - Tem certeza de que fizemos bem em traz-lo? - perguntou Langdon.
      - Absoluta! - exclamou Teabing. -  procurado por assassinato, Robert. Este biltre  o seu bilhete para a liberdade. Aparentemente, a Polcia deseja tanto deitar-lhe a mo que no hesitou em segui-lo at minha casa.
      - A culpa foi minha - disse Sophie. - o furgo devia ter um transmissor.
      - No  essa a questo - respondeu Teabing. - No me surpreende o fato da Polcia o ter encontrado, o que me surpreende  o fato de este fulano da Opus Dei ter feito o mesmo. Por aquilo que me disse, no imagino como conseguiu este homem segui-lo at minha casa, a menos que tenha um contato na Polcia Judiciria ou no Banco Depositrio de Zurique.
      Langdon considerou o assunto. Bezu Fache parecia sem a mnima dvida decidido a arranjar um bode expiatrio para os crimes daquela noite. E Vernet voltara-se contra eles de uma forma totalmente inesperada, ainda que, tendo em conta que ele, Langdon, era acusado de quatro mortes, a mudana de atitude do banqueiro talvez fosse compreensvel.
      - Este monge no trabalha sozinho, Robert - continuou Teabing -, e at descobrirem quem est por trs de tudo isto, correm ambos perigo. A boa notcia, meu amigo,  que est agora em uma posio de fora. Este monstro que aqui temos possui essa informao, e quem quer que esteja puxando os cordes deve estar muito nervoso neste preciso instante.
      Rmy conduzia agora mais depressa, tendo-se habituado ao trilho. Atravessaram alguns charcos, treparam uma pequena elevao e comearam a descer outra vez.
      - Robert, importa-se de me passar esse telefone? - pediu Teabing, apontando para o telefone do jipe montado no painel de instrumentos. Langdon entregou-o e Teabing discou um nmero. Esperou bastante tempo antes que algum respondesse. - Richard?
      Acordei-o? Claro que acordei. Pergunta tola. Tenho um pequeno problema. Sinto-me um pouco em baixo. Eu e Rmy temos de dar um pulo s Ilhas por causa dos meus tratamentos... Bem, imediatamente. Desculpe no o ter avisado mais cedo. Pode ter o Elizabeth pronto dentro de cerca de vinte minutos?... Eu sei, o melhor que puder fazer. At j. - E desligou.
      - O Elizabetht - estranhou Langdon.
      - O meu avio. Custou-me o resgate de uma rainha.
      Langdon voltou-se completamente no banco para olhar para ele.
      - O que foi? - perguntou Teabing. - Vocs dois no podem esperar continuar na Frana com a Polcia Judiciria em peso procurando-os. Londres ser muito mais seguro.
      Tambm Sophie tinha se voltado para Teabing.
      - Acha que devemos abandonar o pas?
      - Meus amigos, tenho muito mais influncia no mundo civilizado do que aqui na Frana. Alm disso, diz-se que o Graal est na Gr-Bretanha. Se conseguirmos abrir essa Chave de Abbada, estou certo de que encontraremos um mapa que nos dir que avanamos na direo correta.
      - Est correndo um grande risco ao nos ajudar - observou Sophie. - No vai granjear-lhe muitos amigos entre a Polcia francesa.
      Teabing agitou a mo num gesto de desdm.
      - J fiz o que tinha de fazer na Frana. Mudei-me para c para encontrar a Chave de Abbada. Esse trabalho est feito. Pode crer que no ficarei nem um pouco triste se no voltar a ver Chteau Villette.
      Sophie parecia insegura.
      - Como  que vamos passar pela segurana no aeroporto?
      Teabing riu.
      - Partimos de Le Bourget... um aerdromo executivo no muito longe daqui. Os mdicos franceses pem-me nervoso, de modo que, a cada quinze dias, vou a Inglaterra fazer os meus tratamentos. Pago para ter certos privilgios especiais de um lado e do outro. Quando estivermos no ar, podem decidir se querem ou no que algum da embaixada dos Estados Unidos v encontr-los.
      Subitamente, Langdon no queria ter nada a ver com a embaixada. S conseguia pensar na Chave de Abbada, na inscrio e em se ela os conduziria ou no ao Santo Graal. Perguntou a si mesmo se Teabing teria razo a respeito da Gr-Bretanha. Era certo que a maior parte das lendas modernas situava o Graal Em algum lugar no Reino Unido. Pensava-se inclusive que a mtica ilha de Avalon do rei Artur, to cheia do Graal, no era outra seno Glastonbury, na Inglaterra. Fosse onde fosse que o Graal estivesse, nunca Langdon imaginara que andaria um dia  procura dele. Os documentos Sangreal. 
      A verdadeira histria de Jesus Cristo. O tmulo de Maria Madalena. De sbito, sentiu como se naquela noite estivesse vivendo em uma espcie de limbo... uma bolha onde o mundo real no podia alcan-lo.
      - Senhor? - disse Rmy. - Est na verdade pensando em regressar definitivamente a Inglaterra?
      - No tem motivos para preocupaes, Rmy - tranquilizou-o Langdon. - S porque vou regressar ao reino de Sua Majestade a Rainha, no quer dizer tencione sujeitar o meu palato a salsichas e pur pelo resto dos meus dias. Espero que fique comigo. Estou planejando comprar uma esplndida villa no Devonshire, e mandaremos vir todas as suas coisas imediatamente. Uma aventura, Rmy. Uma aventura, digo eu!
      Langdon teve de sorrir. Ao ouvir Teabing falar dos seus planos para um triunfante regresso  Gr-Bretanha, sentiu-se apanhado pelo contagiante entusiasmo do homem.
      Ficou olhando distraidamente pela janela, as rvores passando, fantasmas plidos iluminados pela luz amarelada dos faris de nevoeiro. O retrovisor lateral estava metido para dentro, empurrado pelos ramos, e Langdon viu o reflexo de Sophie silenciosamente sentada no banco de trs. Observou-a por um longo momento e sentiu uma inesperada vaga de contentamento. Apesar de tudo o que lhe acontecera naquela noite, estava satisfeito por ter encontrado uma companhia to agradvel.
      Ao cabo de vrios minutos, como se de repente sentisse os olhos de Langdon postos nela, Sophie inclinou-se para frente e pousou as mos nos ombros dele, fazendo-lhe uma rpida massagem.
      - Est bem?
      - Estou - respondeu Langdon. - Nem sei como.
      Sophie voltou a recostar-se no banco, e Langdon viu um sorriso tranquilo distender-lhe os lbios. Percebeu ento que tambm ele estava sorrindo.
      Entalado na traseira do Range Rover, Silas mal conseguia respirar. Tinha os braos dobrados para trs das costas e fortemente amarrados aos tornozelos com fio de cozinha e fita isolante. A cada buraco do caminho, uma lanada de dor verrumava-lhe os ombros torcidos. Pelo menos, os seus captores tinham-lhe tirado o cilcio. Impedido de inspirar atravs do pedao de fita que lhe tapava a boca, s podia respirar pelas narinas, que estavam ficando pouco a pouco entupidas devido ao p que enchia o espao de carga para onde o tinham atirado. Comeou a tossir.
      - Acho que ele est sufocando - disse o motorista francs, parecendo preocupado.
      O ingls que lhe batera com a muleta voltou-se e espreitou por cima das costas do banco, franzindo friamente a testa.
      - Felizmente para voc, ns, os Britnicos, julgamos a civilidade de um homem no pela sua compaixo para com os amigos, mas pela sua compaixo para com os inimigos.
      O homem estendeu a mo, pegou uma ponta da fita que lhe tapava a boca e, com um rpido movimento, arrancou-a. Silas teve a sensao de que os lbios tinham-se incendiado, mas o ar que lhe encheu os pulmes foi uma ddiva dos cus.
      - Para quem trabalha? - perguntou o ingls.
      - Fao o trabalho de Deus - replicou Silas, apesar da dor no queixo, onde a mulher lhe acertara com o p.
      - Pertence  Opus Dei - disse o homem. No era uma pergunta.
      - No sabe nada de quem eu sou.
      - Porque  que a Opus Dei quer a Chave de Abbada?
      Silas no tinha a mnima inteno de responder. A Chave de Abbada era a ligao ao Santo Graal, e o Santo Graal era a chave para a proteco da f. Fao o trabalho de Deus. O Caminho est em perigo.
      Agora, na traseira do Range Rover, debatendo-se com as suas amarras, Silas receou ter desiludido para todo o sempre o Professor e o bispo. No tinha sequer maneira de contact-los e avis-los daquela terrvel reviravolta dos acontecimentos. Os meus captores tm a Chave de Abbada. Vo chegar ao Graal antes de ns! Envolto na sufocante escurido, Silas rezou. Deixou que a dor que lhe atormentava o corpo desse fora s suas preces.
      Um milagre, Senhor. Preciso de um milagre. Silas no tinha modo de saber que, poucas horas mais tarde, lhe seria dado o que pedia.
      - Robert? - Sophie continuava a observ-la. - Est com uma expresso estranha.
      Langdon voltou-se para olhar para ela, percebendo que tinha os dentes cerrados e o corao batendo mais depressa. Acabava de lhe ocorrer uma idia incrvel. Ser possvel que seja uma explicao to simples?
      - Preciso usar o seu celular, Sophie.
      - Agora?
      - Acho que descobri uma coisa.
      - O que foi?
      - J lhe digo. Preciso do seu telefone. Sophie olhou cautelosa.
      - Duvido que Fache o tenha posto sob escuta, mas, pelo sim pelo no, no fale mais de um minuto.
      E entregou-lhe o telefone.
      - Como  que se liga para os Estados Unidos?
      - Vai ter de ser a cobrar no destinatrio. O meu servio no cobre chamadas internacionais.
      Langdon marcou o zero, sabendo que os prximos sessenta segundos podiam responder  pergunta que estivera intrigando-o durante toda a noite.
      
      CAPTULO SESSENTA E OITO
      
      
      Em Nova Iorque, Jonas Faukman acabava de enfiar-se na cama quando o telefone tocou. Um pouco tarde para telefonemas, resmungou, enquanto levantava o auscultador.
      - Aceita uma chamada a cobrar no destinatrio de Robert Langdon? - perguntou a voz da operadora da central.
      Intrigado, Jonas acendeu a luz.
      - Hum... sim, claro.
      A linha fez um clique.
      - Jonas?
      - Robert? Voc me acorda e ainda por cima quer que eu pague?
      - Peo desculpas. Vou ter de ser muito rpido. Preciso saber. O manuscrito que lhe deixei...
      - Robert, peo desculpas, bem sei que disse que lhe mandava as provas revistas esta semana, mas estou at o pescoo. Na prxima segunda-feira. Prometo.
      - No estou preocupado com as provas. O que quero saber  se mandou cpias a algum sem me dizer.
      Faukman hesitou. O mais recente manuscrito de Langdon - uma explorao da histria do culto da deusa - continha vrias passagens a respeito de Maria Madalena que iam levantar celeuma. Embora o material estivesse bem documentado e j tivesse sido tratado por outros autores, Faukman no tencionava mandar imprimir provas de leitura do livro de Langdon sem ter pelo menos o aval de alguns historiadores srios e luminrias do mundo das artes. Escolhera dez nomes e enviara a todos eles partes do manuscrito acompanhadas por uma delicada carta perguntando se importariam de escrever um curto comentrio para a sobrecapa. Sabia bem demais que a maior parte das pessoas no perdia uma oportunidade de ver o nome impresso em letra de forma.
      - Jonas - pressionou Langdon -, enviou ou no o meu manuscrito?
      Faukman franziu a testa, sentindo que Langdon estava descontente com o fato.
      - O manuscrito estava limpo, Robert, e eu queria surpreend-lo com algumas crticas estupendas.
      Uma pausa.
      - Enviou alguma coisa ao conservador do Louvre, em Paris?
      - O que  que acha? O seu manuscrito faz vrias referncias s colees do Louvre, os livros dele aparecem na sua bibliografia e o homem tem uma influncia enorme em matria de vendas no estrangeiro. O Saunire era de caras.
      O silncio do outro lado durou um longo tempo.
      - Quando foi isso?
      - H cerca de um ms. Tambm mencionei que ia estar em Paris e sugeri que os dois conversassem. Ele chegou a telefonar-lhe para se encontrarem? - Faukman fez uma pausa, esfregando os olhos. - Espere l, voc no deveria estar em Paris esta semana?
      - Estou em Paris. Faukman sentou-se na cama.
      - E est ligando-me a cobrar de Paris?
      - Desconte nos meus direitos autorais, Jonas. Saunire disse-lhe qualquer coisa? Gostou do manuscrito?
      - No fao idia. No soube mais nada dele.
      - Bom, o melhor  no esperar de p. Tenho de ir, mas isto explica muita coisa. Obrigado.
      - Robert...
      Langdon, porm, j tinha desligado.
      Faukman pousou o auscultador, abanando incredulamente a cabea. Autores, pensou. At os mais ajuizados so malucos.
      Dentro do Range Rover, Teabing lanou uma gargalhada.
      - Robert, est dizendo que escreveu um manuscrito que trata de uma certa sociedade secreta e que o seu editor mandou uma cpia a essa sociedade secreta?
      Langdon deixou descair os ombros.
      - Exatamente.
      - Uma cruel coincidncia, meu amigo.
      A coincidncia no teve nada a ver com isto, pensou Langdon. Pedir a Jacques Saunire que avalizasse um manuscrito sobre o culto da deusa era to evidente como pedir a Tiger Woods que avalizasse um manuscrito a respeito de golfe. Alm disso, era praticamente garantido que qualquer livro sobre o culto da deusa teria de referir o Priorado de Sio.
      - E agora a pergunta do milho de dlares - disse Teabing, ainda rindo. - Nesse manuscrito, a sua posio em relao ao Priorado  favorvel ou desfavorvel?
      Langdon compreendeu claramente o que Teabing queria na verdade dizer. Muitos historiadores questionavam o fato de o Priorado manter escondidos os documentos Sangreal. Havia quem pensasse que era j mais do que tempo de aquela informao ser partilhada com o resto do mundo.
      - No tomo qualquer posio relativamente s aes do Priorado.
      -  inao do Priorado, querer dizer.
      Langdon encolheu os ombros. Teabing estava aparentemente do lado dos que queriam tornar pblicos os documentos.
      - Limitei-me a contar a histria da irmandade, descrevendo-a como uma sociedade moderna do culto da deusa, guardi do Graal e de documentos antigos.
      Sophie olhou para ele.
      - Fala da Chave de Abbada?
      Langdon fez uma careta. Falava. Muitas vezes.
      - Refiro a suposta Chave de Abbada como um exemplo daquilo que o Priorado est disposto a fazer para proteger os documentos Sangreal.
      Sophie parecia espantada.
      - Acho que isso explica o P.S. Procura Robert Langdon.
      Langdon tinha a sensao de que fora na realidade outra coisa no manuscrito que despertara o interesse de Saunire, mas esse tpico era algo que discutiria com Sophie quando estivessem a ss.
      - Nesse caso - continuou Sophie -, mentiu ao capito Fache.
      - Como?
      - Disse-lhe que nunca teve qualquer contato com o meu av.
      - E no tive! Foi o meu editor quem lhe enviou o manuscrito.
      - Pense nisto, Robert. Se o capito Fache no encontrasse o envelope em que o seu editor enviou o manuscrito, teria de concluir que foi voc que o mandou. - Sophie fez uma pausa. - Ou, pior ainda, que o entregou em mos e depois mentiu.
      Quando o Range Rover chegou ao aerdromo de Le Bourget, Rmy levou-o diretamente para um pequeno hangar no extremo mais distante da pista. Enquanto se aproximavam, um homem de cabelos despenteados, vestindo calas amarrotadas e camisa caqui, saiu correndo do hangar, acenou-lhes e empurrou para o lado as grandes portas de chapa ondulada, mostrando o esguio jato branco que estava l dentro.
      Langdon ficou olhando para a refulgente fuselagem.
      - Aquilo  o Elizabeth?
      Teabing sorriu.
      - Muito melhor do que usar o raio do Tnel.
      O homem vestido de caqui aproximou-se apressadamente deles, pestanejando por causa da luz dos faris.
      - Est quase pronto - disse, em ingls com forte sotaque francs. - Peo desculpas pelo atraso, mas me apanhou de surpresa e... - Calou-se quando o grupo desceu. Olhou para Sophie e para Langdon, e depois de novo para Teabing.
      - Eu e os meus associados temos assuntos urgentes a tratar em Londres - anunciou Teabing. - No h tempo a perder. Por favor, prepare-o para partir imediatamente. - E, enquanto falava, tirou a pistola do jipe entregou-a a Langdon.
      O piloto esbugalhou os olhos ao ver a arma. Aproximou-se de Teabing e murmurou:
      - As minhas humildes desculpas, Sir Leigh, mas a minha licena diplomtica para voar refere-se apenas ao senhor e ao seu mordomo. No posso levar os seus convidados.
      - Richard - disse Teabing, sorrindo amavelmente -, duas mil libras esterlinas e aquela arma carregada dizem que pode levar os meus amigos. - Apontou para o Range Rover. - E aquele infeliz que est na parte de trs do jipe.
      
      
      
      CAPTULO SESSENTA E NOVE
      
      
      Os dois motores Garrett TFE-731 do Hawker 731 rugiram, impelindo o avio para o cu com uma fora que colou os passageiros aos assentos. L fora, o aerdromo de Le Bourget desapareceu da vista a uma velocidade impressionante.
      Estou fugindo do pas, pensou Sophie. At quele momento, acreditara que o jogo do gato e do rato que estava jogando com Fache acabaria de algum modo por parecer justificvel aos olhos do Ministrio do Interior. Estava protegendo um inocente. Estava tentando cumprir as ltimas vontades do meu av. Essa janela de oportunidade, Sophie bem o sabia, acabava de fechar-se. Estava saindo do pas, sem documentao, na companhia de um homem procurado pela Polcia e levando consigo um refm amarrado.
      Se alguma vez existira uma linha de razo, acabava de transp-la. Quase  velocidade do som.
      Sophie estava sentada com Langdon e Teabing perto da parte da frente da cabina - na Fan Jet Executive Elite Design, segundo o medalho dourado na porta. Os confortveis assentos giratrios deslizavam sobre carris no cho do aparelho e podiam ser reposicionados e travados  volta de uma mesa de madeira retangular. Uma mini sala de reunies. O ambiente de tranquila dignidade que ali reinava pouco contribua, no entanto, para dissimular a situao muito menos digna que se vivia na cauda do  avio, onde, em uma rea de assentos separada e prxima do banheiro, Rmy, o mordomo, se sentava de pistola na mo, cumprindo relutantemente as ordens do patro de manter debaixo de olho o ensanguentado monge que jazia enrolado no cho a seus ps, como um saco de viagem.
      - Antes de dedicarmos a nossa ateno  Chave de Abbada, disse Teabing -, gostaria que me permitissem umas poucas palavras. - Parecia apreensivo, como um pai preparando-se para fazer aos filhos uma preleo sobre bebs e cegonhas. - Meus amigos, compreendo que sou apenas um convidado nesta viagem, e sinto-me honrado por isso. E no entanto, como algum que passou toda a sua vida  procura do Graal, sinto que  meu dever avis-los de que esto prestes a se meter por um caminho de onde no h retrocesso possvel, sejam quais forem os perigos. - Voltou-se para Sophie.
      - Menina Neveu, o seu av deu-lhe este criptex na esperana de que mantivesse vivo o segredo do Santo Graal.
      - Sim.
      - Compreensivelmente, sente-se obrigada a seguir o caminho, aonde quer que ele a conduza.
      Sophie assentiu, embora sentisse uma segunda motivao ardendo dentro de si. A verdade a respeito da minha famlia. A despeito das garantias de Langdon de que a Chave de Abbada nada tinha a ver com o seu passado, Sophie sentia que havia qualquer coisa profundamente pessoal naquele mistrio, como se aquele criptex, que o av construra com as suas prprias mos, estivesse tentando falar-lhe, oferecendo uma espcie qualquer de resoluo para o vazio que a assombrava havia tantos anos. 
      - O seu av e trs outros homens morreram esta noite - continuou Teabing -, e morreram para impedir que esta Chave de Abbada casse nas mos da Igreja. A Opus Dei esteve perto de apoderar-se dela. Compreende, espero, que isto a coloca em uma posio de excepcional responsabilidade. O archote foi passado a voc. Uma chama com dois mil anos que no podemos deixar extinguir. Este archote no pode cair em mos erradas. - Fez uma pausa, olhando para a caixa de roseira. - Compreendo que no teve opo nesta matria, Menina Neveu, mas considerando o que est aqui em jogo, tem de aceitar plenamente esta responsabilidade... ou pass-la para outra pessoa.
      - O meu av deu-me o criptex. Estou certa de que me considerava capaz de arcar com a responsabilidade.
      Teabing pareceu encorajado, mas no totalmente convencido.
      - timo. Uma vontade forte  necessria. E no entanto, sinto a curiosidade de saber se j percebeu que conseguir abrir esta Chave de Abbada trar consigo uma prova bem mais dura.
      - Como assim?
      - Minha querida, imagine que tem de repente nas suas mos um mapa que revela a localizao do Santo Graal. Nesse momento, estar na posse de um segredo capaz de alterar a Histria para todo o sempre. Ser a guardi de uma verdade que o Homem procura h sculos. Ser confrontada com a responsabilidade de revelar essa verdade ao mundo. Quem o fizer ser reverenciado por muitos e desprezado por outros tantos. A questo  saber se ter a fora necessria para levar a cabo essa tarefa.
      Sophie fez uma curta pausa antes de dizer:
      - No estou certa de que caiba a mim tomar essa deciso.
      Teabing arqueou as sobrancelhas.
      - No? Se no o possuidor da Chave de Abbada, ento quem?
      - A irmandade que protegeu com xito o segredo durante tanto tempo.
      - O Priorado? - Teabing parecia ctico. - Mas como? A irmandade foi desfeita esta noite. Decapitada, como muito bem disse. Se foram trados por uma qualquer espcie de sistema de escuta ou por um espio nas suas fileiras,  algo que nunca saberemos, mas o fato  que algum chegou at eles e descobriu as identidades dos quatro membros do topo. Neste ponto, no confiaria em ningum que se apresentasse da parte do Priorado. 
      - Nesse caso, que sugere? - perguntou Langdon.
      - Robert, sabe to bem como eu que o Priorado no protegeu a verdade todos estes anos para que ela ficasse acumulando p at  eternidade. Tm estado  espera do momento certo da Histria para revelar o segredo. Do momento em que o mundo esteja preparado para enfrentar a verdade.
      - E acredita que esse momento chegou?
      - Absolutamente. No podia ser mais bvio. Esto presentes todos os sinais histricos, e se o Priorado no tencionasse tornar o seu segredo conhecido muito em breve, porque teria a Igreja atacado agora?
      - O monge ainda no nos disse qual era o seu objetivo - argumentou Sophie.
      - O objetivo do monge  o objetivo da Igreja - respondeu Teabing. - Destruir os documentos que desmascaram a grande mentira. A Igreja esteve esta noite mais perto de consegui-lo do que em qualquer outro momento no passado, e o Priorado depositou a sua confiana em voc, menina Neveu. A tarefa de salvar o Santo Graal inclui claramente cumprir a ltima vontade do Priorado e partilhar a verdade com o mundo.
      - Leigh - interveio Langdon -, pedir  Sophie que tome essa deciso  pr uma carga excessiva sobre os ombros de algum que h uma hora no sabia sequer da existncia dos documentos Sangreal.
      Teabing suspirou.
      - Peo desculpas por estar pressionando-a, menina Neveu. Como  evidente, sempre acreditei que esses documentos devem ser tornados pblicos, mas, no fim, a deciso cabe a voc. Apenas sinto que  importante que comece a pensar no que vai acontecer se conseguirmos abrir a Chave de Abbada.
      - Meus senhores - disse Sophie, em tom firme. - Para citar as suas palavras, Ningum encontra o Santo Graal,  o Santo Graal que nos encontra. Vou confiar em que o Graal me encontrou por uma razo e que, quando chegar o momento, saberei o que fazer.
      Ambos os homens pareceram sobressaltar-se.
      - Portanto - continuou ela, apontando para a caixa de roseira -, sigamos em frente.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA
      
      
      De p na sala de estar de Chteau Villette, o tenente Collet contemplava tristemente as brasas que esmoreciam na lareira. O capito Fache chegara momentos antes e estava agora na sala ao lado, gritando ao telefone, tentando coordenar a tentativa de encontrar o Range Rover que faltava.
      A esta hora, pode estar sabe-se l onde, pensou Collet.
      Depois de ter desobedecido a uma ordem direta de Fache e deixado escapar Langdon pela segunda vez, Collet estava grato por a PTC ter conseguido encontrar a bala cravada no soalho do estdio, o que ao menos corroborava a sua afirmao de que fora disparado um tiro. Mesmo assim, Fache estava de pssimo humor, e Collet sentia que ia haver repercusses graves quando o p assentasse.
      Infelizmente, as pistas que estavam descobrindo naquela casa pareciam no lanar qualquer luz sobre o que se passava nem sobre quem estava envolvido. O Audi preto fora alugado sob um nome falso e com um carto de crdito falso, e as impresses digitais encontradas no carro no condiziam com nenhumas da base de dados da Interpol. Um outro agente entrou correndo na sala, com uma expresso de urgncia no rosto.
      - Onde est o capito Fache?
      Collet quase no ergueu os olhos das brasas moribundas.
      - Est ao telefone.
      - J no estou ao telefone - ladrou Fache, entrando. - O que  que tem?
      - A Central acaba de ser contactada por Andr Vernet, do Banco Depositrio de Zurique - disse o agente. - Quer falar com voc em particular. Mudou de histria.
      - Sim? - perguntou Fache.
      Desta vez, Collet ergueu os olhos.
      - Agora admite que Langdon e Neveu passaram algum tempo dentro do banco esta noite.
      - Isso ns sabamos - comentou Fache. - Porque foi que mentiu a esse respeito?
      - Diz que s fala consigo, mas prometeu cooperar plenamente.
      - A troco de qu?
      - De mantermos o nome do banco longe dos noticirios e de o ajudarmos a recuperar algo que foi roubado. Parece que Langdon e Neveu tiraram qualquer coisa do cofre do Saunire.
      - O qu? - gritou Collet. - Como?
      Fache nem sequer pestanejou, com os olhos cravados no segundo agente.
      - O que foi que roubaram?
      - O Vernet no se explicou, mas parece disposto a fazer o que for preciso para recuper-lo.
      Collet tentou imaginar como poderia aquilo ter acontecido. Talvez Langdon e Sophie tivessem dominado um empregado do banco com uma arma? Talvez tivessem obrigado Vernet a abrir a conta de Saunire e a facilitar-lhes a fuga no carro blindado. Por muito exequvel que tudo aquilo fosse, Collet tinha dificuldade em acreditar que Sophie Neveu pudesse estar envolvida em semelhante coisa.
      - Capito! - chamou um outro agente, da cozinha. - Estive verificando as memrias do telefone do senhor Teabing e neste instante estou em contato com o aeroporto de Le Bourget. Tenho ms notcias.
      Trinta segundos mais tarde, Fache estava pronto para deixar Chteau Villette.
      Acabava de saber que Teabing tinha um jato particular no aerdromo de L Bourget e que esse mesmo avio levantara vo cerca de meia hora antes.
      O representante do aerdromo que falara com ele afirmara no saber quem ia no avio nem aonde se dirigia. A decolagem no estava prevista e no fora registrado qualquer plano de vo. Altamente ilegal, mesmo para um pequeno aerdromo. Fache tinha certeza de que aplicando presso nos lugares certos, conseguiria obter as respostas que procurava.
      - Tenente Collet - ladrou, da porta. - No tenho alternativa seno deix-lo conduzindo as investigaes da PTC nesta casa. Tente fazer qualquer coisa certa, para variar.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E UM
      
      
      Enquanto o Hawker nivelava  altitude de cruzeiro, com o nariz apontado para Inglaterra, Langdon levantou cuidadosamente a caixa de roseira que tinha no colo, onde estivera protegendo-a durante a decolagem. Agora, ao pous-la em cima da mesa, sentiu Sophie e Teabing inclinarem-se para a frente, tensos de expectativa.
      Depois de soltar o fecho e abrir a caixa, concentrou a sua ateno no nos anis marcados com letras do criptex, mas no pequeno orifcio na face interior da tampa.
      Usando o bico de uma caneta, retirou cuidadosamente a rosa embutida e revelou o texto que estava por baixo. Sub-Rosa, murmurou, na esperana de que um novo olhar quele texto fizesse alguma luz. Focando todas as suas energias, examinou a estranha escrita.
      
 llorcs siht seerf modsiw fo drow tneicna 
na elohw ylimaf drttacs reh peek su spleh
 dna yek eht si sralpmte yb desiarp enotsdaeh
 a eeht ot hturt eht laever lliw hsabta dna
      
      Ao cabo de vrios segundos, comeou a sentir a frustrao inicial ressurgir  superfcie.
      - No consigo situ-la, Leigh.
      Do lugar onde estava sentada, do outro lado da mesa, Sophie no conseguia ver o texto, mas a incapacidade de Langdon de identificar imediatamente a lngua em que estava escrito surpreendeu-a. O meu av falava uma lngua to obscura que nem sequer um simbologista consegue identific-la? Percebeu no mesmo instante de que aquilo no devia surpreend-la. No era aquele o primeiro segredo que Jacques Saunire escondera da neta.
      Sentado em frente de Sophie, Teabing parecia prestes a explodir. Ansioso pela sua oportunidade de ver o texto, tremia de excitao, inclinando-se para a frente, espreitando por trs de Langdon, que continuava debruado para a caixa.
      - No sei - murmurou Langdon, profundamente concentrado. - A minha primeira impresso  que  semita, mas no estou muito certo. A maior parte das lnguas semitas primrias inclua nekkudot. Esta no tem nenhum.
      - Provavelmente antiga - sugeriu Teabing.
      - Nekkudot? - perguntou Sophie.
      Teabing no desviou os olhos da caixa.
      - A maior parte dos alfabetos semitas modernos no tem vogais e usa nekkudot... pequenos pontos ou traos escritos por baixo ou dentro das consoantes... para indicar que so acompanhadas pelo som de uma vogal. Em termos histricos, os nekkudot so uma adio relativamente recente  linguagem.
      Langdon continuava a examinar a escrita.
      - Uma transliterao sefrdica, talvez...?
      Teabing no aguentou mais.
      - Talvez se eu... - Estendendo as mos, pegou a caixa e puxou-a para diante de si.
      Langdon tinha sem dvida uma slida familiaridade com as antigas lnguas clssicas... grego, latim, romnico..., mas, pelo rapidssimo vislumbre que tivera daquela lngua, Teabing ficara com a impresso de que podia tratar-se de algo mais especializado, possivelmente uma escrita rashi, ou uma STAM com coroas.
      Inspirou fundo e olhou para a gravao. Durante muito, muito tempo, no disse uma palavra.  medida que os segundos passavam, sentia a confiana que o animara esvaziar-se como um balo.
      - Estou espantado - admitiu, por fim. - Esta lngua no se parece com qualquer outra que eu alguma vez tenha visto.
      Langdon deixou cair os ombros.
      - Posso ver? - pediu Sophie.
      Teabing fingiu que no tinha ouvido.
      - Robert, disse h pouco que lhe parecia j ter visto qualquer coisa parecida?
      Langdon estava com um ar embaraado.
      - Pareceu-me que sim. No tenho certeza. Seja pelo que for, tem qualquer coisa de familiar.
      - Leigh? - repetiu Sophie, claramente pouco satisfeita por estar sendo deixada  margem da discusso. - Posso dar uma vista de olhos  caixa que o meu av fez?
      - Claro, minha querida - respondeu Teabing, empurrando a caixa para ela. No quisera dar a impresso de estar menosprezando-a, mas a verdade era que Sophie se encontrava, naquele caso, a anos-luz da sua competncia. Se um historiador da Royal Academy e um simbologista de Harvard no conseguiam sequer identificar a lngua...
      - Ah! - disse Sophie, segundos depois de ter olhado para a tampa da caixa. - J devia ter calculado.
      Teabing e Langdon voltaram-se em unssono e ficaram olhando para ela.
      - Calculado o qu? - perguntou Teabing.
      Sophie encolheu os ombros.
      - Que seria esta a linguagem que o meu av utilizaria.
      - Est dizendo que consegue ler esse texto? - assombrou-se Teabing.
      - Com toda a facilidade - respondeu Sophie, obviamente divertindo-se muito. - O meu av ensinou-me esta lngua quando eu tinha seis anos. Falo-a fluentemente. - Inclinou-se para cima da mesa e cravou em Teabing um olhar de censura. - E francamente, Sir Leigh, tendo em conta a sua lealdade  coroa, espanta-me um pouco que no a tenha reconhecido.
      Num relmpago, Langdon soube.
      No admira que o raio da escrita me tenha parecido to familiar!
      Vrios anos antes, tinha assistido a um evento no Harvards Fogg Museum. Um ex-aluno da universidade que nunca chegara a completar o curso, Bill Gates, voltara  alma mater para emprestar ao museu uma das suas valiosssimas aquisies: dezoito folhas de papel que adquirira recentemente no leilo da Armand Hammar Estate.
      Lance vencedor: 30,8 milhes de dlares.
      Autor das pginas: Leonardo da Vinci.
      As dezoito folhas - agora conhecidas como Codex Leicester, do nome do seu famoso proprietrio, o conde de Leicester - eram tudo o que restava de um dos mais fascinantes blocos-de-notas de Leonardo: ensaios e desenhos em que da Vinci esboava as suas teorias progressistas em matria de astronomia, geologia, arqueologia e hidrologia.
      Langdon nunca esqueceria a sua reao, quando, depois de ter esperado na fila, vira finalmente o precioso documento. Total desiluso. As pginas eram ininteligveis.
      Apesar de magnificamente conservadas e escritas em caligrafia impecvel  tinta vermelha sobre papel creme - o cdice parecia uma algaraviada. A princpio pensara que no conseguia l-las porque da Vinci as tinha escrito em italiano arcaico. Mas depois de as ter estudado com mais ateno, percebera que no conseguia identificar uma nica palavra italiana, ou sequer uma letra.
      - Experimente com aquilo - murmurara-lhe a professora da universidade presente junto do expositor, indicando um espelho preso por uma corrente ao rebordo da caixa.
      Langdon pegara o espelho e examinara o texto refletido na sua superfcie.
      Instantaneamente, tornara-se claro.
      Langdon estivera to ansioso por conhecer algumas das idias do grande pensador que esquecera que entre os inmeros talentos artsticos de Leonardo se contava o de utilizar uma escrita invertida que era praticamente ilegvel para qualquer outra pessoa. Os historiadores ainda continuavam a debater se da Vinci escrevia assim para se divertir ou para impedir algum de espreitar-lhe por cima do ombro e roubar-lhe as idias, mas a questo era estril. Da Vinci fazia pura e simplesmente o que lhe apetecia.
      Sophie sorriu ao perceber que Langdon compreendera o que ela queria dizer.
      - Consigo ler as primeiras palavras - disse. - Est em ingls.
      Teabing ainda estava gaguejando.
      - Mas o que  que est acontecendo?
      - Escrita invertida - explicou Langdon. - Precisamos de um espelho.
      - No, no precisamos - disse Sophie. - Aposto que esta camada de verniz  suficientemente fina. - Ergueu a caixa de roseira  altura de uma das luzes da parede e ps-se a examinar a face inferior da tampa. O av no era verdadeiramente capaz de escrever ao contrrio, de modo que escrevia normalmente e ento voltando a folha e desenhando por cima da impresso invertida. Naquele caso, devia ter pirogravado o texto normal em um bloco de madeira e em seguida passado a parte de trs do bloco por uma lixadora eltrica at reduzi-lo  espessura de um papel, permitindo ver as palavras gravadas atravs da madeira. Bastava-lhe ento pegar nela, invert-la e encaix-la no seu lugar. Ao aproximar a tampa da lmpada, viu que acertara. O feixe de luz atravessou a fina pelcula de madeira e a escrita apareceu invertida na face inferior da tampa.
      Instantaneamente legvel.
      - Ingls - gemeu Teabing, esmagado pela vergonha. - A minha lngua materna.
      Na cauda do avio, Rmy Legaludec esforava-se por ouvir acima do barulho dos motores, mas a conversa que decorria l  frente era inaudvel. Rmy no gostava do modo como a noite estava decorrendo. Nem um pouco. Baixou os olhos para o monge enrodilhado a seus ps. O homem estava agora perfeitamente imvel, como que em transe de aceitao, ou rezando uma silenciosa prece pedindo a libertao.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E DOIS
      
      
      A quatro mil e quinhentos metros de altitude, Robert Langdon sentiu o mundo fsico desvanecer-se e todos os seus pensamentos convergiram para o poema escrito por Jacques Saunire, iluminado atravs da tampa da caixa.

an ancient word of wisdom frees this scroll
and helps us keep her scatterd family whole
a headstone praised by templars is the key
and atbash will reveal the truth to thee
      
      Sophie encontrou rapidamente uma folha de papel e copiou-o. Quando acabou, leram-no. Parecia uma espcie de palavras cruzadas arqueolgicas... uma charada que prometia revelar como abrir o criptex. Langdon voltou a ler os versos, devagar.
      Um antiga palavra de sabedoria este rolo liberta... e ajuda-nos a manter unida a sua famlia dispersa... uma lpide venerada pelos Templrios  a chave... e o atbash revelar-te- a verdade.
      Antes que Langdon pudesse sequer ponderar que antiga senha pretendia o verso revelar, sentiu algo de muito mais fundamental ressoar-lhe no esprito: a mtrica do poema. Um pentmetro jmbico.
      Encontrara muitas vezes aquela mtrica nas suas pesquisas sobre sociedades secretas por toda a Europa, incluindo, to recentemente como no ano anterior, nos Arquivos Secretos do Vaticano. Durante sculos, o pentmetro jmbico fora a mtrica preferida dos letrados progressistas de todo o mundo, desde o antigo escritor grego Arquloco a Shakespeare, Milton, Chaucer e Voltaire - homens ousados que tinham optado por escrever os seus comentrios sociais numa mtrica que muitos acreditavam possuir propriedades msticas. As razes do pentmetro jmbico eram profundamente pags. Jambos. Duas partes com nfases opostas. Forte e fraca. Yin e yang. Um par equilibrado. Dispostas em filas de cinco. Pentmetro. Cinco para o pentculo de Vnus e para o sagrado feminino.
      - So pentmetros! - gaguejou Teabing, voltando-se para Langdon. - E o verso est escrito em ingls! La lngua pura!
      Langdon assentiu. Havia sculos que o Priorado, como muitas outras sociedades secretas em conflito com a Igreja, considerava o ingls a nica lngua europia pura. Ao contrrio do francs, do espanhol ou do italiano, que tinham as suas razes no latim  a lngua do Vaticano -, o ingls estava linguisticamente afastado da mquina de propaganda de Roma, tendo-se consequentemente tornado um idioma secreto e sagrado para as irmandades suficientemente eruditas para o aprenderem.
      - Este poema - entusiasmou-se Teabing - refere no s o Graal, mas tambm os Cavaleiros do Templo e a famlia dispersa de Maria Madalena! Que mais poderamos pedir?
      - A senha - disse Sophie, voltando a estudar os versos. - Parece que precisamos de uma antiga palavra de sabedoria?
      - Abracadabra? - sugeriu Teabing, com os olhos brilhando.
      Uma palavra com cinco letras, pensou Langdon, considerando o estonteante nmero de palavras antigas que podiam ser consideradas palavras de sabedoria - palavras tiradas de cnticos msticos, de previses astrolgicas, de ritos de sociedades secretas, de encantamentos Wicca, de feitios egpcios, de mantras pags... a lista era interminvel.
      - A senha - continuou Sophie - tem aparentemente alguma coisa a ver com os Templrios. - Leu o texto em voz alta -: Uma lpide venerada pelos Templrios  a chave.
      - Leigh - disse Langdon -, em matria de Templrios,  voc o especialista. Alguma idia?
      Teabing manteve-se silencioso durante vrios segundos, e ento suspirou.
      - Bem, uma lpide  obviamente uma pedra tumular.  possvel que o poema fale de uma pedra tumular que os Templrios veneram como sendo o tmulo de Madalena, o que no nos ajuda muito, uma vez que no fazemos a mnima idia de onde fica esse tmulo.
      - A ltima linha - interveio mais uma vez Sophie -, diz que o atbash revelar a verdade. J ouvi essa palavra. Atbash.
      - No me surpreende - respondeu Langdon. - Provavelmente, ouviu-a em Criptologia. A Cifra Atbash  um dos mais antigos cdigos que a humanidade conhece.
      Claro, pensou Sophie. O famoso sistema de codificao hebraico.
      A Cifra Atbash fizera de fato parte dos primeiros estudos de Criptologia de Sophie.
      Datava do ano 500 a. C. e era atualmente usada como um exemplo de um esquema de substituio rotativo bsico. Forma muito comum de criptograma judaico, a Cifra Atbash era um simples cdigo de substituio baseado no alfabeto hebraico de vinte e duas letras. Em atbash, a primeira letra era substituda pela ltima, a segunda pela  penltima, e assim sucessivamente.
      - O atbash  sublimemente apropriado - declarou Teabing.
      - Encontramos textos codificados com atbash na Cabala, nos Manuscritos do Mar Morto e at no Antigo Testamento. Os eruditos judeus ainda hoje continuam descobrindo novos significados usando o atbash. O Priorado inclua-o seguramente como parte do seu ensino.
      - O nico problema - notou Langdon -  que no temos nada a que aplicar o cdigo.
      Teabing suspirou.
      - Deve haver uma palavra-chave na tal pedra tumular. Temos de encontrar a lpide venerada pelos Templrios.
      Sophie adivinhou, pela expresso soturna da cara de Langdon, que encontrar a pedra tumular no seria pequena faanha. O atbash  a chave, pensou. Mas no temos a porta. Passaram-se trs minutos at que Teabing deixou escapar um suspiro de frustrao e abanou a cabea.
      - Meus amigos, bloqueei. Deixem-me pensar um pouco nisto enquanto arranjo qualquer coisa para petiscarmos e vejo como esto Rmy e nosso convidado. - E com estas palavras, ps-se de p e dirigiu-se  cauda do avio.
      Sophie sentiu-se exausta ao v-lo afastar-se.
      Do lado de l da janela, a escurido que precedia a aurora era absoluta. Sophie sentia-se como se tivesse sendo projetada atravs do espao sem fazer a mnima idia de onde ia cair. Tendo crescido resolvendo as charadas do av, tinha a incmoda sensao de que aquele poema continha informao que ainda no tinham visto.
      H aqui mais qualquer coisa, disse para si mesma. Engenhosamente escondida... mas apesar disso presente.
      Tambm atormentando-lhe os pensamentos estava o medo de que aquilo que acabassem eventualmente por descobrir dentro do criptex no fosse to simples como um mapa para o Santo Graal. A despeito da convico de Langdon e de Teabing de que a verdade se encontrava dentro do cilindro de mrmore, Sophie resolvera uma quantidade suficiente das caas ao tesouro do av para saber que Jacques Saunire no entregava facilmente os seus segredos.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E TRS
      
      
      O controlador de trfego areo do turno da noite do aerdromo Le Bourget estivera cochilando diante de uma tela de radar vazio quando o capito da Polcia Judiciria praticamente lhe arrombara a porta.
      - O jato do Teabing - gritou Fache, entrando de rompante na pequena torre de controlo -, para onde foi?
      A primeira reao do controlador foi uma titubeante e infeliz tentativa de proteger a privacidade do seu cliente britnico, um dos mais respeitados do aerdromo. Falhou miseravelmente.
      - Muito bem - disse Fache -, fica detido por ter permitido que um avio particular decolasse sem registrar um plano de vo. Fez sinal a um agente, que se aproximou balanando as algemas, e o controlador areo sentiu uma vaga de terror invadi-lo.
      Pensou nos artigos dos jornais em que se debatia se o capito da Polcia nacional era um heri ou uma ameaa. Para ele, a pergunta acabava de ter resposta.
      - Espere! - ouviu-se gemer,  vista das algemas. - Uma coisa posso dizer-lhe. Sir Leigh Teabing faz frequentes viagens a Londres para tratamento mdico. Tem um hangar no aerdromo executivo de Biggin Hill, em Kent. Nos arredores de Londres.
      Com um gesto, Fache afastou o homem das algemas.
      -  para l que vai esta noite?
      - No sei - respondeu o controlador, sinceramente. - O avio seguiu o rumo habitual e o ltimo contato por radar indica o Reino Unido. Biggin Hill  uma hiptese extremamente provvel.
      - Ia mais algum com ele?
      - Juro que no tenho como saber. Os nossos clientes podem seguir diretamente para os respectivos hangares e embarcar quem quiserem. Quem segue a bordo  responsabilidade dos funcionrios da alfndega no aeroporto de destino.
      Fache consultou o relgio e lanou um olhar aos vrios jatos estacionados em frente do terminal.
      - Se foram para Biggin Hill, dentro de quanto tempo aterrissaro?
      O controlador remexeu nervosamente na papelada.
      -  um vo curto. O avio poder estar no cho s... por volta das seis e meia.
      Dentro de quinze minutos.
      Fache franziu o sobrolho e voltou-se para um dos seus homens.
      - Arranje-me um transporte. Vou a Londres. E entre em contato com a Polcia local de Kent. No o MI5. Quero manter esta histria o mais discreta possvel. A Polcia local. Diga-lhes que eu quero que o avio de Teabing seja autorizado a aterrissar. Depois quero-o cercado na pista. Ningum desembarca antes de eu chegar.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E QUATRO
      
      
      - Est muito calada - observou Langdon, olhando para Sophie, sentada do outro lado da cabina.
      - Apenas cansada - respondeu ela. - E o poema. No sei.
      Langdon sentia o mesmo. O barulho dos motores e o suave balouar do avio eram hipnticos, e ainda lhe doa a cabea no lugar onde o monge lhe batera. Teabing continuava l atrs e Langdon resolveu aproveitar o fato de estar sozinho com Sophie para lhe falar de uma coisa que tinha estado pensando.
      - Julgo saber parte da razo por que o seu av conspirou para nos juntar. Penso que h qualquer coisa que ele queria que eu lhe explicasse.
      - A histria do Santo Graal e de Maria Madalena no  o bastante?
      Langdon no sabia muito bem como fazer aquilo.
      - A mgoa entre os dois. A razo por que no falou com ele durante dez anos.
      Penso que talvez tivesse a esperana de que eu pudesse resolver essa parte explicandolhe o que os afastou.
      Sophie agitou-se no assento.
      - No lhe contei o que foi que nos afastou.
      Langdon estava observando-a atentamente.
      - Assistiu a um rito sexual, no foi?
      Sophie encolheu-se.
      - Como sabe?
      - Sophie, disse-me que assistiu a qualquer coisa que a convenceu de que o seu av pertencia a uma sociedade secreta. E aquilo que viu perturbou-a tanto que no voltou a falar com ele desde ento. Tenho um conhecimento razovel a respeito de sociedades secretas. No  preciso ter o crebro de um da Vinci para adivinhar o que viu.
      Sophie ficou olhando para ele, sem dizer nada.
      - Foi na Primavera? - perguntou Langdon. - Mais ou menos no equincio? Meados de Maro?
      Sophie voltou a cabea para olhar pela janela.
      - Foi nas frias da Pscoa. Cheguei a casa uns dias mais cedo.
      - Quer contar-me o que se passou?
      - Preferia no o fazer. - Voltou-se subitamente para Langdon, com os olhos cheios de emoo. - No sei o que foi que vi.
      - Havia homens e mulheres presentes?
      Sophie assentiu, depois de uma brevssima hesitao.
      - Vestidos de branco e de preto?
      Ela limpou os olhos e voltou a assentir com a cabea, parecendo abrir-se um pouco.
      - As mulheres tinham vestidos de tule branco... com sapatos dourados. Seguravam nas mos esferas douradas. Os homens usavam tnicas pretas e sapatos pretos.
      Langdon esforou-se por esconder a emoo, e no entanto mal podia acreditar no que estava ouvindo. Sophie Neveu testemunhara involuntariamente uma cerimnia sagrada com dois mil anos de idade.
      - Mscaras? - perguntou, mantendo a voz calma. - Mscaras andrginas?
      - Sim. Todos eles. Mscaras iguais. Brancas para as mulheres. Pretas para os homens.
      Langdon lera descries da cerimnia e compreendia as suas razes msticas.
      - Chama-se Hieros Gamos - disse, gentilmente. - Data de mais de dois mil anos.
      Os sacerdotes e sacerdotisas egpcios celebravam-na frequentemente para honrar o poder reprodutivo da fmea. - Fez uma pausa, inclinando-se para ela. - E se testemunhou um Hieros Gamos sem ter sido devidamente preparada para compreender o seu significado, imagino que tenha sido um grande choque.
      Sophie no disse nada.
      - Hieros Gamos  grego - continuou ele. - Significa casamento sagrado.
      - O rito a que assisti no era um casamento.
      - Casamento no sentido de unio, Sophie.
      - No sentido de sexo, quer dizer.
      - No.
      - No? - Os olhos verde-azeitona dela estavam sondando-o.
      Langdon voltou atrs.
      - Bem... sim, de certa maneira, mas no como o entendemos hoje. - Explicou-lhe que embora o que ela tinha testemunhado pudesse parecer um rito sexual, o Hieros Gamos no tinha nada a ver com erotismo. Era um ato espiritual. Historicamente, a relao sexual era o ato atravs do qual o macho e a fmea experimentavam Deus. Os Antigos acreditavam que o homem era espiritualmente incompleto at conhecer carnalmente o sagrado feminino. A unio fsica com a mulher recordava o nico meio atravs do qual o homem podia tornar-se espiritualmente completo e, em ltima anlise, chegar  gnosis o conhecimento do divino. Desde os tempos de sis que os ritos sexuais eram considerados a nica ponte da humanidade entre a terra e o cu. - Ao comungar com a mulher - continuou Langdon -, o homem conseguiu atingir um instante climtico em que a sua mente ficava totalmente vazia e ele conseguia ver Deus.
      Sophie parecia pouco convencida.
      - O orgasmo como orao?
      Langdon encolheu os ombros, apesar de, no fundo, Sophie ter razo. Em termos fisiolgicos, o clmax masculino era acompanhado por uma frao de segundo inteiramente vazia de pensamento. Um brevssimo vcuo mental. Um momento de clareza durante o qual era possvel vislumbrar Deus. Os gurus da meditao atingiam estados similares de ausncia de pensamento sem a ajuda do sexo e descreviam frequentemente o Nirvana como um interminvel orgasmo espiritual.
      - Sophie - disse, em tom calmo -,  importante ter presente que o modo como os Antigos encaravam o sexo era diametralmente oposto ao nosso. O sexo gerava nova vida... o milagre absoluto... e os milagres s podiam ser realizados por um deus. A capacidade da mulher de produzir vida a partir do tero tornava-a sagrada. Um deus. A relao sexual era a venerada unio das duas metades do esprito humano, o masculino e o feminino, atravs da qual o macho podia chegar  plenitude espiritual e  comunho com Deus. Aquilo que viu no tinha nada a ver com sexo, tinha a ver com espiritualidade. O rito do Hieros Gamos no  uma perverso.  uma cerimnia profundamente sacrossanta.
      As palavras dele tinham aparentemente tocado um nervo. Sophie mostrara-se muito controlada durante toda a noite, mas agora, pela primeira vez, Langdon via a aura de compostura comear a estalar. Os olhos encheram-se uma vez mais de lgrimas, que ela limpou com a manga do camisolo.
      Langdon deu-lhe um momento para se recompor. O conceito do sexo como caminho para Deus podia, de fato, ser inicialmente bastante confuso. Os seus estudantes judeus ficavam sempre com um ar muito espantado quando ele lhes dizia que a primitiva tradio judaica envolvia sexo ritual. No Templo, nada menos. Os antigos Judeus acreditavam que o Santo dos Santos no Templo de Salomo albergava no apenas Deus, mas tambm a sua poderosa igual feminina, Shekinah. Os homens em busca de plenitude espiritual iam ao Templo visitar sacerdotisas - as hierodules - com as quais faziam amor e experimentavam o divino atravs da unio fsica. O tetragrama hebraico YHWH - o nome sagrado de Deus - derivava na realidade de Jehovah, uma unio fsica andrgina entre o masculino Jah e o nome pr-hebraico de Eva, Havah.
      - Para a Igreja primitiva - continuou Langdon, no mesmo tom suave -, o fato da humanidade usar o sexo para comungar diretamente com Deus representava uma sria ameaa para a base de poder catlica. Deixava a Igreja fora do circuito, minando a sua autoproclamada condio de nico canal para Deus. Por razes bvias, os padres fizeram tudo o que puderam para demonizar o sexo e apresent-lo como um ato nojento e pecaminoso. Vrias outras grandes religies fizeram o mesmo.
      Sophie manteve-se silenciosa, mas Langdon sentia que comeava a compreender melhor o av. Ironicamente, expusera aquele mesmo ponto em uma aula, no incio do semestre.
      - Ser surpreendente que nos sintamos confusos no que respeita ao sexo? - perguntou Langdon aos seus alunos. - A nossa herana psquica, e at a nossa prpria fisiologia, dizem-nos que o sexo  natural... um caminho para a realizao espiritual... e no entanto, as religies modernas declaram-no vergonhoso e nos ensinam a temer o nosso desejo sexual como a mo do diabo.
      Decidiu no choc-los com o fato de mais de uma dzia de sociedades secretas espalhadas por todo o mundo, algumas delas muito influentes, continuarem praticando ritos sexuais e manterem vivas as antigas tradies. A personagem de Tom Cruise no filme De Olhos Bem Fechados descobria isto da maneira mais difcil quando se infiltrava em uma reunio privada da ultra-elite de Manhattan e assistia a um Hieros Gamos. Infelizmente, os autores do filme tinham interpretado mal a maior parte dos pormenores especficos, mas a parte essencial estava l: uma sociedade secreta comungando para celebrar a magia da unio sexual.
      - Professor Langdon? - Um aluno sentado em uma das ltimas filas levantou a mo, com uma nota de feliz expectativa na voz. - Est dizendo que em vez de irmos  igreja, devamos ter mais sexo?
      Langdon riu, nada disposto a engolir a isca. Pelo que ouvia contar das festas de Harvard, aqueles garotos estavam tendo sexo mais do que suficiente.
      - Meus senhores - disse, sabendo que pisava terreno perigoso -, posso fazer uma sugesto a todos? Sem querer ser ousado a ponto de aprovar o sexo pr-marital nem ingnuo ao ponto de acreditar que so todos uns castos anjinhos, vou lhes dar-lhes um conselho relativo  sua vida sexual.
      Todos os rapazes da turma se inclinaram para a frente, escutando atentamente.
      - Da prxima vez que estiverem com uma mulher, procurem no seu corao e vejam se no conseguem abordar o sexo como um ato espiritual e mstico. Faam a vocs mesmos o desafio de encontrar essa centelha de divindade que o homem s pode alcanar atravs da unio com o sagrado feminino.
      As garotas sorriram com o ar de quem sabe, assentindo com a cabea. Os rapazes trocaram risinhos ambguos e piadas de mau gosto. Langdon suspirou. Mesmo universitrios, os rapazes continuavam a ser rapazes.
      Sophie sentiu o frio do vidro na testa que apertava contra a janela do avio enquanto voltava um olhar ausente para o vazio e tentava processar o que Langdon acabava de lhe dizer. Tinha um novo remorso bem no fundo de si mesma. Dez anos. 
      Recordou os montes de cartas por abrir que o av tinha lhe enviado. Vou contar tudo ao Robert. Sem se voltar, comeou falando. Em voz baixa, com medo.
       medida que relatava o que acontecera naquela noite, sentiu-se recuar no tempo... voltar ao bosque fora da casa de frias do av na Normandia... passar em revista, confusa, as salas desertas, ouvir as vozes vindas do cho... e ento encontrar a porta escondida. Voltou a descer, degrau a degrau, a escada de pedra, at  gruta subterrnea. Voltou a sentir o cheiro de terra no ar. Leve e frio. Era o ms de Maro. Da escurido do seu esconderijo na escada, viu os desconhecidos balanarem-se e cantarem  luz bruxuleante e alaranjada dos archotes.
      Estou sonhando, disse Sophie para si mesma. Isto  um sonho. Que outra coisa pode ser?
      Os homens e as mulheres balanavam-se, preto, branco, preto, branco. As belas tnicas de tule das mulheres ondeavam cada vez que elas erguiam na mo direita os globos de ouro e entoavam em unssono: Eu estava contigo no comeo, na aurora de tudo o que  sagrado, trouxe-te no ventre antes do incio do dia. As mulheres baixavam os globos, e todos balanavam para a frente e para trs, como que em transe.
      Reverenciavam qualquer coisa que estava no centro do crculo. Para que esto eles olhando?
      As vozes aceleraram. Mais altas. Mais rpidas.
      A mulher que est vendo  amor!, cantaram as mulheres, erguendo de novo os globos. Tem a sua morada na eternidade!, responderam os homens.
      O cntico voltou a acelerar. Era agora atroador. Ainda mais rpido. Os participantes avanaram um passo e ajoelharam.
      Nesse instante, Sophie pde finalmente ver aquilo para que todos eles estavam olhando. Em cima de um altar baixo e ricamente decorado, no meio do crculo, estava um homem. Nu, deitado de costas, com uma mscara preta. Sophie reconheceu instantaneamente o corpo e o sinal de nascena no ombro. Quase gritou. Grand-pre! S aquela imagem teria bastado para choc-la alm do imaginvel, mas havia mais.
      Montada no av estava uma mulher, com o rosto coberto por uma mscara branca, os compridos cabelos prateados cados para as costas. O corpo dela era cheio, longe de ser perfeito, e movia-se ao ritmo do cntico... fazendo amor com o av de Sophie.
      Sophie quis fazer meia volta e fugir, mas no foi capaz. As paredes de rocha da gruta prendiam-na como uma priso enquanto o cntico atingia um ritmo febril, o som subindo num crescendo at o frenesi. Com um sbito rugido, a caverna inteira pareceu explodir em orgasmo. Sophie no conseguia respirar. Percebeu, de sbito, de que estava chorando baixinho. Voltou-se, subiu as escadas cambaleando, em silncio, saiu da casa e regressou, trmula, a Paris.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E CINCO
      
      
      O jato fretado sobrevoava as tremeluzentes luzes do Mnaco quando o bispo Aringarosa desligou o celular, terminando a sua segunda conversa com Fache naquela noite. Voltou a estender a mo para o saco de enjo, mas estava muito exausto at para vomitar.
      S quero que isto acabe.
      As ltimas informaes de Fache tinham-lhe parecido incompreensveis, apesar de naquela noite nada fazer sentido. O que  que se est acontencendo? Os acontecimentos tinham escapado a qualquer espcie de controle. Em que foi que meti o Silas? No que foi que meti a mim mesmo?
      Com passos trmulos, dirigiu-se  cabina de pilotagem.
      - Preciso mudar de destino - disse.
      O piloto olhou por cima do ombro e riu.
      - Est brincando, no est?
      - No, tenho de ir imediatamente para Londres.
      - Padre, isto  um vo fretado, no  um txi.
      - Pagarei a diferena, claro. Quanto? Londres fica apenas uma hora mais para norte e quase no exige mudana de rumo, de modo que...
      - No  uma questo de dinheiro, padre, h outras coisas envolvidas.
      - Dez mil euros. J.
      O piloto voltou-se, com uma expresso de choque no rosto.
      - Quanto? Que espcie de padre traz consigo tanto dinheiro?
      Aringarosa voltou para junto da maleta preta, abriu-a, tirou l de dentro um dos ttulos ao portador e estendeu-o ao piloto.
      - O que  isto? - perguntou o homem.
      - Um ttulo ao portador de dez mil euros sacvel sobre o Banco do Vaticano.
      O piloto fez um ar de dvida.
      -  igual a dinheiro.
      - S dinheiro  dinheiro - disse o piloto, e devolveu o ttulo.
      Aringarosa sentiu as pernas fraquejarem-lhe enquanto se apoiava  porta do cockpit,
      -  uma questo de vida ou de morte. Tem de me ajudar. Preciso ir a Londres.
      O piloto olhou para o anel de ouro do bispo.
      - Os diamantes so verdadeiros?
      Aringarosa baixou os olhos para o anel.
      - No posso de modo algum separar-me dele.
      O piloto encolheu os ombros, voltou-se e ficou olhando em frente.
      Aringarosa sentiu uma profunda tristeza. Olhou para o anel. Fosse como fosse, estava  beira de perder tudo o que ele representava. Ao cabo de um longo tempo, tirou o anel do dedo e pousou-o cuidadosamente no painel de instrumentos.
      Saiu do cockpit e voltou para o seu lugar. Segundos depois, sentiu o piloto iniciar uma curva de alguns graus para norte. Mesmo assim, o seu momento de glria tinha sido destrudo. Tudo aquilo comeara como uma causa santa. Um plano brilhantemente elaborado. Agora, como um castelo de cartas, estava desmoronando... e o fim no estava sequer  vista.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E SEIS
      
      
      Langdon bem via que Sophie estava ainda abalada depois de ter lhe contado a sua experincia de Hieros Gamos. Pelo seu lado, estava espantado por t-la ouvido. Sophie no s testemunhara todo o ritual, como o seu prprio av fora o celebrante... o Gro-Mestre do Priorado de Sio. A companhia era ilustre. Da Vinci, Botticelli, Isaac Newton Victor Hugo, Jean Cocteau... Jacques Saunire.
      - No sei que mais possa dizer-lhe - murmurou Langdon, docemente.
      Os olhos de Sophie estavam agora verde-escuros, cheios de lgrimas.
      - Criou-me como se fosse sua filha.
      Langdon reconheceu ento a emoo que estivera crescendo nos olhos dela enquanto falava. Era remorso. Distante e profundo. Sophie Neveu rechaara o av e estava agora vendo-o sob uma luz completamente nova.
      L fora, a aurora aproximava-se a passos de gigante, pintalgando de vermelho o cu a estibordo. Por baixo deles, a terra continuava escura.
      - Vitualhas, meus caros? - Teabing juntou-se com um floreado, pousando em cima da mesa vrias latas de Coca-Cola e uma caixa de biscoitos velhos. Pediu profusamente desculpas pela escassez dos comestveis, enquanto os distribua. - O nosso amigo monge ainda no quer falar, mas demos-lhe tempo. - Deu uma dentada em um biscoito e olhou para o poema. - Ento, minha querida, algum progresso? - Olhava para Sophie. - Que est o seu av tentando nos dizer? Onde diabo fica essa pedra tumular? A lpide venerada pelos Templrios?
      Sophie abanou a cabea e permaneceu silenciosa.
      Enquanto Teabing voltava a embrenhar-se nos versos, Langdon abriu uma Cola e voltou-se para a janela, com o esprito cheio de imagens de rituais secretos e cdigos indecifrveis. Uma lpide venerada pelos Templrios  a chave. Bebeu um longo gole diretamente da lata. Uma lpide venerada pelos Templrios. A Cola estava morna.
      O negro vu da noite parecia estar evaporando-se rapidamente, e, observando a transformao, Langdon viu um oceano refulgente estender-se por baixo deles. O Canal.
      J no podia faltar muito tempo.
      Desejou que a luz do dia trouxesse consigo outro tipo de iluminao, mas quanto mais claro se tornava o cu l fora, mais longe ele se sentia da verdade. Ouvia os ritmos dos pentmetros jmbicos e de cnticos, de Hieros Gamos e de ritos sagrados ressoarem juntamente com o rugido dos motores.
      Uma lpide venerada pelos Templrios.
      O avio voava de novo sobre terra firme quando a revelao o atingiu como um raio. Pousou com fora a lata vazia de Coca-Cola.
      - No vo acreditar nisto - disse, voltando-se para os outros. - A lpide dos Templrios... Descobri o que .
      Os olhos de Teabing ficaram grandes como pires.
      - Sabe onde est a lpide?
      Langdon sorriu.
      - No onde est. O que .
      Sophie inclinou-se para ouvir.
      - Acho que a palavra headstone, que todos interpretamos como lpide, refere literalmente uma cabea de pedra... stone head - explicou Langdon, saboreando a familiar excitao da descoberta acadmica. - No se trata de uma pedra tumular.
      - Uma cabea de pedra? - perguntou Teabing.
      Sophie parecia igualmente confusa.
      - Leigh - disse Langdon, voltando-se -, durante a Inquisio, a Igreja acusou os
      Templrios de todo o tipo de heresias, certo?
      - Correto. Inventaram todo o tipo de acusaes. Sodomia, urinar na cruz, culto do diabo, uma lista e tanto. E dessa lista constava a venerao de falsos dolos, no  verdade? Especificamente, a Igreja acusava os Templrios de praticarem rituais secretos em que rezavam a uma cabea de pedra esculpida... o deus pago...
      - Baphomet! - gritou Teabing. - Cus, Robert, tem razo! Uma cabea de pedra venerada pelos Templrios!
      Langdon explicou rapidamente a Sophie que Baphomet era um deus pago da fertilidade associado  fora criativa da reproduo, representado com uma cabea de carneiro ou de bode, um smbolo comum de procriao e fecundidade. Os Templrios honravam Baphomet formando crculo  volta de uma rplica de pedra da sua cabea e entoando preces.
      - Baphomet. - Teabing sorria beatificamente. - A cerimnia celebrava a magia criativa da unio sexual, mas o Papa Clemente convenceu todo mundo de que a cabea de Baphomet era na realidade a cabea do diabo. E usou-a como remate final no seu ataque contra os Templrios.
      Langdon confirmou com um aceno de cabea. A crena moderna em um diabo cornudo conhecido como Satans tem as suas origens em Baphomet e nas tentativas da Igreja de apresentar o chifrudo deus da fertilidade como um smbolo do demnio. A Igreja tinha sido obviamente bem sucedida, ainda que no de todo. Na Amrica, as tradicionais mesas de Ao de Graas continuavam a ostentar smbolos pagos da  fertilidade dotados de chifres. A cornucpia da abundncia era um tributo  fertilidade de Baphomet e remontava ao mito de Zeus ter sido amamentado por uma cabra cujo chifre, acidentalmente partido, se enchia de frutos. Baphomet tambm aparecia em fotografias de grupo quando um engraado qualquer erguia dois dedos por detrs da cabea de um amigo; sem dvida que poucos dos brincalhes percebiam que o seu gesto de troa estava na realidade declarando a robusta contagem de espermatozides da vtima..
      - Sim, sim - dizia Teabing, excitadssimo. - Deve ser a Baphomet que o poema se refere. Uma cabea de pedra venerada pelos Templrios.
      - Muito bem - alegou Sophie -, mas se Baphomet  a cabea de pedra venerada pelos Templrios, temos um novo dilema. Apontou para os anis do criptex. - Baphomet tem oito letras. E ns s temos espao para cinco.
      - Minha querida - disse Teabing, sorrindo amplamente -,  aqui que a Cifra Atbash entra em cena.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E SETE
      
      
      Langdon estava impressionado. Teabing acabava de escrever de memria as vinte e duas letras do alfabeto - alef-beit - hebreu.  certo que usara os equivalentes latinos e no os caracteres hebraicos, mas mesmo assim... Estava agora lendo-os com uma pronncia impecvel.
      A B G D H V Z Ch T Y K L M N S O P Tz Q R ShTh
      - Alef, Beit, Gimel, Dalet, Hei, Vav, Zayin, Chet, Tet, Yud, Kaf, Lamed, Mem, Nun, Samech, Ayin, Pei, Tzadik, Kuf, Reish, Shin e Tav. - Teabing limpou dramaticamente a testa e continuou. Na ortografia formal hebraica, no se usa vogais. Por conseguinte, quando escrevemos a palavra Baphomet usando o alfabeto hebreu, ela perde as suas trs vogais na traduo, deixando-nos...
      - Cinco letras - murmurou Sophie. Teabing assentiu e colocou-se outra vez a escrever.
      - Okay, aqui temos a ortografia correta de Baphomet em hebreu. Vou desenhar as vogais que faltam, para maior clareza.
      B a P V o M e Th
      - Tenham presente, claro - acrescentou -, que o hebreu  normalmente escrito em sentido contrrio, mas tambm podemos usar o atbash assim como est. Agora, tudo o que temos de fazer  criar o nosso esquema de substituio reescrevendo todo o alfabeto, em ordem inversa, ao lado do original.
      - H uma maneira mais fcil - disse Sophie, tirando a caneta da mo de Teabing. - Resulta com todas as cifras reflexas de substituio, incluindo o atbash. Um pequeno truque que aprendi no Royal Holloway. - Sophie escreveu a primeira metade do alfabeto da esquerda para a direita, e ento, por baixo, a segunda metade da direita para a esquerda. - Os criptoanalistas chamam a isto fazer a dobra. Duas vezes mais fcil, duas vezes mais claro.
      A B G D H V Z Ch T Y K
      Th Sh R Q Tz P O S N M L
      Teabing deu uma olhada no resultado e riu.
      - Toda a razo. Fico contente por verificar que os rapazes de Holloway esto fazendo seu trabalho.
      Ao olhar para a matriz de substituio de Sophie, Langdon sentiu uma crescente excitao que imaginou poder rivalizar com a que tinham sentido os investigadores de outros tempos ao usarem pela primeira vez a Cifra Atbash para decodificar o atualmente famoso Mistrio de Sheshach. Durante anos, as referncias bblicas a uma cidade chamada Sheshach tinham resistido a todos os esforos de identificao levados a cabo pelos estudiosos. O nome da cidade no aparecia em qualquer mapa nem em qualquer outro documento, e no entanto era repetidamente referido no Livro de Jeremias - o rei de Sheshach, a cidade de Sheshach, o povo de Sheshach. Finalmente, um investigador aplicara a Cifra Atbash  palavra, com resultados surpreendentes. A cifra revelara que Sheshach era na verdade o nome de cdigo de uma outra cidade muito conhecida. O processo de descodificao era simples.
      Sheshach, em hebreu, escreve-se Sh-Sh-K.
      Sh-Sh-K, quando colocado na matriz de substituio, tornava-se B-B-L.
      B-B-L, em hebreu, l-se Babel.
      A misteriosa cidade de Sheshach era, pois, a cidade de Babel, e a descoberta provocou um frenesi de investigao bblica. No espao de semanas, tinham sido descobertas no Antigo Testamento vrias outras palavras em Cdigo atbash, revelando uma infinidade de significados escondidos que os eruditos no imaginavam sequer que l estivessem.
      - Estamos nos aproximando - murmurou Langdon, incapaz de conter a excitao.
      - A centmetros - corroborou Teabing. Olhou para Sophie e sorriu. - Est pronta?
      Ela assentiu.
      - Muito bem. Baphomet, em hebreu, sem as vogais, escreve-se B-P-V-M-Th. Tudo o que temos agora de fazer  aplicar a sua matriz de substituio atbash para obter a nossa senha de cinco letras.
      Langdon sentia o corao martelar-lhe o peito. B-P-V-M-th.
      A luz do Sol entrava agora a jorros pelas janelas. Olhou para a matriz de substituio de Sophie e comeou lentamente a fazer a converso. B  Sh... P  V...
      Teabing sorria como um mido no dia de Natal.
      - E a Cifra Atbash revela... - Calou-se de repente.  Grande Deus! - exclamou, branco como um lenol.
      Langdon ergueu vivamente a cabea.
      - Que foi? - perguntou Sophie.
      - No vo acreditar nisto. - Teabing olhou para Sophie. - Especialmente voc, minha querida.
      - Que quer dizer com isso?
      - Isto ... engenhoso - murmurou ele. - Extremamente engenhoso! - Teabing voltou a escrever no papel. - Rufar de tambores, por favor. Aqui tm a sua senha. - E mostrou-lhes o que tinha escrito.
      Sh-V-P-Y-A
      - O que  isso? - perguntou Sophie, franzindo a testa.
      Langdon tambm no reconheceu a palavra. A voz de Teabing pareceu tremer de admirao.
      - Isto, minha amiga,  na verdade uma antiga palavra de sabedoria.
      Langdon voltou a ler as letras. Uma antiga palavra de sabedoria este rolo liberta.
      Um instante depois, compreendeu. Nunca teria pensado naquilo.
      - Uma antiga palavra de sabedoria!
      Teabing estava rindo.
      - Muito literalmente!
      Sophie olhou para a palavra e depois para o criptex. Percebeu imediatamente que nem Langdon nem Teabing tinham visto um grave problema.
      - Esperem! No pode ser esta a senha - argumentou. O criptex no tem nenhum Sh nos anis. Usa o tradicional alfabeto latino.
      - Leia a palavra - aconselhou Langdon. - Sem esquecer duas coisas. Em hebraico, o smbolo para o som Sh pode-se tambm pronunciar como S, dependendo da tnica. Tal como a letra P se pode pronunciar como F.
      SVFYA? pensou ela, confusa.
      - Genial! - acrescentou Teabing. - A letra Vav usa-se frequentemente em vez do som da vogal O!
      Sophie voltou olhando para as letras, tentando vocaliz-las.
      - S...o...f...y...a.
      Ouviu o som da sua prpria voz, e no queria acreditar no que acabava de dizer.
      - Sophia? Isso l-se Sophia?
      Langdon estava assentindo entusiasticamente.
      - Sim! Sophia significa literalmente sabedoria, em grego. A raiz do seu nome, Sophia,  literalmente uma palavra de sabedoria.
      Sophie teve de sbito uma saudade imensa do av. Codificou a Chave de Abbada do Priorado com o meu nome. Formou-se um n na garganta. Parecia tudo to perfeito. Mas quando voltou o olhar para os cinco anis do criptex, percebeu que ainda havia um problema.
      - Mas esperem... a palavra Sophia tem seis letras.
      O sorriso de Teabing no desapareceu como ela esperava.
      - Olhe bem para o poema. O seu av escreveu, Uma antiga palavra de sabedoria.
      - Sim?
      Teabing piscou-lhe um olho.
      - Em grego antigo, sabedoria escreve-se S-O-F-I-A.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E OITO
      
      
      Sophie sentiu-se invadida por uma louca excitao quando, com o criptex pousado no colo, comeou a alinhar as letras. Uma antiga palavra de sabedoria este rolo liberta. 
      Langdon e Teabing, que lhe seguiam todos os gestos, pareciam ter suspendido a respirao.
      S...O...F...
      - Com cuidado - pediu Teabing. - com muito cuidado.
      ...I...A.
      Sophie acertou o ltimo anel.
      - Okay - disse, olhando para os outros dois. - Vou puxar.
      - Lembre-se do vinagre - sussurrou Langdon, com temerosa euforia. - Tenha cuidado.
      Sophie sabia que se aquele criptex era igual aos que abrira na sua juventude, tudo
      o que tinha de fazer era segurar o cilindro por ambas as extremidades, depois dos anis, e puxar, aplicando uma presso lenta e regular em direes opostas. Se os anis tivessem adequadamente alinhados com a senha, um dos extremos deslizaria para fora, como a tampa de uma lente, e ela poderia enfiar a mo no interior e retirar o papiro enrolado  volta da ampola de vinagre. No entanto, se a senha que tinham introduzido estivesse incorreta, a fora exercida para fora em ambas as extremidades seria transferida a uma alavanca que rodaria para baixo dentro do cilindro e faria presso sobre o vidro, acabando eventualmente por parti-lo.
      Devagarinho, disse a si mesma.
      Teabing e Langdon inclinaram-se para a frente quando ela fechou as mos  volta das extremidades do cilindro. Com a excitao de decifrar a senha, Sophie quase esquecera o que esperavam encontrar l dentro. Isto  a Chave de Abbada do Priorado.
      Segundo Teabing, continha um mapa para chegar ao Santo Graal, revelando a localizao do tmulo de Maria Madalena e do tesouro Sangreal... a autntica gruta do tesouro da verdade secreta.
      Com o tubo de pedra seguro nas mos, Sophie voltou a certificar-se de que todas as letras estavam devidamente alinhadas com os indicadores. Ento, lentamente, puxou.
      Nada aconteceu. Fez um pouco mais de fora. De repente, o cilindro estendeu-se como um telescpio bem construdo. A pesada extremidade de pedra soltou-se e ficou-lhe na mo. Teabing e Langdon quase deram um salto. O corao de Sophie comeou a bater mais depressa quando ela pousou a tampa em cima da mesa e inclinou ligeiramente o cilindro para espreitar l para dentro.
      Um rolo!
      Viu que tinha sido enrolado  volta de um objeto cilndrico a ampola de vinagre, assumiu - mas que, estranhamente, no era o habitual e delicado papiro. Era velino.  estranho, pensou. O vinagre no dissolve o velino. Olhando com mais ateno, descobriu que o objeto  volta do qual o velino fora enrolado no era, afinal, uma ampola de vinagre. Era algo completamente diferente.
      - Que est acontecendo? - perguntou Teabing, impaciente. - Tire o rolo para fora.
      De testa franzida, Sophie segurou com os dedos o rolo de velino e o objeto  volta do qual fora enrolado, tirando-os a ambos de dentro do contentor.
      - Isso no  papiro - disse Teabing. -  muito pesado.
      - Eu sei.  uma proteo.
      - Para qu? Para a ampola de vinagre?
      - No. - Sophie desenrolou o pedao de velino e mostrou o que ele embrulhava. - Para isto.
      Quando Langdon viu o objeto, sentiu o corao afundar-se no peito.
      - Deus nos ajude - murmurou Teabing, deixando descair os ombros. - O seu av era um arquiteto implacvel.
      Langdon continuava olhando estupefato. Estou vendo que Sauniere no tinha a mnima inteno de tornar isto fcil.
      Em cima da mesa, estava um segundo criptex. Menor. Feito de nix. A paixo de Saunire pela dualidade. Dois criptex. Tudo aos pares. Duplos-sentidos. Masculinofeminino.
      Preto dentro de branco. Langdon sentiu a teia de simbolismos estender-se  sua frente. O branco d  luz o preto.
      Todo o homem nasce da mulher.
      Branco - fmea.
      Preto - macho.
      Estendeu a mo e pegou o pequeno criptex. Parecia idntico ao primeiro, excetuando o fato de ser preto e ter metade do tamanho. Ouviu o familiar gorgolejo.
      Aparentemente, a ampola de vinagre estava dentro do segundo criptex.
      - Bem, Robert - disse Teabing, empurrando na direo dele a folha de velino -, vai gostar de saber que pelo menos estamos voando na direo certa.
      Langdon examinou a espessa folha de velino. Continha, escrito em uma caligrafia ornamentada, outro poema com quatro linhas, tambm em ingls. Mais uma vez, a mtrica era o pentmetro jmbico. O poema era crptico, mas Langdon s precisou ler o primeiro verso para perceber que a deciso de Teabing de voar para Inglaterra fora acertada.
      IN LONDON LIES A KNIGHT A POPE INTERRED
      Em Londres jaz um cavaleiro que um papa enterrou. O resto do poema indicava claramente que a senha para abrir o segundo criptex seria encontrada no tmulo do cavaleiro, Em algum lugar na cidade.
      Langdon voltou-se excitadamente para Teabing.
      - Faz alguma idia de que cavaleiro o poema se refere?
      Teabing sorriu.
      - Nenhuma. Mas sei exatamente em que cripta devemos procurar.
      Nesse instante, vinte e quatro quilmetros  frente deles, seis carros da Polcia de Kent corriam pelas ruas que a chuva encharcara em direo ao aerdromo de Biggin Hill.
      
      
      
      CAPTULO SETENTA E NOVE
      
      
      O tenente Collet tirou uma Perrier do frigorfico de Sir Leigh e voltou a sair, atravessando a sala de estar. Em vez de acompanhar Fache a Londres, onde a ao decorria, estava agora bancando a bab da equipe da PTC que se espalhara por Chteau Villette.
      At ao momento, as provas encontradas pouco ou nada ajudavam: um projtil cravado no soalho, um papel com vrios smbolos rabiscados, as palavras lmina e clice escritas e uma correia de couro ensanguentada e cheia de puas que, segundo a PTC, estava associada ao grupo conservador catlico Opus Dei, cujas agressivas prticas de recrutamento em Paris, denunciadas em um programa de televiso, tinham causado um certo problema.
      Collet suspirou. Desejo muita sorte a quem tentar tirar alguma coisa que faa sentido desta misturada. Seguiu o luxuoso corredor e entrou no vasto salo de baile transformado em estdio, onde o perito-chefe da PTC estava ocupado recolhendo impresses digitais. Era um homem corpulento, que usava suspensrios.
      - Alguma coisa? - perguntou Collet.
      O perito abanou a cabea.
      - Nada de novo. Vrios conjuntos congruentes com os que encontramos no resto da casa.
      - E as impresses no tal cilcio?
      - A Interpol est tratando disso. Mandei-lhes tudo o que encontramos.
      Collet apontou para os dois sacos de plstico, selados, pousados em cima de uma mesa.
      - E isto?
      O homem encolheu os ombros.
      - Fora de hbito. Recolho tudo o que seja peculiar.
      Peculiar?, pensou Collet, aproximando-se.
      - Este ingls  um tipo esquisito - continuou o perito. Olhe para isto. - Examinou os sacos onde guardava as provas e escolheu um, entregando-o a Collet.
      A fotografia mostrava o prtico principal de uma catedral gtica - o tradicional arco recolhido, estreitando atravs de faixas sucessivas at uma pequena porta. Collet examinou cuidadosamente a fotografia e acabou por perguntar:
      - O que  que isto tem de peculiar?
      - Veja nas costas.
      No verso da fotografia, Collet encontrou anotaes, rabiscadas em ingls, que descreviam a longa e cavernosa nave da catedral como um tributo pago secreto ao tero feminino. Aquilo era estranho. Foram, no entanto as anotaes sobre o prtico que o fizeram dar um salto.
      - Espere a! Ela acha que a entrada da igreja representa uma... O perito assentiu com a cabea.
      - Com bordos labiais e um bonito clitris de cinco folhas por cima da entrada. - Suspirou. - Quase nos d vontade de voltar a frequentar a igreja.
      Collet pegou o segundo saco selado. Viu, atravs do plstico, uma fotografia ampliada do que parecia ser um documento antigo. O cabealho dizia:
      Les Dossiers Secrets - Nmero 4 Im1 249.
      - O que  isto? - perguntou.
      - No fao idia. Tem cpias por todo o lado, de modo que a meti no saco.
      Collet estudou o documento.
      PRIEURE DE SION - LES NAUTONIERS/GRO-MESTRES
      JEAN DE GISORS 1188-1220
      MARIE DE SAINT-CLAIR 1220-1266
      GUILLAUME DE GISORS 1266-1307
      EDOUARD DE BAR 1307-1336
      JEANNE DE BAR 1336-1351
      JEAN DE SAINT-CLAIR 1351-1366
      BLANCE DEVREUX 1366-1398
      NICOLAS FLAMEL 1398-1418
      RENE DANJOU 1418-1480
      IOLANDE DE BAR 1480-1483
      SANDRO BOTTICELLI 1483-1510
      LEONARDO DA VINCI 1510-1519
      CONNETABLE DE BOURBON 1519-1527
      FERDINAND DE GONZAQUE 1527-1575
      LOUIS DE NEVERS 1575-1595
      ROBERT FLUDD 1595-1637
      J. VALENTIN ANDREA 1637-1654
      ROBERT BOYLE 1654-1691
      ISAAC NEWTON 1691-1727
      CHARLES RADCLYFFE 1727-1746
      CHARLES DE LORRAINE 1746-1780
      MAXIMILIAN DE LORRAINE 1780-1801
      CHARLES NODIER 1801-1844
      VICTOR HUGO 1844-1885
      CLAUDE DEBUSSY 1885-1918
      JEAN COCTEAU 1918-1963
      - Prieur de Sion? - espantou-se Collet.
      - Tenente? - Um outro agente acabava de aparecer  porta. - A central tem uma chamada urgente para o capito Fache, mas no conseguem contact-lo. Atende?
      Collet voltou  cozinha e pegou o telefone.
      Era Andr Vernet.
      A voz refinada do banqueiro no bastava para dissimular a tenso que o dominava:
      - Pensei que o capito Fache tinha me dito que telefonaria, mas, at agora, no voltei a saber dele.
      - O capito Fache est muito ocupado - disse Collet. - Posso ajud-lo em qualquer coisa?
      - Tinha-me sido garantido que me manteriam informado dos seus progressos. 
      Por um instante, Collet teve a impresso de reconhecer o timbre da voz do homem, mas no conseguia identific-lo.
      - Monsieur Vernet, estou no momento dirigindo as investigaes em Paris. Sou o tenente Collet.
      Houve uma longa pausa.
      - Peo imensa desculpa, tenente, tenho outra chamada em linha. Ligo-lhe mais tarde. - E desligou.
      Durante vrios segundos, Collet ficou imvel, com o auscultador na mo. E ento fez-se a luz. Eu bem me parecia que estava reconhecendo aquela voz! A revelao deixou-o de boca aberta. 
      O condutor do carro blindado.
      O do Rolex falso.
      Collet compreendia agora por que razo o banqueiro desligara to precipitadamente. Lembrara-se do nome do tenente Collet... o policial a quem horas antes mentira to descaradamente.
      Ponderou as implicaes daquele bizarro desenvolvimento. Vernet est envolvido.
      Instintivamente, sabia que devia telefonar ao capito Fache. Emocionalmente, sabia que aquele golpe de sorte ia ser a sua oportunidade de brilhar.
      Ligou de imediato para a Interpol e pediu-lhes tudo o que tivessem a respeito do Banco Depositrio de Zurique e do respectivo presidente, Andr Vernet.
      
      
      
      CAPTULO OITENTA
      
      
      - Cintos de segurana, por favor - anunciou o piloto de Teabing, enquanto o Hawker 731 comeava a descer no meio de um chuvisco matinal. - Aterrissamos dentro de cinco minutos.
      O espetculo das enevoadas colinas de Kent espraiando-se por baixo do avio despertou em Teabing uma agradvel sensao de regresso a casa. A Inglaterra ficava a menos de uma hora de vo de Paris, e todavia a um mundo de distncia. Naquela manh, o mido verde primaveril da terra natal pareceu-lhe particularmente acolhedor. O meu tempo na Frana acabou. Regresso a Inglaterra como vencedor. A Chave de Abbada foi encontrada. Restava, claro, a questo de saber aonde os conduziria. Em algum lugar no Reino Unido. Onde, exatamente, Teabing no fazia a mnima idia, mas j saboreava a glria. 
      Sob os olhares de Langdon e de Sophie, Teabing levantou-se e dirigiu-se ao outro lado da cabina, onde, fazendo deslizar um painel, ps a descoberto um discretamente escondido cofre de parede. Marcou a combinao, abriu o cofre e tirou de l dois passaportes.
      - A minha documentao e de Rmy - explicou. Tirou em seguida um grosso mao de notas de cinquenta libras e acrescentou:
      - E a sua documentao tambm.
      Sophie ergueu a cabea.
      - Um suborno?
      - Diplomacia criativa. Os aerdromos executivos do direito a certas mordomias.
      Um funcionrio da alfndega nos receber no meu hangar e pedir autorizao para subir a bordo. Em vez de deix-lo entrar, vou dizer-lhe que viajo com uma celebridade francesa que prefere que no se saiba que est na Inglaterra... por causa dos jornais, compreende?... e ofereo-lhe esta generosa gratificao como expresso dos meus agradecimentos.
      Langdon parecia espantado.
      - E o funcionrio vai aceitar?
      - De qualquer outra pessoa, no. Mas esta gente me conhece. No sou nenhum traficante de armas, pelo amor de Deus. Fui constituido cavaleiro. - Teabing sorriu. - Um clube que tem os seus privilgios.
      Rmy aproximou-se pela coxia, com a Heckler and Koch suspensa do brao cado ao longo do corpo.
      - As suas ordens, Sir Leigh?
      Teabing olhou para o mordomo.
      - Vou ter de pedir que fique a bordo com o nosso convidado at ns regressarmos.
      No podemos andar por Londres arrastando-o de um lado para o outro.
      Sophie estava com uma expresso preocupada.
      - Leigh, a Polcia francesa vai encontrar o seu avio antes de ns voltarmos.
      Teabing riu.
      - Sim, imagine a surpresa deles se viessem a bordo e encontrassem o Rmy.
      Esta atitude displicente surpreendeu-a.
      - Leigh, transportou um refm amarrado atravs de uma fronteira internacional. Isto  muito srio.
      - Tambm os meus advogados. - Teabing franziu o sobrolho, olhando para o monge amarrado na cauda do avio. - Aquele animal entrou  fora em minha casa e quase me matou.  um fato, que o Rmy confirmar.
      - Mas voc amarrou-o e trouxe-o para Londres.
      Teabing levantou a mo direita, numa pardia de um juramento em tribunal.
      - Peo-lhe, Meritssimo, que perdoe a um velho e excntrico cavaleiro o seu tolo preconceito a favor do sistema judicial ingls. Compreendo que devia ter chamado as autoridades francesas, mas sou um snob e no acreditei que os desleixados franceses resolvessem este caso como deve ser. Este homem quase me assassinou. Sim, tomei uma deciso precipitada ao forar o meu mordomo a ajudar-me a traz-lo para Inglaterra, mas encontrava-me sob uma grande presso. Mea culpa. Mea culpa.
      Langdon fez um ar de incredulidade.
      - Vinda de si, Leigh, essa  bem capaz de pegar.
      - Sir Leigh - chamou o piloto. - A torre acaba de entrar em contato. Tem um problema qualquer de manuteno junto ao seu hangar e esto me pedindo para levar o avio diretamente para junto do terminal.
      Havia mais de uma dcada que Teabing voava para Biggin Hill, e era a primeira vez que aquilo acontecia.
      - Disseram qual era o problema?
      - O controlador foi muito vago. Qualquer coisa a respeito de uma fuga de combustvel no sistema de bombeamento? Pediu-me que estacionasse em frente do terminal e mantivesse todos a bordo at nova ordem. Por uma questo de segurana.
      No podemos desembarcar sem autorizao das autoridades do aeroporto.
      Teabing estava ctico. Deve ser uma fuga e tanto. O depsito de combustvel ficava a uns bons oitocentos metros do hangar. Tambm Rmy parecia preocupado.
      - Tudo isto me parece muito estranho, senhor - comentou.
      Teabing voltou-se para Sophie e para Langdon.
      - Meus amigos, tenho o desagradvel pressentimento de que h uma comisso de recepo  nossa espera.
      Langdon deixou escapar um suspiro cansado.
      - Suponho que Fache continua convencido de que eu sou culpado - disse.
      - Ou isso - respondeu Sophie -, ou est muito envolvido nisto para admitir o erro.
      Teabing no os ouvia. Pensasse Fache o que pensasse, era preciso tomar medidas, e depressa. No perca de vista o nosso objetivo. O Graal. Estamos to perto!
      Por baixo deles, o trem de aterrissagem desceu com um rudo mecnico.
      - Leigh - disse Langdon, em tom profundamente pesaroso -, vou entregar-me e resolver isto pelos meios legais. No quero envolv-los nisto.
      - Oh, pelo amor de Deus, Robert! - exclamou Teabing. - Acredita verdadeiramente que nos deixaro ir a algum lugar? Acabo de transport-lo ilegalmente. A menina Neveu ajudou-o a fugir do Louvre e temos um homem amarrado na cauda do avio. Palavra!
      Estamos todos metidos nisto.
      - Talvez tentar outro aeroporto? - sugeriu Sophie.
      Teabing abanou a cabea.
      - Se fugimos agora, da prxima vez que nos derem autorizao para aterrissar, a comisso de recepo incluir tanques do Exrcito.
      Sophie deixou cair os ombros. Teabing sentiu que se quisessem ter alguma chance de adiar a confrontao com as autoridades o tempo suficiente para encontrarem o Graal, ia ter de tomar medidas drsticas.
      - Dem-me um minuto - pediu, afastando-se em direo ao cockpit.
      - Que vai fazer? - perguntou Langdon.
      - Uma reunio comercial - respondeu Teabing, perguntando a si mesmo quanto iria custar-lhe convencer o piloto a fazer uma manobra altamente irregular.
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E UM
      
      
      O Hawker iniciou a aproximao final.
      Simon Edwards, diretor executivo do aerdromo de Biggin Hill, andava de um lado para o outro na torre de controle, piscando nervosamente os olhos enquanto observava a pista encharcada pela chuva. Sempre detestara que o acordassem cedo no sbado de manh, mas achava particularmente desagradvel o fato de ter sido chamado para assistir  deteno de um dos seus clientes mais lucrativos. Sir Leigh Teabing  pagava a Biggin Hill no s um hangar privado, mas tambm uma taxa de aterrissagem pelas suas frequentes chegadas e partidas. Como regra, o aerdromo tinha conhecimento antecipado dos seus horrios, o que lhe permitia seguir um estrito protocolo para as chegadas. Teabing gostava de tudo muito certinho. A limusine Jaguar que guardava no hangar devia estar impecavelmente lavada, com o tanque cheio e um exemplar do London Times no banco traseiro. Um funcionrio da alfndega estaria  espera no hangar, para despachar a papelada obrigatria e inspecionar a bagagem.
      Ocasionalmente, estes funcionrios aceitavam generosas gratificaes para fecharem os olhos ao transporte de certos produtos inofensivos, quase sempre luxos da culinria francesa: escargots, um Roquefort de cheiro especialmente intenso, determinados frutos.
      Muitas das leis alfandegrias eram perfeitamente ridculas e, alm disso, se Biggin Hill no consentisse alguns caprichos aos seus clientes, no faltavam aerdromos concorrentes que teriam muito prazer em faz-lo. Teabing encontrava aquilo que queria ali em Biggin Hill, e todos ganhavam com isso.
      Edwards sentia os nervos em frangalhos ao ver o jato aproximar-se. Perguntou a si mesmo se a tendncia de Teabing para espalhar riqueza o teria metido em algum problema; as autoridades francesas pareciam muito interessadas em falar com ele.
      Ignorava a natureza das acusaes contra Sir Leigh, mas calculava que seriam graves. A pedido dos franceses, a Polcia de Kent ordenara ao controlador areo de Biggin Hill que mandasse o piloto do Hawker estacionar diretamente em frente do terminal, e no  no hangar do cliente. O piloto concordara, acreditando aparentemente na inverossmil histria da fuga de combustvel.
      Embora os polcias ingleses no usassem geralmente armas, a gravidade da situao justificara a presena de uma equipe de resposta armada. Oito agentes de pistola  cinta aguardavam, dentro do terminal, o momento em que o jato desligasse os motores. Logo que isso acontecesse, o operador de rampa colocaria os calos  frente das rodas, impedindo o avio de voltar a mover-se. Ento, os polcias se mostrariam e obrigariam os ocupantes a permanecer a bordo at que a Polcia francesa chegasse e tomasse conta da situao.
      O Hawker voava agora muito baixo, rasando as copas das rvores  direita. Simon
      Edwards desceu as escadas para assistir l de baixo  aterrissagem. Os polcias estavam prontos, fora das vistas, e o homem da manuteno esperava com os calos. O Hawker empinou o nariz e os pneus tocaram no cho, com uma pequena nuvem de fumaa. O avio baixou o nariz e comeou a desacelerar, passando da direita para a esquerda em frente do terminal, a fuselagem branca brilhando no ar mido. Mas, em vez de frear e virar na direo da torre, o jato passou calmamente pelo desvio de sada e seguiu em direo ao hangar de Teabing, no fim da pista. 
      Os polciais rodaram sobre os calcanhares e olharam para Edwards.
      - Pensei que tinha dito que o piloto concordara com estacionar diante do terminal?
      Edwards estava estupefato.
      - E concordou! - disse.
      Instantes depois, viu-se metido em um carro da Polcia e correndo pela pista em direo ao distante hangar. A caravana da Polcia estava ainda a uns bons quinhentos metros de distncia quando o Hawker entrou tranquilamente no hangar e desapareceu. 
      Quando os carros finalmente chegaram e frearam com os pneus chiando diante das grandes portas abertas, os polcias saltaram para o cho, de armas em punho.
      Edwards imitou-os. O barulho era ensurdecedor.
      Os motores do Hawker continuavam a rugir enquanto o jato terminava a sua habitual rotao dentro do hangar, colocando-se com o nariz apontado para a sada, pronto para a prxima partida. Quando o aparelho completou a volta de 180 graus e avanou em direo  porta do hangar, Edwards viu o rosto do piloto, compreensivelmente surpreso e assustado ao ver a barricada de carros da Polcia.
      O avio deteve-se finalmente e o uivo dos motores esmoreceu e calou-se. Os polcias entraram correndo e tomaram posio  volta do aparelho. Edwards juntou-se ao inspetor-chefe que avanava, desconfiado, para a porta. A qual, passados alguns segundos, se abriu.
      Leigh Teabing apareceu na abertura, enquanto a pequena escada, acionada por um motor elctrico, descia suavemente at ao cho. Ao ver o mar de armas apontadas para ele, apoiou-se nas muletas e coou a cabea.
      - Que est acontecendo, Simon? - perguntou, em tom mais surpreso do que preocupado. - Ganhei a loteria da Polcia enquanto estive fora?
      Simon Edwards avanou, engolindo o sapo que tinha na garganta.
      - Bom dia, Sir Leigh. Peo desculpas pela confuso, Temos uma fuga de combustvel e o seu piloto disse que estacionaria diante do terminal.
      - Sim, sim, bem, fui eu que lhe disse que viesse para c. J estou atrasado para um encontro. Pago por este hangar, e esse disparate a respeito de uma fuga de combustvel pareceu-me excesso de precauo.
      - Receio que a sua chegada nos tenha apanhado um pouco desprevenidos.
      - Eu sei. Estou fora do meu calendrio habitual. Aqui entre ns, o novo medicamento me faz urinar demais. Achei melhor vir at c afinar a coisa.
      Os polcias entreolharam-se. Edwards estremeceu.
      - Compreendo, Sir Leigh.
      - Sir Leigh - disse o inspetor-chefe de Kent, avanando um passo. - Vejo-me obrigado a pedir-lhe que permanea a bordo durante cerca de mais meia hora.
      Teabing desceu a escada, parecendo agora muito menos divertido.
      - Receio que no seja possvel - disse, chegando ao cho de cimento. - Tenho uma consulta mdica e no tenciono perd-la.
      O inspetor-chefe colocou-se de modo a impedi-lo de afastar-se do avio.
      - Estou aqui s ordens da Polcia Judiciria francesa, segundo a qual o senhor transporta no seu avio fugitivos da lei.
      Teabing ficou olhando para o inspetor por um longo instante, e ento desatou a rir.
      -  uma daquelas brincadeiras dos apanhados da televiso, no ? Muito divertido!
      O inspetor-chefe nem sequer pestanejou.
      - O assunto  srio, Sir Leigh. A Polcia francesa afirma que  possvel que traga tambm um refm a bordo.
      Rmy, o mordomo, apareceu no alto da escada.
      - A verdade  que por vezes me sinto como um refm trabalhando para Sir Leigh, embora ele me garanta que possa ir embora quando quiser. - Consultou o relgio. - So horas de ir, senhor. J estamos atrasados. - Fez um sinal na direo da limusine estacionada no canto mais afastado do hangar, um enorme automvel preto, com vidros escuros e pneus enfeitados com faixas brancas.
      - Vou buscar o carro. - E comeou a descer a escada.
      - Receio no poder deix-los ir - disse o inspetor-chefe. - Por favor, regressem ambos ao avio. Os representantes da Polcia francesa estaro aqui muito em breve.
      Teabing voltou-se ento para Simon Edwards.
      - Simon, pelo amor de Deus, isto  ridculo! No temos mais ningum a bordo. S o habitual... Rmy, nosso piloto e eu prprio. Talvez possa servir de intermedirio? Suba a bordo e verifique que o avio est vazio.
      Edwards soube que tinha sido apanhado.
      - Muito bem, Sir Leigh. Posso dar uma olhada.
      - O diabo que pode! - declarou o inspetor-chefe, sabendo aparentemente o suficiente a respeito de aerdromos executivos para suspeitar que Simon Edwards seria capaz de mentir a respeito dos ocupantes do aparelho para no perder um cliente como Sir Leigh Teabing. - Vou eu mesmo ver.
      Teabing abanou a cabea.
      - No, no vai, inspetor. Este avio  propriedade privada e, at que arranje um mandato de busca, no pe os ps l dentro. Estou oferecendo-lhe uma opo razovel.
      Senhor Edwards pode fazer a inspeco.
      - No.
      O ar de Teabing tornou-se glido.
      - Inspetor, receio no ter tempo para as suas brincadeiras. Estou atrasado, e vou embora. Se  assim to importante para voc me deter, vai ter de me dar um tiro. - E com esta, Teabing e Rmy contornaram o inspetor-chefe e atravessaram o hangar em direo  limusine estacionada.
      Ao v-lo passar desafiadoramente  sua frente, o inspetor-chefe da Polcia de Kent sentiu que detestava as pessoas como Sir Leigh Teabing. Privilegiados, sempre convencidos de que estavam acima da lei. Mas no esto! O inspetor voltou-se e apontou a arma s costas de Teabing.
      - Alto, ou atiro!
      - Por favor - respondeu Teabing, sem abrandar o passo e sem se voltar. - Os meus advogados vo cozinhar os seus testculos para o caf da manh. E se se atrever a entrar no meu avio sem um mandato, cozinham tambm o bao.
      No sendo exatamente um novato em jogos de poder, o inspetor no se deixou impressionar. Tecnicamente, Teabing tinha razo e a Polcia precisava de um mandato para entrar no avio, mas uma vez que o vo partira da Frana, e porque o poderoso Bezu Fache delegara nele a autoridade, o inspetor-chefe de Kent estava seguro de que seria muito melhor para a sua carreira descobrir o que estava dentro daquele jato e que Teabing parecia to apostado em esconder.
      - Detenham-nos - ordenou. - Vou revistar o avio.
      Os agentes correram, de armas na mo, e impediram fisicamente Teabing e Rmy de chegar  limusine. Teabing fez meia volta.
      - Inspetor, este  o ltimo aviso. No pense sequer em entrar nesse avio. Vai se arrepender.
      Ignorando a ameaa, o inspetor-chefe apertou com mais fora a coronha da pistola e subiu a escada do avio. Depois de uma brevssima hesitao, entrou na cabina. Que diabo?
      Com exceo do assustado piloto, sentado no cockpit, o aparelho estava vazio. 
      Completamente vazio. Revistando rapidamente o banheiro, os assentos e a rea de bagagem, o inspetor no encontrou vestgios de algum escondido... e muito menos vrios indivduos.
      Que raio estaria Bezu Fache pensando? Aparentemente, Leigh Teabing dissera a verdade.
      O inspetor-chefe de Kent, sozinho na cabina vazia, engoliu em seco. Merda. Muito vermelho, voltou  escada, olhando para o outro extremo do hangar, onde Teabing e o mordomo continuavam sob a mira das armas dos seus agentes.
      - Deixem-nos ir - ordenou. - Recebemos uma informao falsa.
      Os olhos de Teabing estavam carregados de ameaa mesmo quela distncia.
      - Pode contar com um telefonema dos meus advogados. E, para referncia futura, saiba que a Polcia francesa no  de confiana.
      O mordomo abriu a porta traseira da limusine e ajudou o patro a instalar-se no banco. Em seguida, voltou para a dianteira do carro, sentou-se ao volante e ligou o motor.
      Os polcias saram apressadamente da frente quando o Jaguar arrancou com os pneus guinchando.
      - Bem jogado, meu bom homem - disse Teabing do banco de trs, enquanto a limusine acelerava, afastando-se do aeroporto. Voltou-se ento para os escuros recnditos do espaoso interior.  Todos esto confortveis?
      Langdon assentiu com a cabea. Ele e Sophie continuavam agachados no cho, ao lado do amarrado e amordaado albino.
      Momentos antes, quando o Hawker entrara no hangar deserto, Rmy abrira a porta enquanto o avio parava com uma sacudidela a meio da volta. com a Polcia aproximando-se rapidamente, Langdon e Sophie tinham arrastado o monge escada abaixo e corrido esconder-se atrs da limusine. Ento, os motores tinham voltado a rugir, completando a rotao no instante em que os carros da Polcia entravam no hangar, em derrapagem.
      Agora, a caminho de Kent, Langdon e Sophie gatinharam pelo longo interior da limusine, deixando o monge estendido no cho, e foram sentar-se no comprido banco em frente ao de Teabing. O ingls dirigiu-lhes um sorriso rasgado e abriu o bar do carro.
      - Posso oferecer-lhes uma bebida? Uns aperitivos? Batatas fritas? Nozes? Seltzer?
      Sophie e Langdon abanaram a cabea.
      Ainda sorrindo, Teabing fechou a porta do bar.
      - Ora bem, quanto ao tmulo do cavaleiro...
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E DOIS
      
      
      - Fleet Street? - espantou-se Langdon, olhando para Teabing sentado  sua frente no banco traseiro da limusine. H uma cripta em Fleet Street? At o momento, Teabing mostrara-se jovialmente confiante quanto ao lugar onde pensava que poderiam encontrar o tmulo do cavaleiro, o qual, segundo o poema, lhes proporcionaria a chave para abrirem o criptex menor.
      Teabing sorriu e voltou-se para Sophie,
      - Menina Neveu, importa-se de deixar aqui o nosso rapaz de Harvard dar mais uma olhada no poema?
      Sophie rebuscou no bolso e tirou de l o criptex negro, que continuava embrulhado na folha de velino. Tinham os trs concordado em deixar a caixa de roseira e o primeiro criptex no cofre do avio, levando consigo apenas aquilo que precisavam, o muito menor e discreto criptex negro. Sophie desenrolou o velino e entregou-o a Langdon.
      Apesar de j ter lido vrias vezes aqueles versos a bordo do jato, Langdon fora incapaz de deduzir deles uma localizao precisa. Agora, enquanto lia novamente as palavras, processou-as lenta e cuidadosamente, na esperana de que o ritmo dos pentmetros revelasse um significado mais claro agora que estava em terra.
      In London lies a knight a Pope interred.
      His labor s fruit a Holy wrath incurred.
      You seek the orb that ought to be on is tomb.
      It speaks of Rosy flesh and seeded womb.
      A linguagem parecia bastante simples. Havia um cavaleiro sepultado em Londres.
      Um cavaleiro cujos esforos para conseguir qualquer coisa tinham tirado a Igreja. Um cavaleiro em cujo tmulo faltava um globo que devia estar l. A ltima referncia  carne Rosada e um tero a germinar - era uma clara aluso a Maria Madalena, a Rosa que transportava no ventre a semente de Jesus.
      Apesar da aparente clareza dos versos, Langdon continuava a no fazer idia de quem era o cavaleiro nem de onde estaria sepultado. Parecia, ainda por cima, que, quando localizassem o tmulo, teriam de procurar qualquer coisa que no estava l. O globo que no seu tmulo devia estar?
      - Nenhuma idia? - Teabing riu em tom de desapontamento, embora Langdon sentisse que o historiador da Royal British Academy estava saboreando a situao. - Menina Neveu?
      Ela abanou a cabea.
      - Que seria de vocs sem mim? - perguntou Teabing. - Muito bem, eu lhes mostro o caminho.  muito simples, na realidade. A primeira linha  a chave. Importa-se de voltar a l-la?
      - Em Londres jaz um cavaleiro que um papa enterrou - leu Langdon, em voz alta.
      - Precisamente. Um cavaleiro que um papa enterrou. - Olhou para Langdon. - O que  que isto significa para voc?
      Langdon encolheu os ombros.
      - Um cavaleiro enterrado por um papa. Um cavaleiro cujo funeral foi presidido por um papa?
      Teabing riu com gosto.
      - Oh, essa  muito boa. Sempre otimista, Robert. Veja o segundo verso.  bvio que este cavaleiro fez qualquer coisa que lhe mereceu a sagrada ira da Igreja. Pense outra vez. Considere a dinmica entre a Igreja e os Cavaleiros do Templo. Um cavaleiro que um papa enterrou?
      - Um cavaleiro que um papa matou! - perguntou Sophie.
      Teabing sorriu e deu-lhe uma palmadinha no joelho.
      - Muito bem, minha querida. Um cavaleiro que um papa enterrou. Ou matou. Langdon pensou na famosa caa aos Templrios de 1307 uma sexta-feira 13 -, em que o Papa Clemente mandou matar e enterrar centenas de Cavaleiros do Templo.
      - Mas deve haver um nmero enorme de tmulos de cavaleiros mortos por papas!
      - Aha, nada disso! - respondeu Teabing. - Muitos deles foram queimados na fogueira e os seus restos lanados ao Tibre sem mais cerimnias. Mas este poema fala de um tmulo. Um tmulo em Londres. E no h muitos cavaleiros sepultados em
      Londres. Fez uma pausa e ficou olhando para Langdon, como que  espera que se fizesse luz. - Robert, pelo amor de Deus! - acabou por ralhar.
      - A igreja construda em Londres pelo brao militar do Priorado... pelos prprios
      Cavaleiros do Templo!
      - Temple Church? - Langdon inspirou fundo. - Tem uma cripta?
      - Dez dos tmulos mais assustadores que alguma vez viu.
      Langdon nunca a visitara, apesar de ter encontrado inmeras referncias  igreja no decurso da sua pesquisa sobre o Priorado. Situada no epicentro de todas as atividades dos Templrios/Priorado no Reino Unido, era assim chamada em honra do templo de Salomo, de onde os Templrios tinham tirado o seu prprio nome, bem com os documentos Sangreal que lhes davam tanta influncia em Roma. Abundavam as histrias a respeito dos cavaleiros praticarem estranhos rituais secretos ao abrigo do invulgar santurio de Temple Church.
      - A Temple Church fica em Fleet Street?
      - Mais exatamente, numa transversal, a Inner Templo Lane. - Teabing fez um ar malicioso. - Quis v-lo suar mais um pouco antes de lhe dizer.
      - Obrigado.
      - Nenhum de vocs esteve l?
      Sophie e Langdon abanaram a cabea.
      - No admira. A igreja est atualmente escondida atrs de edifcios muito maiores.
      Poucas pessoas sabem onde fica. Um lugar estranho. A arquitetura  pag at o caroo. 
      Sophie pareceu surpreendida.
      - Pag?
      - Panteonicamente pag! - exclamou Teabing. - Para comear,  redonda. Os Templrios ignoraram o tradicional traado cruciforme e construram uma igreja perfeitamente circular, em honra do Sol. - As sobrancelhas dele executaram uma dana diablica. -  um passem-bem bastante pouco sutil aos rapazes de Roma. Foi quase como reconstruir Stonehenge em plena Baixa de Londres.
      Sophie olhou para ele.
      - E o resto do poema?
      O ar divertido do historiador desvaneceu-se.
      - No estou certo.  intrigante. Vamos ter de examinar com muita ateno cada um dos dez tmulos. Com sorte, um deles ter um globo conspicuamente a menos.
      Langdon percebeu como estavam na verdade perto. Se o globo em falta revelasse a senha, poderiam abrir o segundo criptex. No conseguia sequer imaginar o que encontrariam l dentro.
      Voltou a olhar para o poema. Era como uma espcie de problema de palavrascruzadas primordial. Uma palavra de cinco letras que fala do Graal? Ainda no avio, tinham j tentado todas as senhas mais bvias - GRAAL, GREAL, VNUS, MARIA, JESUS, SARAH - mas o cilindro no cedera uma frao de milmetro. Muito bvias. Aparentemente, havia outra referncia com cinco letras ao tero germinado da Rosa. O fato de estar resistindo aos esforos de um especialista como Leigh Teabing significava que no se tratava de uma referncia vulgar.
      - Sir Leigh? - chamou Rmy, por cima do ombro. Estava observando-os pelo retrovisor, atravs da divisria de vidro aberta. Disse que Fleet Street fica perto da Blackfriars Bridge?
      - Sim, v pelo Cais Vitoria.
      - Peo desculpas, no sei muito bem onde isso fica. Geralmente vamos s ao hospital.
      Teabing revirou os olhos para cima.
      - Palavra, por vezes,  como tomar conta de uma criana - resmungou. - Um momento, por favor. Sirvam-se de uma bebida e dos deliciosos aperitivos. - E com esta deixou-os, debruando-se desajeitadamente atravs da divisria para falar com Rmy.
      Sophie voltou-se para Langdon e disse, em voz baixa:
      - Robert, ningum sabe que ns dois estamos na Inglaterra. Langdon percebeu que ela tinha razo. A Polcia de Kent diria a Fache que o avio estava vazio, e Fache assumiria que eles continuavam na Frana. Somos invisveis. O pequeno truque de Leigh comprara-lhes uma poro de tempo.
      - Fache no vai desistir facilmente - continuou Sophie. - Tem muitas coisas dependendo desta deteno.
      Langdon estava tentando no pensar em Fache. Sophie prometera fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para inocent-lo quando aquele assunto estivesse resolvido, mas ele comeava a recear que talvez no fosse o suficiente.  muito possvel que Fache faa parte da tramia. Embora no estivesse vendo a Polcia Judiciria francesa misturada com o Santo Graal, sentia que houvera naquela noite muitas coincidncias para poder descartar Fache como um possvel cmplice. Fache  um homem religioso, e est decidido a atirar os assassnios para cima de mim. Sophie, pelo seu lado, argumentava que o capito podia estar simplesmente sendo movido por um excesso de zelo. Afinal, os indcios contra Langdon eram substanciais. Alm do nome dele ter aparecido escrito no cho do Louvre e na agenda de Saunire, parecia agora ter mentido a respeito do manuscrito e depois fugido. Por sugesto minha.
      - Robert, lamento que esteja to profundamente envolvido disse, pousando uma mo no joelho dele. - Mas estou muito contente por o ter aqui comigo.
      O comentrio pareceu mais pragmtico do que romntico, mas mesmo assim Langdon sentiu uma inesperada fasca de atrao entre eles. Dirigiu-lhe um sorriso cansado.
      - Sou muito mais divertido quando me deixam dormir.
      Sophie ficou calada durante vrios segundos.
      - O meu av me pediu para confiar em voc. Ainda bem que lhe dei ouvidos, para variar.
      - O seu av nem sequer me conhecia.
      - Mesmo assim, no consigo deixar de pensar que fez tudo o que ele quereria que fizesse. Ajudou-me a encontrar a Chave de Abbada, explicou-me o Sangreal, falou-me do ritual na caverna. - Fez uma pausa. - De certo modo, sinto-me esta noite perto do meu av como no sentia h muitos anos. Sei que isso o faria feliz.
      O recorte dos telhados de Londres comeava a materializar-se ao longe, esbatido pelo chuvisco matinal. Outrora dominado pelo Big Ben e pela Tower Bridge, o horizonte pertencia agora ao Millenium Eye - uma colossal e ultramoderna roda que se elevava a cento e cinquenta metros de altura, proporcionando espetaculares vistas da cidade.
      Langdon ainda tentara, certa vez, fazer a viagem, mas as cabinas panormicas pareciam demais com sarcfagos selados, de modo que optara por ficar com os ps bem fincados em terra e apreciar a vista a partir das arejadas margens do Tamisa.
      Sentiu um aperto no joelho, chamando-o de volta ao presente, e os olhos verdes de Sophie pousados nele. Percebeu que ela estivera falando.
      - O que  que acha que devemos fazer com os documentos Sangreal, se os encontrarmos? - murmurou ela.
      - O que eu acho no tem a mnima importncia - respondeu Langdon. - O seu av deu o criptex a voc, e deve us-lo como o seu instinto lhe disser que ele teria feito.
      - Estou pedindo uma opinio.  para mim bvio que escreveu qualquer coisa naquele manuscrito que fez o meu av confiar no seu discernimento. Marcou um encontro particular com voc. Era uma coisa muito rara.
      - Talvez quisesse me dizer que estava completamente enganado.
      - Porque haveria ele de me pedir que o procurasse se no gostasse das suas idias? No seu manuscrito, defende a idia de que os documentos Sangreal devem ser divulgados, ou que devem permanecer enterrados.
      - Nem uma coisa nem outra. No fao qualquer espcie de julgamento. O manuscrito trata da simbologia do sagrado feminino... procura traar-lhe a iconografia atravs da Histria. Com toda certeza no tentei descobrir onde estava o Santo Graal escondido nem se devia ou no ser revelado.
      - E no entanto, est escrevendo um livro sobre o assunto, portanto acha obviamente que a informao devia ser partilhada.
      - H uma enorme diferena entre discutir hipoteticamente uma histria alternativa de Cristo e... - Calou-se.
      - E o qu?
      - E apresentar ao mundo milhares de antigos documentos como prova cientfica de que o Novo Testamento  um falso testemunho.
      - Mas voc me disse que o Novo Testamento  baseado em invenes.
      Langdon sorriu.
      - Sophie, todas as fs do mundo se baseiam em invenes.  essa a definio de f: aceitao daquilo que imaginamos ser verdade, daquilo que no podemos provar.
      Todas as religies descrevem Deus atravs de metforas, de alegorias, de exageros, desde os antigos Egpcios at s catequistas dos nossos dias. As metforas so uma maneira de ajudar as nossas mentes a processar o improcessvel. Os problemas surgem quando comeamos a acreditar literalmente nas nossas prprias metforas.
      -  ento a favor de os documentos Sangreal ficarem sepultados para sempre?
      - Sou um historiador. Oponho-me  destruio de documentos, e gostaria muito que os estudiosos das religies tivessem mais informao para ponderarem sobre a excepcional vida de Jesus Cristo.
      - Est argumentando de ambos os lados da questo.
      - Estou? A Bblia representa um guia fundamental para milhes de pessoas deste planeta, tal como o Coro, a Tora ou o Cnone Pali oferecem orientao aos crentes de outras religies. Se Sophie e eu pudssemos descobrir documentao que contradissesse a histria sagrada do credo islmico, do credo judaico, do credo pago, deveramos faz-lo? Teramos o direito de agitar uma bandeira e dizer aos budistas que temos provas de que o Buda no surgiu de uma flor de ltus? Ou que Jesus no nasceu literalmente de uma virgem? Aqueles que compreendem de verdade a f que professam compreendem que essas histrias so metafricas.
      Sophie parecia pouco convencida.
      - Os meus amigos que so cristos devotos acreditam de verdade que Cristo caminhou literalmente sobre as guas, transformou literalmente gua em vinho e nasceu literalmente de uma virgem.
      - Exatamente onde eu quero chegar. A alegoria religiosa tornou-se parte do tecido da realidade. E viver nessa realidade ajuda milhes de pessoas a suportar a vida e a serem melhores. 
      - Mas, segundo parece, a realidade delas  falsa.
      Langdon riu.
      - To falsa como a de uma criptloga matemtica que acredita no imaginrio nmero i porque ele a ajuda a decifrar cdigos.
      Sophie franziu a testa.
      - Isso no  justo.
      Passou um momento.
      - Qual era a sua pergunta, afinal? - perguntou Langdon.
      - No me lembro.
      Ele sorriu.
      - Sempre d certo.
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E TRS
      
      
      O relgio Rato Mickey de Langdon marcava quase sete e meia quando ele desceu da limusine Jaguar, juntamente com Sophie e Teabing, na Inner Temple Lane. Pouco depois, tendo percorrido a p um labirntico caminho por entre altos edifcios, chegaram ao pequeno adro de Temple Church. As pedras toscas brilhavam  chuva e havia bandos de pombos abrigados sob os ressaltos da arquitectura.
      A velha Temple Church de Londres fora inteiramente construda com pedra de Caen. O dramtico edifcio circular, com uma fachada imponente, um torreo central e uma nave sobressaindo de um dos lados, parecia mais um bastio militar do que um local de culto. Consagrada a 10 de Fevereiro de 1185 por Herclio, patriarca de Jerusalm, Temple Church sobrevivera a oito sculos de convulses polticas, ao Grande Incndio de Londres e  I Guerra Mundial, para acabar por ser danificada, em 1940, pelas bombas incendirias alems. Fora restaurada depois da guerra, recuperando a austera altivez original.
      A simplicidade do crculo, pensou Langdon, admirando o edifcio pela primeira vez. A arquitetura era rude e despojada, mais reminiscente do spero castelo romano de SantAngelo que do refinado Panteo. O acrescento em forma de caixa que sobressaa de um dos lados era um prdio que feria a vista, embora no bastasse para ocultar a forma pag original da estrutura primitiva.
      -  sbado de manh e muito cedo - disse Teabing, coxeando em direo  entrada -, de modo que presumo que no precisamos nos preocupar com missas e coisas desse tipo.
      O prtico da igreja era um nicho recolhido ao fundo do qual se erguia uma grande porta de madeira.  esquerda da porta, parecendo totalmente deslocado, estava suspenso um painel de contraplacado coberto de horrios de concertos e anncios de servios religiosos.
      Teabing leu as indicaes do painel e franziu o sobrolho.
      - S abrem para os visitantes daqui a duas horas. - Aproximou-se da porta e experimentou empurr-la. A porta no se mexeu. Encostando o ouvido  madeira, ps-se  escuta. Um momento depois, recuou e apontou para o painel, com o ar de quem estava tramando alguma.
      - Robert, importa-se de dar uma olhada no horrio dos servios? Quem  que oficia esta semana?
      Dentro da igreja, o ajudante de missa quase acabara de aspirar os genuflexrios da comunho quando ouviu bater  porta do templo. Ignorou as pancadas. O padre Harvey Knowles tinha as suas prprias chaves e s chegaria duas horas mais tarde. 
      Quem batia era provavelmente algum turista curioso, ou um pobre. Continuou a aspirar, mas as pancadas na porta no paravam. Ser que no sabem ler? O papel afixado no painel indicava claramente que, aos sbados, a igreja s abria s nove e meia. O ajudante de missa resolveu no interromper as suas tarefas.
      De sbito, as pancadas transformaram-se em um estrpito ensurdecedor, como se algum estivesse batendo na madeira com uma barra de metal. O jovem desligou o aspirador e marchou furioso para a porta. Correndo o ferrolho interior, abriu-a. Estavam trs pessoas  entrada. Turistas, resmungou.
      - Abrimos s nove e meia.
      Um homem corpulento, aparentemente o lder do trio, avanou um passo, ajudado por um par de muletas metlicas.
      - Sou Sir Leigh Teabing - disse, em tom de voz altivo, do mais puro saxonesco britnico. - Como sem dvida sabe, acompanho o senhor e a senhora Cristopher Wren the Fourth. - Afastou-se para um lado, indicando com um floreado do brao o elegante casal que esperava um pouco mais atrs. A mulher tinha feies suaves e belos cabelos castanhos. O homem era alto, de cabelos escuros e parecia vagamente familiar.
      O ajudante de missa no fazia idia de como reagir. Sir Christopher Wren era o mais famoso dos benfeitores de Temple Church. Tornara possvel todas as restauraes que tinham se seguido ao Grande Incndio. Por outro lado, tinha morrido no... hum... sculo XVIII.
      - Hum... h...  uma honra conhec-lo?
      O homem das muletas franziu a testa.
      - Ainda bem que no est nas vendas, jovem, no  muito convincente. Onde est o padre Knowles?
      -  sbado. S vem mais tarde.
      As rugas do sobrolho do homem das muletas tornaram-se ainda mais fundas.
      -  o que se chama gratido. Garantiu-nos que estaria aqui, mas parece que vamos ter de passar sem ele. No demora muito.
      O ajudante de missa continuou a bloquear a passagem.
      - Desculpe, o que  que no demora muito?
      Os olhos do visitante endureceram, e o homem inclinou-se para a frente, murmurando como se quisesse evitar uma situao embaraosa:
      - Jovem, aparentemente, est aqui h pouco tempo. Todos os anos, os descendentes de Sir Christopher Wren trazem uma pitada das cinzas do velho para espalhar no santurio. Assim est prescrito no testamento dele. Ningum aprecia particularmente a viagem, mas que se h de fazer?
      O ajudante de missa estava na igreja havia dois anos e nunca ouvira falar de tal costume.
      -  melhor esperarem at s nove e meia. A igreja ainda no est aberta e eu no acabei de aspirar.
      O homem das muletas fulminou-o com um olhar.
      - Jovem, se ainda resta desta igreja alguma coisa para aspirar,  graas ao cavalheiro que est ali no bolso daquela senhora.
      - Perdo?
      - Senhora Wren - continuou o homem das muletas -, querer ter a bondade de mostrar a este jovem impertinente o relicrio das cinzas?
      A mulher hesitou um instante, e ento, como que despertando de um transe, meteu a mo no bolso do camisolo e tirou de l um pequeno cilindro embrulhado em tecido protetor.
      - V? - perguntou secamente o homem das muletas. - Agora, ou cumpre a ltima vontade do moribundo e nos deixa espalhar um pouco das suas cinzas pelo santurio, ou eu conto ao padre Knowles a maneira como fomos tratados.
      O ajudante de missa hesitou. Conhecia bem o profundo respeito do padre Knowles pelas tradies da igreja... e, mais importante do que isso, a ira de que era capaz quando qualquer coisa projetava a menor sombra sobre a fama do venerando templo. Talvez o padre Knowles tivesse simplesmente esquecido de avis-lo da visita daqueles familiares. Se fosse esse o caso, seria muito mais arriscado mand-los embora do que deix-los entrar. Afinal, disseram que no demorariam muito. Que mal pode fazer?
      Quando se afastou para deix-los entrar, o ajudante de missa seria capaz de jurar que o senhor e a senhora Wren estavam to confusos com tudo aquilo como ele prprio. 
      Desconfiado, voltou s suas tarefas, vigiando-os pelo canto do olho.
      Langdon no pde conter um sorriso enquanto o trio entrava na igreja.
      - Leigh - murmurou -, em minha opinio, mente excessivamente bem.
      Os olhos de Teabing chisparam.
      - Clube de Teatro de Oxford. Ainda hoje falam do meu Jlio Csar. Tenho certeza de que nunca ningum representou a primeira cena do terceiro ato com maior dedicao.
      - Julgava que Csar j est morto nessa cena.
      - Pois est. Mas a minha toga rasgou-se quando ca, e tive de ficar estendido no palco durante meia hora com a pilinha de fora. Mesmo assim, no mexi um msculo. Foi brilhante, digo-lhe eu.
      Langdon fez uma careta. Tenho pena de no ter visto.
      Enquanto o grupo percorria o anexo retangular em direo ao arco de acesso ao corpo principal do templo, Langdon foi surpreendido pela rida austeridade do lugar.
      Embora a disposio do altar se assemelhasse  de qualquer outra igreja crist, o ambiente era despido e frio, sem qualquer dos tradicionais ornamentos.
      - Triste - murmurou.
      Teabing riu.
      - Igreja da Inglaterra - disse. - Os Anglicanos bebem a religio pura. Nada que os distraia da sua tristeza.
      Sophie apontou na direo do vasto arco que abria para a pane circular da igreja.
      - Parece uma fortaleza - murmurou.
      Langdon concordou. Mesmo vistas dali, as paredes pareciam invulgarmente robustas.
      - Os Cavaleiros do Templo eram guerreiros - recordou-lhes Teabing, e o bater das suas muletas de alumnio ecoava no amplo espao. - Uma sociedade religiosa-militar. As igrejas deles eram os seus basties e os seus bancos.
      - Bancos? - perguntou Sophie, olhando para Sir Leigh.
      - Cus, sim. Foram os Templrios que inventaram o conceito do banco moderno.
      Para a nobreza europia, era perigoso viajar com ouro, de modo que os Templrios permitiam que os nobres o depositassem na igreja do Templo mais prximo e o levantassem em qualquer outra igreja do Templo em qualquer parte da Europa. Tudo o que precisavam era ter a documentao adequada. E pagar uma pequena comisso. Os Templrios foram as primeiras caixas automticas. - Apontou para um vitral no qual a luz do Sol que despontava se refratava atravs da figura de um cavaleiro vestido de branco e montado em um cavalo cor-de-rosa. - Alanus Mareei. Mestre do Templo por volta de 1200. Ele e os seus sucessores detiveram no Parlamento o cargo de Primus Baro Angiae.
      Langdon estava surpreso.
      - Primeiro baro do reino?
      Teabing assentiu.
      - O Gro-Mestre do Templo, no falta quem o afirme, tinha mais poder do que o prprio rei. - Ao chegarem  orla da cmara circular, Teabing olhou por cima do ombro para o ajudante de missa, que continuava aspirando. - Sabe - sussurrou, dirigindo-se a Sophie -, diz-se que o Santo Graal passou aqui uma noite, enquanto os Templrios o mudavam de um esconderijo para outro. Consegue imaginar os quatro grandes bas dos documentos Sangreal aqui nesta igreja, juntamente com o sarcfago de Maria Madalena? Me faz arrepiar.
      Tambm Langdon estava sentindo a pelese arrepiar quando entraram na cmara circular. Seguiu com os olhos a curvatura das paredes de pedra plida, vendo as esculturas de grgulas, demnios, monstros e rostos humanos que eram espelhos de dor, todos voltados para dentro. Por baixo das esculturas, um nico banco de pedra corria ao longo de toda a circunferncia.
      - Um teatro redondo - murmurou Langdon.
      Teabing ergueu uma muleta, apontando para os extremos opostos da igreja,  direita e  esquerda. Langdon j os tinha visto. Dez cavaleiros de pedra. Cinco do lado esquerdo. Cinco do lado direito. Deitadas de costas no cho, as figuras esculpidas, em tamanho natural, pareciam repousar em posturas tranquilas. Os cavaleiros tinham sido representados envergando a armadura completa, com escudo e espada, e os tmulos deram a Langdon a desagradvel impresso de que algum entrara ali sem ser visto e despejara gesso em cima deles enquanto dormiam. Todas as figuras estavam muito marcadas pela passagem do tempo, e no entanto todas elas eram claramente nicas: as armaduras eram diferentes, as posies dos braos e das pernas, as feies e os brases dos escudos eram diferentes.
      Em Londres jaz um cavaleiro que um papa enterrou.
      Langdon sentiu-se tremer  medida que avanava.
      Tinha de ser aquele o lugar.
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E QUATRO
      
      
      Rmy Legaludec estacionou o Jaguar atrs de uma fila de caixotes de lixo industriais, um sujo beco muito prximo de Temple Church. Desligando o motor, inspecionou a rea. Deserta. desceu, dirigiu-se  traseira do carro e entrou na ampla cabina da limusine, onde estava o monge.
      Ao sentir a presena de Rmy, o albino pareceu emergir de uma espcie de transe de orao e ergueu para ele olhos onde havia mais curiosidade do que temor. Durante toda a noite, Rmy sentira-se impressionado pela capacidade do homem amarrado para manter a calma. Depois de alguma resistncia inicial, no Range Rover, parecia ter-se resignado  sua sorte e confiado o futuro a um poder superior.
      Desapertando o lao de pescoo, Rmy desabotoou o alto colarinho engomado, de pontas reviradas, e sentiu-se como se pudesse finalmente respirar pela primeira vez em anos. Abriu a porta do bar e serviu a si mesmo um vodca Smirnoff, que bebeu de um s trago, logo seguido de um segundo.
      Em breve serei um homem rico.
      Procurou no bar at encontrar o saca-rolhas. Abriu a lmina, normalmente usada para cortar o envoltrio de folha de chumbo das garrafas de bom vinho. Naquela manh, porm, ia servir um propsito bem mais dramtico. Voltou-se para Silas, mostrando-lhe a lmina refulgente.
      Um claro de medo perpassou pelos olhos vermelhos do homem.
      Rmy sorriu e aproximou-se da traseira do carro. O monge encolheu-se e forcejou por libertar-se das amarras que o prendiam.
      - Quieto - sussurrou Rmy, erguendo a lmina.
      Silas no queria acreditar que Deus o tivesse abandonado. At a dor fsica de estar amarrado transformara em exerccio espiritual, pedindo ao latejar dos msculos privados de sangue que lhe recordasse a dor que Cristo suportara. Toda a noite rezei pedindo a libertao. Naquele instante, enquanto a lmina descia, Silas fechou os olhos com fora.
      Uma chicotada de dor atravessou-lhe as omoplatas. Gritou, incapaz de acreditar que ia morrer ali, na parte de trs daquela limusine, sem poder defender-se. Estava fazendo o trabalho de Deus. O Professor disse que me protegeria.
      Sentiu o calor mordente espalhar-se-lhe pelos ombros e imaginou o seu prprio sangue escorrendo pelas costas. No instante seguinte, uma dor dilacerante verrumou-lhe as coxas, e sentiu o incio da familiar vaga de desorientao - o mecanismo de defesa do corpo contra a dor.
      Enquanto o ardor se alastrava a todos os seus msculos, Silas fechou os olhos ainda com mais fora, decidido a que a ltima imagem da sua vida no fosse a do homem que o matara. Em vez disso, imaginou um bispo Aringarosa mais jovem, diante de uma pequena igreja, na Espanha... a igreja que ele e Silas tinham construdo com as suas prprias mos. O comeo da minha vida. Silas sentia todo corpo em fogo.
      - Beba isto - murmurou o homem de smoking, com um sotaque francs - Ajuda a restabelecer a circulao.
      Silas abriu os olhos, surpreso. Uma imagem confusa inclinava-se para ele, oferecendo-lhe um copo cheio de lquido. No cho do carro, ao lado da lmina sem uma gota de sangue, havia um monte de fita isolante.
      - Beba - repetiu o homem. - A dor que sente  do sangue voltando aos msculos.
      Silas sentiu o latejar ardente comear e transformar-se em um formigueiro doloroso, como se estivesse sendo picado por milhares de agulhas. A vodca sabia horrivelmente mal, mas bebeu-o, agradecido. A sorte dera-lhe um bom naco de m sorte naquela noite, mas Deus salvara tudo com uma miraculosa reviravolta.
      Deus no me abandonou.
      Sabia como o bispo Aringarosa chamaria quilo.
      Interveno divina.
      - Queria t-lo libertado mais cedo - disse o mordomo -, mas foi impossvel. Com a Polcia chegando a Chteau Villette, e depois ao aerdromo de Biggin Hill, esta foi a primeira oportunidade que tive. Compreende isto, no  verdade, Silas?
      Silas recuou o corpo, sobressaltado.
      - Sabe o meu nome?
      O homem sorriu.
      Silas sentou-se direito, massagenado os msculos rgidos, e as suas emoes eram uma torrente de incredulidade, gratido e confuso.
      -  o... Professor?
      Rmy abanou a cabea, rindo da idia.
      - Quem me dera ter esse tipo de poder. No, no sou o Professor. Sirvo-o, tal como voc. Mas o Professor fala muito elogiosamente de voc.
      Silas estava estupefato.
      - No compreendo. Se trabalha para o Professor, porque foi que Langdon levou a Chave para a sua casa?
      - No  a minha casa.  a casa do mais eminente historiador do Graal do mundo, Sir Leigh Teabing.
      - Mas voc vive l. As probabilidades...
      Rmy sorriu, parecendo no ter qualquer problema com a aparente coincidncia do refgio escolhido por Langdon.
      - Era tudo perfeitamente previsvel. Robert Langdon tinha a Chave de Abbada, e precisava de ajuda. Que lugar lhe pareceria mais lgico como esconderijo do que a casa de Leigh Teabing? Foi precisamente pelo fato de eu l viver que o Professor me contatou.
      - Fez uma pausa. - Como  que acha que o Professor sabe tanto a respeito do Graal?
      Silas compreendeu, e ficou aturdido. O Professor recrutara um criado que tinha acesso a todas as investigaes de Sir Leigh Teabing. Era brilhante.
      - Tenho muito para lhe contar - continuou Rmy, devolvendo a Silas a Heckler and Koch, carregada. Depois, estendeu o brao atravs da divisria e tirou um pequeno revlver do porta-luvas. Mas, antes disso, h uma coisa que tenho de fazer.
      O capito Fache desceu do avio que o levara ao aerdromo de Biggin Hill e ouviu, incrdulo, o relato do inspetor-chefe de Kent sobre o que se passara no hangar de Sir Teabing.
      - Eu prprio revistei o avio - insistiu o inspetor -, e no havia ningum l. - O tom tornou-se altivo. - E devo acrescentar que se Sir Leigh Teabing apresentar queixa contra mim, vou...
      - Interrogou o piloto?
      - Claro que no.  francs, e a nossa jurisdio exige...
      - Leve-me ao avio.
      Chegando ao hangar, Fache precisou apenas de sessenta segundos para detectar uma anmala mancha de sangue no cho, perto do lugar onde a limusine estivera estacionada. Dirigiu-se ao jato e bateu com fora na fuselagem.
      - Sou o capito Fache, da Polcia Judiciria francesa. Abra a porta!
      O aterrorizado piloto abriu a porta e baixou a escada.
      Fache subiu. Cinco minutos depois, com a ajuda da pistola, tinha conseguido uma confisso completa, incluindo uma descrio do monge albino amarrado e amordaado.
      Alm disso, ficou sabendo que o piloto vira Langdon e Sophie deixarem qualquer coisa no cofre de Teabing, uma caixa de madeira. Embora negasse saber o que estava dentro da caixa, o homem admitira que, fosse o que fosse, concentrara toda a ateno de Langdon durante o vo at Londres.
      - Abra o cofre - exigiu Fache.
      O piloto estava cada vez mais aterrorizado.
      - No sei a combinao!
      -  uma pena. Preparava-me para lhe oferecer a possibilidade de conservar a sua licena de vo.
      O piloto torcia as mos, desesperado.
      - Conheo alguns homens da manuteno aqui do aerdromo. Talvez eles consigam abri-lo?
      - Tem meia hora.
      O piloto saltou para o rdio.
      Fache foi at o fundo do avio e serviu-se de uma bebida. Era cedo, mas como no chegara a deitar-se, no contava como beber antes do meio-dia. Sentado em um dos confortveis assentos, fechou os olhos, tentando perceber o que se tinha acontecido. A trapalhada da Polcia de Kent pode me custar caro. Agora, todos estavam  procura de uma limusine Jaguar preta.
      O celular tocou, e Fache desejou um momento de paz.
      - Sim?
      - Estou a caminho de Londres. - Era o bispo Aringarosa. - Chego dentro de uma hora.
      Fache endireitou-se no assento.
      - Pensei que ia para Paris.
      - Estou muitssimo preocupado. Alterei os meus planos.
      - No devia t-lo feito.
      - Encontrou o Silas?
      - No. Os captores conseguiram enganar a Polcia local antes de eu aterrissar.
      O tom de Aringarosa subiu, irritado.
      - Tinha garantido que deteria o avio.
      Fache baixou a voz.
      - Eminncia, considerando a sua situao, aconselho-o a no pr a minha pacincia  prova. Encontrarei o Silas e os outros logo que for possvel. Onde vai aterrar?
      - Um momento. - Aringarosa tapou o microfone do celular por um momento. - O piloto est tentando conseguir autorizao de Heathrow. Sou o nico passageiro, mas a alterao do plano de vo no estava prevista.
      - Diga-lhe que venha para o aerdromo executivo de Biggin Hill, em Kent. Eu arranjo-lhe autorizao. Se no estiver aqui quando aterrissar, terei um carro  sua espera.
      - Obrigado.
      - Como tive ocasio de lhe dizer quando falamos pela primeira vez, Eminncia, faria bem em lembrar-se de que no  o nico que corre o risco de perder tudo.
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E CINCO
      
      
      Procure o globo que no seu tmulo devia estar.
      Todas as dez esttuas dos cavaleiros estavam deitadas de costas, com a cabea apoiada numa almofada retangular de pedra. Sophie sentiu um arrepio. A referncia do poema a um globo evocou imagens daquela noite na caverna da casa do av na Normandia.
      Hieros Gamos. Os globos.
      Sophie perguntou a si mesma se o ritual teria sido executado naquele santurio. O espao circular parecia feito sob medida para um rito pago. Um banco de pedra rodeava um pedao de cho nu. Um teatro redondo, como Langdon lhe chamara. Imaginou a igreja  noite, cheia de pessoas mascaradas entoando cnticos  luz de archotes. Todas testemunhando uma comunho sagrada no centro do crculo.
      Expulsou a imagem do esprito e dirigiu-se, com Langdon e Teabing, ao primeiro grupo de cavaleiros. Apesar da insistncia de Teabing na necessidade de conduzir a investigao de uma forma meticulosa, a nsia era muita e adiantou-se aos dois homens, passando rapidamente em frente dos cinco cavaleiros do lado esquerdo.
      Ao escrutinar os cinco primeiros tmulos, notou as similitudes e as diferenas entre eles. Todos os jacentes estavam deitados de costas, mas trs tinham as pernas estendidas e retas, ao passo que os outros dois as tinham cruzadas. A singularidade parecia no ter qualquer relevncia em termos do globo em falta. Examinando as vestimentas, reparou que dois dos cavaleiros usavam uma tnica por cima da armadura, enquanto os outros trs envergavam vestes que lhes chegavam aos tornozelos. Mais uma vez, sem qualquer significado especial. Voltou ento a ateno para a nica outra diferena bvia: a posio das mos. Dois cavaleiros seguravam o punho da espada, dois rezavam e o quinto tinha os braos estendidos ao longo do corpo. Depois de ter olhado para as mos por um longo instante, Sophie encolheu os ombros. No via ali qualquer sugesto de um globo conspicuamente ausente.
      A sentir o peso do criptex no bolso do camisolo, voltou-se para olhar para Langdon e Teabing. Progredindo mais devagar, ainda s iam no terceiro cavaleiro, aparentemente sem terem tido mais sorte do que ela. Sem pacincia para esperar, afastou-se deles e dirigiu-se ao segundo grupo de esttuas. Enquanto atravessava o espao vazio, recitou para si mesma o poema que acabara por decorar,  fora de o ler tantas vezes.
      Em Londres jaz um cavaleiro que um papa enterrou.
      O fruto do seu labor uma sagrada fria granjeou.
      Procura o globo que no seu tmulo devia estar.
      Ele fala de carne Rosada e de um tero a germinar.
      Quando chegou junto do segundo grupo, descobriu que era igual ao primeiro.
      Todos os cavaleiros jaziam em variadas posies, envergando armaduras e segurando espadas. Isto , todos, exceto o ltimo.
      Sophie aproximou-se apressadamente e olhou para baixo.
      Nem almofada. Nem armadura. Nem tnica. Nem espada.
      - Robert? Leigh? - chamou, com a voz ecoando na vasta cmara. - Falta aqui qualquer coisa.
      Os dois homens ergueram a cabea e comearam imediatamente a atravessar a igreja em direo a ela.
      - Um globo? - perguntou Teabing, excitadamente, e as muletas bateram um rpido staccato no cho de pedra. - Falta-nos um globo?
      - No exatamente - respondeu Sophie parada diante do dcimo tmulo, de testa franzida. - Parece que nos falta um cavaleiro inteiro.
      Ao chegarem junto dela, ambos os homens olharam, confusos, para a dcima sepultura. Em vez de ter, como as outras, a esttua jacente de um cavaleiro em cima da pedra, aquele tmulo era um caixo de pedra selado. Trapezoidal, mais estreito nos ps, mais largo em cima, com uma tampa em bico.
      - Porque  que este cavaleiro no tem esttua?  perguntou Langdon.
      - Fascinante - murmurou Teabing, esfregando o queixo. - Tinha esquecido desta singularidade. H anos que no vinha aqui.
      - Este caixo - disse Sophie - parece ter sido feito na mesma poca e pelo mesmo escultor que esculpiu os outros nove tmulos. Porque  ento que o cavaleiro est dentro da caixa e no fora?
      Teabing abanou a cabea.
      - Um dos mistrios desta igreja. Tanto quanto saiba, nunca ningum conseguiu descobrir uma explicao.
      - Senhores - disse o ajudante de missa, aproximando-se com uma expresso preocupada no rosto -, perdoem-me se pareo mal-educado, mas disseram que queriam espalhar umas cinzas, e afinal parece que esto vendo as vistas.
      Teabing franziu o sobrolho ao rapaz e voltou-se para Langdon.
      - Senhor Wren, parece que a filantropia da sua famlia j no lhe merece tanto tempo como costumava, de modo que talvez o melhor seja pegarmos as cinzas e acabar com isto. - Voltou-se para Sophie. - Senhora Wren?
      Sophie fez-lhe o jogo, tirando do bolso o criptex embrulhado em velino.
      - Muito bem - disse Teabing secamente, voltando-se para o rapaz. - Importa-se de nos conceder alguns instantes de privacidade?
      O ajudante de missa no se mexeu. Estava olhando atentamente para Langdon.
      - Conheo a sua cara.
      Teabing bufou desdenhosamente.
      - Talvez porque o senhor Wren vem aqui todos os anos!
      Ou talvez, pensou Sophie, por ter visto Robert na televiso por causa do caso do
      Vaticano, no ano passado.
      - Nunca vi o senhor Wren - declarou o rapaz.
      - Est enganado - disse Langdon, delicadamente. - Julgo que nos encontramos de passagem no ano passado. O padre Knowles no nos apresentou formalmente, mas reconheci o seu rosto mal entrei. Compreendo que isto  uma intruso, mas se me conceder mais alguns minutos... Vim de muito longe para espalhar um pouco de cinza entre estes tmulos. - A declarao foi feita com uma credibilidade perfeitamente teabianesca.
      A expresso do ajudante de missa tornou-se ainda mais ctica.
      - Isto no so tmulos.
      - Como? - exclamou Langdon.
      - Claro que so tmulos - irritou-se Teabing. - Que voc est dizendo?
      O ajudante de missa abanou a cabea.
      - Os tmulos contm corpos. Isto so efgies. Tributos de pedra a homens que j morreram. No h nenhum corpo debaixo dessas figuras.
      - Isto  uma cripta! - exclamou Teabing.
      - S nos livros de Histria desatualizados. Pensava-se que era uma cripta, mas a
      restaurao de 1950 provou que no. - Voltou-se novamente para Langdon. - E suponho que o senhor Wren deveria sab-lo. Considerando que foi a famlia dele que descobriu o fato.
      Fez-se um silncio embaraoso. Que foi quebrado pelo barulho de uma porta a bater no anexo.
      - Deve ser o padre Knowles. - disse Teabing. - No ser melhor ir ver?
      O ajudante de missa fez um ar de dvida, mas acabou por afastar-se, deixando Langdon, Sophie e Teabing olhando sombriamente uns para os outros.
      - Leigh - murmurou Langdon. - No h corpos? De que ele est falando?
      Teabing parecia perturbado.
      - No sei. Sempre pensei... tem de ser este o lugar. Acho que esse rapaz no sabe do que est falando. No faz sentido!
      - Posso ver outra vez o poema? - pediu Langdon.
      Sophie tirou cuidadosamente o criptex do bolso e entregou-o. Langdon desembrulhou o velino, segurando o criptex com a mo esquerda enquanto examinava o poema.
      - Sim, o poema refere especificamente a um tmulo. No uma efgie.
      - Poder estar enganado? - sugeriu Teabing. - Ser possvel que Jacques Saunire tenha cometido o mesmo erro que eu?
      Langdon pensou um pouco e abanou a cabea.
      - No, voc mesmo o disse, Leigh. Esta igreja foi construda pelos Templrios, o brao militar do Priorado. Alguma coisa me diz que o Gro-Mestre do Priorado havia de saber muito bem se havia ou no cavaleiros aqui sepultados.
      Teabing parecia desorientado.
      - Mas este lugar  perfeito. - Voltou-se para os cavaleiros. Deve estar nos escapando alguma coisa!
      Quando entrou no anexo, o ajudante de missa ficou surpreso ao encontr-lo deserto.
      - Padre Knowles?
      Tenho certeza de que ouvi a porta, pensou, avanando at poder ver a entrada.
      Viu um homem magro, de smoking, parado junto  porta, coando a cabea com o ar de quem estava perdido. O ajudante de missa bufou irritado, compreendendo que tinha esquecido de trancar a porta depois de deixar entrar os outros. E agora, um cretino qualquer entrara, para pedir indicaes sobre um casamento qualquer, a julgar pelas roupas.
      - Desculpe - disse, passando por um grosso pilar.  Estamos fechados.
      Ouviu um restolhar de roupas atrs de si e, antes que pudesse voltar-se, sentiu a cabea violentamente puxada para trs e uma mo enorme tapou-lhe a boca, abafando-lhe o grito. A mo que lhe tapava a boca era branca como a neve, e o proprietrio cheirava a lcool.
      O homem do smoking tirou calmamente um pequenssimo revlver do bolso e apontou-o  testa do rapaz. O rapaz sentiu um calor entre as pernas e percebeu que acabava de urinar nas calas.
      - Oua com muito cuidado - murmurou o homem do smoking.  Voc vai sair desta igreja sem fazer barulho e vai correr. E no vai parar. Entendeu bem?
      O rapaz assentiu o melhor que pde, com aquela mo enorme tapando-lhe a boca.
      - Se chamar a Polcia... - O homem do smoking fez presso com o cano do revlver contra a pele dele - eu o encontro.
      Quando voltou a dar por si, o ajudante de missa atravessava o adro correndo como uma gazela, sem fazer teno de parar at que as pernas lhe faltassem.
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E SEIS
      
      
      Como um fantasma, Silas deslizou silenciosamente para a sua presa. Sophie Neveu s o pressentiu tarde demais. Antes que pudesse se voltar, Silas encostou-lhe o cano da arma  espinha e passou-lhe um poderoso brao pelo peito, puxando-a para trs. Sophie gritou de surpresa. Teabing e Langdon voltaram-se, com expresses de espanto e medo.
      - Que...? - Engasgou-se Teabing. - Que fez a Rmy?
      - A sua nica preocupao - respondeu Silas, calmamente  que eu saia daqui com a Chave de Abbada. - Aquela misso de recuperao, como Rmy lhe chamara, ia ser limpa e simples: Entrar na igreja, pegar a Chave de Abbada e voltar a sair; nada de mortes, nada de lutas.
      Sem deixar de segurar Sophie com firmeza, Silas desceu a mo at  cintura dela e enfiou-a no fundo bolso do camisolo, procurando. Cheirava a fragrncia suave dos cabelos dela e o seu prprio hlito carregado de lcool.
      - Onde est? - murmurou. A Chave de Abbada estava no bolso dela. Onde est agora?
      - Est aqui - ressoou a voz profunda de Langdon, do outro lado da igreja.
      Silas voltou-se e viu Langdon segurando o criptex negro  sua frente, agitando-o de um lado para o outro como um matador provocando um touro.
      - Ponha-o no cho - exigiu Silas.
      - Deixe Sophie e Sir Leigh sarem da igreja - respondeu Langdon. - Podemos resolver isto entre ns dois.
      Silas empurrou Sophie para longe de si e apontou a arma a Langdon, avanando para ele.
      - Nem mais um passo - ordenou Langdon - enquanto eles no abandonarem o edifcio.
      - No est em posio de fazer exigncias.
      - Discordo. - Langdon ergueu o criptex acima da cabea. -. No hesitarei em atirar isto ao cho e partir a ampola que tem h dentro.
      Embora troasse exteriormente da ameaa, Silas sentiu um relmpago de medo.
      Aquilo era inesperado. Apontou a arma  cabea de Langdon e manteve a voz to  firme como a mo.
      - Nunca partiria a Chave de Abbada. Quer encontrar o Graal tanto como eu.
      - Est enganado. Voc o quer muito mais do que eu. J provou estar disposto a matar para consegui-lo.
      A doze metros de distncia, escondido entre as primeiras filas de bancos do anexo junto ao arco de entrada, Rmy Legaludec estava cada vez mais alarmado. A manobra no ocorrera conforme o planejado e, mesmo dali, podia ver que Silas no sabia muito bem como lidar com a situao. Por ordem do Professor, tinha proibido o albino de disparar a sua arma.
      - Deixe-os ir - voltou Langdon a exigir, mantendo o criptex bem erguido acima da cabea e sem desviar os olhos da arma de Silas.
      Os olhos vermelhos do monge encheram-se de fria e de frustrao, e Rmy encolheu-se como medo de que Silas disparasse contra Langdon enquanto este segurava o criptex. O criptex no pode cair!
      Aquele criptex seria o seu passaporte para a liberdade e a riqueza. Pouco mais de um ano antes, era apenas um mordomo de cinquenta e cinco anos que vivia entre as paredes de Chteau Villette, suportando os caprichos do insuportvel aleijado Sir Leigh Teabing. Fora ento que lhe tinham feito uma proposta extraordinria. A sua ligao a Sir Leigh Teabing - o mais eminente historiador do Graal do mundo - ia proporcionar-lhe tudo aquilo com que sempre sonhara. Desde ento, cada momento que passara dentro da manso tinha-o encaminhado para aquele preciso instante.
      Estou to perto, disse Rmy para si mesmo, vigiando o santurio de Temple Church e a Chave de Abbada na mo de Robert Langdon. Se Langdon a deixasse cair, estaria tudo perdido.
      Estou disposto a mostrar a cara? Era algo que o Professor proibira expressamente.
      Rmy era o nico que conhecia a sua identidade.
      - Tem certeza de que quer que seja o Silas a tratar disso? perguntara ao Professor havia menos de uma hora, quando ele lhe ordenara que roubasse a Chave de Abbada. - Sou perfeitamente capaz de faz-lo.
      A resposta no deixara margem para dvidas:
      - Silas serviu-nos bem com os quatro membros do Priorado. Ele recupera a Chave de Abbada. Voc, Rmy, tem de permanecer annimo. Se outros o virem, tero de ser eliminados, e j houve mortes suficientes neste caso. No mostre a cara.
      A minha cara pode mudar, pensou Rmy. com aquilo que prometeu me pagar, serei um homem completamente novo. A cirurgia podia at modificar-lhe as impresses digitais, dissera-lhe o Professor. Em breve estaria livre - mais um belo e irreconhecvel rosto encharcando-se de sol em uma praia qualquer.
      - Entendido - dissera Rmy. - Ajudarei o Silas sem me mostrar.
      - Para seu prprio conhecimento, Rmy - acrescentara o Professor -, o tmulo em questo no est em Temple Church. Por isso no tema. Eles esto procurando no lugar errado.
      Rmy ficara espantado.
      - E sabe onde ele est?
      - Claro. E o direi, mas mais tarde. No momento,  preciso agir rapidamente. Se os outros descobrem a verdadeira localizao do tmulo e saem da igreja antes de voc se apoderar do criptex, perderemos o Graal para sempre.
      Rmy no queria saber do Graal para coisa nenhuma, mas o Professor recusara pagar-lhe fosse o que fosse antes de ele ser encontrado. Rmy ficava tonto s de pensar no dinheiro que em breve teria. Um tero de vinte milhes de euros. Mais do que suficiente para desaparecer para sempre. Sonhava com as praias da Cote dAzur onde planejava passar o resto dos seus dias apanhando sol e deixando que outros o servissem, para variar.
      Agora, porm, ali em Temple Church, com Langdon ameaando quebrar a Chave de Abbada, o futuro de Rmy estava em risco. Incapaz de suportar a idia de chegar to perto e perder tudo, Rmy decidiu agir. A arma que tinha na mo era um minsculo revlver Medusa de pequeno calibre, mas suficientemente mortfero a curta distncia.
      Emergindo das sombras, Rmy entrou na cmara circular e apontou o revlver  cabea de Teabing.
      - Velho - disse -, esperei muito tempo por isto.
      Sir Leigh Teabing quase sofreu uma parada cardaca quando viu Rmy apontando-lhe uma arma. Que ele est fazendo! Reconheceu o pequeno revlver Medusa. Era o que guardava no porta-luvas do Jaguar, por uma questo de precauo.
      - Rmy! - tartamudeou Teabing, em choque. - Que est acontecendo?
      Rmy deu a volta de modo a colocar-se atrs dele e cravou-lhe o cano do revlver nas costas, em cima e do lado esquerdo, diretamente sobre o corao. Teabing sentiu os msculos contrarem-se de terror.
      - Rmy, no estou...
      - Vou ser muito claro - disse Rmy, vigiando Langdon por cima do ombro de Teabing. - Coloque a chave de abbada no cho, ou aperto o gatilho.
      Langdon pareceu momentaneamente paralisado.
      - A Chave de Abbada no tem qualquer valor para voc - disse. - No sabe como abri-la.
      - Loucos arrogantes - desdenhou Rmy. - No repararam que estive ouvindo-os a noite toda, enquanto discutiam esses poemas? Tudo o que ouvi, partilhei com outros.
      Outros que sabem mais do que vocs. Nem sequer esto procurando no lugar certo! O tmulo que querem est em outro lugar completamente diferente!
      Teabing sentiu o pnico invadi-lo. Que ele est dizendo?
      - Para que quer o Graal? - perguntou Langdon. - Para destru-lo? Antes do Fim dos Dias?
      - Silas, tire a Chave de Abbada das mos do senhor Langdon - ordenou Rmy.
      Quando o monge deu um passo em frente, Langdon recuou, erguendo bem alto o criptex, parecendo absolutamente preparado para atir-lo ao cho.
      - Prefiro destru-lo - disse - a v-lo cair nas mos erradas.
      O que Teabing sentia agora era puro horror. Via a sua vida inteira evaporar-se diante dele. Todos os seus sonhos prestes a serem desfeitos.
      - Robert, no! - gritou. - No faa isso! Isso que tem na mo  o Graal! Rmy nunca seria capaz de disparar contra mim. Nos conhecemos h dez...
      Rmy apontou para o teto e disparou o Medusa. A detonao foi enorme para uma arma to pequena, ecoando como um trovo dentro da cmara de pedra. Ningum se mexeu.
      - No estou brincando - disse Rmy. - O prximo  para as costas. Entregue a Chave de Abbada ao Silas.
      Relutantemente, Langdon estendeu a mo que segurava o criptex. Silas avanou e pegou-a, os olhos vermelhos brilhando com a satisfao da vingana. Enfiando a Chave de Abbada no bolso do hbito, Silas recuou, continuando a manter Langdon e Sophie sob a mira da sua arma.
      Teabing sentiu o brao do mordomo fechar-se  volta do pescoo quando Rmy comeou a recuar, arrastando-o consigo, ainda espetando-lhe o cano do revlver nas costas.
      - Deixe-o - exigiu Langdon.
      - O senhor Teabing vai dar um passeio conosco - disse Rmy, continuando a recuar. - Se chamar a Polcia, ele morre. Se tentar alguma coisa para interferir, ele morre.
      Fui suficientemente claro?
      - Leve a mim - pediu Langdon, com a voz quebrada pela emoo. - Liberte Sir Leigh.
      Rmy soltou uma gargalhada.
      - No me agrada a idia. Eu e ele temos uma histria to bonita. Alm disso, ainda pode vir a revelar-se til.
      Silas estava tambm recuando, sem desviar os olhos e a arma de Langdon e Sophie, enquanto Rmy puxava Leigh para a porta, com as muletas arrastando pelo cho.
      - Para quem trabalha? - perguntou Sophie, numa voz que no tremeu.
      A pergunta ps um sorriso no rosto de Rmy.
      - Ficaria surpresa se soubesse, mademoiselle Neveu.
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E SETE
      
      
      A lareira da sala de estar de Chteau Villette estava apagada e fria, mas apesar disso o tenente Collet andava de um lado para o outro diante dela enquanto lia os faxes da Interpol.
      Nada do que tinha esperado.
      Andr Vernet, de acordo com os registros oficiais, era um cidado exemplar.
      Nenhuma espcie de cadastro policial - nem sequer uma multa de estacionamento.
      Educado numa escola particular e na Sorbonne, tinha um doutoramento cum laude em Finanas Internacionais. A Interpol dizia que Vernet aparecia ocasionalmente nos noticirios, mas sempre a uma luz muito favorvel. Segundo parecia, o homem ajudara a estabelecer os parmetros que faziam do Banco Depositrio de Zurique um lder no mundo ultramoderno da segurana eletrnica. Os registros dos cartes de crdito mostravam uma preferncia por livros de arte, vinhos caros e CDs de msica clssica - sobretudo Brahms - que ouvia um sofisticadssimo sistema de alta-fidelidade que comprara anos antes.
      Zero, suspirou Collet.
      A nica bandeira vermelha vinda da Interpol era um conjunto de impresses digitais que aparentemente pertenciam ao mordomo de Teabing. O perito-chefe da PTC estava naquele instante estudando o fax, instalado em um dos confortveis cadeires da sala.
      - Alguma coisa? - perguntou Collet.
      O homem encolheu os ombros.
      - As impresses pertencem a Rmy Legaludec. Procurado por pequenos crimes.
      Nada de grave. Parece que foi expulso da universidade por ter arranjado a central de modo a poder telefonar de graa....
      Mais tarde, praticou alguns pequenos furtos. Assaltos por arrombamento. Fugiu de um hospital sem pagar a conta depois de uma traqueotomia de urgncia. - Ergueu os olhos, com uma pequena gargalhada. - Alergia a amendoins.
      Collet assentiu, recordando o caso de um restaurante que se esquecera de fazer constar do cardpio que a receita do chili da casa inclua leo de amendoim. Um cliente incauto morrera  mesa, de choque anafiltico, logo  primeira garfada.
      - Provavelmente, vive aqui, para evitar ser apanhado. - O perito parecia divertido. - Hoje foi a sua noite de sorte.
      Collet voltou a suspirar.
      - Muito bem. O melhor  remeter essa informao para o capito Fache. 
      O perito acabava de sair quando um outro agente entrou correndo.
      - Tenente! Encontramos qualquer coisa nas cavalarias!
      Pela expresso ansiosa no rosto do homem, Collet tentou adivinhar.
      - Um corpo.
      - No. Qualquer coisa mais... - o agente hesitou. - Inesperada.
      Esfregando os olhos, Collet seguiu-o at s cavalarias. Quando entraram no mido e cavernoso espao, o homem apontou para uma escada de madeira que se erguia at s traves do teto, encostada  beira de um palheiro suspenso bem l em cima.
      - Aquela escada no estava ali - observou Collet.
      - No, tenente. Fui eu que a coloquei ali. Estvamos recolhendo impresses digitais junto do Rolls quando reparei na escada no cho. No teria olhado para ela duas vezes se os degraus no estivessem gastos e cheios de lama. O que significa que a escada  regularmente usada. A altura do palheiro corresponde  da escada, de modo que a levantei e fui l em cima dar uma olhada.
      Collet seguiu com o olhar a inclinao da escada at ao alto palheiro. Algum vai l acima regularmente? Dali de baixo, o palheiro parecia uma plataforma deserta, mas, claro, a sua maior parte no era visvel do cho. Um agente superior da PTC apareceu no topo da escada, olhando para baixo.
      - Vai querer ver isto, tenente - disse, indicando a Collet, com um gesto da mo enluvada em borracha, que subisse.
      Collet assentiu cansadamente. Dirigiu-se  base da velha escada e agarrou um dos primeiros degraus. A escada era de um modelo antigo, que ia estreitando  medida que subia. J perto do topo, o tenente quase falhou um estreito degrau. O cho l em baixo pareceu rodopiar. Agora mais atento, Collet continuou a subir, at que finalmente chegou ao topo. O agente que estava l em cima estendeu-lhe prestimosamente uma mo. Collet agarrou-a e fez a desajeitada passagem da escada para a plataforma.
      - Est ali - disse o homem da PTC, apontando para um canto do impecavelmente limpo palheiro. - S encontramos um conjunto de impresses digitais aqui em cima.
      Teremos a identificao daqui a um momento.
      De plpebras semicerradas para ver melhor na penumbra que ali reinava, Collet olhou para o extremo oposto do palheiro. Que diabo? Junto  parede, havia um elaborado posto de trabalho informtico: duas CPU, um grande monitor de tela plana com microfones, vrios drives para discos rgidos, um console de udio multicanais que parecia dispor da sua prpria fonte de energia.
      Porque diabo algum haveria de vir trabalhar aqui? Collet aproximou-se do equipamento.
      - Examinou o sistema?
      -  um posto de escuta.
      Collet rodou sobre os calcanhares.
      - Vigilncia?
      O agente assentiu.
      - Vigilncia muito avanada. - Apontou para uma comprida mesa de trabalho coberta de peas, manuais, ferramentas, fios, ferros de soldar e componentes eletrnicos. - Algum que sabe muito claramente o que est fazendo. Muito do que aqui est  to sofisticado como o nosso prprio equipamento. Microfones miniaturizados, clulas fotoeltricas recarregveis, chips RAM de alta capacidade. At tem alguns dos novos nanodrives.
      Collet estava impressionado.
      - Aqui tem um sistema completo - disse o agente, entregando-lhe uma montagem no muito maior do que uma calculadora de bolso. Do aparelho pendia um fio com trinta centmetros de comprimento e um fino pedao de folha metlica, do tamanho de um selo, preso na ponta. - A base  um disco rgido de gravao udio de alta capacidade com baterias recarregveis. Essa pea de metal na ponta do fio  uma combinao de microfone e clula fotoeltrica recarregvel.
      Collet conhecia-os bem. Aqueles microfones fotocelulares tinham sido uma grande inveno, alguns anos antes. Passara a ser possvel fixar um gravador de disco rgido atrs de uma luminria, por exemplo, com o microfone de folha moldado e pintado de modo a tornar-se invisvel. Desde que o microfone ficasse posicionado para receber algumas horas de luz solar por dia, as clulas fotoeltricas continuavam a recarregar o sistema. Aparelhos como aquele podiam manter uma escuta indefinidamente.
      - Mtodo de recepo? - perguntou.
      O agente apontou para um fio isolado que saa da parte de trs do computador, subia pela parede e saa por um orifcio aberto no teto.
      - Uma simples onda de rdio. Pequena antena no telhado. Collet sabia que aqueles sistemas de gravao eram geralmente colocados em gabinetes, ativados pela voz para poupar espao no disco rgido, e gravavam as conversas durante o dia, transmitindo os arquivos de udio comprimidos durante a noite, para evitar a deteco.
      Depois de transmitir, o disco rgido limpava a si mesmo e ficava pronto para repetir o trabalho no dia seguinte.
      Os olhos de Collet desviaram-se para a prateleira onde estavam arrumadas vrias centenas de cassetes udio, todas elas etiquetadas com datas e nmeros. Algum tem estado muito ocupado. Voltou-se para o agente.
      - Faz alguma idia de quem  o alvo?
      - Bem, tenente - disse o agente, dirigindo-se ao computador e abrindo um programa. -  estranhssimo...
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E OITO
      
      
      Langdon sentia-se completamente exausto quando ele e Sophie passaram pela borboleta na estao de metropolitano de Temple e se internaram no sombrio labirinto de tneis e plataformas. A culpa dilacerava-o.
      Meti Leigh nisto e coloquei-o em perigo de vida.
      O envolvimento de Rmy, apesar de ter sido um choque, fazia sentido. A pessoa que perseguia o Graal, fosse ela quem fosse, recrutara algum no interior da praa. 
      Procuraram Teabing pela mesma razo que eu. Ao longo da Histria, sempre os possuidores de conhecimentos sobre o Graal tinham sido como ims que atraam ladres e estudiosos em quantidades mais ou menos iguais. O fato de Teabing nunca ter deixado de ser um alvo deveria fazer com que Langdon se sentisse um pouco menos culpado por t-lo envolvido. Mas no fazia. Temos de encontrar o Leigh e ajud-lo. Imediatamente.
      Langdon seguiu Sophie at  estao do sentido oeste da District and Circle Line, onde a jovem se dirigiu imediatamente a um telefone pblico para alertar a Polcia, apesar dos avisos de Rmy, enquanto ele se sentava em um desengonado banco mesmo ao lado, rodo pelo remorso.
      - A melhor maneira de ajudar Leigh - reiterou Sophie, enquanto marcava o nmero -  envolver imediatamente as autoridades de Londres. Acredite em mim.
      Inicialmente, Langdon no concordara com a idia, mas  medida que iam elaborando um plano, a lgica de Sophie comeara a fazer sentido. Teabing no corria um perigo imediato. Mesmo que Rmy e os outros conhecessem a localizao do tmulo, continuariam precisando dele para decifrar a referncia ao globo. O que o preocupava era o que aconteceria depois do mapa do Graal ter sido encontrado. Leigh passar a representar um risco que eles no vo querer correr.
      Se queria ter alguma chance de ajudar Teabing, ou de voltar a ver a Chave de Abbada, era essencial que ele fosse o primeiro a descobrir o tmulo. Infelizmente, Rmy levava um avano considervel.
      Atrasar Rmy seria a tarefa de Sophie.
      A dele seria encontrar o tmulo.
      Sophie faria de Rmy e de Silas fugitivos  Polcia de Londres, forando-os a esconderem-se ou, melhor ainda, levando-os a ser capturados. O plano de Langdon era menos seguro: apanhar o metropolitano para o Kings College, famoso pela sua base de dados teolgica informatizada. A ferramenta de pesquisa perfeita, ouvira dizer. Respostas instantneas a qualquer questo sobre histria das religies. Perguntou a si mesmo o que teria a base de dados a dizer sobre um cavaleiro que um papa enterrou. Ps-se de p e comeou a andar de um lado para o outro, desejando que o trem chegasse depressa.
      Na cabina telefnica, Sophie conseguiu finalmente contactar a Polcia de Londres.
      - Diviso de Snow Hill - disse a telefonista. - com quem deseja falar?
      - Quero informar um rapto. - Sophie sabia ser concisa.
      - Nome, por favor?
      Sophie hesitou por um brevssimo instante.
      - Agente Sophie Neveu, da Polcia Judiciria francesa.
      O ttulo teve o efeito desejado.
      - Imediatamente, minha senhora. vou passar-lhe um detetive.
      Enquanto a telefonista fazia a ligao, Sophie comeou a perguntar a si mesma se a Polcia iria sequer acreditar na sua descrio dos raptores de Teabing. Um homem de smoking. No devia haver muitos suspeitos mais fceis de identificar. E mesmo que Rmy mudasse de roupa, fazia-se acompanhar por um monge albino. Impossvel passar despercebido. Alm disso, tinham como refm um homem que no podia utilizar os transportes pblicos. Quantas limusines Jaguar haveria em Londres?
      A ligao ao detective parecia estar demorando uma eternidade. Vamos l! Sophie ouvia os estalidos e zumbidos da linha, como se a chamada estivesse sendo transferida.
      Passaram quinze segundos.
      Finalmente, uma voz de homem.
      - Agente Neveu?
      Estupefata, Sophie reconheceu imediatamente o tom rebarbativo.
      - Agente Neveu, onde diabo se meteu? - perguntou Bezu Fache.
      Sophie ficou sem fala. Aparentemente, o capito Fache pedira  central da Polcia de Londres que o alertasse se ela entrasse em contato.
      - Oua - disse Fache, falando rapidamente em francs. - Cometi um erro terrvel esta noite. Robert Langdon  inocente. Todas as acusaes contra ele foram retiradas.
      Mesmo assim, correm ambos um grande perigo. Tm de se apresentar.
      Sophie sentiu que o queixo caa. No fazia idia de como reagir. Fache no era homem para pedir desculpa fosse pelo que fosse.
      - No me disse - continuou Fache - que o conservador Jacques Saunire era seu av. Estou disposto a deixar passar a sua insubordinao de ontem  noite, tendo em conta a presso emocional a que devia estar sujeita. Agora, no entanto, voc e Langdon devem procurar refgio na esquadra mais prxima da Polcia de Londres.
      Fache sabe que eu estou em Londres? Que mais saber? Sophie ouviu ao fundo o que lhe pareceu ser o barulho de uma furadeira eltrica trabalhando. Ouviu tambm um estranho clique na linha.
      - Est localizando esta chamada, capito?
      A voz de Fache soou firme.
      - Precisamos cooperar um com o outro, agente Neveu. Temos ambos muito a perder. Estou tentando controlar os estragos. Cometi erros de julgamento ontem  noite, e se desses erros resultar a morte de um professor americano e de uma criptologista da DCPJ, a minha carreira estar arruinada. H vrias horas que estou tentando coloc-los em segurana.
      Uma baforada de vento quente atravessou a estao quando um trem se aproximou, com um rugido abafado. Sophie estava decidida a seguir nele quando partisse. Aparentemente, Langdon tivera a mesma idia, uma vez que se levantara e avanava para ela.
      - O homem que procura chama-se Rmy Legaludec - disse. -  o mordomo de Sir Leigh Teabing. Acaba de raptar Sir Leigh em Temple Church, e...
      - Agente Neveu! - berrou Fache no instante em que o trem entrava ribombando na estao. - Isto no  assunto para discutir em uma linha aberta. Voc e Langdon, entreguem-se imediatamente. Para sua prpria segurana! Estou dando-lhe uma ordem direta!
      Sophie desligou e correu com Langdon para o trem.
      
      
      
      CAPTULO OITENTA E NOVE
      
      
      A imaculada cabina do Hawker de Teabing estava agora cheia de aparas de ao e cheirava a ar comprimido e a propano. Bezu Fache mandara todos sairem e sentava-se sozinho diante de uma bebida e da caixa de madeira tirada do cofre do avio.
      Passou os dedos pela rosa embutida e levantou a ornamentada tampa. L dentro, encontrou um cilindro de pedra com cinco anis marcados com letras. Os cinco anis estavam dispostos de maneira a formar a palavra SOFIA. Fache ficou olhando para a palavra durante um longo momento, e ento tirou o cilindro da caixa almofadada e examinou-o centmetro a centmetro. Em seguida, puxando cuidadosamente pelas pontas, retirou uma das extremidades. Estava vazio.
      Voltou a guard-lo na caixa e olhou com uma expresso ausente pela janela do jato, ponderando a curta conversa que tivera com Sophie e as informaes que recebera da equipe da PTC em Chteau Villette. O som do telefone arrancou-o do seu devaneio.
      Era da central da DCPJ, em Paris. O telefonista estava apologtico. O presidente do Banco Depositrio de Zurique telefonara repetidamente, e apesar de lhe ter sido vrias vezes dito que o capito se encontrava ausente do pas, em servio, ele insistia em ligar.
      Relutantemente, Fache ordenou ao telefonista que passasse a chamada.
      - Monsieur Vernet - disse, antes que o homem pudesse sequer pronunciar uma palavra -, peo desculpas por no lhe ter ligado mais cedo. Tenho estado ocupado. Como lhe prometi, o nome do seu banco no apareceu nos rgos de informao. Portanto, qual  exatamente o seu problema?
      Em tom ansioso, Vernet contou como Langdon e Sophie tinham retirado do banco uma pequena caixa de madeira e o tinham depois persuadido a ajud-los a fugir.
      - Quando soube pela rdio que eram criminosos, parei o carro e exigi que devolvessem a caixa, mas eles atacaram-me e roubaram o carro.
      - Est preocupado com uma caixa de madeira - disse Fache, olhando para a rosa embutida e levantando mais uma vez a tampa para estudar o cilindro branco. - Sabe dizer-me o que essa caixa continha?
      - O contedo da caixa no vem ao caso - replicou secamente Vernet. - Estou preocupado com a reputao do meu banco. Nunca tivemos um roubo. Nunca. Ficaremos arruinados se no conseguirmos recuperar a propriedade do meu cliente.
      - Disse-me que a agente Neveu e o senhor Langdon tinham o nmero da conta e uma chave. O que o leva dizer que roubaram a caixa?
      - Assassinaram pessoas a noite passada. Incluindo o av de Sophie Neveu. A chave e o nmero foram evidentemente obtidos por meios ilcitos.
      - Monsieur Vernet, mandei investigar o seu passado e os seus interesses. E obviamente um homem de grande cultura e refinamento. Imagino que seja tambm um homem de honra. Como eu sou. Dito isto, dou-lhe a minha palavra, como comandante da Police Judiciaire, de que a caixa e o respectivo contedo, bem como a reputao do seu banco, se encontram em mos absolutamente seguras.
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA
      
      
      No palheiro das cavalarias de Chteau Villette, o tenente Collet olhava incrdulo para a tela do computador.
      - Este sistema est escutando todos esses locais?
      - Sim - respondeu o agente. - Aparentemente, est recolhendo dados h mais de um ano.
      Collet voltou a ler a lista, estupefato.
      COLBERT SOSTAQUE - Presidente do Conselho Constitucional
      JEAN CHAFFE - Conservador, Museu do Jeu de Paume
      EDOUARD DESROCHERS - Arquivista-chefe, Biblioteca Mitterrand
      JACQUES SAUNIRE - Conservador, Museu do Louvre
      MICHEL BRETON - Chefe da DAS (Servios Secretos franceses)
      O agente apontou para o visor.
      - O nmero quatro  obviamente relevante.
      Collet assentiu. Reparara imediatamente. Jacques Saunire estava sob escuta.
      Olhou uma vez mais para o resto da lista. Como ter algum conseguido pr sob escuta todas estas pessoas importantes?
      - J ouviu alguma das gravaes udio?
      - Vrias. Esta  uma das mais recentes. - O agente apertou uma sequncia de teclas no computador. Capitaine, un agent du Dpartement de Cryptologie est arriv - disseram os autofalantes.
      Collet no queria acreditar no que ouvia.
      - Sou eu!  a minha voz! - Recordou-se de estar sentado  secretria de Saunire e de contactar Fache na Grande Galeria, atravs do rdio, para avis-lo da chegada de Sophie Neveu.
      O agente assentiu.
      - Uma grande parte da nossa investigao no Louvre esta noite poderia ter sido ouvida, se algum estivesse interessado.
      - J mandou algum procurar o microfone?
      - No  necessrio. Sei exatamente onde ele est. - O agente dirigiu-se ao monte de velhas notas e planos em cima da mesa de trabalho. Escolheu uma pgina e estendeu-a a Collet. - Parece-lhe familiar?
      Collet estava espantado. Tinha nas mos uma fotocpia de um antigo diagrama eltrico, que descrevia uma mquina rudimentar. No conseguia ler as palavras escritas em italiano, mas sabia para o que estava olhando. Um modelo de um cavaleiro medieval francs totalmente articulado.
      O cavaleiro que est em cima da secretria do Saunire!
      Os olhos de Collet desviaram-se para as margens do papel, onde algum rabiscara notas com um marcador vermelho. As notas estavam escritas em francs e pareciam ser consideraes a respeito da melhor maneira de colocar um aparelho de escuta dentro do cavaleiro.
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E UM
      
      
      Silas estava sentado no banco do passageiro da limusine estacionada perto de Temple Church. Sentia as mos midas na Chave de Abbada enquanto esperava que, na parte de trs do carro, que Rmy acabasse de amarrar Teabing com a corda que tinham encontrado na mala.
      Finalmente, Rmy saiu pela porta traseira, contornou o carro e instalou-se no lugar do condutor, ao lado de Silas.
      - Ficou bem seguro? - perguntou Silas.
      Rmy riu, sacudindo os pingos de chuva da roupa, e olhou atravs da divisria para a forma enrolada de Leigh Teabing, quase invisvel no cho em frente do banco traseiro.
      - No vai a parte nenhuma.
      Silas ouviu os gritos abafados de Teabing e compreendeu que Rmy usara os restos da fita isoladora para amorda-lo.
      - Ferme ta guelel - gritou Rmy por cima do ombro. Estendendo a mo para o complicado painel de instrumentos, apertou um boto e uma divisria opaca subiu atrs deles, isolando a traseira do carro. Teabing desapareceu, e a sua voz deixou de se ouvir.
      Rmy lanou um olhar a Silas.
      - Estou farto das queixas daquele miservel.
      Minutos mais tarde, quando a limusine percorria as ruas de Londres, o telefone de Silas tocou. O Professor.
      - Al? - respondeu, excitadamente.
      - Silas - disse a voz familiar do Professor com o seu sotaque francs. - Estou contente por ouvi-lo. Significa que est bem.
      Tambm Silas se sentia reconfortado por ouvir o Professor. Tinham-se passado horas, e a operao descambara de uma maneira perfeitamente louca. Agora, por fim, parecia estar voltando aos eixos.
      - Tenho a Chave de Abbada.
      - Excelente notcia. Rmy est com voc?
      Silas ficou surpreso ao ouvir o Professor usar o nome de Rmy.
      - Sim. Foi ele que me libertou.
      - Como eu lhe ordenei que fizesse. S lamento que tenha sido obrigado a suportar o cativeiro durante tanto tempo.
      - O desconforto fsico no significa nada. O importante  que a Chave de Abbada  nossa.
      - Sim. Preciso que a entreguem imediatamente. O tempo  essencial.
      Silas estava ansioso por encontrar finalmente o Professor face-a-face.
      - Sim, senhor, terei muita honra.
      - Silas, quero que seja Rmy a traz-la.
      Rmy? Silas sentiu a alma cair-lhe aos ps. Depois de tudo o que tinha feito pelo
      Professor, julgara que seria ele a entregar o prmio. O Professor prefere Rmy?
      - Sinto o seu desapontamento - disse o Professor -, o que me diz que no me compreendeu. Tem de acreditar que eu gostaria muito mais que fosse voc, um homem de Deus, a entregar-me a Chave de Abbada, e no Rmy, que  um criminoso. Mas Rmy  um caso que tem de ser resolvido. Desobedeceu s minhas ordens e cometeu um grave erro que comprometeu toda a misso.
      Silas sentiu um arrepio e olhou de soslaio para Rmy. Raptar Teabing no fizera parte do plano, e decidir o que fazer com ele representava um novo problema.
      - Voc e eu somos homens de Deus - sussurrou o Professor. Nada pode desviarnos do nosso objetivo. - Seguiu-se uma pausa carregada de significado. - Por esta razo, e s por esta razo, vou pedir ao Rmy que me traga a Chave de Abbada. Compreende o que estou dizendo?
      Silas sentiu fria na voz do Professor e ficou surpreso pelo homem no ser mais compreensivo. Rmy no tinha outra opo a no ser mostrar-se, pensou. Fez o que tinha de ser feito. Salvou a Chave de Abbada.
      - Compreendo - conseguiu dizer.
      - timo. Para sua prpria segurana, voc tem de sair imediatamente das ruas. A Polcia no demorar a procurar o Jaguar, e eu no quero que o apanhem. A Opus Dei tem uma residncia em Londres, suponho?
      - Claro.
      - Eles o acolhero?
      - Como a um irmo.
      - Ento v para l e mantenha-se fora das vistas. Telefono assim que tenha a
      Chave de Abbada em meu poder e o meu atual problema resolvido.
      - Est em Londres?
      - Faa o que te digo e tudo correr bem.
      - Sim, senhor.
      O Professor deixou escapar um fundo suspiro, como se o que tinha de fazer a seguir fosse profundamente lamentvel.
      - Preciso falar com Rmy.
      Silas passou o telefone, sentindo que aquele podia ser o ltimo telefonema que
      Rmy Legaludec recebia neste mundo.
      Enquanto pegava o telefone, Rmy sabia que aquele pobre e retorcido monge no fazia idia da sorte que o esperava agora que servira o seu propsito.
      O Professor serviu-se de voc, Silas.
      E o seu bispo no passa de um peo.
      O poder de persuaso do Professor continuava a maravilh-lo. O bispo Aringarosa confiara tudo. Deixara-se cegar pelo seu prprio desespero. Aringarosa estava muito ansioso por acreditar. Embora no gostasse particularmente do Professor, Rmy orgulhava-se de ter conquistado a confiana do homem e de t-lo ajudado de uma forma to substancial. Mereci o meu salrio.
      - Oua com ateno - disse o Professor. - Leve o Silas at  residncia da Opus Dei e deixe-o a algumas ruas de distncia. Depois v a St. James Park. Fica junto do Parlamento e do Big Ben. Pode estacionar a limusine na parada dos Horse Guards.
      Falamos l.
      E cortou a ligao.
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E DOIS
      
      
      O Kings College, fundado por Jorge IV, em 1829, tem o seu Departamento de Teologia e Estudos Religiosos em um terreno doado pela coroa, contguo ao Parlamento.
      O Departamento de Religio do Kings College orgulha-se no s dos seus cento e cinquenta anos de experincia nas reas do ensino e da pesquisa, mas tambm da criao, em 1982, do Instituto de Pesquisa de Teologia Sistemtica, dotado de uma das mais completas e eletronicamente avanadas bibliotecas de pesquisa religiosa do mundo.
      Langdon ainda se sentia trmulo quando ele e Sophie entraram na biblioteca, vindos da chuva. A sala de pesquisa primria era tal como Teabing a descrevera  uma espetacular cmara octogonal dominada por uma enorme mesa redonda  volta da qual o rei Artur e os seus cavaleiros poderiam sentir-se em casa no fosse a presena de doze computadores de monitor plano. No extremo oposto da sala, a bibliotecria servia-se de uma xcara de ch e preparava-se para mais um dia de trabalho.
      - Bela manh - disse, com o seu jovial sotaque ingls, deixando o ch e dirigindo-se a eles. - Posso ajud-los?
      - Sim, obrigado - respondeu Langdon. - Chamo-me...
      - Robert Langdon - interrompeu-o ela, com um agradvel sorriso. - Sei quem .
      Por um instante, Langdon receou que Fache o tivesse posto tambm na televiso inglesa, mas o sorriso da bibliotecria sugeria que no. O fato era que ainda no se habituara queles momentos de inesperada celebridade. Por outro lado, se algum neste mundo ia reconhec-lo, era natural que fosse a bibliotecria de um servio de pesquisa de Estudos Religiosos.
      - Pamela Gettum - disse a mulher, estendendo-lhe a mo. Tinha um rosto simptico e erudito e uma voz agradavelmente fluida. As lentes dos culos que trazia suspensos do pescoo por um fio eram grossas.
      - Muito prazer. - Langdon sorriu. - Esta  a minha amiga Sophie Neveu.
      As duas mulheres cumprimentaram-se, e Gettum voltou-se imediatamente de novo para Langdon.
      - No sabia que vinham.
      - Nem ns. Se no for nuito incmodo, gostaramos muito que nos ajudasse a encontrar certas informaes.
      Gettum agitou-se, pareceu pouco segura.
      - Normalmente, os nossos servios tm de ser requisitados. A menos que seja convidado de algum no colgio?
      Langdon abanou a cabea.
      - No, ningum sabe que estamos aqui. Um amigo meu fala com grande apreo das suas capacidades. Sir Leigh Teabing? - Langdon sentiu uma pontada de tristeza ao pronunciar o nome. - Da British Royal Academy?
      Gettum riu.
      - Oh, sim! Que personagem. Fantico! Sempre que vem aqui, segue as mesmas linhas de pesquisa. Graal. Graal. Graal. Juro que o homem mais depressa morre do que desiste. - Piscou-lhes um olho. - Tempo livre e dinheiro permitem alguns luxos bem simpticos, no  verdade? Um autntico D. Quixote, esse Sir Leigh.
      - H alguma possibilidade de nos ajudar? - perguntou Sophie. -  muito importante.
      Gettum olhou em redor para a biblioteca deserta e voltou a piscar-lhes um olho.
      - Bem, no posso alegar que estou muito ocupada, no ? Desde que assinem o pedido, suponho que ningum se importar muito. O que  que procuram?
      - Estamos tentando descobrir um tmulo em Londres.
      Gettum fez um ar de dvida.
      - Temos cerca de vinte mil. No podem ser um pouco mais especficos?
      -  o tmulo de um cavaleiro. No sabemos o nome.
      - Um cavaleiro. J reduz consideravelmente a rea. Muito menos comum.
      - No temos muita informao sobre o cavaleiro que procuramos - explicou Sophie -, mas isto  o que sabemos. - E mostrou o pedao de papel onde escrevera as duas primeiras linhas do poema.
      Hesitantes em mostrar o poema inteiro a um desconhecido, Langdon e Sophie tinham decidido revelar apenas as duas primeiras linhas, as que identificavam o cavaleiro. Criptografia compartimentada, chamara-lhe Sophie. Quando uma agncia de informaes interceptava um cdigo que contivesse dados sensveis, distribua-o por vrios criptlogos. Deste modo, quando era decifrado, nenhum dos envolvidos ficava sabendo a totalidade da mensagem.
      Naquele caso, a precauo era provavelmente excessiva; mesmo que aquela bibliotecria lesse todo o poema, identificasse o tmulo e soubesse que globo faltava, a informao seria intil sem o criptex.
      Gettum detetou a urgncia nos olhos do famoso erudito americano, quase como se encontrar rapidamente aquele tmulo fosse uma questo de importncia crucial. E a mulher de olhos verdes que o acompanhava parecia igualmente ansiosa.
      Intrigada, ps os culos e examinou o papel que acabavam de entregar-lhe. 
      Em Londres jaz um cavaleiro que um papa enterrou.
      O fruto do seu labor uma sagrada fria granjeou.
      Lanou um olhar aos visitantes.
      - O que  isto? Uma espcie de caa ao tesouro de Harvard?
      A gargalhada de Langdon soou forada.
      - Sim, uma coisa nesse gnero.
      Gettum hesitou, sentindo que no estavam contando-lhe tudo. Mesmo assim, a curiosidade levou a melhor, e deu por si a examinar cuidadosamente os versos.
      - Segundo a rima, um cavaleiro fez qualquer coisa que lhe granjeou a ira de Deus, mas mesmo assim um papa teve a generosidade de enterr-lo aqui em Londres.
      Langdon assentiu.
      - Lembra-lhe alguma coisa?
      Gettum dirigiu-se a um dos computadores.
      - Assim de repente, no. Mas vejamos o que conseguimos sacar da base de dados.
      Ao longo das duas ltimas dcadas, o Instituto de Pesquisa de Teologia Sistemtica do Kings College tinha usado programas de leitura tica, juntamente com ferramentas de traduo, para digitalizar e catalogar uma enorme coleo de textos - enciclopdias sobre religio, biografias religiosas, escrituras sagradas em dzias de lnguas, histrias, cartas do Vaticano, dirios de clrigos, tudo o que pudesse ser qualificado como um escrito sobre a espiritualidade humana. Por se encontrarem agora sob a forma de bits e de bytes, e no de pginas fsicas, os dados contidos na macia colectnea tinham-se tornado infinitamente mais acessveis.
      Sentando-se diante do computador, Gettum lanou um olhar ao pedao de papel e comeou a teclar.
      - Vamos comear por uma pesquisa booleana simples, com umas poucas palavras-chave bvias, vendo o que acontece.
      - Obrigado.
      Gettum teclou as palavras:
      LONDRES, CAVALEIRO, PAPA
      Quando clicou o boto de SEARCH, foi como se sentisse o zumbido do enorme servidor situado no subsolo estivesse verificando dados  velocidade de 500 MB/seg.
      - Estou pedindo ao sistema que nos mostre quaisquer documentos cujo texto completo contenha todas estas trs palavras-chave. Vamos obter mais resultados do que queremos, mas  uma boa maneira de comear.
      O visor j mostrava os primeiros resultados.
      Pintar o papa. Colectnea de retratos de Sir Joshua Reynolds. London University Press.
      Gettum abanou a cabea.
      - Obviamente, no  o que procuramos.
      Passou para a pea seguinte.
      Os escritos de Londres de Alexander Pope por G. Wilson Knight.
      Voltou a abanar a cabea.
      O sistema continuou a procurar, e os resultados comearam a surgir mais rapidamente do que o normal. Apareceram dzias de textos, muitos deles sobre o escritor ingls do sculo XVIII Alexandre Pope, cuja poesia irnico-pica e contra-religiosa inclua, aparentemente, numerosas referncias a cavaleiros e a Londres.
      Gettum lanou um rpido olhar ao campo numrico na parte de baixo do monitor.
      O computador, calculando o atual nmero de resultados e multiplicando-o pela percentagem da base de dados que faltava ainda investigar, dava uma idia aproximada da quantidade de informao que seria encontrada. Aquela pesquisa ia, segundo parecia, produzir um volume obsceno de informao.
      Nmero total de resultados estimado: 2692.
      - Temos de refinar mais os parmetros. - disse Gettum, interrompendo a pesquisa.
      -  s o que tm a respeito do tmulo? No h mais nada?
      Langdon olhou para Sophie, parecendo hesitante.
      Isto no  nenhuma caa ao tesouro, adivinhou Gettum. Ouvira rumores a respeito da experincia de Robert Langdon em Roma, no ano anterior. Fora dado quele americano acesso  biblioteca mais segura do mundo - os Arquivos Secretos do Vaticano. Perguntou a si mesma que espcie de segredos Langdon descobrira e se aquela sua atual e desesperada procura de um misterioso tmulo londrino estaria relacionada com informao obtida no Vaticano. Era bibliotecria h tempo suficiente para saber qual a principal razo que levava as pessoas a Londres em busca de cavaleiros. O Graal.
      Gettum sorriu e ajustou os culos.
      - So amigos de Leigh Teabing, esto na Inglaterra e andam  procura de um cavaleiro. - Entrelaou as mos. - S posso deduzir que procuram o Graal.
      Langdon e Sophie trocaram um olhar, sobressaltados.
      - Meus amigos - continuou Gettum, rindo -, esta biblioteca  praticamente uma espcie de campo-base para quem procura o Graal. Incluindo Leigh Teabing. S queria ter um shilling por cada vez que corri uma busca sobre a Rosa, Maria Madalena, Sangreal, Merovngios, o Priorado de Sio, etc., etc. No h quem no adore uma boa conspirao. - Tirou os culos e olhou para eles. .- Preciso de mais informao.
      No silncio que se seguiu, Gettum adivinhou que o desejo de segredo dos visitantes estava a ser rapidamente sobrepujado pela necessidade que tinham de um resultado rpido.
      - Isto  tudo o que sabemos - murmurou Sophie. Pedindo uma caneta a Langdon, escreveu mais duas linhas no papel que dera a Gettum:
      Procura o globo que no seu tmulo devia estar.
      Ele fala de carne Rosada e de um tero a germinar.
      Gettum sorriu para dentro. O Graal, claro, pensou, notando a referncia  Rosa e ao tero a germinar.
      - Posso ajud-los - disse, erguendo os olhos do pedao de papel. - Posso perguntar de onde vieram estes versos? E porque procuram um globo?
      - Pode perguntar - respondeu Langdon, com um sorriso amvel -, mas  uma longa histria e ns temos muito pouco tempo.
      - Soa-me a uma maneira delicada de me dizer que me meta na minha vida.
      - Ficaremos eternamente em dvida para consigo, Pamela - disse Langdon -, se conseguir descobrir quem  esse cavaleiro e onde foi enterrado.
      - Muito bem. - Gettum voltou ao computador. - Fao-lhes a vontade. Se tudo isto tem a ver com o Graal, vamos introduzir referncias cruzadas com palavras-chaves relativas ao Graal. Vou acrescentar um parmetro de proximidade e aliviar o ttulo, o que limitar os resultados aos casos em que as palavras-chaves textuais ocorram perto de um termo relacionado com o Graal.
      Procurar: CAVALEIRO, LONDRES, PAPA, TMULO
      Numa proximidade de 100 palavras de:
      GRAAL, ROSA, SANGREAL, CLICE
      - Quanto tempo vai demorar? - perguntou Sophie.
      - Umas centenas de milhes de bytes com mltiplos campos de referncias cruzadas? - Os olhos de Gettum brilharam enquanto ela clicava o boto SEARCH. - Uns meros quinze minutos.
      Langdon e Sophie no disseram nada, mas Gettum adivinhou que aquilo lhes parecia uma eternidade.
      - Ch? - perguntou, pondo-se de p e dirigindo-se ao bule que tinha preparado. - Leigh adora o meu ch.
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E TRS
      
      
      A Residncia da Opus Dei em Londres  um modesto prdio de tijolo no nmero 5 de Orme Court, sobranceira ao North Walk dos Kensington Gardens. Silas nunca tinha estado l, mas experimentou uma crescente sensao de refgio e asilo  medida que se aproximava, a p, do edifcio. Apesar da chuva, Rmy deixara-o a uma curta distncia, a fim de manter a limusine afastada das ruas mais movimentadas. Silas no se importava de caminhar. A chuva lavava-o.
      Por sugesto de Rmy, limpara cuidadosamente a arma e atirara-a a uma sarjeta.
      Estava satisfeito por se ver livre dela. Sentia-se mais leve. Ainda lhe doam as pernas por ter estado amarrado durante tanto tempo, mas j suportara dores bem maiores. Pensou, porm, em Teabing, que Rmy tinha deixado na parte de trs da limusine. O ingls devia de estar comeando a saber o que era a dor.
      - Que vai fazer com ele? - perguntara a Rmy, ainda no carro. 
      Rmy encolhera os ombros.
      - Essa deciso compete ao Professor. - E houvera uma estranha finalidade no seu tom.
      Agora, enquanto se aproximava do edifcio da Opus Dei, a chuva comeou a cair com mais fora, encharcando-lhe o pesado hbito, fazendo arder as feridas do dia anterior. Sentia-se pronto para deixar para trs os pecados das ltimas vinte e quatro horas e purgar a alma. O seu trabalho estava feito.
      Atravessando o pequeno ptio at  porta principal, no ficou surpreso ao encontr-la aberta. Empurrou-a e entrou no reduzido vestbulo. Uma campainha eletrnica tocou Em algum lugar no primeiro andar quando pisou a alcatifa. A campainha era um elemento comum naquelas casas, onde os residentes passavam a maior parte do tempo nos quartos, rezando. Silas ouviu movimento no rangente soalho de madeira por cima da sua cabea.
      Um homem que envergava um hbito desceu as escadas.
      - Posso ajud-lo?
      Tinha olhos bondosos, que pareceram nem sequer notar o surpreendente aspecto fsico de Silas.
      - Obrigado. Chamo-me Silas. Sou um numerrio da Opus Dei.
      - Americano?
      Silas assentiu,
      - S estarei em Londres um dia. Posso repousar aqui?
      - Nem precisa perguntar. H dois quartos vagos no terceiro piso. Quer que lhe leve um pouco de ch e de po?
      - Obrigado. - Silas estava faminto.
      Subiu as escadas at um modesto quarto com uma janela, onde despiu o hbito molhado e se ajoelhou para rezar apenas com a roupa interior. Ouviu o seu anfitrio subir e deixar uma bandeja junto da porta. Acabou as suas oraes, comeu e deitou-se para dormir.
      Trs pisos mais abaixo, o telefone tocava. O numerrio que recebera Silas levantou o auscultador.
      - Fala a Polcia de Londres - disse uma voz de homem. Estamos tentando encontrar um monge albino. Recebemos a informao de que talvez estivesse a. Viramno?
      O numerrio sobressaltou-se.
      - Sim, est aqui. Aconteceu alguma coisa?
      - Est a agora?
      - Sim, l em cima, rezando. O que est acontecendo?
      - Deixe-o precisamente onde est - ordenou o homem. No diga uma palavra seja a quem for. Vou mandar imediatamente algum para a.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E QUATRO
      
      
      St. Jamess Park  um mar de verde no meio de Londres, um parque pblico contguo aos palcios de Westminster, Buckingham e St. Jamess. Em tempos fechado por Henrique VIII e povoado com veados para a caa, est hoje aberto ao pblico. Nas tardes de sol, os londrinos fazem piqueniques  sombra dos salgueiros e alimentam os pelicanos residentes do lago cujos antepassados foram uma oferta do embaixador da Rssia a Carlos II.
      Naquele dia, o Professor no viu pelicanos. O tempo tempestuoso trouxera, em contrapartida, gaivotas do oceano. Os relvados estavam cobertos de centenas de corpos brancos, todos apontados na mesma direo, suportando pacientemente, de costas voltadas, o vento frio e mido. A despeito do nevoeiro matinal, o parque oferecia magnfica vista dos Edifcios do Parlamento e do Big Ben. Espraiando o olhar pelos relvados em declive, para l do lago dos patos e das delicadas silhuetas dos salgueiros, o Professor viu os pinculos do edifcio que albergava o tmulo do cavaleiro - a verdadeira razo por que dissera a Rmy que fosse quele lugar.
      Quando o Professor se aproximou da porta dianteira do lado do passageiro da limusine estacionada, Rmy inclinou-se no banco e abriu-a. O Professor fez uma pausa ainda fora do carro, bebendo um gole do frasco de conhaque que levava consigo. Ento, limpando os lbios, sentou-se ao lado de Rmy e fechou a porta.
      Rmy ergueu a Chave de Abbada, como se fosse um trofeu.
      - Quase a perdi.
      - Trabalhou bem - disse o Professor.
      - Trabalhamos bem - emendou Rmy, depositando a Chave de Abbada nas mos ansiosas do Professor.
      O Professor admirou-a por um longo momento, sorrindo.
      - E a arma? Limpou-a bem?
      - Est no porta-luvas, de onde a tirei.
      - Excelente. - O Professor bebeu mais um gole de conhaque e estendeu o frasco a
      Rmy. - Bebamos ao nosso xito. O fim est prximo.
      Rmy aceitou a garrafa agradecidamente. O conhaque pareceu-lhe salgado, mas no se importou. Ele e o Professor eram agora verdadeiramente scios. J se sentia ascendendo a uma nova posio na vida. Nunca mais voltarei a ser um criado. Ao olhar para o lago dos patos, l embaixo, Chteau Villette pareceu-lhe a quilmetros de distncia.
      Bebeu outro gole da garrafa e sentiu o conhaque aquecer-lhe o sangue. No tardou, porm, que o calor que tinha na garganta se transformasse em um ardor incmodo. Alargando o n do lao, Rmy sentiu uma desagradvel aspereza na boca e devolveu a garrafa ao Professor.
      - Provavelmente, j bebi o suficiente - conseguiu dizer, debilmente.
      Aceitando a garrafa, o Professor disse:
      - Rmy, como sabe,  a nica pessoa que conhece a minha identidade. Depositei em voc uma enorme confiana.
      - Sim - respondeu Rmy, alargando ainda mais o lao. E a sua identidade ir comigo para a cova.
      O Professor permaneceu calado por um longo momento.
      - Acredito em voc. - Guardando a garrafa no bolso, abriu o porta-luvas e tirou de l o minsculo Medusa. Por um instante, Rmy sentiu uma onda de medo, mas o Professor limitou-se a enfiar o revlver no bolso das calas.
      Que ele est fazendo? De repente, Rmy percebeu que estava suando.
      - Bem sei que prometi a liberdade - continuou o Professor, num tom quase de pena. - Mas, considerando as circunstncias, isto  o melhor que posso fazer.
      Rmy sentiu a bola de fogo subir-lhe  boca como um terremoto e dobrou-se sobre o volante, agarrando a garganta com ambas as mos e sentindo o sabor do vmito na traqueia contrada. Deixou escapar um grito rouco e abafado, nem sequer suficientemente alto para ser ouvido fora do carro. Lembrou-se de que o conhaque lhe parecera salgado.
      Estou sendo assassinado!
      Incrdulo, voltou-se para ver o Professor calmamente sentado a seu lado, olhando em frente atravs do pra-brisas. A viso toldou-se e abriu muito a boca, tentando respirar. Como ele pde me fazer isto? Fui eu que tornei tudo possvel! Se o Professor sempre tencionara mat-lo ou se tinham sido as suas aes em Temple Church que o tinham feito perder a f nele era algo que Rmy nunca viria a saber. O terror e a raiva enchiam-lhe a cabea. Quis atirar-se ao Professor, mas o seu corpo rgido mal se moveu.
      Confiei sempre em voc!
      Tentou erguer os punhos cerrados para tocar a buzina, mas em vez disso tombou para a esquerda, rolando para cima do banco, onde ficou cado ao lado do Professor, com as mos enclavinhadas na garganta. Chovia agora mais intensamente. Rmy j no conseguia ver, mas sentiu o crebro privado de oxignio fazer um esforo para agarrar-se aos ltimos dbeis fiapos de lucidez. Enquanto o seu mundo mergulhava na escurido, Rmy teria jurado que estava ouvindo o som da rebentao das ondas na Riviera.
      O Professor saiu da limusine, satisfeito por verificar que ningum estava olhando naquela direo. No tinha alternativa, disse para si mesmo, surpreendido por sentir to pouco remorso pelo que acabava de fazer. Rmy selou a sua prpria sorte. Sempre receara que o mordomo tivesse de ser eliminado uma vez terminada a misso, mas ao mostrar imprudentemente o rosto em Temple Church, acelerara de forma dramtica essa necessidade. A inesperada visita de Robert Langdon a Chteau Villette fora para o Professor um golpe de sorte fortuito, mas tambm o colocara face a um complicado dilema. Langdon levara a Chave de Abbada diretamente ao centro da operao, o que fora uma surpresa agradvel, mas, em contrapartida, conduzira a Polcia at l. As impresses digitais de Rmy estavam espalhadas de uma ponta  outra da manso, e tambm no posto de escuta, onde levara a cabo o seu trabalho de vigilncia. O Professor estava contente por ter tido o cuidado de evitar quaisquer ligaes entre as atividades de Rmy e as suas. Ningum poderia implic-lo a menos que Rmy falasse, e isso deixara de constituir problema.
      Mais uma ponta solta para atar, pensou o Professor enquanto se dirigia  porta traseira do carro. A Polcia no far a mnima idia do que aconteceu... e no haver qualquer testemunha viva para lhes contar. Olhando em redor para se certificar de que no estava sendo observado, abriu a porta e instalou-se no espaoso compartimento.
      Minutos mais tarde, o Professor atravessava St. Jamess Park. S restam agora duas pessoas, Langdon e Neveu. Esses eram mais complicados. Mas tratveis. No momento, porm, tinha de resolver a questo do criptex.
      Olhando triunfantemente para o outro lado do parque, viu o seu objetivo. Em Londres jaz um cavaleiro que um papa enterrou. Logo que ouvira o poema, soubera a resposta. Mesmo assim, o fato dos outros dois no terem percebido no o surpreendia.
      Eu tinha uma vantagem injusta. Tendo escutado as conversas de Saunire durante meses, ouvira o Gro-Mestre referir vrias vezes aquele famoso cavaleiro, manifestando por ele uma estima quase igual  que tinha por da Vinci. A referncia do poema ao cavaleiro era brutalmente simples quando uma pessoa a via - o que no deixava de fazer jus  habilidade de Saunire - mas como iria o tmulo revelar a senha final continuava sendo um mistrio.
      Procure o globo que no seu tmulo devia estar.
      O Professor recordava vagamente fotografias do famoso tmulo e, em especial, da sua caracterstica mais notvel. Um magnfico globo. A enorme esfera montada por cima do tmulo era quase to grande como o prprio sepulcro. A presena do globo parecia ao Professor simultaneamente encorajadora e perturbante. Por um lado, era como um sinal apontando o local, mas por outro, segundo o poema, a pea que faltava no puzzle era um globo que devia estar l... e no um globo que j existia. Estava contando com uma inspeo pessoal para desvendar o mistrio.
      A chuva caa cada vez mais forte, e o Professor enfiou o criptex no bolso do lado direito para proteg-lo da umidade. Levava o minsculo revlver Medusa no bolso esquerdo. Minutos depois, entrava no silencioso santurio de um edifcio com novecentos anos de idade, um dos mais imponentes de Londres.
      Nesse preciso instante, na pista batida pela chuva do aerdromo executivo de Biggin Hill, o bispo Aringarosa saa do acanhado avio que o transportara, aconchegando a sotaina para se proteger do frio mido. Esperara ser recebido pelo capito Fache. Em vez disso, um jovem agente da Polcia inglesa aproximou-se com um guarda-chuva. 
      - Bispo Aringarosa? O capito Fache no pde esperar. Pediu-me que cuidasse do senhor. Sugeriu que o levasse para a Scotland Yard. Pensou que l estaria mais seguro.
      Mais seguro? Aringarosa baixou os olhos para a pesada maleta cheia de ttulos do Vaticano que segurava. Quase se esquecera dela.
      - Sim, obrigado.
      Entrou para o carro da Polcia, perguntando a si mesmo onde estaria Silas.
      Minutos mais tarde, a resposta chegou pelo rdio.
      Orme Court, 5.
      Aringarosa reconheceu instantaneamente o endereo. A Residncia da Opus Dei em Londres. Voltou-se para o condutor.
      - Leve-me l imediatamente!
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E CINCO
      
      
      Langdon no desviou os olhos do visor a partir do momento em que a busca comeou. Cinco minutos. Apenas dois resultados. Ambos irrelevantes.
      Comeava a ficar preocupado.
      Pamela Gettum estava na sala contgua, preparando bebidas quentes. Langdon e Sophie tinham perguntado, muito pouco elegantemente, se no haveria por acaso caf alm do ch oferecido e, pelo som do microondas na sala ao lado, Langdon suspeitava de que o pedido deles ia ser recompensado com Nescaf instantneo.
      Finalmente, o computador fez um ping de satisfao.
      - Parece que tm outro - disse Gettum, da outra sala. - Qual  o ttulo?
      Langdon leu o que estava escrito no visor:
      A Alegoria do Graal na Literatura Medieval: Um Tratado sobre Sr Gwain e o Cavaleiro Verde.
      - A Alegoria do Cavaleiro Verde - disse, em voz alta.
      - No interessa - respondeu Gettum. - No h muitos cavaleiros mitolgicos verdes enterrados em Londres.
      Langdon e Sophie continuaram pacientemente sentados diante do visor, deixando passar mais dois resultados duvidosos. Mas quando o computador voltou a fazer ping, a oferta foi inesperada.
      DIE OPER VON RICHARD WAGNER
      - As peras de Wagner? - disse Sophie.
      Gettum espreitou da porta, com uma saqueta de caf instantneo na mo.
      - Estranho. Wagner era cavaleiro?
      - No - respondeu Langdon, subitamente intrigado. - Mas era um maon conhecido. - Tal como Mozart, Beethoven, Shakespeare, Gershwin, Houdini e Disney.
      Havia abundante literatura a respeito das ligaes entre os maons e os Cavaleiros do Templo, o Priorado de Sio e o Santo Graal... - Quero dar uma olhada neste. Como  que fao para ver o texto completo?
      - O texto completo no lhe interessa - disse Gettum. - Clique a barra de hipertexto.
      O computador mostrar as palavras-chaves juntamente com referncias de contexto.
      Langdon no sabia de que ela estava falando, mas clicou de todos os modos.
      Abriu-se uma nova janela.
      . . .cavaleiro mitolgico chamado Parsifal que...
      . . . demanda do Graal metafrica que alegadamente...
      . . .a Orquestra Filarmnica de Londres, em 1885. . .
      . . .Antologia de pera de Rebecca Pope. . .
      ...tmulo de Wagner em Bayreuth, Alemanha...
      - Cavaleiro errado - disse Langdon, desapontado. Mesmo assim, estava espantado com a facilidade de utilizao do sistema. As palavras-chaves com contexto eram o bastante para lhe lembrar que a pera Parsifal de Wagner era um tributo a Maria Madalena e  linhagem de Cristo contado atravs da histria de um jovem cavaleiro em busca da verdade.
      - Tenha pacincia - exortou Gettum. -  uma loteria. Deixe a mquina correr.
      Durante os poucos minutos seguintes, o computador mostrou vrias outras referncias ao Graal, incluindo um texto a respeito de troubadours - os famosos menestris itinerantes franceses. Langdon sabia que no era por acaso que as palavras menestrel e ministro partilhavam a mesma raz etimolgica. Os trovadores eram os servidores viajantes, ou ministros, da Igreja de Maria Madalena, e usavam a msica para divulgar entre a gente comum a histria do sagrado feminino. Ainda hoje, os trovadores cantavam canes em que exaltavam as virtudes de nossa Senhora - uma bela e misteriosa mulher a quem juravam fidelidade eterna.
      Procurou ansiosamente o hipertexto, mas nada encontrou.
      O computador voltou a fazer ping.
      CAVALEIROS, VALETES, PAPAS E PENTCULOS: A HISTRIA DO SANTO GRAAL ATRAVS DO TAR
      - No admira - disse Langdon a Sophie. - Algumas das nossas palavras-chaves tm o mesmo nome que certas cartas. - Estendeu a mo para o mouse, para clicar um hiperlink. - No sei se o seu av alguma vez mencionou isto quando jogava taro consigo, mas o jogo  um catecismo por cartas com a histria da Noiva Perdida e da sua subjugao pela Igreja m.
      Sophie olhou para ele com uma expresso incrdula.
      - No fazia idia.
      -  precisamente essa a questo. Usando um jogo metafrico para ensinar, os seguidores do Graal escondiam a sua mensagem dos olhos sempre vigilantes da Igreja. - Langdon perguntava muitas vezes a si mesmo quantos dos modernos jogadores de cartas tinham conscincia de que os quatro naipes - espadas, copas, paus e ouros  eram smbolos que vinham diretamente dos quatro naipes do taro: espadas, taas, cetros e pentculos.
      Espadas eram espadas - A lmina. Masculino.
      Copas eram Taas - O Clice. Feminino.
      Paus eram Cetros - A Linha Real. O bordo florido.
      Ouros eram Pentculos - A deusa. O sagrado feminino.
      Quatro minutos mais tarde, quando Langdon comeava a convencer-se de que nunca encontrariam o que tinham ido procurar, o computador apresentou outro resultado.
      A Gravidade do Gnio: Biografia de um Cavaleiro Moderno 
      - Gravidade do Gnio? - gritou Langdon para Gettum. Biografia de um cavaleiro moderno?
      Gettum voltou a meter a cabea pela porta.
      - Moderno como? Por favor, no me diga que  o seu Sir Rudy Giuliani. Pessoalmente, achei um bocado exagerado.
      Langdon tinha as suas dvidas a respeito do recm-nobilitado Sir Mick Jagger, mas no lhe pareceu que fosse aquele o melhor momento para discutir as bizarrias do sistema britnico de agraciaes.
      - Vamos l dar uma vista de olhos - disse, e clicou o hipertexto.
      . . . venervel cavaleiro, Sir Isaac Newton. . .
      em Londres, em 1727 e ...
      . . .o seu tmulo na Abadia de Westminster. . .
      . . .Alexander Pope, amigo e colega. . .
      - Suponho que moderno  um termo relativo - disse Sophie. -  um livro antigo. A respeito de Sir Isaac Newton.
      Gettum abanou a cabea, da porta.
      - No serve. Newton foi sepultado na abadia de Westminster, a sede do protestantismo ingls. No h a mnima possibilidade de um papa catlico ter estado presente. Natas e acar?
      Sophie assentiu.
      Gettum esperou.
      - Robert?
      O corao de Langdon batia loucamente. com um esforo, desviou os olhos do visor e ps-se de p.
      - Sir Isaac Newton  o nosso cavaleiro.
      Sophie continuou sentada.
      - Que voc est dizendo?
      - Newton est sepultado em Londres. Os seus trabalhos deram origem a novas cincias que incorreram na ira da Igreja. E foi Gro-Mestre do Priorado de Sio. Que mais podemos querer?
      - Que mais? - perguntou Sophie, apontando para o poema.
      - E um cavaleiro que um papa enterrou? Ouviu o que a senhora Gettum disse.
      Newton no foi enterrado por um papa catlico.
      Langdon estendeu a mo para o mouse.
      - Quem falou de um papa catlico? - Clicou o hiperlink Pope e o texto completo apareceu no visor.
      O funeral de Sir Isaac Newton, a que assistiram reis e nobres, foi presidido por Alexander Pope, amigo e colega, que pronunciou uma comovente eulegia antes de espalhar terra sobre o tmulo.
      Langdon olhou para Sophie.
      - Tnhamos o Pope certo logo  segunda tentativa. Alexander. - Fez uma pausa. - A. Pope.
      In London lies a knight A. Pope interred.
      Sophie ps-se de p, estupefata.
      Jacques Saunire, o mestre dos duplos-sentidos, provara mais uma vez ser um homem assustadoramente inteligente.
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E SEIS
      
      
      Silas acordou sobressaltado.
      No sabia o que o tinha acordado nem quanto tempo estivera dormindo. Estava sonhando? Sentado na enxerga de palha, ficou escutando a respirao sossegada da Residncia da Opus Dei, o silncio povoado apenas pelo murmrio de algum rezando em voz alta em um quarto do piso inferior. Eram sons familiares, que deveriam ter-lhe parecido reconfortantes.
      E no entanto, sentia-se sbita e inesperadamente alerta.
      Levantou-se da enxerga, vestindo apenas a roupa interior, e aproximou-se da janela. Terei sido seguido? O ptio abaixo estava deserto, tal como o vira ao entrar.
      Escutou. Silncio. Porque estou ento intranquilo? Havia muito que Silas aprendera a confiar na sua intuio. Fora a intuio que o mantivera vivo quando era um garoto nas ruas de Marselha, muito antes da priso... muito antes de ter renascido pela mo do bispo Aringarosa. Olhando com mais ateno pela janela, viu a forma difusa de um carro atravs da sebe. No teto do carro havia uma sirene da Polcia. No corredor, uma tbua do soalho rangeu. A lingueta de uma porta moveu-se.
      Silas reagiu por instinto, atravessando o quarto de um salto e escondendo-se atrs da porta no instante em que ela se abriu violentamente. O primeiro agente entrou de rompante, apontando a arma  esquerda e  direita para o que parecia ser um quarto vazio. Antes que o policial conseguisse perceber onde Silas se metera, o albino empurrou a porta com o ombro, fazendo-a bater com fora no segundo agente, que vinha entrando.
      Quando o primeiro rodou sobre si mesmo e disparou, Silas mergulhou-lhe aos ps e a bala passou-lhe, inofensiva, por cima da cabea. Chocou contra as pernas do homem, fazendo-o cair e bater com a cabea no cho. No umbral da porta, o segundo agente estava a pondo-se de p, cambaleante. Silas acertou-lhe uma joelhada na virilha e saltou, por cima do corpo que se contorcia, para o corredor.
      Quase nu, precipitou-se escada abaixo. Sabia que tinha sido trado, mas por quem? Quando chegou ao vestbulo, havia mais polciais entrando pela porta da frente.
      Fez meia volta e correu para o interior da Residncia. A entrada das mulheres. Todos os edifcios da Opus Dei tm uma. Seguindo os estreitos corredores, atravessou a cozinha, enxotando  sua frente as aterrorizadas criadas, atirando ao cho tachos e panelas, at chegar ao escuro corredor junto  casa da caldeira. Viu a porta que procurava, uma luz de sada brilhando ao fundo.
      Correndo a toda a velocidade, saiu para a chuva, saltou do pequeno patamar, e s viu o agente que corria em sentido contrrio quando j era muito tarde. Os dois homens se chocaram, e o macio ombro nu de Silas bateu no esterno do homem com uma fora esmagadora. Levado pelo impulso, empurrou o policial  sua frente at o passeio, caindo em cima dele. A arma que o agente empunhava escapou-lhe da mo e escorregou pelo empedrado. Silas ouvia homens correndo pelo corredor, gritando. Rolando sobre si mesmo, apanhou a arma cada no instante em que os agentes apareciam  porta. Uma arma disparou e Silas sentiu uma dor dilacerante abaixo das costelas. Cheio de raiva,  abriu fogo contra os trs agentes, vendo o sangue deles esguichar.
      Uma sombra escura surgiu atrs dele, vinda do nada. As mos furiosas que lhe agarraram o ombro nu pareciam dotadas da fora do prprio demnio.
      - SILAS, NO! - rugiu-lhe o homem aos ouvidos.
      Silas voltou-se e disparou. Os olhos de ambos encontraram-se. Silas j estava uivando de horror quando o bispo Aringarosa comeou a cair.
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E SETE
      
      
      H, em campas, sepulcros e relicrios, mais de trs mil pessoas sepultadas na abadia de Westminster. O colossal interior de pedra est cheio de despojos de reis, estadistas, cientistas, poetas e msicos. Os seus tmulos, encaixados em todos os recantos e alcovas, vo, em grandiosidade, do mais opulento dos mausolus - o da rainha Isabel I, cujo sarcfago, coberto por um sobrecu, ocupa sozinho uma capela absidial - s modestssimas lajes, de onde a passagem de milhes de ps, ao longo dos sculos, fez desaparecer as inscries, deixando  imaginao do visitante adivinhar que relquias podero jazer nas annimas tumbas.
      Desenhada no estilo das grandes catedrais de Amiens, Chartres e Canturia, a abadia de Westminster no  considerada catedral nem igreja paroquial. Ostenta a classificao de peculiar real, sujeita unicamente ao soberano. Desde que serviu de palco  coroao de Guilherme, o Conquistador, no dia de Natal de 1066, o deslumbrante santurio tem assistido a uma interminvel procisso de cerimnias reais e acontecimentos de Estado - da canonizao de Eduardo, o Confessor, ao casamento do prncipe Andr e Sara Ferguson, passando pelas exquias de Henrique V, Isabel I e Lady Diana.
      Apesar de tudo isto, um nico acontecimento da rica e longa histria da abadia interessava, de momento, a Robert Langdon: o funeral de Sir Isaac Newton. 
      In London lies a knight a Pope interred.
      Depois de terem subido, apressados, as escadas do grande portal do transepto norte, Langdon e Sophie foram acolhidos por guardas que, delicadamente, os fizeram passar pela mais recente adio ao mobilirio da abadia - um grande detetor de metais -, agora presente na maior parte dos edifcios histricos de Londres. Nenhum dos dois disparou o alarme e seguiram em frente at  entrada.
      Ao transpor o umbral, Langdon sentiu o mundo exterior evaporar-se com uma sbita ausncia de rudo. Nem o rumor surdo do trnsito, nem o tamborilar da chuva.
      Apenas um silncio ensurdecedor, que parecia reverberar de um lado para o outro dentro do edifcio, como se sussurrasse para si mesmo.
      Os olhos de Langdon e de Sophie, como os de quase todos os visitantes, voltaram-se imediatamente para cima, onde o grande abismo da abadia dava a impresso de explodir. Colunas de pedra cinzenta erguiam-se como sequias em direo s sombras, arqueando graciosamente por vastides vertiginosas para voltarem a descer at ao cho.  frente deles, a ampla avenida do transepto norte estendia-se como um profundo desfiladeiro, flanqueado por precipitosas falsias de vitrais. Nos dias de sol, o cho da abadia era um mosaico de luz. Naquele dia, a chuva e a escurido davam  vasta caverna uma aura fantasmagrica... mais como a da cripta que na realidade era. 
      - Est praticamente vazia - murmurou Sophie.
      Langdon estava decepcionado. Esperara encontrar muito mais pessoas. Um lugar mais pblico. No tinha o menor desejo de repetir a experincia de Temple Church.
      Contara com uma certa sensao de segurana no popular local turstico, mas as suas recordaes de animadas multides numa abadia cheia de luz tinham sido formadas no auge da estao turstica estival. Naquela chuvosa manh de Abril, em vez de multides e vitrais refulgentes, tudo o que via era hectares de cho desolado e alcovas cheias de sombras.
      - Passamos por detetores de metais - disse Sophie, aparentemente adivinhando a apreenso dele. - Se estiver aqui algum, no pode estar armado.
      Langdon assentiu, mas continuava sentindo-se preocupado. Tinha querido levar consigo a Polcia de Londres, mas os receios de Sophie a respeito de quem podia estar envolvido impediam qualquer contato com as autoridades. Temos de recuperar o criptex, insistira Sophie.  a chave de tudo.
      Tinha razo, claro.
      A chave para voltarmos a ver Leigh com vida. A chave para recuperar o Santo Graal. A chave para descobrir quem est por trs disto.
      Infelizmente, a nica possibilidade de recuperarem a Chave de Abbada parecia ser ali e naquele momento... no tmulo de Sir Isaac Newton. Fosse quem fosse o atual possuidor do criptex, tinha de visitar o tmulo para decifrar a ltima pista, e, se essa pessoa no tivesse ali estado e voltado a partir, Sophie e Langdon tencionavam intercept-la.
      Desviando-se para a esquerda, para sarem do espao aberto, avanaram por uma obscura coxia lateral, protegida por uma fiada de pilastras. Langdon no conseguia tirar da cabea a imagem de Teabing prisioneiro, talvez estendido, amarrado e amordaado, na parte de trs da sua prpria limusine. Quem quer que mandara matar os quatro membros  do escalo superior do Priorado no hesitaria em eliminar outros que lhe atravessassem o caminho. Parecia uma cruel ironia o fato de Teabing - um moderno cavaleiro ingls - ser refm na procura de um seu compatriota, Sir Isaac Newton.
      - Para que lado ? - perguntou Sophie, olhando em redor.
      O tmulo. Langdon no fazia idia.
      - Talvez o melhor seja procurar um funcionrio e perguntar. Sabia que seria intil perambular de um lado para o outro,  procura. A abadia de Westminster era um mundo labirntico de mausolus, cmaras absidiais e vastos arcosslios. Como a Grande Galeria do Louvre, tinha um nico ponto de entrada e sada - a porta por onde acabavam de passar -, mas se era fcil encontrar a entrada, era quase impossvel encontrar a sada. 
      Literalmente, uma armadilha para turistas, chamara-lhe um desorientado colega de Langdon. Em obedincia  tradio arquitetural, a abadia fora traada com a forma de uma gigantesca cruz. Ao contrrio da maior parte das igrejas, porm, a entrada situavase em um dos lados, e no no fundo da nave principal, passado o nrtex. Alm disso, o templo comportava uma srie de grandes claustros. Um passo em falso atravs do arco errado, e o visitante via-se perdido no labirinto de passagens e rodeado por altas paredes.
      - Os funcionrios usam roupas vermelhas - disse Langdon, aproximando-se do centro da igreja. Ao espreitar obliquamente, para o grande altar dourado, para a extremidade mais distante do transepto sul, viu vrias pessoas gatinhando pelo cho.
      Aquela peregrinao prostrada era um acontecimento comum, no Canto dos Poetas, apesar de ser muito menos santa do que parecia. Turistas esfregando pedras tumulares.
      - No vejo nenhum funcionrio - disse Sophie. - Talvez consigamos encontrar o tmulo sozinhos?
      Sem uma palavra, Langdon a fez avanar mais alguns passos at ao centro da igreja e apontou para a direita. Sophie engoliu em seco ao olhar para o fundo da grande nave, s ento percebendo a verdadeira dimenso do edifcio.
      - Ah - disse. - Procuremos um funcionrio.
      Naquele momento, a cem metros de distncia no sentido do fundo da grande nave, protegido pela teia do coro, o majestoso tmulo de Sir Isaac Newton tinha apenas um visitante. Havia dez longos minutos que o Professor examinava o monumento.
      O tmulo consistia de um macio sarcfago de mrmore negro sobre o qual estava reclinada a figura esculpida de Sir Isaac Newton, envergando uma vestimenta clssica e orgulhosamente apoiado a uma resma de livros seus: Divinity, Chronology, Opticks e Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Aos ps de Newton, dois rapazinhos alados seguravam um rolo de pergaminho. Atrs da imagem reclinada erguia-se uma austera pirmide. Embora a pirmide em si parecesse uma singularidade, era a gigantesca forma montada a meia altura dessa mesma pirmide que mais intrigava o Professor.
      Um globo.
      O Professor recordou o enigmtico verso de Saunire. Procura o globo que no seu tmulo devia estar. O macio globo que sobressaa da face da pirmide estava gravado em baixo-relevo e mostrava todo o gnero de corpos celestes... constelaes, signos zodiacais, cometas, estrelas e planetas, Por cima dele, a imagem da deusa da Astronomia sob um campo de estrelas.
      Incontveis globos.
      O Professor convencera-se de que, uma vez encontrado o tmulo, distinguiria facilmente o globo em falta. Agora, no estava assim to seguro. O que tinha  sua frente era um complicado mapa dos cus. Faltaria um planeta? Teria algum globo astronmico sido omitido de uma constelao? No fazia a mnima idia. Mesmo assim, suspeitava de que a soluo seria engenhosamente clara e simples um cavaleiro que a Pope enterrou. Que globo estou  procura? com certeza um conhecimento avanado de astrofsica no era uma pr-requisito para encontrar o Graal. Ou seria?
      Fala de carne Rosada e um tero a germinar.
      A concentrao do Professor foi quebrada pela aproximao de um grupo de turistas. Devolveu o criptex ao bolso e ficou vendo, irritado, os visitantes dirigirem-se a uma mesa prxima, deixarem um donativo na taa e reabastecerem-se do material que a  abadia fornecia para a esfregao de tmulos. Equipados com novos lpis de carvo e grandes folhas de papel grosso, os turistas afastaram-se em direo  parte da frente do templo, provavelmente a caminho do popular Canto dos Poetas, onde prestariam as suas homenagens a Chaucer, Tennyson e Dickens esfregando vigorosamente os lpis nas folhas de papel estendidas sobre as pedras tumulares, a fim de copiarem as inscries.
      De novo sozinho, aproximou-se mais do tmulo, examinando-o centmetro a centmetro de baixo para cima. Comeou pelos ps com a forma de garra em que se apoiava o sarcfago, passou por Newton, pelos seus livros cientficos, pelos dois anjos com o rolo de smbolos matemticos, pela face da pirmide, pelo grande globo com as suas constelaes, at finalmente chegar ao estrelado sobrecu do nicho.
      Que globo devia estar aqui... e no est? Tocou no criptex que tinha no bolso, como se pudesse de algum modo encontrar a resposta na pedra que Saunire entalhara.
      S cinco letras me separam do Graal.
      Pondo-se a andar de um lado para o outro perto da esquina da teia do coro, inspirou fundo e alongou o olhar pela nave, na direo do altar-mor. Baixou os olhos do altar de talha dourada para a opa escarlate de um funcionrio da abadia a quem duas figuras muito familiares acenavam ansiosamente.
      Langdon e Neveu.
      Calmamente, o Professor recuou dois passos para trs da teia do coro. Foi rpido.
      Sempre calculara que Langdon e Sophie acabariam por decifrar o significado do poema e procurar o tmulo de Newton, s no esperara que fosse to cedo. Inspirando fundo, considerou as suas opes. Estava habituado a lidar com surpresas.
      Tenho o criptex.
      Metendo a mo no bolso, tocou no segundo objeto que lhe dava tanta confiana: o pequeno revlver Medusa. Como seria de esperar, o detetor de metais da abadia dera sinal quando o Professor passara com a arma escondida. Como tambm seria de esperar, os guardas tinham recuado quando o Professor lhes lanara um olhar indignado e se identificara. A posio oficial era sempre garantia do devido respeito.
      Embora tivesse inicialmente esperado resolver sozinho o enigma do criptex e evitar mais complicaes, sentia agora que a chegada de Langdon e de Sophie era, na realidade, uma boa coisa. Considerando a falta de xito que estava tendo com a referncia ao globo, talvez pudesse usar as capacidades daqueles dois. Afinal, se Langdon decifrara o poema e encontrara o tmulo, parecia razovel pensar que tambm soubesse qualquer coisa a respeito do globo. E se Langdon conhecia a senha, ento era s uma questo de aplicar a presso correta.
      Mas no aqui, evidentemente. Em algum lugar em privado.
      Recordou uma pequena tabuleta indicativa que vira a caminho dali. No mesmo instante, soube qual seria o lugar perfeito para atra-los.
      A nica questo era... o que usar como isca.
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E OITO
      
      
      Langdon e Sophie avanaram lentamente pela coxia norte, mantendo-se na sombra atrs dos grandes pilares que a separavam da nave. Apesar de j terem percorrido mais de metade do caminho, continuavam a no ter uma viso desimpedida do tmulo de Newton. O sarcfago estava recolhido num nicho, invisvel daquele ngulo oblquo.
      - Pelo menos, no h ningum l - sussurrou Sophie.
      Langdon assentiu, aliviado. Toda a seo da nave perto do tmulo de Newton estava deserta.
      - Eu vou l - sussurrou. -  melhor voc ficar escondida, para o caso de ter algum...
      Sophie j tinha sado das sombras e avanava a descoberto.
      - ... vigiando - suspirou Langdon, estugando o passo para alcan-la.
      Atravessando a gigantesca nave em perpendicular, Langdon e Sophie permaneceram silenciosos enquanto o elaborado sepulcro ia se revelando em tentadoras prestaes... um sarcfago de mrmore negro... uma esttua reclinada de Newton... dois meninos alados... uma gigantesca pirmide... e... um enorme globo.
      - Sabia disto? - perguntou Sophie, parecendo sobressaltada.
      Langdon abanou a cabea, to surpreendido como ela.
      - Aquelas coisas gravadas parecem constelaes  observou Sophie.
       medida que se aproximavam do nicho, Langdon sentiu-se invadir por uma crescente impresso de desnimo. O tmulo de Newton estava cheio de globos - estrelas, cometas, planetas. Procura o globo que no seu tmulo devia estar? Aquilo podia se tornar a tentativa de encontrar uma folha de erva perdida em um campo de golfe.
      - Corpos astronmicos - disse Sophie, com um ar preocupado. - Montes deles.
      Langdon franziu a testa. A nica ligao entre os planetas e o Graal que conseguia imaginar era o pentculo de Vnus, e j tentara a senha Vnus a caminho de Temple Church.
      Sophie avanou diretamente para o sarcfago, mas Langdon deixou-se ficar alguns passos atrs, observando a abadia  sua volta.
      - Divinity - disse Sophie, inclinando a cabea para ler os ttulos dos livros a que Newton se apoiava. - Chronology. Opticks. Philosophiae Naturalis Principia Mathematic! 
      - Voltou-se para ele. Faz soar alguma campainha?
      Langdon aproximou-se mais, considerando a pergunta.
      - Principia Mathematica, se bem me lembro, tm qualquer coisa a ver com a fora gravidacional dos planetas... que so reconhecidamente globos, mas parece-me muito rebuscado.
      - E os signos do Zodaco? - sugeriu Sophie, apontando para as constelaes gravadas no globo. - H pouco falava de Peixes e de Aqurio, no foi?
      O Fim dos Dias, pensou Langdon.
      - O fim da Era de Peixes e o incio da de Aqurio era alegadamente o momento histrico em que o Priorado tencionava apresentar ao mundo os documentos Sangreal. - A passagem do milnio chegou e passou sem incidentes, deixando os historiadores sem saber quando vir a verdade.
      - Parece possvel - disse Sophie - que os planos do Priorado para revelar a verdade estejam relacionados com o ltimo verso do poema.
      Fala de carne Rosada e de um tero a germinar. Langdon sentiu um arrepio de potencial. No tinha considerado o verso daquela perspectiva.
      - Disse-me - continuou Sophie - que o calendrio do Priorado para revelar a verdade a respeito da Rosa e do seu tero frtil estava diretamente ligado  posio dos planetas... rbitas, globos.
      Langdon assentiu, sentindo os primeiros frgeis fiapos de possibilidade materializarem-se. Mesmo assim, a intuio dizia-lhe que a Astronomia no era a chave.
      Todas as solues anteriores do Gro-Mestre tinham tido um eloquente significado simblico - a Mona Lisa, A Madonna dos Rochedos, SOFIA. Uma eloquncia que estava definitivamente ausente do conceito de rbitas planetrias e do Zodaco. At o momento, Jacques Saunire provara ser um codificador meticuloso, e Langdon tinha de acreditar que a sua senha final - as cinco letras que descobririam o segredo do Priorado - provariam ser no s simbolicamente adequadas mas tambm cristalinamente claras. Se aquela soluo estivesse na linha das outras, se revelaria dolorosamente bvia, uma vez encontrada.
      - Veja! - exclamou Sophie, sacudindo-lhe os pensamentos ao agarrar-lhe um brao. Pelo medo evidente no modo como o agarrou, Langdon pensou que algum se aproximava, mas quando se voltou para ela, viu-a olhando. estupefata, para a superfcie de mrmore negro do sarcfago.  Algum esteve aqui - murmurou ela, apontando para um ponto perto do p direito de Newton.
      Langdon no compreendeu aquela agitao. Um turista distrado deixara um lpis de carvo, dos usados para esfregar as pedras tumulares, em cima do tmulo, junto ao p de Newton. No  nada. Estendeu a mo para pegar o lpis, mas, ao faz-lo, a luz incidiu com um ngulo diferente na placa de mrmore polido, e Langdon imobilizou-se.
      Subitamente, percebeu o que assustara Sophie.
      Escrita a carvo na tampa do sarcfago, junto ao p de Newton, quase invisvel, havia uma mensagem:
      Tenho o Teabing. Passem pela Casa do Captulo e saiam pela porta sul para o jardim pblico.
      Langdon leu as palavras duas vezes, com o corao martelando-lhe o peito.
      Sophie voltou-se e perscrutou a nave. Apesar da excitao que o invadira ao ler as palavras, Langdon disse a si mesmo que aquilo eram boas notcias. Leigh est vivo. E havia ainda uma outra implicao.
      - Eles tambm no sabem qual  senha - sussurrou.
      Sophie assentiu. Caso contrrio, para qu darem a conhecer a sua presena?
      - Talvez queiram trocar o Leigh pela senha.
      - Ou ento  uma armadilha.
      Langdon abanou a cabea.
      - No me parece. O jardim fica fora da abadia.  um lugar muito pblico. - Langdon visitara uma vez o famoso College Garden da abadia - um pequeno pomar e horta -, uma reminiscncia dos tempos em que os monges ali cultivavam remdios naturais. Possuidor das mais velhas rvores de fruto de toda a Gr-Bretanha, o College Garden era muito popular entre os turistas, que podiam visit-lo sem terem de entrar no templo. - Julgo que chamar-nos l fora  uma prova de boa-f. Para nos fazer sentir seguros.
      Sophie fez um ar de dvida.
      - Quer dizer l fora, onde no h detetores de metais?
      Langdon franziu a testa. Ela tinha razo.
      Ao olhar de novo para o tmulo cheio de globos, desejou ter qualquer idia a respeito da senha do criptex... qualquer coisa com que negociar. Meti Leigh nisto, e farei o que for preciso se houver alguma chance de ajud-lo.
      - A nota diz atravessem a Casa do Captulo at  sada sul - disse Sophie. - Talvez de l se veja o jardim? Desse modo, poderamos avaliar a situao antes de sairmos e nos expormos a qualquer perigo?
      A idia era boa. Langdon recordava vagamente a Casa do Captulo como uma enorme sala octogonal onde o antigo Parlamento britnico reunia antes da construo do moderno edifcio. Havia anos que no ia l, mas lembrava-se de ficar em algum lugar para l dos claustros. Afastando-se vrios passos do tmulo, olhou, da esquina da teia do coro,  sua direita, para o lado da nave oposto quele que tinham descido.
      A parede era rasgada por um amplo arco, junto ao qual um grande cartaz indicava:
      POR AQUI PARA:
      CLAUSTROS
      REITORIA
      COLLEGE HALL
      MUSEU
      CMARA DO CIBRIO
      ST. FAITHS CHAPEL
      CASA DO CAPTULO
      Langdon e Sophie iam correndo quando passaram por baixo do arco, muito depressa para repararem na pequena tabuleta onde se pedia desculpa por certas reas estarem fechadas ao pblico, para restaurao.
      Emergiram imediatamente em um ptio aberto cercado por altas paredes e batido pela chuva matinal. Por cima deles, o vento uivava na abertura com um zumbido baixo, como algum a soprar no gargalo de uma garrafa. Quando entraram na estreita passagem de teto baixo que rodeava o permetro do ptio, Langdon teve a familiar sensao de mal-estar que experimentava sempre em locais fechados. Aquelas passagens chamavam-se claustros, e notou que aqueles claustros em particular faziam jus s suas ligaes etimolgicas s palavras claustrofobia. 
      Concentrando o esprito na extremidade do tnel,  frente, Langdon seguiu as indicaes at  Casa do Captulo. Chovia com fora, e a passagem era fria e mida, com rajadas de chuva que o vento empurrava atravs dos arcos separados por pilares que eram a nica fonte de iluminao do claustro. Um outro casal passou rapidamente por eles em sentido oposto, correndo para fugir ao mau tempo. Os claustros estavam desertos, e ningum lhes negaria o ttulo de lugar menos agradvel da abadia, com aquele vento e aquela chuva.
      Quarenta metros mais  frente, no tramo leste do claustro, do lado esquerdo, abriase um outro arco que dava acesso a um novo corredor. Embora aquela fosse a entrada que procuravam, a passagem estava vedada por um cordo de ar muito oficial e por uma tabuleta que anunciava:
      FECHADOS PARA RESTAURAO
      CMARA DO CIBRIO
      ST. FAITHS CHAPEL
      CASA DO CAPTULO
      O comprido corredor deserto que se estendia alm do cordo estava cheio de andaimes e de panos espalhados pelo cho. Em seguida ao corredor, Langdon viu as entradas para a Cmara do Cibrio e para St. Faiths Chapei,  direita e  esquerda. A entrada para a Casa do Captulo ficava, porm, muito mais longe, no extremo oposto do corredor. Mesmo de onde estava, Langdon viu que a grande porta de carvalho estava aberta de par em par, e o espaoso interior octogonal banhado pela luz acinzentada que entrava pelas enormes janelas sobranceiras ao College Garden. Passem pela Casa do Captulo e saiam pela porta sul para o jardim pblico.
      - Acabamos de deixar o claustro leste - disse Langdon. - Portanto, a sada sul para o jardim deve ser por ali e  direita.
      Sophie j estava passando por cima do cordo.
       medida que avanavam rapidamente pelo comprido e escuro corredor, os sons do vento e da chuva, no ptio l atrs, iam esmorecendo. A Casa do Captulo era uma espcie de estrutura satlite um anexo independente no extremo de um comprido corredor, para garantir a privacidade dos trabalhos do Parlamento que ali se reunia.
      - Parece imenso - sussurrou Sophie, quando se aproximaram.
      Langdon tinha esquecido como aquela sala era grande. Mesmo a alguns metros da porta, j conseguia alongar o olhar atravs da vasta extenso de soalho at s impressionantes janelas no lado oposto do octgono, janelas que se erguiam a uma altura de cinco andares at o teto abobadado. Dali teriam sem a mnima dvida uma vista desimpedida para o jardim.
      Quando atravessaram o umbral, Langdon e Sophie viram-se obrigados a semicerrar os olhos. Depois da penumbra dos claustros, a Casa do Captulo era como um solrio. Tinham avanado uns bons trs metros pelo interior da sala, procurando a parede sul, quando perceberam que a porta prometida no estava l.
      Tinham chegado a um enorme beco sem sada.
      O ranger de gonzos atrs deles os fez voltarem-se no instante em que a pesada porta se fechava com uma pancada surda e a lingueta de uma fechadura encaixava no seu lugar. O homem que estivera escondido atrs da enorme placa de madeira tinha um ar perfeitamente calmo enquanto lhes apontava um pequeno revlver. Corpulento e pesado, apoiava-se a duas muletas de alumnio.
      Por um instante, Langdon pensou que devia estar sonhando.
      Era Leigh Teabing.
      
      
      
      CAPTULO NOVENTA E NOVE
      
      
      Sir Leigh Teabing sentia-se pesaroso enquanto olhava, por cima do cano do revlver, para Robert Langdon e Sophie Neveu.
      - Meus amigos - disse -, desde o momento em que entraram em minha casa, a noite passada, tenho feito todo o possvel para que no lhes acontea nenhum mal. Mas a sua persistncia coloca-me agora em uma situao difcil.
      Via as expresses de choque e condenao nos rostos de Langdon e Sophie, mas estava mesmo assim convencido de que em breve ambos compreenderiam a cadeia de acontecimentos que os tinha levado aos trs quela inesperada encruzilhada.
      - H tanta coisa que preciso de lhes contar... tanta coisa que tm de compreender.
      - Por favor, acreditem - continuou -, nunca tive a menor inteno de envolver qualquer dos dois. Vocs foram a minha casa. Vocs  que me procuraram.
      - Leigh? - conseguiu Langdon finalmente dizer. - Que diabo est fazendo?
      Pensamos que estava em perigo. Viemos aqui para ajud-lo!
      - Como eu sabia que fariam - respondeu Teabing.  Temos muito que discutir.
      Langdon e Sophie pareciam incapazes de desviar os olhares aturdidos do revlver apontado para eles.
      -  apenas para garantir a sua plena ateno - justificou-se Teabing. - Se eu quisesse fazer-lhes mal, j estariam mortos. Quando apareceram em minha casa ontem  noite, arrisquei tudo para lhes salvar a vida. Sou um homem de honra, e jurei na minha prpria conscincia sacrificar apenas aqueles que tinham trado o Sangreal.
      - De que voc est falando? - perguntou Langdon. - Trair o Sangreal?
      - Descobri uma verdade terrvel - disse Teabing, com um suspiro. - Soube por que razo os documentos Sangreal nunca foram revelados ao mundo. Descobri que o Priorado tinha acabado por decidir no desvendar a verdade. Por isso o milnio passou sem qualquer revelao, por isso nada aconteceu quando entramos no Fim dos Dias.
      Langdon inspirou fundo, preparando-se para protestar.
      - O Priorado - continuou Teabing - foi incumbido da misso sagrada de partilhar a verdade. De revelar os documentos Sangreal quando chegasse o Fim dos Dias. Durante sculos, homens como da Vinci, Botticelli e Newton arriscaram tudo para proteger os documentos e permitir que a misso fosse cumprida. E ento, no momento da verdade, Jacques Saunire mudou de idia. O homem honrado com a maior responsabilidade da histria da cristandade fugiu ao cumprimento do seu dever. Decidiu que no chegara ainda o momento. - Voltou-se para Sophie. - Traiu o Graal. Traiu o Priorado. E traiu a memria de todas as geraes que trabalharam para tornar esse momento possvel.
      - Voc? -- exclamou Sophie, erguendo os olhos verdes e cravando-os nele com espanto e raiva. - Foi voc o responsvel pelo assassinato do meu av?
      Teabing bufou depreciativamente.
      - O seu av e os senescais eram traidores ao Graal.
      Sophie sentiu a fria crescer-lhe dentro do peito. Ele est mentindo!
      - O seu av vendeu-se  Igreja - insistiu Teabing, inflexvel. -  evidente que o pressionaram para que mantivesse a verdade escondida.
      Sophie abanou a cabea.
      - A Igreja nunca teve qualquer influncia no meu av!
      Teabing riu friamente.
      - Minha querida, a Igreja tem dois mil anos de experincia em pressionar aqueles que ameaam denunciar-lhe as mentiras. Desde os tempos de Constantino, a Igreja tem conseguido ocultar a verdade a respeito de Maria Madalena e de Jesus. No deve espantar-nos que agora, uma vez mais, tenha sabido encontrar a maneira de manter o mundo s escuras. J no pode utilizar cruzados para chacinar os infiis, mas nem por isso a sua influncia  menos persuasiva. Nem menos insidiosa. - Fez uma pausa, como que para sublinhar o ponto seguinte. - Menina Neveu, h j algum tempo que o seu av queria dizer-lhe a verdade a respeito da sua famlia.
      Sophie ficou siderada.
      - Como  que pode saber uma coisa dessas?
      - Os meus mtodos no vm ao caso. O que  importante que compreenda neste momento  o seguinte. - Inspirou fundo. A morte da sua me, do seu pai, da sua av e do seu irmo no foi acidental.
      As palavras lanaram as emoes de Sophie para o meio de um turbilho. Abriu a boca para falar, mas no foi capaz.
      Langdon abanou a cabea.
      - Que est dizendo?
      - Robert, explique tudo. Todas as peas encaixam. A Histria repete-se. A Igreja tem antecedentes de assassinato no que respeita a silenciar o Sangreal. Com o Fim dos Dias eminente, matar os entes queridos do Gro-Mestre seria enviar uma mensagem muito clara. Fique calado, ou voc e Sophie so os prximos.
      - Foi um acidente - gaguejou Sophie, sentindo o desgosto da infncia subindo-lhe do fundo da alma. - Um acidente!
      - Histrias da carochinha para proteger a sua inocncia - respondeu Teabing. - Tenha em conta que s dois membros da famlia foram poupados: o Gro-Mestre do Priorado e a nica neta que lhe restava. O par perfeito para proporcionar  Igreja controle sobre a irmandade. S posso imaginar o terror que a Igreja fez pesar sobre a cabea do seu av nestes ltimos anos, ameaando mat-la se ele ousasse revelar o segredo Sangreal, ameaando terminar o trabalho que j tinha comeado a menos que Saunire convencesse o Priorado a reconsiderar um voto antigo.
      - Leigh - argumentou Langdon, agora visivelmente irritado, com certeza no tem quaisquer provas de que a Igreja teve alguma coisa a ver com aquelas mortes, ou que influenciou a deciso do Priorado de guardar silncio.
      - Provas? - respondeu Teabing. - Quer provas de que o Priorado foi influenciado? O novo milnio chegou, e no entanto o mundo continua na ignorncia! No ser prova bastante? 
      No eco da voz de Teabing, Sophie ouviu uma outra voz falando. Sophie, tenho de dizer a verdade a respeito da sua famlia. Percebeu que estava tremendo. Seria aquela a verdade que o av quisera contar-lhe? Que a famlia dela fora assassinada? Que sabia ela verdadeiramente a respeito do acidente que lhe levara a famlia? Apenas pormenores dispersos. At as notcias nos jornais tinham sido vagas. Um acidente? Histria da carochinha? Lembrou-se repentinamente da superproteo do av, de como ele nunca gostava de deix-la sozinha quando era pequena. Mesmo quando j era crescida e estava na universidade, sempre tivera a sensao de que o av a vigiava. Perguntou a si mesma se teria havido membros do Priorado escondidos na sombra, velando por ela durante toda a sua vida.
      - Suspeitou que ele estava sendo manipulado - disse Langdon, olhando para Teabing com raiva e incredulidade. - E assassinou-o por isso?
      - No puxei o gatilho - respondeu Teabing. - Saunire morreu h muitos anos, quando a Igreja lhe roubou a famlia. Estava comprometido. Agora est liberto dessa dor, liberto da vergonha de no ter sabido cumprir o seu dever sagrado. Considere a alternativa. Era preciso fazer qualquer coisa. O mundo dever permanecer ignorante para sempre? Deveremos permitir que a Igreja cimente as suas mentiras nos nossos livros de Histria para toda a eternidade? Deveremos permitir que a Igreja exera indefinidamente a sua influncia atravs do assassinato e da extorso? No, era preciso fazer qualquer coisa! E agora cabe a ns o dever de cumprir o legado de Jacques Saunire e corrigir um grande erro. - Fez uma pausa. - Ns trs. Juntos.
      Sophie sentia apenas incredulidade.
      - Como  possvel que espere que o ajudemos?
      - Porque, minha querida, foi voc a razo por que o Priorado no revelou os documentos. O amor que o seu av tinha por voc o impediu de desafiar a Igreja. O medo de represlias contra a nica famlia que lhe restava paralisou-o. Nunca teve oportunidade de explicar a verdade porque voc o rejeitou, amarrando-lhe as mos, obrigando-o a esperar. Agora, deve ao mundo a verdade. Deve-o  memria do seu av.
      Robert Langdon tinha desistido de tentar orientar-se. A despeito da torrente de perguntas que lhe corria pelo esprito, sabia que naquele momento s uma coisa importava: tirar Sophie dali com vida. Toda a culpa que antes erradamente sentira por causa de Teabing se transferia agora para Sophie.
      Levei-a a Chteau Villette. Sou responsvel.
      No conseguia imaginar que Teabing fosse capaz de mat-los, a sangue-frio, ali na Casa do Captulo, e no entanto, Teabing estivera sem a menor dvida envolvido em outras mortes durante a sua transviada procura. Teve a desconfortvel sensao de que ningum ouviria dois tiros disparados dentro daquela sala isolada, de grossas paredes de pedra, sobretudo com a chuvada que estava caindo. E ele acaba de admitir que  culpado.
      Olhou para Sophie, que parecia abalada. A Igreja assassinou a famlia dela para silenciar o Priorado? Tinha certeza de que a Igreja moderna no mandava assassinar pessoas. Tinha de haver outra explicao.
      - Deixe Sophie ir - disse Langdon, olhando para Teabing. - Ns os dois discutimos isto sozinhos.
      Teabing deixou escapar uma gargalhada forada.
      - Receio ser uma prova de boa-f que no posso me permitir. Posso, no entanto, oferecer-lhe isto. - Apoiou-se nas muletas, mantendo a arma desajeitadamente apontada para Sophie, e tirou o criptex do bolso. Cambaleou um pouco quando o estendeu a Langdon. - Uma prova de confiana, Robert.
      Langdon, desconfiado, no se mexeu. Leigh est nos devolvendo a Chave de Abbada?
      - Aceite-o - insistiu Teabing, estendendo-o na direo de Langdon, que s conseguia imaginar uma razo para ele devolv-lo.
      - J o abriu. Tirou o mapa.
      Teabing estava abanando a cabea.
      - Robert, se tivesse descoberto a senha da Chave de Abbada, j teria desaparecido para ir procurar o Graal sozinho, sem envolver a vocs. No, no sei a resposta. E no me importo de admitir. Um verdadeiro cavaleiro aprende a ser humilde face ao Graal. Aprende a obedecer aos sinais postos diante dos seus olhos. Quando os vi entrar na igreja, compreendi. Estavam ali por uma razo. Para ajudar. O que procuro aqui no  a glria pessoal. Sirvo algo muito maior do que o meu orgulho. A Verdade. A humanidade merece conhecer a verdade. O Graal encontrou a todos ns, e agora ela pede para ser revelada. Temos de trabalhar juntos.
      Apesar dos seus pedidos de cooperao e confiana, Teabing manteve a arma apontada para Sophie enquanto Langdon avanava e aceitava o frio cilindro de nix. O vinagre contido na ampola gorgolejou quando o pegou e voltou a recuar. Os anis continuavam dispostos em ordem aleatria e o criptex fechado.
      Langdon olhou para Teabing.
      - Como  que sabe que no o parto agora mesmo.
      O riso de Teabing foi uma gargalhada estranha.
      - Devia ter compreendido que a sua ameaa de parti-lo em Temple Church era v.
      Robert Langdon nunca quebraria a Chave de Abbada.  um historiador, Robert. Tem nas mos a Chave de dois mil anos de Histria... a Chave perdida do Sangreal. Sente as almas de todos os cavaleiros que morreram queimados para proteger o segredo.
      Permitiria que tivessem morrido em vo? No, quer vindic-los. Ir juntar-se s fileiras dos grandes homens que admira... da Vinci, Botticelli, Newton... qualquer dos quais se sentiria muito honrado se estivesse agora no seu lugar. O contedo da Chave de Abbada clama por ns. Quer ser libertado.  tempo. O destino conduziu-nos a este momento.
      - No posso ajud-lo, Leigh. No fao idia de como abrir isto. S estive junto do tmulo de Newton por um instante. E mesmo que soubesse a senha... - Langdon calouse, compreendendo que j dissera muito.
      - No me diria? - Teabing suspirou. - Estou desapontado e surpreendido, Robert, pelo fato de no perceber a que ponto est em dvida para comigo. A minha tarefa teria sido muito mais simples se eu e Rmy os tivssemos eliminado quando entraram em Chteau Villette. Em vez disso, arrisquei tudo para seguir o caminho mais nobre.
      - Isto  nobre? - perguntou Langdon, olhando para a arma.
      - A culpa  de Saunire - justificou-se Teabing. - Ele e os senescais mentiram ao Silas. Se no fosse isso, eu teria obtido a Chave de Abbada sem a menor complicao.
      Como podia eu imaginar que o Gro-Mestre iria a tal extremo para me enganar e confiaria a Chave de Abbada a uma neta que no lhe falava h anos? - Olhou para Sophie com desdm. - Algum to pouco qualificada para deter este conhecimento que precisou de um simbologista para lhe servir de ama-seca. - Voltou a olhar para Langdon.
      - Felizmente, Robert, o seu envolvimento acabou por ser a minha salvao. Em vez da Chave de Abbada ficar para sempre fechada no cofre de um banco, tirou-a de l e levou-a a minha casa.
      Para que outro lugar poderia ter ido? pensou Langdon. A comunidade de historiadores do Graal  restrita, e ns os dois j nos conhecamos. Teabing parecia agora muito satisfeito consigo mesmo.
      - Quando soube que o Saunire lhes tinha deixado uma mensagem, fiquei quase com certeza de que se tratava de informaes valiosas sobre o Priorado. No sabia, claro, se era a prpria Chave de Abbada ou informaes sobre como encontr-la. Mas com a Polcia mordendo seus calcanhares, tive um pressentimento de que acabariam por me bater  porta.
      Langdon lanou-lhe um olhar furioso.
      - E se no tivssemos?
      - Estava elaborando um plano para lhes oferecer ajuda. De um modo ou de outro, a Chave de Abbada iria parar em Chteau Villette. O fato de terem ido dep-la nas minhas mos s prova que a minha causa  justa.
      - O qu? - Langdon estava estupefato.
      - Silas devia entrar em Chteau Villette e roubar-lhes a Chave de Abbada... afastando-os assim da equao sem lhes fazer mal e exonerando-me de qualquer suspeita de cumplicidade. No entanto, quando percebi a complexidade dos cdigos de Saunire, resolvi associ-los  minha investigao durante mais algum tempo. Podia mandar o Silas roubar a Chave de Abbada mais tarde, quando eu j soubesse o suficiente para continuar sozinho.
      - Temple Church - disse Sophie, com a voz cheia de indignao pela confiana trada.
      Comea a fazer-se luz, pensou Teabing. Temple Church era o lugar ideal para roubar a Chave de Abbada de Robert e Sophie, e a sua aparente relevncia para o poema tornava-a um engodo plausvel. As ordens que dera a Rmy tinham sido claras: manter-se escondido enquanto Silas recuperava a Chave de Abbada. Infelizmente, a ameaa de Langdon de destruir o criptex levara Rmy a entrar em pnico. Se ao menos ele no tivesse se mostrado, pensou Teabing, pesarosamente, recordando o seu prprio falso rapto. Rmy era a nica ligao a mim, e revelou a identidade.
      Felizmente, Silas continuara a ignorar a verdadeira identidade de Teabing e fora fcil convenc-lo a lev-lo da igreja e ficar em seguida ingenuamente sentado enquanto Rmy fingia amarrar e amordaar o refm na parte de trs da limusine. com a divisria  prova de som levantada, Teabing pudera ligar para Silas, no banco da frente, usar o falso sotaque francs do Professor e dizer-lhe que fosse diretamente para a residncia da Opus Dei. Uma simples denncia annima  Polcia seria o bastante para remover Silas da imagem.
      Uma ponta solta atada. A outra ponta solta era mais difcil. Rmy.
      Teabing debatera longamente a deciso consigo mesmo, mas, no fim, Rmy provara ser um perigo. Todas as demandas do Graal exigem sacrifcios. A soluo mais simples para o problema estivera quase que saltando-lhe aos olhos de dentro do bar da limusine: um frasco de conhaque e uma lata de amendoins. O p no fundo da lata seria mais do que suficiente para disparar a mortal alergia do mordomo. Quando Rmy estacionara a limusine na parada dos Horse Guards, Teabing descera da limusine, aproximara-se da porta dianteira e sentara-se ao lado dele. Minutos mais tarde, voltara a descer, regressara  traseira do carro, limpara as provas e finalmente sara para a fase final da sua misso.
      A abadia de Westminster ficava a curta distncia, e apesar das braadeiras das pernas, as muletas e a arma terem acionado o detetor de metais, os seguranas tinham ficado sem saber o que fazer. Pedimos-lhe que tire as braadeiras e que passe de rastos? Revistamos-lhe o corpo deformado? Teabing apresentara aos atrapalhados guardas uma soluo muito mais simples: um carto gravado identificando-o como Cavaleiro do Reino. Os pobres diabos quase tinham se atropelado uns aos outros para deix-lo entrar.
      Agora, enquanto olhava para os espantados Langdon e Neveu, Teabing resistia ao desejo de revelar com que habilidade envolvera a Opus Dei na conjura que ia em breve atirar por terra toda a Igreja Catlica. Mas isso teria de esperar. No momento, havia trabalho a fazer.
      - Mes amis - declarou Teabing, em francs impecvel -, vous ne trouvez pas le Saint-Graal, cest le Saint-Graal qui vous trouve. - Sorriu. - O nosso caminho juntos no podia ser mais claro. O Graal nos encontrou.
      Silncio.
      Falou-lhes agora num murmrio:
      - Escutem. Ser que no escutam? O Graal est nos falando atravs dos sculos. 
      Est nos pedindo que o salvemos da loucura do Priorado. Imploro a ambos que reconheam esta oportunidade. No seria possvel juntar neste momento trs pessoas mais capazes para decifrar o cdigo final e abrir o criptex. - Fez uma pausa, com os olhos brilhantes. - Temos de fazer um juramento. Um juramento de lealdade entre ns. Um juramento de cavaleiro, de descobrir a verdade e revel-la.
      Sophie olhou bem no fundo dos olhos de Teabing e disse, em voz dura como o ao:
      - Nunca farei um juramento com o assassino do meu av. Exceto o juramento de que hei-de v-lo numa priso.
      A expresso de Teabing tornou-se grave, e depois resoluta.
      - Lamento que pense assim, mademoiselle. - Voltou-se a apontou a arma para Langdon. - E voc, Robert? Est comigo ou contra mim?
      
      
      
      CAPTULO CEM
      
      
      O corpo do bispo Manuel Aringarosa j tinha suportado muitos gneros de dor, mas, mesmo assim, o ardor causticante da bala que lhe atravessou o peito foi uma experincia completamente nova. Funda e grave. No um ferimento da carne... algo mais prximo da alma.
      Abriu os olhos, tentando ver, mas a chuva que lhe batia no rosto borrava-lhe a viso. Onde estou? Sentia que braos fortes o carregavam, lhe transportavam o corpo flcido como uma boneca de trapos, a saia da sotaina preta batendo ao vento como uma bandeira molhada.
      Erguendo penosamente uma mo, limpou os olhos e viu que o homem que o levava nos braos era Silas. O gigantesco albino avanava aos tropees por um passeio envolto em nvoa, gritando por um hospital, a voz transformada em um dilacerante uivo de agonia. Olhava fixamente em frente, com os seus olhos vermelhos, e as lgrimas escorriam-lhe, mais grossas do que a chuva, pelo rosto branco e salpicado de sangue.
      - Meu filho - murmurou Aringarosa -, est ferido.
      Silas baixou os olhos, o rosto contorcido em uma mscara de angstia.
      - Perdoe-me, oh, perdoe-me, Pai - murmurou, como se a dor fosse de mais para lhe permitir falar.
      - No, Silas. Eu  que peo perdo. A culpa foi minha. O Professor me prometeu que no haveria mortes, e eu disse que lhe o obedecesse em tudo. Estava muito ansioso.
      Tive muito medo. Voc e eu fomos enganados. O Professor nunca tencionou entregarnos o Santo Graal.
      Aninhado nos braos do homem que acolhera havia tantos anos, o bispo Aringarosa sentiu-se recuar no tempo. At ao seu modesto comeo, construindo uma pequena igreja catlica em Oviedo, com Silas. E mais tarde, em Nova Iorque, quando proclamara a glria de Deus com o recm-construdo Centro da Opus Dei na Lexington Avenue.
      Cinco meses antes, Aringarosa recebera notcias devastadoras. O trabalho de toda a sua vida estava em perigo. Recordava, com vvido pormenor, a reunio em Castel Gandolfo que transformara a sua vida... as notcias que tinham desencadeado toda aquela calamidade.
      Entrara na Biblioteca Astronmica do Vaticano de cabea bem erguida,  espera de ser saudado por centenas de mos acolhedoras, todas desejosas de dar-lhe palmadinhas nas costas, de felicit-lo pela maneira magnfica como representara o catolicismo na Amrica. Mas s estavam presentes trs pessoas.
      O secretarius do Vaticano. Obeso. Sombrio.
      Dois cardeais italianos. Untuosos, Astutos.
      - Secretarius. - disse Aringarosa, intrigado.
      O rotundo supervisor das questes legais apertou-lhe a mo e indicou-lhe a cadeira em frente dele.
      - Por favor, esteja  vontade.
      Aringarosa sentou-se, sentindo que algo de grave estava acontecendo.
      - No tenho grande jeito para conversa de social, Eminncia - disse o secretarius. - Permita, pois, que v direito ao motivo da sua presena aqui.
      - Por favor. Fale abertamente. - Aringarosa lanou um olhar de soslaio aos dois cardeais, que pareciam estar avaliando-o com um ar de farisaica expectativa.
      - Como bem sabe - comeou o secretarius -, Sua Santidade, e outras pessoas em Roma, tem andado muito preocupada com as repercusses polticas de algumas das prticas mais controversas da Opus Dei.
      Aringarosa ficou instantaneamente eriado. J tinha passado vrias vezes por aquela mesma situao com o novo pontfice que, para seu grande desgosto, acabara, infelizmente, por revelar-se um fervoroso defensor de mudanas liberais no seio da Igreja.
      - Quero assegurar-lhe - acrescentou rapidamente o secretarius - que Sua Santidade no tem a inteno de alterar seja de que maneira for o modo como gere o seu ministrio.
      Espero bem que no!
      - Nesse caso, que estou fazendo aqui?
      O obeso funcionrio suspirou.
      - Eminncia, no sei como dizer isto de uma forma delicada, de modo que vou diz-lo de uma forma direta. H dois dias, o Conselho do Secretariado votou por unanimidade revogar a sano do Vaticano  Opus Dei.
      Aringarosa tinha certeza de que s podia ter ouvido mal.
      - Como?
      - Dito mais simplesmente, de hoje a seis meses, a Opus Dei deixar de ser considerada uma prelatura do Vaticano. Passar a ser uma Igreja por direito prprio. A Santa S se desligar da sua instituio. Sua Santidade concordou e a papelada legal j est sendo preparada.
      - Mas... isso  impossvel!
      - Pelo contrrio,  muito possvel. E necessrio. Sua Santidade est descontente com as suas tcnicas de recrutamento agressivas e com as suas prticas de mortificao corporal. - Fez uma pausa. - E tambm com a sua poltica no que respeita s mulheres.
      Muito francamente, a Opus Dei tornou-se um empecilho e um embarao.
      O bispo Aringarosa estava estupefato.
      - Um embarao?
      - Certamente no pode estar surpreso por as coisas terem chegado a este ponto.
      - A Opus Dei  a nica organizao catlica em crescimento! Temos mais de mil e cem padres!
      - Verdade. Uma questo embaraosa para todos ns.
      Aringarosa ps-se bruscamente de p.
      - Pergunte a Sua Santidade se a Opus Dei foi um embarao em 1982, quando ajudamos o Banco do Vaticano!
      - O Vaticano sempre lhes estar grato por isso - respondeu o secretarius, em tom apaziguador -, e no entanto, h quem pense que a sua munificncia em 1982 foi a nica razo de lhes ter sido concedido o estatuto de prelatura.
      - Isso no  verdade! - A insinuao ofendia profundamente o bispo Aringarosa.
      - Seja como for, tencionamos agir de boa-f. Estamos preparando um acordo de separao que inclui o reembolso desse dinheiros. Que ser pago em cinco prestaes.
      - Esto tentando me comprar? - perguntou Aringarosa. - Pagando-me para eu sair sem criar complicaes? Quando a Opus Dei  a nica voz da razo que resta!
      Um dos cardeais ergueu os olhos.
      - Desculpe, disse... razo!
      Aringarosa debruou-se por cima da mesa, e a voz tornou-se cortante como uma lmina.
      - No sabem verdadeiramente porque  que os catlicos esto abandonando a Igreja? Olhe  sua volta, Eminncia. As pessoas perderam o respeito. O rigor da f pertence ao passado. A doutrina tornou-se uma espcie de bufete. Abstinncia, confisso, comunho, batismo, missa...   escolha... tirem o que lhes agradar e deixem o resto. Que espcie de orientao espiritual a Igreja est oferecendo?
      - No  possvel aplicar aos modernos seguidores de Cristo leis do sculo III - interveio o segundo cardeal. - Essas regras no funcionam na sociedade atual.
      - Bem, parecem funcionar para a Opus Dei.
      - Bispo Aringarosa - disse o secretarius, com um tom que pretendia encerrar a discusso. - Por respeito pela sua associao com o papa anterior, Sua Santidade deseja dar  Opus Dei seis meses para cortar voluntariamente os seus laos com o Vaticano.
      Sugiro que alegue as suas diferenas de opinio com a Santa S e se estabelea como organizao crist independente.
      - Recuso! - declarou Aringarosa. - E direi isso pessoalmente.
      - Receio que Sua Santidade j no esteja interessada em um encontro com o senhor.
      Aringarosa voltou a pr-se de p.
      - Ele no se atreveria a abolir uma prelatura pessoal estabelecida por um papa anterior!
      - Lamento. - Os olhos do secretarius no cederam um milmetro. - O Senhor o d, o Senhor o tira.
      Aringarosa sara daquela reunio confuso e em pnico. De volta  Nova Iorque, passara dias inteiros olhando para a paisagem da cidade, esmagado pela desiluso, vencido pela tristeza que lhe inspirava o futuro do cristianismo.
      S vrias semanas mais tarde recebera o telefonema que mudara tudo. A pessoa que telefonara, um homem, tinha sotaque francs e identificava-se como Professor  um ttulo comum na Prelatura. Disse que sabia dos planos do Vaticano para retirar o apoio  Opus Dei.
      Como ele pode saber coisa semelhante?, perguntara Aringarosa a si mesmo.
      Alimentara a esperana de que s alguns dos funcionrios mais altamente colocados do Vaticano tivessem conhecimento da eminente anulao da Opus Dei. Aparentemente, porm, a notcia correra. No que dizia respeito a conter mexericos, no havia no mundo paredes mais porosas do que as da Cidade do Vaticano.
      - Tenho ouvidos em todo o lado, Eminncia - sussurrara o Professor -, e, com esses ouvidos, adquiri alguns conhecimentos. Com a sua ajuda, posso descobrir o esconderijo de uma relquia sagrada que lhe proporcionar um poder imenso... poder suficiente para fazer o Vaticano vergar perante o senhor. Poder suficiente para salvar a F. - Fizera uma pausa. - No apenas pela Opus Dei. Por todos ns.
      O Senhor o levou... e o Senhor o d. Aringarosa sentira um glorioso raio de esperana.
      - Explique-me o seu plano.
      O bispo Aringarosa estava inconsciente quando as portas do St. Marys Hospital se
      abriram com um silvo. Silas entrou cambaleando, delirante de exausto. Deixando-se cair de joelhos no cho de lajes, gritou pedindo ajuda. Todos que estavam na rea da recepo ficaram olhando de boca aberta para aquele albino seminu que segurava nos braos estendidos, como que uma oferenda, o corpo ensanguentado de um padre.
      O mdico que ajudou Silas a estender o corpo do bispo numa maca fez um ar sombrio ao tatear o pulso de Aringarosa.
      - Perdeu muito sangue. No tenho grandes esperanas.
      Aringarosa recuperou a conscincia por um instante, os seus olhos piscaram, procuraram Silas.
      - Meu filho...
      A alma de Silas trovejou de remorso e raiva.
      - Pai, nem que me leve a vida toda, hei de encontrar aquele que nos enganou, e hei de mat-lo.
      Aringarosa abanou a cabea, com uma expresso triste, enquanto os enfermeiros se preparavam para lev-lo dali.
      - Silas... se no aprendeu nada comigo, por favor... aprenda isto. - Pegou a mo de Silas e apertou-a com fora. - O perdo  o maior dos dons de Deus.
      - Mas, Pai...
      Aringarosa fechou os olhos.
      - Silas, voc deve rezar.
      
      
      
      CAPTULO CENTO E UM
      
      
      Ali, sob a alta abbada da Casa do Captulo deserta, Robert Langdon tinha os olhos presos  arma que Leigh Teabing empunhava.
      Robert, est comigo ou contra mim? As palavras do historiador da Royal British Academy ecoaram-lhe no silncio do crebro.
      No havia uma resposta certa, Langdon bem sabia. Se respondesse sim, estaria condenando Sophie. Se respondesse no, Teabing no teria alternativa seno mat-los.
      Os anos que passara em salas de aula no lhe tinham dado qualquer habilidade relevante em matria de confrontaes que envolvessem armas, mas tinham-lhe, isso sim, ensinado alguma coisa a respeito de responder a perguntas paradoxais. Quando uma pergunta no tem uma resposta correta, s h uma maneira honesta de responder.
      A rea cinzenta entre sim e no.
      Silncio.
      Langdon optou simplesmente por afastar-se, olhando para o criptex que tinha na mo. Sem nunca erguer os olhos, recuou para o vasto espao vazio da sala. Terreno neutro. Esperou que a sua ateno concentrada no criptex sugerisse a Teabing que a colaborao podia ser uma opo, e que o seu silncio dissesse a Sophie que no a tinha abandonado.
      Enquanto ganho tempo para pensar.
      Pensar, suspeitou Langdon, era exatamente o que Teabing queria que ele fizesse.
      Foi por isso que me entregou o criptex. Para que eu pudesse sentir o peso da minha deciso. O historiador esperava que o contato do criptex do Gro-Mestre levasse Langdon a perceber a verdadeira importncia do seu contedo, exortando a curiosidade acadmica a sobrepor-se a todos os outros sentimentos, obrigando-o a compreender que deixar de abrir a Chave de Abbada equivaleria a perder a prpria Histria.
      Com Sophie sob a ameaa de uma arma do outro lado da sala, Langdon receou que descobrir a misteriosa senha do criptex fosse a nica esperana que lhe restava de negociar a libertao dela. Se eu conseguir chegar ao mapa, Teabing negociar.
      Forando o crebro a concentrar-se naquela crtica tarefa, dirigiu-se lentamente  janela mais distante... permitindo que a mente se enchesse das numerosas figuras astronmicas que decoravam o tmulo de Newton.
      Procura o globo que no seu tmulo devia estar.
      Ele fala de carne rosada e de um tero a germinar.
      De costas voltadas para os outros, avanou at s altas janelas, em busca de inspirao nas figuras dos vitrais. Nada encontrou.
      Meta-se na cabea do Saunire, disse para si mesmo, olhando para fora, para o College Garden. Que consideraria ele ser o globo que devia estar no tmulo de Newton? Imagens de estrelas, cometas e planetas perpassaram entre a chuva que caa, mas Langdon ignorou-as. Saunire no era um homem de cincia. Era um homem da humanidade, da arte, da Histria. O sagrado feminino... o clice... a Rosa... a banida.
      Maria Madalena... o declnio da deusa... o Santo Graal.
      A lenda sempre retratara o Graal como uma amante cruel, danando na sombra perpetuamente no limite da viso, murmurando ao ouvido dos que a perseguiam, incitando-os a dar mais um passo para ento desaparecer na bruma.
      Ao olhar para as rvores do jardim que o vento agitava, Langdon sentiu a presena dela. Os sinais estavam por todo o lado. Como uma desafiadora silhueta a emergir do nevoeiro, a mais antiga macieira de Inglaterra ostentava as suas primeiras flores de cinco ptalas, todas brilhantes como Vnus. A deusa estava agora no jardim. Danava na chuva, cantando as canes das eras, espreitando de trs dos ramos cheios de rebentos, como que a lembrar a Langdon que o fruto do conhecimento crescia prximo, mas mesmo assim fora, do alcance dele.
      Do outro lado da sala, Sir Leigh Teabing via, confiante, Langdon olhar pela janela, como que sob um feitio. Exatamente como eu esperava, pensou. H de chegar l.
      Havia j algum tempo que desconfiava que Langdon podia ser a chave para chegar ao Graal. No fora por acaso que pusera o seu plano em ao na noite em que o americano devia encontrar-se com Jacques Saunire. Ao escutar as conversas do conservador, ficara certo de que o interesse de Saunire em encontrar-se particularmente com ele s podia significar uma coisa. O misterioso manuscrito do Langdon tocou um nervo no Priorado. Langdon tropeou na verdade, e Saunire teme que ele a revele.
      Tinha certeza de que o Gro-Mestre estava convocando-o para o silenciar.
      A verdade j foi silenciada durante muito tempo.
      Teabing sabia que tinha de agir rapidamente. O ataque de Silas atingiria dois objetivos. Impediria Saunire de convencer Langdon a manter-se calado, e garantiria que, quando a Chave de Abbada estivesse em poder de Teabing, Langdon estaria em Paris e disponvel para ser recrutado em caso de necessidade.
      Arranjar o encontro fatal entre Saunire e Silas fora quase ridiculamente fcil. Eu tinha informaes confidenciais sobre os piores medos do Saunire. Na tarde anterior, Silas telefonara ao conservador do Louvre fazendo-se passar por um perturbadssimo padre: Monsieur Saunire, peo-lhe que me desculpe, mas preciso de falar consigo imediatamente. Nunca deveria violar a santidade do confessionrio, mas neste caso, sinto que tenho de o fazer. Acabo de ouvir em confisso um homem que afirma ter assassinado membros da sua famlia.
      A resposta de Saunire fora de excitada prudncia: A minha famlia morreu em um acidente. O relatrio da Polcia foi conclusivo.
      Sim, um acidente de trnsito, dissera Silas, iscando o anzol. O homem com quem falei afirma ter forado o carro deles a sair da estrada e cair em um rio.
      Saunire ficara calado.
      Monsieur Saunire, nunca teria lhe telefonado se este homem no tivesse feito um comentrio que me levou a temer pela sua segurana. Silas fizera uma pausa. E falou tambm da sua neta, Sophie.
      A meno do nome de Sophie fora o catalisador. Jacques Saunire entrara em ao. Dissera a Silas que fosse imediatamente ter com ele ao lugar mais seguro de que conseguia lembrar-se: o seu prprio gabinete no Louvre. Depois, telefonara a Sophie para avis-la de que talvez estivesse em perigo. A idia de uma bebida com Robert Langdon fora instantaneamente posta de lado.
      Agora, com Langdon separado de Sophie no outro extremo da sala, Teabing sentiu que tinha conseguido afastar os dois companheiros. Sophie Neveu continuava a desafilo, mas Langdon tinha muito claramente uma viso mais ampla do problema. Estava tentando descobrir a senha. Compreende a importncia de encontrar o Santo Graal e libert-lo da priso.
      - Ele no vai abrir o criptex para voc - disse Sophie, friamente. - Mesmo que soubesse como.
      Teabing estava olhando para Langdon ao mesmo tempo que mantinha a arma apontada para Sophie. Estava agora praticamente seguro de que ia ter de usar aquela arma. Embora a idia o perturbasse, sabia que no hesitaria, se as coisas chegassem a esse ponto. Dei-lhe todas as oportunidades para agir da forma correta. O Graal  mais importante do que qualquer de ns.
      Nesse instante, junto  janela, Langdon voltou-se para eles.
      - O tmulo... - disse subitamente, com um ligeirssimo brilho de esperana nos olhos. - Sei onde procurar no tmulo de Newton. Sim, acho que consigo encontrar a senha!
      O corao de Teabing alvoroou-se.
      - Onde, Robert? Diga-me!
      - Robert, no! - exclamou Sophie, horrorizada. - No vai ajud-lo, no ?
      Langdon aproximou-se com passadas resolutas, segurando o criptex  sua frente.
      - No - disse, e os olhos dele endureceram ao voltarem-se para Teabing. - S depois que ele a deixar ir.
      O otimismo de Teabing desvaneceu-se.
      - Estamos to perto, Robert. No se atreva a jogar comigo!
      - No  nenhum jogo - respondeu Langdon. - Deixe-a ir, e eu vou com voc at o tmulo de Newton. Abriremos o criptex juntos.
      - No vou a parte nenhuma - declarou Sophie, com os olhos semicerrados de raiva. - O meu av me deu o criptex. No  seu, no tem o direito de abri-lo.
      Langdon voltou-se para ela.
      - Sophie, por favor - disse, num tom que denotava receio. Est em perigo. Estou tentando ajud-la!
      - Como? Revelando o segredo que o meu av morreu tentando proteger? Ele confiou em voc, Robert. Eu confiei em voc!
      Os olhos azuis de Langdon mostravam pnico, e Teabing no pde deixar de sorrir ao ver como os dois se voltavam um contra o outro. As tentativas de Langdon de ser galante eram mais patticas do que qualquer outra coisa. A um passo de desvendar um dos maiores segredos da Histria, e preocupa-se com uma mulher que provou ser indigna da procura.
      - Sophie - suplicou Langdon. - Por favor... tem de ir.
      Ela abanou a cabea.
      - No, a menos que me entregue o criptex ou o atire ao cho.
      - O qu? - engasgou-se Langdon.
      - Robert, meu av preferiria saber o seu segredo perdido para sempre a v-lo nas mos deste assassino. - Sophie parecia  beira das lgrimas, mas no chorou. Olhou diretamente para Teabing. - Mate-me, se  isso que quer. Mas no deixarei o legado do meu av nas suas mos.
      Muito bem. Teabing apontou a arma.
      - No! - gritou Langdon, erguendo o brao e segurando precariamente o criptex acima do duro cho de pedra. - Leigh, se pensar nisso, deixo o criptex cair.
      Teabing riu.
      - Isso deu certo com o Rmy, mas comigo no. Eu o conheo melhor, Robert.
      - Acha que sim, Leigh?
      Sim, acho. Essa cara de poquer precisa de mais trabalho, meu amigo. Precisei de vrios segundos, mas agora vejo que est mentindo. No faz a mnima idia de onde, no tmulo de Newton, encontrar a resposta.
      - Palavra, Robert? Sabe onde procurar, no tmulo?
      - Sei.
      A hesitao nos olhos de Langdon foi mais do que fugaz, mas Teabing notou-a.
      Havia uma mentira ali. Uma tentativa desesperada, pattica, de salvar Sophie. Teabing sentiu-se profundamente desapontado.
      Sou um cavaleiro solitrio, rodeado por almas indignas. E vou ter de decifrar sozinho o mistrio da Chave de Abbada.
      Langdon e Neveu s constituam uma ameaa, para ele e para... o Graal. Por muito dolorosa que a soluo fosse, sabia que ia ser capaz de aplic-la com uma conscincia tranquila. O nico desafio ia ser convencer Langdon a pousar o criptex, para poder resolver tranquilamente aquela charada.
      - Uma prova de boa-f - disse Teabing, baixando a arma. - Pouse a Chave de Abbada, e falaremos.
      Langdon soube que a sua mentira falhara. Viu a sombria resoluo no rosto de Teabing e soube que o momento chegara. Quando eu pousar isto, ele nos matar. 
      Mesmo sem olhar para Sophie, ouvia o corao dela a suplicar-lhe num desespero silencioso. Robert, este homem no  digno do Graal. Por favor, no o entregue. Seja qual for o preo a pagar.
      Robert j tomara a sua deciso vrios minutos antes, enquanto permanecera sozinho diante da alta janela sobranceira ao jardim.
      Proteger Sophie. Proteger o Graal.
      Quase gritara em desespero. Mas no estou vendo como!
      Os negros momentos de desespero tinham trazido consigo uma clareza de pensamento como nunca conhecera. A verdade est diante dos teus olhos, Robert. No soube de onde lhe veio a epifania. O Graal no est zombando de voc. Est chamando uma alma digna.
      Agora, dobrando-se pela cintura, como um servidor, diante de Leigh Teabing, Langdon baixou o criptex at poucos centmetros do cho de pedra.
      - Isso, Robert - murmurou Teabing, apontando a arma para ele. - Pouse-o no cho.
      Langdon ergueu os olhos para o cu, para o enorme vazio sob a abbada da Casa do Captulo. Inclinando-se um pouco mais, baixou-os para a arma que Teabing lhe apontava.
      - Lamento, Leigh.
      Em um movimento fluido, endireitou-se, projetando o brao para cima, lanando o criptex na direo da abbada.
      Leigh Teabing no sentiu o seu prprio dedo apertar o gatilho, mas a arma disparou com um estrondo ensurdecedor. A forma agachada de Langdon estava agora de p, quase no ar, e a bala explodiu no cho junto aos ps dele. Metade do crebro de Teabing tentou ajustar a pontaria e voltar a disparar, movido pela raiva, mas a metade mais forte puxou-lhe os olhos para cima, para a cpula.
      Chave de Abbada!
      O tempo pareceu se imobilizar, transformando-se em um sonho em cmara-lenta de todo o mundo de Teabing elevando-se nos ares com aquele cilindro de pedra. Viu-o atingir o pice da sua subida... pairar por um instante no vazio... e ento comear a cair, s cambalhotas, em direo s lajes do cho.
      Todos os sonhos e esperanas de Teabing se precipitavam para o solo. No pode bater no cho! Eu consigo apanh-lo! O corpo de Teabing reagiu por instinto. Largou a arma e saltou para a frente, deixando cair as muletas enquanto estendia as mos macias e manicuradas. Esticando os braos dos ombros s pontas dos dedos, apanhou a Chave de Abbada em pleno ar.
      Ao cair para a frente com a Chave de Abbada vitoriosamente segura em uma mo, Teabing soube que estava caindo muito depressa. Sem nada que lhe travasse a queda, os braos estendidos foram os primeiros a bater, e o criptex colidiu violentamente com o cho.
      Houve um som arrepiante de vidro partindo-se.
      Durante um segundo inteiro, Teabing no respirou. Deitado de bruos no cho gelado, olhando ao longo dos braos estendidos para o cilindro de nix que segurava nas mos nuas, implorou que a ampola de vidro escondida no interior tivesse resistido. Ento, o cheiro acre do vinagre encheu o ar, e Teabing sentiu o lquido escorrer por entre os anis para as palmas das suas mos.
      Em pnico selvagem apoderou-se dele. NO! O vinagre escorria, e Teabing imaginou o papiro dissolvendo-se. Robert, louco maldito! O segredo se perdeu!
      Teabing deu por si a chorar incontrolavelmente. O Graal desapareceu. Est tudo perdido. Tremendo de incredulidade, tentou abrir o cilindro  fora, na nsia de captar um fugaz vislumbre da Histria antes que desaparecesse para todo o sempre. Ficou estupefato quando, ao puxar pelas extremidades opostas, o cilindro se abriu.
      Incapaz de respirar, espreitou l para dentro. Estava vazio, excetuando os cacos de vidro partido. No havia qualquer papiro dissolvendo-se. Teabing rolou sobre si mesmo e olhou para Langdon. Ao lado dele, Sophie lhe apontava o revlver.
      Confuso, olhou para o cilindro, e ento viu. Os anis j no estavam alinhados ao acaso. Formavam uma palavra de cinco letras. APPLE.
      - O globo que Eva partilhou - disse Langdon, friamente -, incorrendo na ira divina.
      O pecado original. O smbolo da queda do sagrado feminino.
      Teabing sentiu a verdade bater sobre ele com dilacerante austeridade. O globo que devia estar no tmulo de Newton s podia ser a ma que cara do cu, atingira Newton na cabea e inspirara toda a obra da sua vida. O fruto do seu labor! A carne rosada com um tero a germinar!
      - Robert - gaguejou Teabing, destroado. - Abriu-o. Onde... est o mapa?
      Sem pestanejar, Langdon enfiou a mo no bolso interior do casaco de tweed e, com todo o cuidado, tirou de l um delicado rolo de papiro. A poucos passos do lugar onde Teabing jazia estendido, desenrolou o rolo e olhou para ele. Ao cabo de alguns instantes, um sorriso de compreenso distendeu-lhe as feies.
      Ele sabe! O corao de Teabing ansiava por aquele conhecimento. O sonho de uma vida inteira estava ali,  sua frente.
      - Diga-me! - pediu. - Por favor. Oh, Deus, por favor! No  muito tarde!
      Enquanto o som de passos pesados ecoava no corredor a caminho da Casa do Captulo, Langdon voltou calmamente a enrolar o papiro e a guard-lo no bolso.
      - No! - gritou Teabing, tentando em vo colocar-se de p.
      Quando a porta se abriu, indo bater com estrondo na parede, Bezu Fache irrompeu na sala como um touro na arena, os olhos ferozes procurando, encontrando o seu alvo - Leigh Teabing  cado impotente no cho. Com um suspiro de alvio, Fache devolveu ao coldre axilar o seu revlver Manurhin e voltou-se para Sophie.
      Agente Neveu, ainda bem que voc e o senhor Langdon esto a salvo. Deviam ter se apresentado quando lhes pedi.
      Os agentes da Polcia britnica apareceram atrs de Fache, arrastando e algemando o angustiado prisioneiro.
      Sophie parecia espantada por ver Fache.
      - Como foi que nos encontrou?
      Fache apontou para Teabing,
      - Cometeu o erro de identificar-se quando entrou na abadia. Os guardas souberam pela rdio que estvamos  procura dele.
      - Est no bolso do Langdon! - gritava Teabing, como um possesso. - O mapa do Santo Graal!
      Enquanto os polcias o levantavam do cho e o levavam, torceu a cabea para trs e gritou:
      - Robert! Diga-me onde est escondido!
      Quando Teabing passou por ele, Langdon olhou-o nos olhos e disse: 
      - S os que disso so dignos encontram o Graal, Leigh. Foi voc que me ensinou.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO CENTO E DOIS
      
      
      Um espesso manto de nvoa envolvia os Kensington Gardens quando Silas, coxeando, procurou refgio em um recndito entre os arbustos. Ajoelhado na erva molhada, sentia o sangue quente jorrando-lhe do buraco que a bala lhe abrira no peito, abaixo das costelas. Mas continuou olhando fixamente em frente.
      O nevoeiro fazia aquele lugar parecer o paraso.
      Ao erguer as mos ensanguentadas para rezar, viu a chuva acariciar-lhe os dedos, tornando-os novamente brancos.  medida que as gotas lhe caam, cada vez mais pesadas, sobre as costas e os ombros, sentiu o corpo desaparecer pedao a pedao na bruma.
      Sou um fantasma.
      Uma brisa passou por ele, transportando consigo o cheiro mido e terroso de uma nova vida. com todas as clulas do seu corpo alquebrado, Silas rezou. Rezou pedindo perdo. Rezou pedindo misericrdia. E, acima de tudo, rezou pelo seu mentor... o bispo Aringarosa... para que Deus no o levasse antes de tempo. Tem ainda tanto que fazer.
      O nevoeiro revoluteava agora  volta dele, e Silas sentia-se to leve que teve certeza de que os fiapos o levariam para longe. Fechando os olhos, rezou uma ltima orao.
      Em algum lugar do meio da nvoa, a voz de Manuel Aringarosa sussurrou-lhe:
      O nosso Deus  um Deus bom e misericordioso.
      A dor de Silas comeou finalmente a desvanecer-se, e ele soube que o bispo tinha razo.
      
      
      
      CAPTULO CENTO E TRS
      
      
      A tarde chegava ao fim quando o Sol rompeu por entre as nuvens e a cidade comeou a secar. Bezu Fache sentia-se esgotado, quando saiu da sala de interrogatrios e fez sinal a um txi. Sir Leigh Teabing proclamara vociferantemente a sua inocncia, e no entanto, pelas suas incoerentes divagaes a respeito do Santo Graal, documentos secretos e irmandades misteriosas, Fache suspeitava de que o astuto historiador estava preparando o palco para uma alegao de insanidade mental.
      Pois, pensou Fache. Louco. Teabing dera provas de uma engenhosa preciso na forma como formulara um plano que protegia passo-a-passo a sua inocncia. Explorara o Vaticano e a Opus Dei, duas entidades que tinham acabado por revelar-se completamente inocentes. O trabalho sujo fora feito por um monge fantico e um bispo desesperado, que no sabiam para quem trabalhavam nem o que estava acontecendo na verdade. Mais inteligentemente ainda, situara o seu posto de escuta eletrnica no nico lugar da casa onde um homem que tinha sofrido de poliomielite nunca poderia chegar. A vigilncia fora levada a cabo pelo mordomo, Rmy o nico que conhecia a verdadeira identidade de Teabing e que agora aparecera convenientemente morto em consequncia de uma reao alrgica.
      A informao transmitida por Collet a partir de Chteau Villette sugeria que Teabing era to refinadamente astuto que o prprio Fache teria alguma coisa a aprender com ele. Para instalar aparelhos de escuta em alguns dos mais poderosos gabinetes de Paris, o historiador britnico imitara os Gregos. Cavalos de Tria. Alguns dos seus alvos recebiam como oferta magnficas obras de arte, outros licitavam, sem saberem o que estavam comprando, em leiles onde ele colocara lotes especficos. No caso de Saunire, o conservador fora convidado para jantar em Chteau Villette a fim de discutir a possibilidade de financiamento uma nova Ala da Vinci no Louvre. O convite inclua um incuo ps-escrito em que o ingls manifestava o seu fascnio por um cavaleiro medieval francs robotizado que, segundo se dizia, Saunire teria construdo. Traga para o jantar, sugeria Teabing. Aparentemente, Saunire fizera isso mesmo e deixara o cavaleiro sozinho tempo suficiente para que Rmy Legaludec lhe fizesse uma inconspcua adio.
      Agora, sentado no banco traseiro do txi, Fache fechou os olhos. Mais uma coisa a tratar antes de regressar a Paris.
      A sala de recobro do St. Marys Hospital estava cheia de sol.
      - Impressionou a todos ns - disse a enfermeira, sorrindo-lhe. - Foi um autntico milagre.
      O bispo Aringarosa esboou um dbil sorriso.
      - Sempre fui abenoado.
      A enfermeira saiu, deixando-o sozinho. A tpida luz do Sol era como uma agradvel carcia no rosto de Aringarosa. A noite anterior fora a mais negra da sua vida.
      Pensou tristemente em Silas, cujo corpo fora encontrado no parque.
      Por favor, perdoe-me, meu filho.
      Aringarosa desejara ardentemente que Silas fizesse parte do seu glorioso plano.
      Na noite anterior, porm, recebera um telefonema de Bezu Fache, questionando-o a respeito da sua aparente ligao com uma monja que fora assassinada em Saint-Sulpice.
      Compreendera ento que tudo correra horrivelmente mal. E a notcia dos quatro outros assassnios transformara o seu horror em angstia. Silas, o que foi que fez! Incapaz de contactar o Professor, soubera que fora posto de lado. Usado. A nica maneira de travar a horrvel sequncia de acontecimentos que ajudara a desencadear era confessar tudo a Fache e, a partir desse momento, o capito e o bispo tinham tentado encontrar Silas antes que o Professor o convencesse a voltar a matar.
      Exausto at  medula, Aringarosa fechou os olhos e ouviu na televiso a notcia da
      deteno de um proeminente cavaleiro britnico, Sir Leigh Teabing. O Professor exposto a nu aos olhos de todos. Teabing soubera da inteno do Vaticano de desligar-se da Opus Dei. E escolhera Aringarosa como o peo perfeito para a execuo do seu plano.
      Afinal, quem mais provavelmente correria s cegas atrs do Santo Graal do que um homem como eu, com tudo a perder? O Graal conferiria um poder enorme a quem o possusse.
      Leigh Teabing escondera matreiramente a sua identidade - fingindo um sotaque francs e um corao piedoso e pedindo como pagamento a nica coisa que no precisava: dinheiro. Em Aringarosa, a ambio no deixara lugar para a desconfiana. O preo, vinte milhes de euros, parecera uma ninharia em comparao ao prmio  o Santo Graal -, e o pagamento da dvida do Vaticano  Opus Dei facilitara o acordo financeiro. Os cegos vem o que querem ver. O derradeiro insulto de Teabing fora, claro, a exigncia de que o pagamento fosse feito em ttulos do Vaticano, de modo que se alguma coisa corresse mal, a investigao conduzisse a Roma.
      - Alegra-me ver que est bem, monsenhor.
      Aringarosa reconheceu a voz spera que soou  porta, mas o rosto foi uma surpresa - feies duras, poderosas, cabelos lustrosos penteados para trs, um pescoo de touro que parecia revoltar-se contra o aperto do terno escuro.
      - Capito Fache? - perguntou. A compaixo e cuidado que o capito demonstrara em relao  situao dele na noite anterior tinham conjurado imagens de um exterior bem mais gentil.
      O capito aproximou-se da cama e pousou em cima de uma cadeira uma maleta preta, que parecia pesada.
      - Creio que isto lhe pertence.
      Aringarosa olhou para a maleta, cheia de ttulos do Vaticano, e desviou imediatamente o olhar, sentindo apenas vergonha.
      - Sim... obrigado. - Fez uma pausa, enquanto passava os dedos pela costura do lenol, e ento continuou --: Capito, pensei muito nisto, e preciso pedir-lhe um favor. 
      - Com certeza.
      - As famlias daqueles que Silas... - Voltou a calar-se, engolindo a emoo. - Sei que dinheiro nenhum poderia ser compensao suficiente, e no entanto, se me fizesse o favor de distribuir o contedo dessa mala por eles... os familiares dos que foram mortos.
      Os olhos escuros de Fache estudaram-no por um longo momento.
      - Um gesto virtuoso, monsenhor. Me certificarei que se far conforme deseja.
      Um silncio pesado instalou-se entre eles. Na televiso, um agente da polcia francesa estava sendo entrevistado diante de uma luxuosa manso.
      - Tenente Collet - perguntava um jornalista da BBC, em tom acusador -, a noite passada, o seu capito acusou publicamente dois inocentes de assassinato. Pensa que Robert Langdon e Sophie Neveu vo exigir reparaes do seu Departamento? Julga que este caso significou o fim da carreira do capito Fache?
      O sorriso do tenente Collet foi cansado mas calmo.
      - A experincia me diz que o capito Bezu Fache s muito raramente comete erros. Ainda no falei com ele a respeito deste assunto, mas, sabendo como funciona, suspeito que a acusao pblica contra a agente Neveu e o senhor Langdon fez parte de uma ttica para chegar ao verdadeiro assassino.
      Os jornalistas trocaram olhares surpresos.
      - Se o senhor Langdon e a agente Neveu foram ou no participantes voluntrios da armadilha,  algo que ignoro - continuou o tenente Collet. - O capito Fache tem uma marcada tendncia para no divulgar os seus mtodos mais criativos. Tudo o que posso confirmar, neste momento,  que o capito deteve o verdadeiro responsvel e que o senhor Langdon e a agente Neveu esto inocentes e em segurana.
      Fache tinha um ligeiro sorriso nos lbios quando se voltou para Aringarosa.
      - Um bom elemento, aquele Collet.
      Decorreram vrios segundos. Finalmente, Fache passou a mo pela testa, alisando os cabelos e olhou para Aringarosa.
      - Monsenhor, antes de regressar a Paris, h uma ltima questo que gostaria de discutir... A sua imprevista visita a Londres. Subornou o piloto para alterar o rumo. Ao faz-lo, violou vrias leis internacionais.
      Aringarosa afundou na cama.
      - Estava desesperado.
      - Sim. Tal como o piloto, quando os meus homens o interrogaram. - Fache meteu a mo no bolso e tirou de l um anel de ouro com uma ametista prpura e uma aplicao em forma de mitra e bculo.
      Aringarosa sentiu as lgrimas correrem-lhe pelas faces enquanto aceitava o anel e o enfiava no dedo.
      -  uma grande generosidade. - Agarrou a mo de Fache e apertou-a. - Obrigado.
      Fache agitou a mo, como que minimizando o gesto, e, aproximando-se da janela, ficou olhando para a cidade, com os pensamentos claramente muito longe dali.
      Quando se voltou, havia nele um ar de incerteza.
      - Monsenhor, para onde vai agora?
      Exatamente a mesma pergunta que lhe tinham feito na noite anterior, quando se preparava para sair de Castel Gandolfo.
      - Suspeito de que o meu caminho vai ser to incerto como o seu.
      - Sim. - Fache fez uma pausa. - Julgo que vou me aposentar mais cedo do que esperava.
      Aringarosa sorriu.
      - Um pouco de f faz obras maravilhosas, capito. Um pouco de f.
      
      
      
      CAPTULO CENTO E QUATRO
      
      
      Rosslyn Chapel - com frequncia chamada a Catedral dos Cdigos - ergue-se dez quilmetros a sul de Edimburgo, na Esccia, no local de um antigo templo mitraico.
      Construda pelos Cavaleiros do Templo, em 1446, a capela est coberta de uma estonteante profuso de smbolos ligados s tradies judaica, crist, egpcia e maonica.
      As coordenadas geogrficas do templo coincidem exatamente com o meridiano que passa por Glastonbury, a Linha da Rosa longitudinal que marca tradicionalmente a ilha de Avalon do rei Artur e  considerada o pilar central da geometria sagrada britnica.
      Foi desta Linha da Rosa sagrada que Rosslyn - originariamente escrevia-se Roslin - recebeu o nome.
      As recortadas torres projetavam longas sombras vespertinas quando Langdon e Sophie pararam o carro alugado na ervosa rea de estacionamento junto  base da elevao no topo da qual a capela se erguia. O curto vo de Londres at Edimburgo fora repousante, embora nenhum dos dois tivesse dormido, excitados como estavam pela expectativa que os aguardava. Ao olhar para o austero edifcio recortado contra um cu riscado por nuvens, Langdon sentiu-se como Alice caindo de cabea na toca do coelho.
      Deve ser um sonho. E no entanto, sabia que o texto da ltima mensagem de Jacques Saunire no podia ter sido mais especfico.
      The Holy Grail neath ancient Roslin waits.
      O Santo Graal sob a antiga Roslin espera. Langdon imaginara o mapa do Graal como um diagrama, um desenho com um X-marca-o-lugar, mas o derradeiro segredo do Priorado fora revelado na mesma linguagem que Jacques Saunire usara para falar com eles desde o princpio. Simples versos. Quatro linhas muito explcitas que apontavam sem a menor dvida para aquele lugar. Alm de identificar Rosslyn pelo nome, os versos referiam vrias das mais famosas caractersticas arquiteturais da capela.
      A despeito da clareza da revelao final de Saunire, Langdon ficara sentindo-se mais desorientado do que esclarecido. Rosslyn Chapei parecia-lhe uma localizao excessivamente bvia. Durante sculos, a capela de pedra ecoara com murmrios da presena do Santo Graal. Murmrios que tinham se transformado em gritos quando, em dcadas recentes, pesquisas feitas com ondas de radar capazes de penetrar o solo tinham revelado a existncia de uma surpreendente estrutura por baixo da capela  uma vasta cmara subterrnea. Este enorme cofre escavado na rocha era no s muito maior do que a capela que o encimava, como parecia no ter entrada ou sada. Os arquelogos tinham de imediato comeado a pedir autorizao para abrir caminho atravs da rocha,  fora de explosivos, at  misteriosa cmara, mas a Comisso Zeladora de Rosslyn proibira especificamente qualquer escavao no local sagrado. O que, claro, s viera colocar lenha na fogueira da especulao. Que estaria a Comisso tentando esconder?
      Rosslyn tornara-se, assim, um local de peregrinao para os caadores de mistrios. Uns afirmavam ser atrados pelo poderoso campo magntico que emanava inexplicavelmente daquelas coordenadas, outros diziam-se empenhados em procurar no flanco da colina entradas escondidas para a cmara subterrnea, mas a maior parte reconhecia ter ido simplesmente para perambular pelo local e impregnar-se da tradio do Santo Graal.
      Apesar de nunca antes ter estado em Rosslyn, Langdon ria sempre que ouvia a capela referida como o atual esconderijo do Santo Graal. Admitia que Rosslyn podia em dado momento ter albergado o Graal, h muito tempo... mas com toda certeza no no presente. A capela atrara muita ateno nas ltimas dcadas e, mais cedo ou mais tarde, algum acabaria por descobrir a entrada para a cripta.
      Todos os verdadeiros acadmicos do Graal estavam de acordo que Rosslyn era um engodo - um dos muitos ilusrios becos sem sada que o Priorado to bem sabia inventar. Naquela noite, porm, com a Chave de Abbada do Priorado oferecendo uns versos que apontavam diretamente para aquele lugar, Langdon no se sentia assim to seguro. Uma pergunta perplexa andara circulando pela cabea durante todo o dia: Porque teria Jacques Saunire se dado a tanto trabalho para guiar-nos at uma localizao to bvia? Parecia haver apenas uma resposta lgica. H qualquer coisa a respeito de Rosslyn que ainda no compreendemos.
      - Robert? - Sophie estava de p ao lado do carro, olhando para ele. - No vem? - Tinha nas mos a caixa de roseira, que o capito Fache lhes devolvera. Dentro da caixa, os dois criptex tinham sido remontados e recolocados na posio original. O papiro com os versos estava seguro dentro do menor... sem a ampola de vinagre.
      Na subida do longo caminho, Langdon e Sophie passaram pela famosa parede ocidental do templo. Os visitantes de acaso assumiam que aquela parede estranhamente sobressada correspondia a uma seo da capela que nunca chegara a ser acabada. A verdade, recordou Langdon, era muito mais intrigante.
      A parede ocidental do Templo de Salomo.
      Os Templrios tinham concebido Rosslyn Chapei segundo o plano exato do Templo de Salomo em Jerusalm - com um muro ocidental, um estreito santurio retangular e uma cripta subterrnea semelhante ao Santo dos Santos, onde os nove cavaleiros originais tinham encontrado o seu precioso tesouro. Havia, Langdon tinha de admiti-lo, uma intrigante simetria na idia de os Templrios construrem um moderno repositrio do Graal que replicava o esconderijo original.
      A entrada de Rosslyn Chapei era mais modesta do que Langdon esperara. A pequena porta de madeira tinha dois gonzos de ferro e uma simples tabuleta de carvalho com a palavra:
      ROSLIN
      A antiga caligrafia, explicou Langdon a Sophie, derivava da Linha da Rosa, ou meridiano, que passava exatamente pela capela; ou, como os acadmicos do Graal preferiam pensar, de Linha de Rosa a linhagem ancestral de Maria Madalena.
      A capela no tardaria a fechar e, quando Langdon empurrou a porta, uma lufada de ar quente escapou do interior, como se o velho edifcio suspirasse de cansao ao fim de um longo dia. Os arcos da entrada estavam cobertos de potentilas gravadas.
      Rosas. O tero da deusa.
      Ao entrar com Sophie, Langdon deixou o olhar espraiar-se pelo santurio, abarcando-o no seu conjunto. Apesar de ter lido numerosas descries das intricadas esculturas de Rosslyn, v-las pessoalmente era uma experincia avassaladora.
      O paraso da simbologia, chamara um colega  capela.
      Todo o interior do templo estava coberto de smbolos esculpidos - cruzes crists, estrelas judaicas, selos manicos, cruzes de braos iguais, cornucpias, pirmides, signos astrolgicos, plantas, pentculos e rosas. Os Cavaleiros do Templo tinham sido grandes construtores, erguendo igrejas por toda a Europa, mas Rosslyn era considerada a sua mais  sublime obra de amor e venerao. Os mestres canteiros no tinham deixado uma pedra por lavrar. Rosslyn Chapei era um santurio dedicado a todas as fs... a todas as tradies... e, acima de tudo,  natureza e  deusa.
      O templo estava deserto, com exceo de um pequeno grupo de turistas que escutavam as explicaes de um jovem cicerone na ltima visita guiada do dia. O jovem conduzia-os em fila indiana ao longo de um percurso bem conhecido - um caminho invisvel que ligava seis pontos de interesse arquitetnico especial. Geraes de visitantes tinham acabado por gravar no cho, com milhes de passos, um enorme smbolo.
      A Estrela de David, pensou Langdon. E no  por coincidncia. Tambm conhecido como Selo de Salomo, o hexagrama fora em tempos, o smbolo secreto dos sacerdotes que dedicavam a vida  contemplao das estrelas, sendo posteriormente adotado pelos reis israelitas: David e Salomo.
      O jovem cicerone vira Langdon e Sophie entrar e, apesar de serem quase a hora de fechar, dirigira-lhes um agradvel sorriso e fizera-lhes sinal para que ficassem  vontade. Langdon respondeu com um aceno de agradecimento e internou-se mais no santurio. Sophie, porm, ficou como que pregada  entrada, com uma expresso confusa no rosto.
      - Que foi? - perguntou Langdon.
      Sophie estava olhando para a capela.
      - Acho... que j estive aqui.
      - Mas me disse que nunca tinha sequer ouvido falar de Rosslyn! - espantou-se Langdon.
      - E no tinha... - Sophie estava olhando em redor, parecendo insegura. - O meu av deve ter me trazido aqui quando eu era muito pequena. No sei. Parece-me familiar.
      -  medida que os seus olhos percorriam o templo, ia acenando com mais convico. - Sim. Apontou para o fundo do santurio. - Aqueles dois pilares... J os vi.
      Langdon olhou para as duas colunas intricadamente esculpidas no extremo mais distante da capela. O branco entrelaado das suas gravuras parecia brilhar com uma incandescncia avermelhada sob os ltimos raios de sol que entravam pela janela ocidental. Os pilares - situados no lugar onde normalmente estaria o altar - formavam um estranho par. O da esquerda era entalhado por simples linhas verticais, enquanto o da direita se apresentava ornamentado por uma elaborada espiral florida.
      Sophie j ia aproximar-se deles. Langdon apertou o passo para alcan-la e, quando chegaram junto das colunas, Sophie acenava com um ar de incredulidade.
      - Sim, tenho certeza absoluta de que j os tinha visto!
      - No duvido que os tenha visto - disse Langdon -, mas no foi necessariamente aqui.
      Ela se voltou.
      - Que quer dizer com isso?
      - Estes dois pilares so as estruturas arquitetnicas mais copiadas da Histria. H rplicas deles espalhadas pelo mundo todo.
      - Rplicas de Rosslyn? - Sophie parecia ctica.
      - No. Dos pilares. Lembra-se de eu lhe ter dito que Rosslyn  uma cpia do Templo de Salomo? Esses dois pilares so rplicas exatas dos que se erguiam no topo do Templo. - Langdon apontou para o pilar da esquerda. - Aquele chama-se Boaz... ou o Pilar do Maon. O outro chama-se Jachin... ou o Pilar do Aprendiz. Fez uma pausa. - Na realidade, praticamente todos os templos manicos do mundo tm dois pilares como estes.
      Langdon j tinha lhe explicado as fortes ligaes histricas dos Templrios s modernas sociedades secretas manicas, cujos graus primrios - Aprendiz Francomaon, Companheiro Franco-maon o e Mestre Maon - remontavam aos primeiros tempos dos Templrios. A ltima quadra do av de Sophie fazia uma referncia explcita aos Mestres Pedreiros que tinham decorado Rosslyn com as suas gravuras artsticas.
      Falava tambm do teto central da capela, coberto de gravuras de estrelas e de planetas. 
      - Nunca entrei em um templo manico - disse Sophie, ainda olhando para os pilares. - Tenho quase certeza de que os vi aqui. - Voltou-se para estudar o resto da capela, como que  procura de qualquer outra coisa que lhe avivasse a memria.
      Os outros visitantes estavam saindo, e o cicerone atravessava a capela na direo deles com um simptico sorriso. Era um jovem atraente, no fim da casa dos vinte, que falava com um forte sotaque escocs e tinha cabelos louros com um toque de vermelho.
      - Estava me preparando para fechar por hoje. Posso ajud-los a encontrar alguma coisa?
      E se fosse o Santo Graal? Langdon teve vontade de dizer.
      - O cdigo - exclamou Sophie, numa sbita revelao. - H aqui um cdigo!
      O cicerone pareceu contente com o entusiasmo dela.
      -  verdade que sim, minha senhora.
      - Est no teto - continuou Sophie, voltando-se para a parede do lado direito. - Em algum lugar... ali.
      O jovem sorriu.
      - Vejo que no  a primeira vez que vem a Rosslyn.
      O cdigo, pensou Langdon. Esquecera-se desse pequeno pedao de lenda. Entre os muitos mistrios de Rosslyn, havia um arco abobadado do qual sobressaam centenas de blocos de pedra, formando uma estranha superfcie multifacetada. Cada bloco tinha um smbolo gravado, aparentemente ao acaso, criando um cdigo de propores inimaginveis. Havia quem afirmasse que revelava a entrada para a cripta escavada por baixo da capela. Outros diziam que contava a verdadeira histria do Graal. No que tivesse qualquer importncia - havia sculos que geraes de criptlogos tentavam desvendar-lhe o significado. A Comisso Zeladora de Rosslyn continuava a oferecer um generoso prmio em dinheiro a quem conseguisse descobrir-lhe o significado secreto, mas ainda ningum se apresentara para cobr-lo.
      - Terei muito gosto em mostrar-lhe...
      A voz do cicerone esmoreceu e calou-se.
      O meu primeiro cdigo, pensou Sophie, avanando sozinha, em transe, para o arco codificado. Tendo entregado a caixa de roseira a Langdon, sentiu que podia esquecer momentaneamente tudo a respeito do Santo Graal, do Priorado de Sio e de todos os mistrios do dia anterior. Quando chegou debaixo do arco e viu os smbolos, as recordaes voltaram em catadupa. Estava recordando a primeira visita que fizera e, estranhamente, as memrias conjuraram uma inesperada tristeza.
      Era uma garotinha... cerca de um ano depois do acidente em que tinha morrido toda a sua famlia. O av levara-a  Esccia para umas curtas frias. Tinham ido ver Rosslyn Chapei antes de voltarem a Paris. Era fim de tarde, e a capela estava fechada.
      Mas eles continuavam l dentro.
      - Podemos ir para casa, Grand-pre. - pediu Sophie, sentindo-se cansada.
      - Vamos j, querida. - A voz do av estava carregada de melancolia. - H uma ltima coisa que tenho de fazer. E se esperasse no carro?
      - Vai fazer outra coisa de gente grande?
      Ele assentiu.
      - No demoro. Prometo.
      - Posso voltar a fazer o cdigo do arco? Foi divertido.
      - No sei. Preciso ir l fora. No tem medo de ficar aqui sozinha?
      - Claro que no! - respondeu ela, com um ar ofendido. - Ainda nem sequer est escuro!
      Ele sorriu.
      - Muito bem, ento. - E levou-a at ao ornamentado arco que lhe mostrara minutos antes.
      Sophie deitou-se imediatamente de costas no cho de pedra e ps-se a olhar para o quebra-cabeas l em cima.
      - Vou decifrar este cdigo antes de voc voltar!
      -  uma corrida, ento. - O av inclinou-se, beijou-a na testa e afastou-se em direo  porta lateral. - Estou l fora. Vou deixar a porta aberta. Se precisar de mim, chame. - E saiu para a suave luz do entardecer.
      Sophie ficou estendida no cho, olhando para o cdigo. As plpebras comearam a pesar-lhe. Ao cabo de alguns minutos, os smbolos tornaram-se confusos, baralharamse.
      E ento desapareceram.
      Quando acordou, Sophie sentiu o frio da pedra nas costas.
      - Grand-pre?
      No houve resposta. Pondo-se de p, sacudiu as roupas. A porta lateral continuava aberta. A tarde escurecia. Saiu da capela e viu o av de p  porta de uma casa de pedra rstica, prxima dos fundos do templo, um pouco mais abaixo. Estava falando com uma pessoa que mal se via, do outro lado de uma porta de rede.
      - Grand-pre? - chamou.
      O av voltou-se e acenou-lhe, fazendo-lhe sinal para esperar onde estava. Ento, lentamente, trocou mais algumas palavras com a pessoa que estava dentro de casa e soprou um beijo na direo da porta de rede. Quando voltou para junto de Sophie, tinha lgrimas nos olhos.
      - Porque est chorando, grand-pre.
      Ele pegou-lhe na mo e apertou-lhe.
      - Oh, Sophie, voc e eu dissemos adeus a muitas pessoas este ano.  duro.
      Sophie pensou no acidente, em dizer adeus  me e ao pai,  av e ao irmo mais novo.
      - Estava dizendo adeus a outra pessoa?
      - A uma amiga muito querida que amo muito - respondeu ele, com a voz pesada de emoo. - E que receio no voltar a ver por muitos, muitos anos.
      Acompanhado pelo jovem cicerone, Langdon estivera examinando as paredes da capela, sentindo crescer a incmoda sensao de que tinha chegado a um beco sem sada. Sophie afastara-se para ir ver o cdigo, deixando-lhe a caixa de roseira onde estava guardado um mapa do Graal que cada vez mais parecia no ser de grande ajuda.
      Embora o poema de Saunire indicasse claramente Rosslyn, Langdon no sabia muito bem o que fazer agora que tinha chegado ali. O poema falava de uma lmina e um clice que Langdon no via em parte nenhuma.
      O Santo Graal sob a antiga Roslin espera.
      Com a lmina e o clice montando guarda severa.
      Mais uma vez, Langdon sentiu que uma faceta daquele mistrio ainda no se revelara.
      - No me leve a mal - disse o jovem cicerone, olhando para a caixa de roseira que Langdon segurava -, mas, essa caixa... posso perguntar-lhe onde a arranjou?
      Langdon riu, com um ar cansado.
      - Oh,  uma histria excepcionalmente longa.
      O jovem hesitou, voltando a olhar para a caixa.
      -  uma coisa estranhssima... a minha av tem uma caixa exatamente igual a essa. Tambm de roseira polida, a mesma rosa embutida, at as dobradias parecem iguais.
      Langdon sabia que o jovem tinha de estar enganado. Se alguma vez uma caixa fora pea nica, era aquela... a caixa feita de propsito para a Chave de Abbada do Priorado.
      - As duas caixas podem ser parecidas, mas...
      A porta lateral bateu com fora, atraindo a ateno de ambos. Sophie tinha sado sem dizer uma palavra e afastava-se colina abaixo em direo a uma casa de pedra rstica ali prxima. Langdon ficou olhando para ela. Aonde ir? Sophie tivera um comportamento estranho desde que entrara na capela. Voltou-se para o cicerone. 
      - Sabe o que  aquela casa?
      O jovem assentiu, parecendo to surpreendido como Langdon por Sophie estar encaminhando-se para l.
      -  a reitoria, a residncia da conservadora da capela. Que por acaso tambm  a diretora da Comisso Zeladora de Rosslyn. Fez uma pausa. -  minha av.
      - A sua av chefia a Comisso Zeladora de Rosslyn?
      - Vivo com ela na reitoria, ajudo a tratar da capela e recebo os visitantes. - O jovem encolheu os ombros. - Sempre vivi l. A minha av criou-me naquela casa.
      Preocupado com Sophie, Langdon atravessou a capela em direo  porta, disposto a cham-la. Ia a meio caminho quando se deteve bruscamente. S naquele instante registrara qualquer coisa que o jovem tinha dito.
      A minha av criou-me.
      Olhou para Sophie descendo a colina, e depois para a caixa de roseira que tinha nas mos. Impossvel. Lentamente, voltou para junto do jovem cicerone.
      - Disse que a sua av tem uma caixa igual a esta?
      - Quase idntica.
      - E onde a arranjou?
      - Foi o meu av que a fez para ela. O meu av morreu quando eu era beb, mas a minha av ainda hoje fala dele. Diz que era um gnio com as mos. Fazia todo tipo de coisas.
      Langdon vislumbrou uma inimaginvel teia de conexes emergindo.
      - Disse que a sua av o criou. Importa-se de me dizer o que aconteceu aos seus pais?
      O jovem pareceu surpreendido.
      - Morreram quando eu era muito pequeno. - Fez uma pausa. - No mesmo dia que o meu av.
      Langdon sentia o corao batendo descompassadamente no peito.
      - Em um acidente de trnsito?
      O jovem recuou, com uma expresso de espanto nos olhos verde-azeitona.
      - Sim, um acidente de trnsito. Toda a minha famlia morreu nesse dia. Perdi o meu av, os meus pais e... - Hesitou, olhando para o cho.
      - E a sua irm - disse Langdon.
      A casa de pedra rstica era exatamente como Sophie a recordava. A noite caa, e a casa irradiava uma aura quente e acolhedora. Cheirava a po quente e uma luz dourada brilhava nas janelas. Quando se aproximou, ouviu, vindo l de dentro, o som de soluos abafados.
      Atravs da porta de rede, viu uma mulher de idade no corredor. Estava de costas para ela, mas Sophie percebeu que chorava. Tinha longos e luxuriantes cabelos prateados que conjuraram um inesperado fiapo de memria. Atrada como que por um im, Sophie subiu os degraus do alpendre. A mulher segurava a fotografia emoldurada de um homem cujo rosto tocava com as pontas dos dedos, em um gesto de desolada adorao.
      Era um rosto que Sophie conhecia bem.
      Grand-pre.
      A mulher acabava claramente de ouvir a trgica notcia da sua morte na noite anterior. Uma tbua rangeu sob os ps de Sophie e a mulher voltou-se lentamente, e os seus olhos encontraram os de Sophie. Sophie queria correr, mas ficou ali parada, hipnotizada. O olhar ardente da mulher no vacilou um instante enquanto ela pousava a fotografia e se aproximava da porta. Ficaram as duas olhando uma para a outra atravs da fina rede pelo que pareceu uma eternidade. Ento, como o lento inchar de uma onda a formar-se, o rosto da mulher mais velha passou da incerteza... para a incredulidade... a esperana... e, finalmente, para uma arrebatadora alegria.
      Empurrando a porta, saiu para o alpendre, estendendo as mos suaves, emoldurando com elas o rosto atordoado de Sophie.
      - Oh, minha filha... vejam quem !
      Apesar de no reconhec-la, Sophie sabia quem era aquela mulher. Tentou falar, mas descobriu que no era sequer capaz de respirar.
      - Sophie - soluou a mulher, beijando-a na testa.
      As palavras de Sophie foram um murmrio estrangulado.
      - Mas... o gran-pre disse que tinha...
      - Eu sei. - A mulher pousou as mos ternas nos ombros de Sophie e olhou para ela com olhos que eram familiares. - Eu e o seu av fomos obrigados a dizer tantas coisas. Fizemos o que julgamos ser certo. Lamento tanto. Foi para garantir a sua segurana, princesa.
      Sophie ouviu a ltima palavra e pensou imediatamente no av, que lhe chamara de princesa durante tantos anos. O som da voz dele parecia ecoar agora nas velhas pedras de Rosslyn, pousando na terra e reverberando nos desconhecidos vazios l embaixo.
      A mulher lanou os braos ao pescoo de Sophie, com as lgrimas caindo-lhe pelo rosto cada vez mais depressa.
      - O seu av queria tanto contar-lhe tudo. Mas as coisas no estavam fceis entre vocs dois. Ele tentou tanto. H tanta coisa que tem de ser explicada. Tanta. - Voltou a beijar Sophie na testa e murmurou-lhe ao ouvido. - Acabaram-se os segredos, princesa.
       hora de saber a verdade a respeito da nossa famlia.
      Sophie e a av estavam sentadas nos degraus do alpendre, enlaadas um choroso abrao, quando o jovem cicerone atravessou correndo o relvado, os olhos brilhantes de esperana e incredulidade.
      - Sophie?
      Sophie assentiu atravs das lgrimas, pondo-se de p. No conhecia o rosto do jovem, mas, quando se abraaram, sentiu a fora do sangue que lhe corria nas veias... o sangue que, sabia agora, ambos partilhavam.
      Quando Langdon atravessou o relvado para se juntar a eles, Sophie no conseguia imaginar como fora possvel que apenas um dia antes se sentisse to sozinha no mundo. E agora, sem saber como, naquela terra estrangeira, na companhia de trs pessoas que mal conhecia, sentiu que tinha finalmente chegado em casa.
      
      
      
      CAPTULO CENTO E CINCO
      
      
      A noite descera sobre Rosslyn.
      Robert Langdon estava sozinho no alpendre da casa de pedra rstica, saboreando os sons de alegria e reunio que lhe chegavam atravs da porta de rede. A caneca de forte caf brasileiro que tinha na mo concedera-lhe uma atordoada trgua na luta contra a exausto que sentia crescer, uma trgua que ele sabia fugaz. A fadiga que lhe vergava o corpo ia at o mago.
      - Veio aqui para fora sem dizer nada - disse uma voz atrs dele.
      Voltou-se. A av de Sophie estava  porta, com os cabelos prateados brilhando  luz da Lua. Chamava-se Marie Chauvel, ou pelo menos assim tinha se chamado durante os ltimos vinte e oito anos.
      Langdon esboou um sorriso cansado.
      - Achei melhor dar  sua famlia algum tempo para estarem juntos. - Via, atravs da janela, Sophie sentada conversando com o irmo.
      Marie aproximou-se e foi encostar-se ao varandim, junto dele.
      - Senhor Langdon, quando soube do assassnio do Jacques, fiquei aterrorizada pela segurana da Sophie. V-la de p  minha porta esta noite foi o maior alvio que senti em toda a vida. Nunca poderei agradecer-lhe o suficiente.
      Langdon no fazia idia de como responder. Apesar de ter se oferecido para dar a Sophie e  av tempo para falarem em particular, Marie pedira-lhe que ficasse e ouvisse. 
      - O meu marido confiava obviamente em voc, senhor Langdon, por isso eu tambm confio.
      Langdon ficara, pois, de p ao lado de Sophie, ouvindo, em um espanto mudo, Marie contar a histria dos falecidos pais da jovem.
      Incrivelmente, pertenciam ambos a famlias merovngias - descendentes diretos de Maria Madalena e de Jesus Cristo. Os pais e antepassados de Sophie tinham, por precauo, alterado os seus sobrenomes de Plantard e Saint-Clair. Os filhos representavam a linhagem real sobrevivente mais direta, e por isso eram ciosamente guardados pelo Priorado. Quando os pais de Sophie tinham morrido em um acidente cujas causas nunca fora possvel esclarecer plenamente, o Priorado temera que a identidade da linhagem real tivesse sido descoberta.
      - Eu e o seu av - explicara Marie, com uma voz estrangulada pela dor  tivemos de tomar uma grave deciso no instante em que recebemos o telefonema. O carro dos seus pais tinha sido encontrado no rio. - Limpara as lgrimas que lhe assomavam aos olhos. - Todos ns... incluindo vocs dois, os netos... ramos supostos estar viajando juntos naquele carro, naquela noite. Felizmente, mudamos de planos  ltima hora, e os seus pais foram sozinhos. Quando soubemos do acidente, eu e o seu av no tnhamos como saber o que verdadeiramente acontecera... ou se fora realmente um acidente. - Marie olhara para Sophie. - Sabamos que tnhamos de proteger os nossos netos, e fizemos o que julgamos melhor. O seu av comunicou  Polcia que eu e o seu irmo tambm amos no carro... Os nossos corpos teriam sido levados pela corrente. Ento, eu e o seu irmo desaparecemos. O seu av, sendo um homem conhecido, no podia se dar a esse luxo. Fazia todo o sentido que voc, sendo a mais velha, ficasses em Paris e fosse criada pelo seu av, perto do centro e proteo do Priorado. - A voz dela transformara-se num murmrio. - Separar a famlia foi a coisa mais difcil que alguma vez tivemos de fazer. Eu e o seu av vamo-nos muito de longe em longe, e sempre em condies de grande segredo... sob a proteo do Priorado. H certas cerimnias a que a irmandade se manteve sempre fiel.
      Langdon sentira que a histria ia bem mais fundo, mas sentira tambm que no devia ouvi-la. Por isso sara para o alpendre. Ali, olhando para as torres da capela, no conseguia evitar a frustrao do mistrio no resolvido, como um vazio a ro-lo por dentro. Estar o Graal realmente aqui, em Rosslyn? E se est, onde esto a lmina e o clice de que Saunire falava no seu poema?
      - D-me isso - pediu Marie, apontando para a mo dele.
      - Oh, obrigado. - Langdon estendeu-lhe a caneca de caf vazia.
      Ela olhou-o nos olhos.
      - Estou me referindo  sua outra mo, senhor Langdon.
      Langdon olhou para baixo e percebeu que estava segurando o papiro de Jacques Saunire. Voltara a tir-lo do criptex, na esperana de ver qualquer coisa que lhe tivesse escapado antes.
      - Com certeza. Desculpe.
      Marie parecia divertida quando pegou o papiro.
      - Sei de um homem em um banco de Paris que est provavelmente ansioso por ver esta caixa de volta. Andr Vernet era um bom amigo do Jacques, e Jacques confiava plenamente nele. Andr faria o que fosse preciso para honrar o pedido do meu marido de guardar esta caixa.
      Incluindo dar-me um tiro, pensou Langdon, decidindo no referir que provavelmente partira o nariz do pobre homem. Ao pensar em Paris, lembrou-se dos trs senescais que tinham sido assassinados na noite anterior.
      - E o Priorado? Que acontece agora?
      - As rodas j esto em movimento, senhor Langdon. A irmandade sobrevive h sculos, vai sobreviver a isto. H sempre algum  espera para subir e reconstruir.
      Durante toda a noite, Langdon suspeitara de que a av de Sophie estava estreitamente ligada s atividades do Priorado. Afinal, a irmandade sempre tivera membros do sexo feminino. Quatro Gro-Mestres tinham sido mulheres. Os senescais eram tradicionalmente homens - os guardies -, mas as mulheres tinham um estatuto mais respeitado no seio do Priorado e podiam ascender ao posto mais elevado a partir de praticamente qualquer escalo.
      Pensou em Leigh Teabing e na abadia de Westminster. Era como se tivesse acontecido em outra vida.
      - A Igreja estava pressionando seu marido para no divulgar os documentos Sangreal no Fim dos Dias?
      - Cus, no! O Fim dos Dias  uma lenda criada por mentes paranicas. No h na doutrina do Priorado nada que aponte uma data em que o Graal deva ser revelado. Na realidade, o Priorado sempre manteve que o Graal nunca deveria ser revelado. 
      - Nunca? - Langdon estava espantado.
      - So o mistrio e o maravilhoso que servem as nossas almas, no o Graal em si.
      A beleza do Graal reside na sua natureza etrea. - Marie Chauvel ergueu os olhos para Rosslyn. - Para alguns, o Graal  uma taa que lhes proporcionar a vida eterna. Para outros,  a procura de documentos perdidos e de Histria secreta. Para a maioria, suspeito, o Santo Graal  apenas uma idia grandiosa... um tesouro glorioso e inatingvel que de algum modo, mesmo no nosso catico mundo, nos inspira.
      - Mas se os documentos Sangreal permanecerem escondidos, a histria de Maria Madalena se perder para sempre - argumentou Langdon.
      - Acha que sim? Olhe  sua volta. A histria dela  contada na arte, na msica, em livros. Cada vez mais. O pndulo oscila. Comeamos a sentir os perigos da nossa histria... e dos caminhos destruidores que escolhemos. Comeamos a sentir a necessidade de restaurar o sagrado feminino. - Fez uma pausa. - Disse que est escrevendo um livro a respeito dos smbolos do sagrado feminino, no foi?
      -  verdade.
      Marie sorriu.
      - Acabe-o, senhor Langdon. Cante a cano dela. O mundo precisa de trovadores modernos.
      Langdon ficou calado, sentindo o peso da mensagem dela. Atravs dos espaos abertos, uma nova Lua erguia-se acima das rvores. Voltando os olhos para Rosslyn, Langdon sentiu um desejo infantil de conhecer-lhe os segredos. No pergunte, disse a si mesmo. No  o momento adequado. Olhou para o papiro nas mos de Marie, e depois de novo para Rosslyn.
      - Faa a pergunta, senhor Langdon - disse Marie, parecendo divertida. - Ganhou esse direito.
      Langdon sentiu-se corar.
      - Quer saber se o Graal est aqui, em Rosslyn.
      - Pode me dizer?
      Ela suspirou, com fingida exasperao.
      - Porque ser que os homens simplesmente no conseguem deixar o Graal em paz? - Riu, obviamente divertida. - Porque  que acha que est l?
      Langdon apontou para o papiro.
      - Os versos do seu marido falam especificamente de Rosslyn, s que tambm referem uma lmina e um clice que guardariam o Graal. No vi na capela qualquer smbolo da lmina e do clice.
      - A lmina e o clice? - perguntou Marie. - Como so eles, exatamente.
      Langdon sentiu que ela estava brincando com ele, mas resolveu fazer-lhe o jogo, descrevendo rapidamente os smbolos. Uma expresso de vaga reminiscncia perpassou pelo rosto de Marie.
      - Ah, sim, claro. A lmina representa tudo o que  masculino. Julgo que se desenha assim, no ? - Usando o indicador, traou um desenho na palma da mo.
      - Sim - disse Langdon. Marie tinha desenhado a forma fechada, menos comum, da lmina, mas ele j tinha visto o smbolo representado de ambas as maneiras.
      - E o inverso - continuou ela, voltando a desenhar na palma -  o clice, que representa o feminino.
      - Correto.
      - E diz que, com todas as centenas de smbolos que temos aqui em Rosslyn Chapel, estas duas formas no aparecem em parte nenhuma?
      - Eu no as vi.
      - E se eu as mostrar, vai dormir um pouco?
      Antes que ele pudesse responder, Marie Chauvel tinha descido do alpendre e dirigia-se  capela. Langdon correu atrs dela. Ao entrar no velho edifcio, Marie acendeu as luzes e apontou para o centro do cho do santurio.
      - Ali os tem, senhor Langdon. A lmina e o clice. Langdon olhou para o cho de pedra. Estava vazio.
      - No h ali nada...
      Marie suspirou e comeou a percorrer o famoso trilho marcado no cho da capela, o mesmo que Langdon vira os visitantes percorrerem poucas horas antes. Enquanto os olhos se ajustavam  dimenso do gigantesco smbolo, continuava a sentir-se perdido.
      - Mas isso  a Estrela de Da...
      Calou-se no meio da palavra, emudecido pelo espanto quando compreendeu.
      A lmina e o clice.
      Fundidos em um.
      A estrela de David... a unio perfeita entre macho e fmea... o Selo de Salomo... que assinalava o Santo dos Santos, que se acreditava ser a morada das divindades masculina e feminina: Yahtweh e Sekinah.
      Langdon precisou de um minuto para recuperar a fala.
      - Os versos apontam para Rosslyn. Completamente. Perfeitamente.
      Marie sorriu.
      - Aparentemente.
      As implicaes daquela palavra gelaram-no.
      - O Santo Graal no est na cripta abaixo de ns?
      Ela riu.
      - S em esprito. Uma das obrigaes mais antigas do Priorado era, um dia, devolver o Graal  terra de onde veio, para que pudesse repousar para toda a eternidade.
      Durante sculos, foi arrastado de um lado para o outro, por questes de segurana. Muito pouco dignificante. A misso que Jacques se imps, ao ser nomeado Gro-Mestre, foi restaurar-lhe a honra devolvendo-o a Frana e construindo-lhe um lugar de repouso condigno.
      - E conseguiu-o?
      O rosto dela ficou srio.
      - Senhor Langdon, em considerao pelo que fez por mim esta noite, e na minha qualidade de conservadora de Rosslyn Chapei, posso afirmar-lhe com toda certeza que o Santo Graal j no est aqui.
      Langdon optou por insistir.
      - Mas a Chave de Abbada  suposta apontar o lugar onde o Graal se encontra agora. Porque  que aponta para Rosslyn?
      - Talvez tenha interpretado mal os sinais. Lembre-se, o Graal pode ser enganador.
      Tal como o meu falecido marido.
      - No vejo como poderia ser muito mais claro - protestou ele. - Por baixo de ns est a cripta marcada pela lmina e pelo clice, sob um cu de estrelas, rodeada pela arte dos Mestres Maons. Tudo fala de Rosslyn.
      - Muito bem, deixe-me ver esses misteriosos versos. - Marie desenrolou o papiro e leu o poema em voz alta, num tom deliberado:
      O Santo Graal sob a antiga Roslin espera.
      Com a lmina e o clice a montar guarda severa.
      Pela amorosa arte dos mestres adornado.
      Repousa enfim sob o cu estrelado.
      Quando acabou, ficou calada por vrios segundos, at que um sorriso de compreenso lhe perpassou pelos lbios.
      - Ah, Jacques.
      Langdon espiava-lhe os menores movimentos, em expectativa.
      - Compreende isto?
      - Como testemunhou no cho da capela, senhor Langdon, h muitas maneiras de ver as coisas simples.
      Langdon esforou-se por compreender. Tudo o que se relacionava com Jacques Saunire parecia ter duplos-sentidos, mas, por mais que fizesse, no conseguia ir mais longe.
      Marie bocejou, parecendo cansada.
      - Senhor Langdon, vou fazer-lhe uma confisso. Oficialmente, nunca conheci a atual localizao do Graal. Mas, claro, estava casada com um homem de enorme influncia... e a minha intuio feminina  forte. - Langdon ia falar, mas ela continuou -: Lamento que, depois de tanto trabalho, parta de Rosslyn sem uma nica verdadeira resposta. E no entanto, alguma coisa me diz que acabar por encontrar o que procura. Um dia compreender. - Sorriu. - E quando isso acontecer, espero que saiba guardar um segredo.
      Houve o som de algum chegando  porta.
      - Desapareceram os dois - disse Sophie, entrando.
      - J ia sair - respondeu a av, dirigindo-se  porta. - Boa noite, princesa. - Beijou-a na testa. - No faa o senhor Langdon ficar de p at muito tarde.
      Langdon e Sophie ficaram vendo-a se afastar em direo  casa de pedra rstica.
      Quando Sophie se voltou para ele, tinha os olhos cheios de uma profunda emoo.
      - No foi exatamente o final que eu esperava.
      Somos dois, pensou Langdon. Percebeu que ela estava aturdida. As notcias que recebera naquela noite tinham alterado toda a sua vida.
      - Sente-se bem? Aconteceu muita coisa.
      Sophie esboou um sorriso tranquilo.
      - Tenho uma famlia.  por a que vou comear. Quem somos e de onde viemos vai demorar algum tempo.
      Langdon permaneceu silencioso.
      - Depois desta noite, vai ficar conosco? - perguntou Sophie. - Ao menos alguns dias?
      Langdon suspirou. Era o que mais desejava.
      - Vai precisar de algum tempo a ss com a sua famlia, Sophie. Regresso a Paris de manh.
      Sophie fez um ar desapontado, mas pareceu reconhecer que era a atitude correta a tomar. Nenhum dos dois falou durante muito tempo. Finalmente, Sophie estendeu a mo e, pegando na dele, levou-o para fora da capela. Caminharam at uma pequena elevao no topo da colina. Dali, os campos escoceses espraiavam-se diante deles, banhados em um luar plido coado pelas nuvens que passavam. Ficaram calados, de mos dadas, ambos combatendo a exausto que os ia vencendo.
      As estrelas comeavam a aparecer, mas, a oeste, um ponto isolado de luz brilhava mais intensamente do que qualquer outro. Langdon sorriu ao v-lo. Era Vnus. A antiga Deusa derramando sobre a terra a sua luz constante e paciente.
      A noite estava esfriando, uma brisa agreste subia das terras baixas. Passado algum tempo, Langdon olhou para Sophie. Tinha os olhos fechados, os lbios entreabertos, um sorriso satisfeito. Langdon sentiu os seus prprios olhos tornarem-se pesados. Relutantemente, apertou a mo dela.
      - Sophie.
      Lentamente, Sophie abriu os olhos e voltou-se para ele. O rosto dela era belo ao luar. Sorriu-lhe sonolentamente.
      - Ol.
      Langdon sentiu uma inesperada tristeza ao compreender que ia regressar a Paris sem ela.
      -  possvel que quando acordar eu j tenha partido. - Fez uma pausa, com um n crescendo-lhe na garganta. - Desculpe, no sou muito bom em...
      Sophie levantou o brao e pousou uma mo macia no lado do rosto dele. Ento, inclinando-se para a frente, beijou-o ternamente na outra face.
      - Quando  que volto a v-lo?
      Langdon cambaleou por um instante, perdido nos olhos dela.
      - Quando? - Fez uma pausa, curioso por saber se ela faria idia de como estivera perguntando-se a mesma coisa. - Bem, para o ms que vem participo de uma conferncia, em Florena. Vou estar l uma semana sem grande coisa que fazer.
      - Isso  um convite?
      - Viveramos no luxo. Vo me dar um quarto no Brunelleschi.
      Sophie sorriu, maliciosa.
      - Acredito muito, senhor Langdon.
      Ele encolheu-se ao perceber como as suas palavras podiam ser interpretadas.
      - O que eu queria dizer...
      - Nada me daria mais prazer do que me encontrar com voc em Florena, Robert. Mas com uma condio. - O tom dela tornou-se srio. - Nada de museus, nem de igrejas, nem de tmulos, nem de arte, nem de relquias.
      - Em Florena? Durante uma semana? No h mais nada que fazer!
      Sophie inclinou-se para a frente e voltou a beij-lo, desta vez nos lbios. Os corpos de ambos juntaram-se, primeiro de leve, depois completamente. Quando ela se afastou, os seus olhos estavam cheios de promessas.
      - Certo - conseguiu Langdon dizer. - Est combinado.
      
      
      
      EPLOGO
      
      
      Robert Langdon acordou sobressaltado. Tinha estado sonhando. O roupo pendurado aos ps da cama ostentava o monograma HOTEL RITZ PARIS. Viu uma dbil claridade insinuar-se atravs dos cortinados. Ser o crepsculo ou a aurora?, perguntou a si mesmo.
      Sentia-se quente e profundamente contente. Dormira quase dois dias seguidos.
      Sentando-se lentamente na cama, lembrou-se do que o tinha acordado... o mais estranho dos pensamentos. Durante dias, tentara orientar-se no meio de uma autntica barragem de informao, mas, agora, dava por si concentrado em algo que nunca antes considerara.
      Ser possvel?
      Ficou imvel por um longo momento.
      Saltou da cama e foi meter-se debaixo do chuveiro, deixando que os potentes jatos de gua lhe massageassem os ombros. O pensamento continuava a fascin-lo.
      No pode ser.
      Vinte minutos mais tarde, saa do Hotel Ritz para a Place Vendme. Anoitecia. Os dias de sono tinham-no deixado desorientado... e no entanto sentia-se estranhamente lcido. Prometera a si mesmo fazer uma paragem no vestbulo do hotel para tomar um caf au lait que lhe aclarasse os pensamentos, mas, em vez disso, as pernas tinham-no levado diretamente para a sada e para a noite que descia sobre Paris.
      Enquanto percorria no sentido leste a Rue ds Petits Champs, sentia-se invadir por uma crescente excitao. Virou para sul na Rue Richelieu, onde o ar se tornou adocicado com o cheiro dos jasmins em flor vindo dos majestosos jardins do Palais Royal.
      Continuou para sul at ver aquilo que procurava - a famosa arcada real  uma refulgente extenso de mrmore negro polido. Caminhou nessa direo, examinando o cho que pisava. Segundos depois, encontrou o que sabia estar l - vrios medalhes de bronze embebidos no solo, em uma linha perfeitamente reta. Os discos tinham doze centmetros e meio de dimetro e continham, gravadas, as letras N e S.
      Nord. Sud.
      Voltou-se para sul, traando com os olhos a extensa linha formada pelos medalhes. Recomeou a caminhar, seguindo o trilho, olhando para o cho. Quando atravessou a esquina da Comdie Franaise, um outro medalho de bronze passou-lhe por baixo dos ps.
      Sim!
      Havia em Paris, ficara Langdon sabendo anos antes, cento e trinta e cinco daqueles medalhes de bronze, embebidos em passeios, ptios e ruas, segundo um eixo norte-sul que atravessava a cidade. Certa vez seguira a linha desde o Sacr-Coeur, na margem norte do Sena, at ao antigo Observatrio de Paris. A, descobrira o significado do caminho sagrado que ela traava.
      O primeiro meridiano original da Terra.
      A primeira longitude zero do mundo.
      A antiga Linha da Rosa de Paris.
      Naquele momento, enquanto descia apressado a Rue Rivoli, sentia o seu destino ao alcance da mo. A menos de um quarteiro de distncia.
      O Santo Graal sob a antiga Roslin espera.
      As revelaes vinham agora em catadupas. A grafia antiga de Roslin que Saunire usara... a lmina e o clice... o tmulo adornado pela arte dos mestres.
      Era por isso que o Saunire queria falar comigo? Terei eu, sem saber, adivinhado a verdade?
      Comeou a correr, sentindo a Linha da Rosa debaixo dos ps, guiando-o, puxando-o para seu destino. Quando entrou no comprido tnel da Passage Richelieu, os cabelos da nuca eriaram-se de antecipao. Sabia que no fim daquele tnel se erguia o mais misterioso dos monumentos parisienses - concebido e encomendado, nos anos 80, pela Esfinge em pessoa, Franois Mitterrand, um homem que alegadamente se movia em crculos secretos, um homem cujo legado final a Paris fora um lugar que Langdon visitara poucos dias antes.
      Em uma outra vida.
      Com um ltimo arranque de energia, emergiu da passagem no familiar ptio e deteve-se. Ofegante, ergueu os olhos, lentamente, incrdulo, at ao topo da estrutura que tinha  sua frente.
      A Pirmide do Louvre. Brilhando na escurido.
      Admirou-a por um instante apenas. Estava mais interessado no que lhe ficava  direita. Voltando-se, sentiu os ps continuarem a seguir o traado invisvel da antiga Linha da Rosa, levando-o, atravs do ptio, at ao Carrousel du Louvre - o enorme crculo de relva orlado por uma impecavelmente aparada sebe de buxo - outrora palco dos primeiros festivais parisienses do culto da natureza... alegres ritos que celebravam a fertilidade e a Deusa.
      Ao passar por cima da orla de arbustos para a relvada rea interior, sentiu-se como se estivesse entrando em um outro mundo. Aquele solo sagrado era agora marcado por um dos mais invulgares monumentos da cidade. Ali, bem no centro, mergulhando na terra como um desfiladeiro de cristal, rasgava-se a grande pirmide invertida de vidro que vira trs noites antes ao entrar no subsolo do Louvre.
      La Pyramide Inverse.
      Trmulo, chegou  beirada e olhou para baixo, para o vasto complexo subterrneo do museu, iluminado por luzes ambar. Tinha os olhos postos no s na macia pirmide invertida, mas tambm no que ficava diretamente abaixo dela. Ali, no cho da cmara subterrnea, havia uma pequena estrutura... uma estrutura que ele referira no seu manuscrito.
      Sentiu-se ento plenamente desperto para a emoo de possibilidades impensadas. Erguendo de novo os olhos para o Louvre, sentiu as imensas alas do museu como que a envolv-lo... corredores abarrotados das mais extraordinrias obras de arte jamais criadas.
      Da Vinci... Botticelli...
      Pela amorosa arte dos mestres adornado.
      Empolgado de maravilha, olhou uma vez mais para baixo, atravs do vidro, para a pequena estrutura.
      Tenho de ir l embaixo!
      Saiu do crculo de relva e atravessou, apressado, o ptio em direo  grande pirmide da entrada. Os ltimos visitantes do dia abandonavam o museu. Passando pela porta giratria, desceu a escadaria encurvada. Sentiu o ar tornar-se mais fresco. Quando chegou ao fundo, entrou no longo tnel que corria por baixo do ptio do Louvre at  Pyramide Inverse.
      No final do tnel, emergiu em uma vasta cmara. Diretamente em frente dele, descendo do teto, refulgia a pirmide invertida um deslumbrante perfil de vidro em forma de V.
      O clice.
      Seguiu com os olhos a forma que estreitava at ao vrtice, suspenso menos de dois metros acima do solo. Exatamente por baixo, erguia-se a pequena estrutura.
      Uma pirmide miniatura. com apenas noventa centmetros de altura. A nica coisa naquele colossal complexo que fora construda em escala reduzida.
      O manuscrito de Langdon, ao discutir a elaborada coleo de arte dedicada  deusa no Louvre, referia de passagem aquela modesta pirmide. A pequena estrutura sobressai do solo como se fosse a ponta de um icebergue - o pice de uma enorme cripta piramidal, soterrada como uma cmara escondida.
      Iluminadas pelas luzes suaves da caverna deserta, as duas pirmides apontavam uma para a outra, perfeitamente alinhadas, os vrtices quase tocando-se.
      O Clice em cima. A Lmina em baixo. 
      Com a lmina e o clice a montar guarda severa.
      Langdon ouviu as palavras de Marie Chauvel. Um dia compreender.
      Estava debaixo da antiga Linha da Rosa, rodeado pelas obras de mestres. Que outro lugar poderia Jacques Saunire mais facilmente vigiar? Agora, por fim, compreendia o verdadeiro significado dos versos do Gro-Mestre. Erguendo os olhos, viu, atravs do vidro, um glorioso cu noturno salpicado de estrelas.
      Repousa enfim sob o cu estrelado.
      Como murmrios de espritos na escurido, vozes esquecidas ecoaram. A demanda do Santo Graal  literalmente uma demanda para ajoelhar diante dos ossos de Maria Madalena. Uma jornada para rezar aos ps da ostracizada.
      Avassalado por uma sbita reverncia, Langdon caiu de joelhos.
      Pareceu-lhe, por um instante, ouvir uma voz de mulher... a sabedoria das idades... murmurar-lhe das profundezas da terra.


- FIM -


